ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta"

Um Garoto Gente Humilde inicia pela irreverência e termina pelo olhar

“Era um garoto, que como eu, amava Beatles e Rolling Stones”. Sem rodeios e indo direto ao ponto, se houve alguém que amava alguém, devia ser o pessoal dos Beatles, dos Stones e dos Engenheiros do Hawaii que amavam o mestre Aníbal; pois quando essa turma conheceu a luz do dia, Garoto já havia feito escola e operando como jurado em outras dimensões, esfuziante por admoestar primando pela seleção dos melhores, repreendia os falsos aprendizes.


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Contextualização: Quem imagina que Toquinho, Vinícius de Moraes, Paulinho da Viola, Guinga, João Gilberto, Chico Buarque e muitas outras lendas vivas da M.P.B e Bossa Nova pediram a benção para Aníbal Augusto Sardinha! Baden Powell, por exemplo, não só pediu a benção, como emprestou de “Garoto”, nome artístico do irreconhecido moço prodígio da música brasileira, a magnífica letra da canção: “Gente Humilde”.

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No ano de 1915 nascia em São Paulo o superdotado Aníbal Augusto Sardinha, que ao invés de receber um bem dado tapa na bunda, como todo recém-nascido pede e necessita para chorar o prazer de respirar, foi agraciado com um banjo. Se todos se assustaram com o inusitado presente, aquele instrumento era o que ele precisava para demarcar o seu futuro; e aos sete anos, em tenra idade, com suas mãos pequenas, já brincava de ser o gênio das cordas.

A meteórica trajetória do músico neste espaço terreno é marcada pelas situações inusitadas; logo, ouvir dele coisas indesejadas era fato comum. Incansável pesquisador de música, na aula de religião foi interpelado pelo professor que queria saber quem foi o Homem mais notável que habitara a Terra, enviado pelo seu Pai. Sem negar suas raízes, pesquisa e conhecimento, respondeu na lata que só podia ser Ernesto Nazareth. O professor ficou estarrecido com a resposta, a ponto de pedir ao Criador que perdoasse o menino pela resposta infame e desajustada. No entanto, quis saber quem era esse tal homem que levava o sobrenome de Nazareth. Ao que Garoto respondeu dizendo que se tratava do melhor compositor de choros que existia no país. O mestre religioso endoidou com o debate, o qual perguntava uma coisa e obtinha como resposta, outra. “Criatura de Deus, por acaso estamos tratando do conhecimento de compositores de choros? Você deveria ter respondido Jesus de Nazaré, e pronto!”

- Mas o Sr. não falou num homem extraordinariamente dotado? – mais tarde, o lente religioso foi saber que estava debatendo com o espigão musical que revolucionaria a música brasileira.

Usando o nome próprio, o mocinho Aníbal se aventurava a cantar e tocar nos programas de calouros; e com doze anos incompletos, numa das apresentações, o locutor de rádio errou seu nome e após gaguejar várias vezes, acabou apresentando-o aos ouvintes pelo nome de “Garoto”. Às vezes o erro é a via mais rápida para determinar o certo e daquele dia em diante, o menino Aníbal preferiu ser chamado de Garoto.

Já adolescente, enquanto ganhava, merecidamente, mais e mais espaço nas rádios e público, aprimorava os seus conhecimentos na música, e uma vez que sua intimidade com o banjo já era fato consumado, arriscou tocar outros instrumentos. Surpresa ou não, sua habilidade e fino trato no dedilhar, levou-o a ser um exímio também no bandolim, violão, cavaquinho e violão tenor. Novamente o inusitado esteve à frente de sua carreira e foi ele um dos únicos músicos no Brasil a investir na guitarra havaiana, instrumento oriundo do Havai. Ao todo, Garoto desfilava em seu repertório musical mais ou menos nove instrumentos de corda. Se até então a música brasileira não possuía uma linha definida de estilo, Garoto começava a impor seu estilo próprio.

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Mais uma bela presepada de Garoto ocorreu quando ele foi convidado a tocar em São Paulo. A nobreza da música estava reunida, citando alguns: Sílvio Caldas, Luís Barbosa, Aracy de Almeida. O ensaio corria desembolado, quando Sílvio Caldas, coordenador do projeto, arregalou os olhos e viu Garoto rodeado por uma parafernália de instrumentos. Estranhando o visto, cochichou com o amigo ao lado: “Será que ele toca tudo isso mesmo?”

Variando os instrumentos, pelos seus dedos já haviam passado as cordas do cavaquinho, bandolim e guitarra havaiana; todos impecavelmente tocados. Sem um sequer cisco de desafino. Não contente com a variação instrumental, Sílvio foi direto ao assunto: “Está bom, não toque com esse, (falava do instrumento que estivesse na mão de Garoto) pode ficar mal para você”. Sem dizer amém, porém bicudo com o menosprezo, o Garoto do Banjo como ficara conhecido inicialmente, passou a mão no violão tenor e debulhou suas cordas. Estupefatos, fizeram uma roda e aplaudiram de pé o músico. Sua carreira, a princípio gerou certa resistência, certo desconforto nos acomodados, porém o talento e a musicalidade falaram mais alto e pouco a pouco, os paradigmas foram sendo quebrados, com Garoto chegando ao ápice da carreira. Mas como se deu tal ocorrência?

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Carmem Miranda era portuguesa de nacionalidade, carioca por imposição, baiana por alegoria, brasileira de coração e cosmopolita por opção. Dada à quebra de rótulos e acostumada a ouvir os assobios e aplausos da plateia, apresentava as cores do Brasil lá fora. Viajava o mundo e morando nos EUA, escreveu uma carta-convite para Garoto, sob a qual declarava: “Queridíssimo Garoto, espero que você tenha gostado da ideia de vir para cá e aceite-a, pois esta terra é a melhor do mundo, só estando aqui é que acreditará. Estamos ansiosos que você venha”; o que foi prontamente aceito pelo músico.

Perda de tempo é dizer que nos EUA, Garoto gravou com Carmen Miranda e o Bando da Lua três discos pelo selo Decca. Os quais destacam-se os arranjos para as músicas “South American Way e Touradas em Madri; a segunda, letra composta por João de Barros e Alberto Ribeiro. Porém, o melhor estava por vir e ocorreu no segundo disco, com a música “O que é que a baiana tem”? Letra composta pelo baiano Dorival Caymmi. Não haviam mais dúvidas que Garoto era um fenômeno e gênio das cordas!

Ainda em terras do Tio Sam, os brasileiros foram recebidos pelo presidente Franklin D. Roosevelt. E após feitas as prévias, Carmen Miranda acompanhada do Bando da Lua e Garoto, tocaram o que o Brasil tinha de melhor naquele momento para mostrar, que era a pura música brasileira, para o estadista. O presidente ficou embasbacado com a sonoridade e profissionalismo dos brasileiros; revelado assim por Garoto: “O presidente, muito camarada, veio nos abraçar, trocando impressões sobre coisas brasileiras”.

Todavia, nos EUA, Garoto e cia não foi ouvido somente pelo presidente. Ilustres músicos americanos, tal qual Duke Ellington e Art Tatum, também se renderam aos brasileiros. Garoto, por sinal, com toda sua expressividade musical, se tornou febre no meio deles. Ao ouvi-lo, embriagado pelo êxtase, o organista Jesse Crawford o chamou de “O Homem dos Dedos de Ouro”. Não se contendo, resumiu: “Aquele rapaz de 25 anos assombrou as plateias norte-americanas por sua maneira tão peculiar de tocar aquela batelada de instrumentos.” E não era para menos, o arranjador e multi-instrumentista Garoto, fora as suas, executava qualquer obra, tanto de músicos populares, quanto de autores clássicos e eruditos.

O músico retribuía o carinho. Por sua vez, mostrava-se apaixonado pela voz e musicalidade Ella Fitzgerald, Bing Crosby e de sonoras orquestras estadunidenses. Através deste intercambio musical, os sucessores de Garoto tiveram a oportunidade de conhecer e desenvolver os ritmos do jazz, da bossa e expandir o choro no Brasil.

Em 1955, aos 39 anos, Garoto se foi. Aliás, como muitos, era mais um que ia prematuramente. Entretanto, sua voz, acordes e arranjos ficariam eternizados, espiritualizados na letra e canção “Gente Humilde”. Segundo os pesquisadores de sua obra, a inspiração para escrever os arranjos, ocorrera durante uma ida de Garoto aos morros carioca. E ao se deparar com aquele povo sofrido, resignado à pobreza, morando em casas simples e modestas, o músico debruçou sobre a mesa para compor a melodia.

Depois de muitos anos, revirando os papéis carcomidos pelas traças do esquecimento, Baden Powell encontrou-a e apressou-se em apresentar a Vinícius de Moraes que, delirando pela refinada arte que estava em suas mãos, juntamente com Chico Buarque, trataram de apura-la poeticamente.

“São casas simples, com cadeiras na calçada / e na fachada escrito em cima que é um lar / pela varanda, flores tristes e baldias / como a alegria que não tem onde encostar...”

Um Garoto Gente Humilde inicia pela irreverência e termina pelo olhar! Afinal de conta, porque dizer amém para tudo?

P.S.: o Brasil é o país dos exageros. Do tudo, ou do nada. Sobretudo porque, o bom e o ruim, o qualificado e desqualificado, os atirados e os anônimos vieram refugiar neste país, culturalmente, gigante. Porém sempre há um que esforçando-se para superar as suas próprias deficiências e limitações, pulam os obstáculos e ainda que queira manter-se escondido atrás do muro, acaba sendo descoberto pela cultura alternativa; caso de “Garoto”, o gênio das cordas. Culturalmente, o país é celeiro de artistas e merece, acima de respeito, ser conhecido pelo povo brasileiro. Este era o principal olhar de Garoto em relação a arte; porque em relação às raízes, a letra da música Gente Humilde traduz a fala de suas vistas.

Em setembro, o SeSC (Serviço Social do Comércio) Pinheiros, São Paulo homenageou os 100 anos de Garoto. Como convidados, participaram do evento nada mais nada menos que Guinga; Paulo Bellinati; Henrique Cazes e outros muitos artistas alternativos da música popular brasileira. Ao apresentar uma peça do músico, emocionado, o contemporâneo violonista Yamandu Costa, (outra aberração de músico) resumiu em uma frase, o que poderia ser dito em um parágrafo: “quando apresento esta obra no exterior, todos perguntam se é minha e em que ano a fiz. Sem esconder, digo que foi produzida em 1923 pelo fenomenal gênio brasileiro das cordas; cujo nome artístico é Garoto. Não o conheci, mas Garoto, humildemente, suplico a sua benção. Quanto orgulho tenho de ser brasileiro, bem como da brasilidade musical de ser e interpretar um gênio das cordas, como foi você, Garoto!"


Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta".
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