ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

O Brasil é o país do futuro

Muito tempo após a postagem, a carta devolvida pelo carteiro trazia um singelo cartão, que a enlaçava com a inscrição: "Pela rudeza de seus discípulos na Terra, que a leveza do pó seja a recompensa e caro alívio. Um tanto atrasada, esta é a minha homenagem a uma Diva que se perdeu nos caminhos do futuro!"


"Educai as crianças e não será preciso reprimir o adulto". - frase de impacto de Paulo Freire, um dos poucos (ouso dizer o único) educadores que deve ser admirado como pedagogo e educador brasileiro; porém, ao contrário, é quase nada reconhecido no país. Aqui, nesta província, os bons, os excelentes são relegados, preteridos a uma súcia de oportunistas e malfeitores.

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Em cada dilatação da pupila, em cada piscar de olhos, que o recomeço realce os sentimentos, renove as emoções, pois o futuro não permite parada nas estações chamadas Tempo. O futuro é um rio, e embora enrosque em alguns pontos, se alargue em outros, transformando-o em meandros, cada destino segue seu curso contínuo e perene em direção ao futuro.

Comparando os tempos, os frívolos e inócuos aforismos que criam para justificar as mudanças que ocorrem no nosso meio social e um deles é o mal fadado e impensado “Os tempos mudaram”, porque honestidade, seriedade e respeito mútuo entre os cidadãos deveriam vir incorporados no pulsar sanguíneo e ninguém faz favor para ninguém em usá-los na interação, ao se relacionar; portanto atemporal, trouxe à memória a senhora chamada Diva e numa benévola falha de memória, esquecer o seu nome e qualificá-la enquanto habitou este espaço terreno de “Anjo materializado.”

Aquela senhora de cabelos ralos e minguados, óculos caídos sobre o nariz adunco, magra de andado espigado, jeito simples e acaipirado de interiorano e mentora de austeridade como princípio profissional, moral e ético, foi a minha terceira ou quarta professora notável, à qual fui subordinado aos seus relevantes ensinamentos e sabedoria. Se não conseguiu me alfabetizar, indubitavelmente, ensinou-me as lições, os conceitos sobre cidadão e cidadania, o que é tudo; e nenhuma cartilha mais é precisa, apenas com ela servindo de passaporte, navegar o mundo.

Onde quer que esteja e não tenho dúvidas que o ambiente é o melhor possível, pois pessoas com sua admirável presteza e benevolência estão cada vez mais escassos nesse universo chamado “Tolerância Humana”, dirijo a ela essas poucas linhas, pedindo encarecidamente que perdoe-me pela rebeldia. Admito que os poucos e minguados fios de cabelos que possuía, diminuíram ainda mais quando fui seu aluno.

Dona Diva tinha convicção plena do que fazia e fazia-o pelo amor ao ofício, sentimento pátrio, aguerrimento social, humano e presteza com o resultado final, que era a formação de cidadãos sustentáveis, capazes e Homens comprometidos com o todo. Se lembro-me bem, desconheço um ex-aluno que orientado por ela em todos os sentidos, tenha enveredado por caminhos, que não sejam, os da retidão. Orgulhe-se senhora Diva!

Sem esperar pelas mal fadadas reuniões de Pais e Mestres, dona Diva possuía o dom, o comprometimento de ir à casa de aluno por aluno, fazer verbalmente a reclamação ou elogio se fosse o caso. Indo aos lares (pelo menos na casa de meus pais era assim) reuniam o aluno, a mãe, se possível o pai, e ela, formando uma mesa redonda. Com a premissa de coerência e justiça, fazendo isto, todos tinham direito à defesa, o que não era o meu caso. Aonde arrumar meios e palavras de defesa?

As palavras dela eram as minhas verdades! Frente a frente, abrindo espaço para a reflexão e o diálogo, a sinceridade dos olhares são as verdades sobrepondo os subterfúgios das mentiras. Ao se deparar com a falsidade e a mentira, uma hora ou outra, as faces queimam pelas lágrimas derramadas pelos olhos.

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Especialmente, nas reuniões em minha casa, havia mais um convidado nada ilustre, que era uma Varinha de Marmelo, que ficava ouvindo tudo e quando chamada a intervir, obviamente como executora, dava ganho de causa para a estupenda professora dona Diva. Afinal de contas, meus pais conheciam o âmago e as traquinagens do filho que adotaram, como a palma de suas mãos. A Varinha era de Marmelo, mas sem mistérios, fantasias, magias e encantamentos transformava instantaneamente quase numa varinha de condão.

Mesmo se fosse hoje, correção e punição mais justa que àquela não há; pois cada um que pague como merecer pelos seus erros e maus atos, e quem conseguia sair pulando carteira por carteira, metendo a mão à procura do que não perdeu por debaixo das saias e vestidos da mulherada, quebrando vidraças, pulando muros, falsificando a assinatura da mãe nos boletins de classe, colocando mijo em cima das portas dos banheiros para alguém tomar um banho inesperado fora de hora e ainda que não cometesse grandes terremotos, causava pequenos vendavais; não podia de maneira alguma passar impune, incólume às reprimendas; denúncia feita pela advogada e sentenciado pelos meus pais sem o mínimo de questionamento. Sobre meus atos insanos, Dona Diva era a correta advogada aplicando as leis; os meus pais, o colegiado de juízes sentenciando as penas e punições, e a Varinha de Marmelo quase de condão, cumprindo o estipulado em processo, a executora da pena.

Prezada e estimável senhora Diva, o tempo passou, mas os legados e ensinamentos que não representam as águas correntes, jamais passarão. Saiba que o pouco que sou hoje, devo ao contexto experimental de vida por qual passei e passo, abalizado naturalmente pelos seus ensinamentos. Rogo a horda de anjos, a qual imagino que a senhora faça parte, que batam asas mundo-afora e cheguem aos lares e faça o mesmo que fizera comigo: esclareça os responsáveis pelos impropérios e absurdos cometidos a todo instante pelos nossos irmãos menores.

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Indizível professora, que tenhas Serenidade e Paz, atributos que sempre deixou transparecer em seus heróicos atos de ser humano responsável com a profissão e pessoa disciplinadora que foi! Fostes heroína; minha e de muitos, uma respeitável heroína!

Muito tempo após a postagem, a carta devolvida pelo carteiro trazia um singelo cartão, que a enlaçava com a inscrição: "Pela rudeza de seus discípulos na Terra, que a leveza do pó seja a recompensa e caro alívio!" Sobretudo dona Diva, nada será como antes! A mudança dos tempos é contínua e obviamente: para pior.

Filhos orfãos da seriedade, respeito, comprometimento e lealdade, estamos sem Pais, sem as cócegas provocadas Varinhas de Condão e sem as utopias (lugar que não existe) dos Professores bem intencionados; porém, afundados em um voraz redemoinho movido por leis. Faltou entendimento, diálogo, bom senso na relação entre os brasileiros, cria-se uma lei. Leis escritas por meia dúzia de mandriões que não se importam com o fracasso familiar e social, obviamente, são leis vendidas pelos corruptores aos corruptos; tornando-se, portanto, defensoras do erro. Infeliz e irrevogável fato, jamais admitido por quem primava pela justiça, retidão e elevado valor moral humano, como foi você, dona Diva!

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P.S.: ficção ou biografia, esse texto foi escrito em comemoração, homenagem, congratulando a competência dos Estados, dos pais e dos "cristais intocáveis" que, ao invés de montarem acampamento, ocuparem as escolas do país para adquirirem conhecimento, para a prática de lazer, cavucar e adubar o solo para o plantio de pomares e hortas comunitárias ("mas Profeta, trabalhar dá trabalho, mano"!). Invadirem as bibliotecas com o intuito de pesquisa profissional, encher as salas para desenvolver projetos comunitários, oficinas e sarais culturais, (era parte do projeto Escola da família não foi adiante por falta de efetividade da família, interesse e trabalho de pais e filhos) invadi-las para fazer melhorias estruturais nas próprias escolas; ocupam com o intuito de fazerem movimentos políticos, pontos de vendas de drogas, pichações alienadas, para exigir grandes nacos de picanha na comida, bordéis de portas abertas às putarias e toda sorte de badernas. Esses escândalos estudantis, que chamam de Direito à Cidadania do Adolescente, lamentavelmente, resultam em mortes dos vândalos libertinos, que os pais qualificam como exemplos e gênios do futuro, como a que aconteceu em uma das escolas ocupadas em Curitiba.

Cada um que compõe essa geração deveria ser exemplo, operar a feitura e não o reclamante, o porta-voz daquilo que deveriam ter feito e não fizeram.

Definitivamente, o brasileiro não merece nem um pouco esse império de país que foi ofertado a ele gratuitamente pela Natureza. E o meio de manobra, a verificável justificativa é que, invariavelmente, os erros fazem parte da poeira cósmica que altera sua cor da noite para o dia. Por outro lado, deve-se acreditar piamente que não há nada tão ruim, que não possa ficar pior. Todavia, para que não tenhamos que retroceder no tempo e retomar os períodos tenebrosos, redemocratizar a emporcalhada, limpar as sujeiras da democracia brasileira, é preciso. A limpeza é um princípio bíblico e sempre bem vinda a qualquer casa!

Adendos:

Sobre a mudança dos tempos e a geração que estava por vir, minha mãe dizia: "filhos como os que estão parindo às fornadas por aí, dispenso que me chame de mãe. Filho nenhum faz favor em honrar o nome daqueles que cuidaram, deram banho e mamadeira, perderam noites de sono indo ao médico, limparam a bunda do ordinário com tanto carinho e zelo. Aliás, isso é o máximo, é tudo que os pais deveriam receber dos filhos. Não há alegria, satisfação, presente melhor que este; por essa minha forma ultrapassada de pensar, deveras eu serei eternamente incompreendida neste mundo. Quem sabe no outro... em vez de uma, apareça uma infinidade de Divas e assim, eu seja entendida pelos meus irmãos!"

A presente geração que parasita o país, (leia pais e avós) era a geração Coca-cola, e como deixou de ser espumante, atualmente evoluiu para a geração Nissin Miojo Lamen; tamanha é a preguiça, a indolência, até para cozinhar um bago de arroz para se alimentar melhor. E certamente, os que dependerem dela, morrerão entregues à míngua e a fome.

Então professora, onde esteja, ratifico os meus sinceros e honestos agradecimentos por contribuir para que eu seja um Homem, um Homem simples sem gravata, sem terno, sem sapatos lustrados nos pés, sem tatuagens, sem argola de metal pendurada no nariz e brincos na orelha, como deve ser um Homem cara limpa, (não confunda com ficha limpa) olhar no horizonte; analfabeto que não sabe o teor e o significado de palavras difíceis, mas que dorme com a consciência tranquila nos bancos de praças; e óbvio, honesto por princípios. Como utopia e idealismo são coisas superadas pelo tempo, resta-me louvar a mudança dos tempos; louvar o Brasil; louvar a geração medíocre que melhor representa o futuro do país! E dizer professora, que dona Diva, aquela que se perdeu nos caminhos do futuro, sordidamente, jamais se encontrará!

"... é na alegria ou na dor" - assim falou Cristo para os contentes e descontentes, para os subordinados e insurretos. Exatamente, seguiram à risca a cartilha, por isto, a água mudou de cor e transformou em vinho.

Imagens de domínio público


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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