ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto



Nem início e nem fim: milimetricamente, no meio. A medida exata dos covardes, indiferentes e medrosos. Família, leis e as sociedades não permitem as inconveniências dos pensantes e as rebeldias dos revolucionários. Nesses termos, igualdade sempre

O que havia em comum entre Tolkien e Bo Hansson?

Quem assistiu o filme "Senhor dos Anéis" e dá como certa que a trilha sonora é a que ouviu no longa metragem, está completamente fora da etiqueta cultural da trilha original. E para salvá-lo do cenário nevoento, perturbador e desconexo criado pelos senhores das telas, só o teclado tenebroso do ignorado e quase ilusionista Bo Hansson.


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Segunda guerra mundial. E enquanto a Alemanha dominada pelo senhor "Bigode Furioso" lançava chamas contra o resto do mundo, o imaginário de Tolkien cavalgava por florestas sombrias, cruzava vaus insolentes, batalhava contra a legião do Unicórnio cego e desafiava os Orcs sob o azul lunar no pináculo "Volte por onde Veio". À sombra do perigo, seu cavalo resfolegava e ao descer a cadeia montanhosa "Em fila Indiana", engrenado sobre as patas dianteiras, ouve um som arrastado de teclado. O réquiem crepuscular soava tão esquisito, que os pássaros que regressavam aos seus lares para a refazenda antes de dormir, tombaram desfalecidos. Porém, na mente de Tolkien, ninguém, espécie nenhuma, nada nasceu para morrer. E se fenecer, aparece o mago Gandalf para fazer renascer o brilho da vida, transformar trevas em luz, portanto, misteriosamente a passarada voou o contentamento do renascimento e da liberdade.

Os magos, duendes, elfos, druidas, criaturas esquisitas e a "Sociedade do Anel" já haviam superado as tempestades das Terras Ermas, vencido as batalhas nas Terras de Mordor e alcançado "As duas Torres". Embora incertos, pelos próximos dias estariam à salvo. A parada da tropa para descanso propiciou a Tolkien divagar sobre o próximo livro da trilogia e atacado pelos deuses do bom senso, confidenciou ao seu espelho mágico que o chamaria "O Retorno do Rei". Porém, isso não foi suficiente e o mestre do imprevisto necessitava musicar a trilogia, pois a filosofia, a música, a pintura e a literatura compõem o todo da arte mitológica. Tolkien caminhava de uma ponta à outra, cofiava a barba e desembaraçava os longos fios de cabelos dourados, no entanto, a tão sonhada inspiração nunca lhe vinha à mente. Onde estaria o esfarrapado candeeiro de tantas jornadas de Gandalf que não lhe iluminava as ideias? Pena de escritor tem desses rompantes e esquece fácil o que tinha de escrever, motivo de necessitar que alguém lhe sovele os pensamentos ininterruptamente.

Numa noite cinzenta, daquelas comunicadas aos reis pelos arautos sobre a batalha derradeira denominada armagedon, enquanto o capítulo "Jornada no escuro" era escrito, Gandalf apareceu das cinzas do braseiro, sob o qual seus amigos aqueciam os pensamentos, intimando-os à fazerem imediatamente, sem demora, a travessia do "Vale Maldito"; e alegando que os venenosos olhos da floresta se amedrontam com o breu imponderável, partindo naquele hora da noite estariam livres de enrascadas. Meio sonolentos e indispostos, bebericaram o gole derradeiro de chá de ervas silvestres adoçado com o mais puro mel, engoliram qualquer coisa que mascavam sem saber a procedência, mastigaram mais uns nacos de frutas e retomaram a caminhada sem rumo ao desconhecido; afinal, um duende prevenido vale por uma alcateia de lobos famintos. Por assim pensar e enquanto fugissem, jamais seriam presas fáceis, nunca seriam iscas de carne incrementando a santa ceia dos dentuços miseráveis que choramingam e uivam em noites de lua cheia.

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Um bastão. Um cachimbo. As fantasias da mitologia. A mente ululando a criação que dá vida e voz as peripécias dos personagens. Estranhamente, Católico fervoroso. O encontro isolado com a Natureza. O resgate do anacrônico. O jeito simples de ser de um despretensioso e humilde Tolkien.

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"Antes eu fazia questão, agora tanto faz ou nem faz..." Não, essa não era a ideia de Tolkien para sua obra e quanto mais requintada fosse, melhor; e foi exatamente na passagem acima que o escritor descobriu que faltava alguma coisa para completar a trilogia. "Música! Sim, além de excelentes contadores de casos fantásticos, os meus pequenos seres da floresta adoram água fresca, recostar o corpo anelado pela adiposidade sobre as raízes de uma árvore frondosa, sentir a brisa açoitando-lhes a cara, gargalhar bastante as tolices da vida, recitar poesias élficas e ouvir uma suave, melódica e levitante música! Sinto-me obrigado a fazer, agraciá-los com mais isto; mas quem poderia tocar algo de salutar para esses seres de tímpanos tão miúdos e de pouca sensibilidade auditiva? Caso consiga mais essa façanha, garanto que eles irão me venerar, amar-me muito mais"! Novamente a figura mítica de Gandalf lhe incendiou-lhe a inteligência e num sobressalto mirabolante, apresentou-lhe o multi-instrumentista Bo Hansson. Portanto, estava decretado o encontro dos deuses da arte mitológica e enquanto um escreveu a obra literária, muito tempo depois, o outro musicou-a. Por sorte, até os dias de hoje e provavelmente nunca mais aconteça outra obra literária musicada no universo das letras, a não ser a do "Senhor dos Anéis". No reino do imprevisível, tudo é luz e mistérios. E as coisas do passado? Improvável futuro.

Twenty years have flowed away down the long river / And never in my life will return for me from the sea

Ah years in which looking far away I saw ages long past / When still trees bloomed free in a wide country

And thus now all begins to wither / With the breath of cold-hearted wizards

To know things they break them / And their stern lordship they establish / Through fear of death

TRADUÇÃO LIVRE:

Vinte anos correu abaixo pelo longo rio / E nunca na minha vida irá voltar para mim do mar

Ah anos em que eu vi à distância as longas eras passarem / Quando as árvores ainda floresciam livres em um país grande

E então agora tudo começa a murchar / Com o sopro dos corações frios dos magos

Sabem coisas que lhes quebram / E o seu duro senhorio estabelecem / Através do medo da morte

Como todos os homens protótipos de gigantes do planeta já ouviram falar em Tolkien e sua ilustre obra, passemos à frente: responda rápido e sem consultar o Google quem foi Bo Hansson? Sem jogo de charadas ou advinhas, o tecladista, guitarrista e produtor musical Bo Hansson foi a figura mais emblemática que a música contemporânea dos anos de 1970 conheceu. Estudioso inveterado das teclas, seus trabalhos são galgados na estranheza que essa modalidade de instrumentos poderiam lhe proporcionar e desde a lisergia do Rock Progressivo, até os efeitos enegrecidos do desconexo psicodélico, troavam sob seus dedos. Em se tratando de teclas, Hansson era polivalente.

Em meados dos anos 60, o músico e Jan Carlsson formavam um duo de orgão e bateria. O som puramente instrumental era denso, obscuro e ultrapassando as barreiras do improvável, os dois conseguiram lançar dois álbuns. Porém o inusitado estava por acontecer e em 68, Hendrix lança o álbum "Experience", cujo título em si já esclarecia os desavisados sobre a predileção de Jimi pelo experimentalismo. Para tornar o seu universo musical ainda mais hediondo, grava "Tax Free" da dupla de suecos. Dando razão a racionalidade, a música apresentada pela dupla é um instrumental bruto e de tão agressivo, até parece que foi composto exclusivamente para os misântropos ouvirem nos manicômios. E sob o comando dos dedos incendiários da mão esquerda de Hendrix? Este, arrancando guinchos de sua guitarra distorcida, tornou a peça extremamente assombrosa e devastadora; e para ouvi-la de fio a pavio, é preciso tímpanos de aço e em vez de sangue, ácido circulando pelas veias.

Hansson se separou de Carlsson após 3 anos de parceria, no entanto o baterista o acompanhava na banda que contava ainda com Gunnar Bergsten no saxofone e Sten Bergman na flauta. Embora não fizesse uso delas, as letras eram o passatempo de Bo. Por ser nórdico, ele não negava as raízes e uma boa prosa tragada à invasão e saqueamentos de piratarias realizadas pelos vikings fazia-o delirar de prazer. Tanto ele quanto TolKien abusavam da profanação originária das fantasias.

Não muito longe da Suécia, em solo inglês, por volta de 1950 Tolkien havia revolucionado o panorama mitológico com a primorosa trilogia do "Senhor dos Anéis". Intelectuais e estudantes universitários europeus desanuviavam as vistas com as peripécias de Bilbo Bolseiro; que em uma de suas infindas aventuras, se entoca no barril para escapar do ataque inimigo e flutuando o hedonismo do livramento, quase desce a cachoeira de muitos metros de altura. Incrivelmente por um triz, um fio de linha por assim dizer, foi salvo da tragédia por um cipó que estava enroscado no galho que se desprendeu do imenso pé ingazeiro, fazendo um assustador e estrondoso chuá nas correntezas, enlaçando o barril pouco antes do despenhadeiro. Talvez fosse uma operação Gandalf, o mago de barbas brancas e longas, que se metamorfoseou de árvore salvadora; pois perante a imaginação dos magos tudo pode acontecer num piscar de olhos.

As estórias mágicas de Bolseiro se espalhavam feito rastilho de pólvora pelo continente europeu; e eis que Hansson toma conhecimento da trilogia. Analisando em detalhes, o músico achava que os vikings em operação em alto mar tinha muita coisa em comum com as aventuras de Bilbo em busca do anel incendiário. E à cada capítulo lido, frieiras apareciam, comichavam entre os dedos, implorando para que Bo o musicasse. Não deu outra, ou melhor, uma não; mas várias outras.

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E eis que nos idos de 1970, Hansson lança a concepção musicada da fina obra de Tolkien. Com as raízes fincadas no Rock Progressivo, a sonoridade é totalmente instrumental. O inusitado e o fantasmagórico ficam por conta do orgão e sintetizadores. Tenebroso, assustador, rude e dando voz aos olhos espúrios da floresta, assim é a obra do início ao fim. E embora o original não tenha chegado por aqui, com o lançamento do filme nos cinemas, o álbum foi relançado com algumas faixas bônus inéditas; no entanto, permaneceu longe dos povos tupiniquins. E ainda zombavam: "Deixar-nos ser conhecidos pelos brasileiros, nem com reza brava! Que Gandalf fique longe dessa missão; aliás, é melhor que nem saiba que esse povo faz parte da porção inculta que pertence ao obscurantismo, negado pelos humanos de "raça", dita, superiora".

bo hansson3.jpgUm anel de ouro incendiário forjado sob fogo ardente para os dedos da ganância queimar! Esta pode ser uma das definições da arte criada por Hansson na capa do álbum; afinal ninguém oferece nada, muito menos ouro puro de mão beijada para ninguém. Bom, pelo menos nas andanças, aventuras e desventuras de Bilbo Bolseiro, não se notava tal proeza e bondade, como os humanos pregam.

O álbum recebeu o prêmio disco de ouro na Inglaterra e Austrália. Através da Charisma Records de Tony Stratton-Smith na Inglaterra e na América, as faixas do álbum compunham a trilha sonora de uma campanha publicitária de TV. Hansson lançou mais dois álbuns posteriores, o "Magicians Hat e Attic Thoughts" que seguiam a mesma toada progressiva; e obviamente, com a sonoridade carregada de obscuridade, mistérios e magia.

Bo Hansson faleceu em 24 de Abril de 2010 sem ser conhecido em terras brasileiras; porém, para alguns brasileiros criteriosos, conhecedores de rock progressivo e estudiosos do mundo fantástico criado por Tolkien, foi ele quem musicou a trilogia do "Senhor dos Anéis" e radicais de princípios, não aceitam de forma alguma outra versão que não seja a de Hansson. Estes poucos insensatos que perambulam em meio aos artificialismos urbanos ainda acreditam no poder da pureza do originalismo proporcionado pelas coisas (sobre)naturais. O Rock Progressivo é isso e continuará sendo, pois ainda que atormentado pelas guerras promovidas pelos incautos, a centelha mágica de respirar a fantasia da vida jamais se apagará pela obtusidade dos homens grandes. Que a viagem ao centro do The Gray Havens seja agora, amanhã e todo o sempre! E é isto que ilumina o mundo.


Profeta do Arauto

Nem início e nem fim: milimetricamente, no meio. A medida exata dos covardes, indiferentes e medrosos. Família, leis e as sociedades não permitem as inconveniências dos pensantes e as rebeldias dos revolucionários. Nesses termos, igualdade sempre .
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