ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto



Nem início e nem fim: milimetricamente, no meio. A medida exata dos covardes, indiferentes e medrosos. Família, leis e as sociedades não permitem as inconveniências dos pensantes e as rebeldias dos revolucionários. Nesses termos, igualdade sempre

Cavalo doido, cavalo de pau...

Através de suas letras futuristas e atemporais, Alceu Valença revisita os tempos que ficaram em um passado distante e entrecortadas pelas figuras de estilo, retrata sua identidade com o campo, sua infância nas praças e feiras livres, e a inocência de criança vencida pela adulteração do próprio tempo..., o qual não lhe permite mais cavalgar um "cavalo doido, cavalo de pau".


"Coração dos aflitos, pipoca dentro do peito...; agente se ilude dizendo já não há mais coração".

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Parece que foi ontem, mas o ontem é passado; e às vezes é um passado tão distante, que faz com quê esqueçamos os acontecimentos do dia anterior. Longe de pensar assim, 70 anos se passaram, bem como a perda do chapéu que abafava a cabeleira que caía desmedidamente sobre os seus óculos psicodélicos no início de carreira, atualmente ray-ban escuros para desfocar a Normose (patologia das normalidades) de uma sociedade bestializada, mesquinha, hipócrita e infame que racionaliza, discute, disputa e se entrega aos entreveros e brigas até pelo um ínfimo pedaço de papel higiênico de alta densidade e rugosidade, (kraft) que diante da situação e ocasião, ora fino, macio e sedoso; ora unha de gato, frio e cruel. Todavia, nada disto é motivo para Alceu dissimular a sua original musicalidade recifense, a qual, esparramando o frevo e o maracatu pelas ladeiras de Olinda, por muitos anos levou a multidão ao delírio dançante dos folguedos insones.

alceu 2.jpg Enquanto os olhos de Alceu estão focados, compenetrados na infinitude do ocaso, os imbecis dos óculos ray-ban procuram saber a qual vistas, a qual senhor eles pertencem.

São Bento do Una, agreste pernambucano. Foi naquelas paragens que Lampião, dizendo ser o paladino da justiça, roubava os ricos para doar aos pobres; e em nome dos que amam na praça como os animais, criava asas e se lançava em voos noturnos atrás do feromônio nupcial de Maria Bonita. E embora a região seja parte das linhas que traçam o mapa da história Nordestina, o filho egrégio da cidade atende por nome de Alceu Valença.

"Eu sou como o vento que varre a cidade e você não me vê ..." Por esta definição dá pra se ter uma ideia quem é esse filho de São Bento, de Pernambuco, do Brasil. Formado em Direito, contrário ao relâmpago no firmamento, sem ser visto nos arrebaldes e nas noites intempestuosas, Alceu trabalhou como correspondente do Jornal do Brasil; porém essa história de escrever o óbvio, noticiar o que Deus e os humanos sabiam e nada fizeram para que o fato não se tornasse notícia tenebrosa e hedionda, não era com ele; motivo, portanto, de apostar nas palavras soltas e através delas, em seu talento artístico para a música.

Com sua indiscutível versatilidade musical, Alceu recriou uma versão peculiar para os ritmos regionais, tais como o baião, coco, toada, maracatu, frevo, embolada e repentes tocados às notas do rock. Dentro dessa salada corsário, a qual inclui uma levada psicodélica tal qual em "A dança das Borboletas, Táxi Lunar e Cavalo doido", Alceu nunca deixou de lado sua nordestinidade.

Também gravada pelo Zé Ramalho, a letra deste som é navalha na carne e os acordes agalopados transformam qualquer aura sonolenta em frenesi alucinado e arrebatador!

Inspirado em Jacob do Bandolim, Jackson do Pandeiro e outros, sentava nos bancos das praças e ouvindo o arrulhamento dos feirantes, vagabundeava as cordas do violão. Porém, seu parceiro número um foi o conterrâneo Geraldo Azevedo, outra lenda viva da MPB; e foi através dele que Alceu conheceu o Sudeste. Na década de 1970 o Norte e Nordeste incendiavam o país musicalmente. Mais ou menos nessa ocasião a dupla passou a ser trio com a presença marcante de Zé Ramalho. Não obstante, como os três eram mais dos acordes e dedilhados, Zé trouxe sua irmã, Elba Ramalho para contracenar com eles nos vocais. O quarteto era o que havia de mais novo na música nordestina.

Por volta de 1972, Alceu, juntamente com Geraldo e Jackson do Pandeiro participaram do “Festival Internacional da Canção”, com a música “Papagaio do futuro e Me dá outro beijo", que também foi interpretada por Elba. Ainda nesse mesmo ano, Alceu e Geraldo lançam pela gravadora Copacabana o disco "Quadrafônico" que, se não foi o melhor da dupla, pelo menos prenunciava que o vento Alceulence poderia deitar manguezais no futuro.

Naquela época a censura não permitia metáforas escandalosas e obscenas. Eufemismo bem leve, podia? Também não. Então, expressões como "curtir uma brisa, "dizer das flores", "viajar nas asas da imaginação" e até mesmo, citar nome de mulheres, somente em pensamentos; afinal, os militares tinham a certeza que as impurezas humanas escapam pela boca e terminam com os atos. E em uma das músicas do disco citado, por um lapso de memória, a letra dizia: "Joana, me dê um talismã / Você já pensou em mais eu viajar?”. Tendo os brios atingidos, os responsáveis pela censura chamaram os insubordinados à responsabilidade e aplicaram-lhes os devidos conselhos: “Joana quer dizer marijuana e vocês sabem muito bem que marijuana é proibida no Brasil. Além disso, sua letra fala em viajar e isto é uma alusão a erva maldita. O que vocês tem a dizer; mas diga coisa com coisa, senão, o xilindró é a merecida redenção para os insurretos".

Porém, quem alterna entre as teorias dos livros e a nudez de perambular pelas ruas em noites invernais, quem flutua entre a Terra e o céu, quem absorve no metabolismo a sonolência do chá de camomila e acelera a percepção sensorial com um chá de cogumelo não vacila; e apresentando sua sabedoria em defesa do caminheiro de luz, Alceu fez de conta que não ouviu os rogos intimidadores e contra-atacou à altura, propondo a alteração para "Diana, a caçadora”. Batuta! Os senhores do movimento "Cale essa sua boca cheia de dentes, já" aceitou o pedido e a música virou hit nacional. Contudo, sempre a ouviam flutuando, divagando, filosofando os absurdos de proibir a fumaça incendiária de um incenso bem tragado; que segundo os afiliados, adeptos e correligionários, transpira lucidez, euforia, e ao explicar a inexplicabilidade dos mistérios mundanos, sabedoria.

Irrefutavelmente, o tempo faz as reparações das estradas e através delas, o futuro apresenta ao homem o enredo da conquista ou da perda absoluta, e foi assim que Alceu foi recompensado. Em 1982 lança a pérola que o consagraria. O disco "Cavalo doido" pode não ser muito sugestivo de título, mas foi unanimidade nacional. Pois, inesperadamente ou inevitavelmente, o álbum enlaça todos os tipos de públicos e adeptos ao estilo Valenciano. De saída, a primeira faixa traz um jogo de ideias bem ao estilo Alceu e ao cantar: “se eu rimar rima com rima, é tangerino tangerina, pirapora petrolina, se eu rimar rima com rima”. Este embaralhamento silábico nas frases retrata a embolada, estilo cantado pelos menestréis amadores nas ruas das cidades nordestinas, reproduz também claramente como os feirantes fazem para angariar o cliente nas feiras, paradeiro comercial em que ele fez as primeiras aparições como músico mirim.

No entanto, é "Tropicana e Como Dois Animais” que balançam o país. Por outro lado, para aqueles que apreciam o estudo do idioma português, as letras são carregadas de figuras de estilo e misturando mangas, melões e jaboticabas no mesmo caixote, resulta numa morena de “Pele macia, é carne de cajú… Saliva doce, doce mel, mel do uruçu”. Em “Como Dois Animais”, a divagação ao amor livre de preconceitos dos que se dizem fiéis, cobrem-se com uma roupagem visível e despudorada; exatamente como fazem os animais em praça pública:

“Meu olhar vagabundo de cachorro vadio / olha a pintada e ela estava no cio / E era um cão vagabundo e uma onça pintada / Se amando na praça como os animais".

Sem dúvida, com seu olhar metafórico, Alceu soube como ninguém retratar o instinto de macho do Homem, que ao sentir o cheiro da perdição, o perfume viciante; que ao perceber a mariposa bêbada, nua como veio ao mundo bailando o seu desvario ao redor da lâmpada, vaga dias e noites infindas, duela incansavelmente com o senhor do escuro pelo viço feromoniado de uma dama de amor espúrio que embriaga, entorpece até o lúcifer. Excluindo a insanidade, convenientemente, nada é melhor que a animalidade do cão para representar o amor, o sexo e a irresponsabilidade humana.

Como a poesia, a música, a filosofia e a loucura flertam, hibridizam, cruzam, transam, enxertam-se com a poesia, com a música, com a filosofia e a loucura daqueles que ainda perdem tempo em pensá-las, Alceu assexuou a letra "Como dois Animais" com o "oh, mulher infiel, traiçoeiramente ativa e infiel!" da magistral banda de Rock Progressivo, Secos e Molhados. (qualquer hora escrevo sobre eles. Aposto que Ney Matogrosso vai ler)

"...na curva de suas ancas...", resume um menestrel solitário cavalgando os estreitos da música; sobretudo, porque "Teu nome é tempo, vento, vendaval"....

... contudo, o tempo mostrou-se incompetente, ineficiente com seu papel e não apagou os vícios e as concupiscências da Sodoma e Gomorra ingerida intermitentemente pelos adultos. Ao Alceu, sobrou o tempo dos consagrados 70 anos que não lhe faz frente e jamais apoquenta-lhe a mente!

P.S.: Alceu foi indicado ao Grammy Latino; foi premiado em concursos de MPB; participou do festival de Montreuax; atualmente dedica parte de seu tempo fazendo cinema. Aliás, o filme Cordel Virtual (a Luneta do Tempo) está nas telas dos cines alternativos.


Profeta do Arauto

Nem início e nem fim: milimetricamente, no meio. A medida exata dos covardes, indiferentes e medrosos. Família, leis e as sociedades não permitem as inconveniências dos pensantes e as rebeldias dos revolucionários. Nesses termos, igualdade sempre .
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