ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

O rugido do mar e o silêncio da solidão

Inspirado no livro "O Velho e o Mar", em que o autor Ernest Hemingway o resume em uma única frase: "Um homem pode ser destruído, mas não derrotado".


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Ele havia construído a ponte por qual passou a passos curtos nos últimos anos. Abaixo dela, o rio caudaloso. Ainda em tenra idade, tal qual a flor que desabrocha lançando as suas pétalas aos raios de sol esturricante das treze horas, sob mergulhos e braçadas, nadou bravamente e às vezes, importante salientar várias, miríade de vezes, quase foi tragado pelos redemoinhos do inesperado. Acumulou em sua canastra de vitórias e derrotas, a superação das correntezas devoradoras desse mesmo rio. E se lançando contra o perigo, às duras penas, saiu no lado oposto. Tateando o barranco da margem e apoiando nos troncos e raízes das árvores, chegou à parte alta do terreno. Foi quando ouviu de sua lucidez que construísse uma ponte, uma ponte que facilitasse as próximas travessias. E embora o pragmático do meu Amigo se conhecesse em pormenores e por isto, nunca perdera tempo em consultar cartomantes, horóscopos, búzios ou algo semelhante, não deu ouvidos aos seus instintos; sendo preciso que a sua consciência lhe berrasse nos ouvidos, alertando-o que não seria a primeira vez; e atravessar aquele rio da vida, seria como foi, um desafio constante para ele.

Devagar, sempre devagar, quase parando. Não tinha e não demonstrava presa, pois, "presa para quê; já corri muito", era a sua justificativa. Porém, caminhava para o mar; e ele sabia. Sempre em frente em direção ao mar, caminhava ele. Sorrindo ou lacrimoso, contente ou carrancudo, havia vencido os despenhadeiros, desvencilhado das curvas, espraiado em meandros, despedaçado sua cauda contra os rochedos, porém, encontrou o seu caminho, o qual seguia firme. Desde que pôs os pés sobre a terra firme, o mar sempre foi e sempre seria o seu destino final. Tanto suas alegrias, como as tristezas. Tanto suas conquistas, como as desistências. Na foz, onde morre os sonhos e deságuam os corações, ponto em que as águas doces encontram as águas salgadas, tanto os gritos de suas palavras, como o silêncio da solidão, tudo pereceria no mar. Tanto os seus amores, como as desilusões. Amores nem tanto; mas o minguado amor ou a abundante desilusão, tudo iria parar no mar e sob a fúria ou a placidez de suas águas, feneceria; obviamente no mar.

Às tardes sentava sobre o toco à beira-porta e espiava o movimento. "Em todos esses anos minhas pernas nunca estiveram no mesmo lugar por mais de uma hora; então movimento para quê, agora"?, se perguntava. Talvez, movimento dos pássaros, porque as árvores não saem do lugar. Árvores não tem asas, portanto, não voam. Movimento do vento? Talvez, porque vento move e remove; leva e devolve; equilibra e desequilibra; alinha e desalinha. O vento ensina e tomando-o como referência, como a nuvem no horizonte, tudo passa. Mas ele não era o semblante do vento, ou era? Certo é que atleta, corredor nenhum alcança o vento. Ventos não se curvam, não batem continência, não perdem preciosos segundos de sua correria desenfreada aplaudindo os velocistas e se assim procede, é porque tem coisas mais importantes a fazer, do que reverenciar duas pernas tentando alçar voo.

Por lá tudo era paradeiro e as suas companhias, quase íntimas, resumiam no cão de focinho preto com uma estrela na testa que atendia pelo nome de "Chamego". Seu outro passatempo era a vaca "Primavera". E de fato a sua princesa trazia no corpo as cores da primavera. Foram muitos os litros de leite que aquela "senhora" de quatro patas lhe permitiu ordenhar; no entanto, nos últimos anos quem passa bem debaixo de seus pontudos e volumosos ubres é o bezerro "Chifre de ouro". E embora a cria use um método bastante agressivo e rudimentar, dando-lhe fortes e intensas cabeçadas nas proximidades dos ubres para lhe roubar o leite, ela mantém-se quieta, fria, passiva, calma, indiferente. Indiscutivelmente, as espécies animais possuem cadas maneiras estranhas de se amarem, que ainda por um segundo, chocam os observadores. Ficava pasmado com aquilo. Impossível é descrever a Natureza; mas fato é que nem tudo na Natureza pode ser tomado como exemplo; e pela amabilidade, pela ternura de meu Amigo, ele conviveu dia-a-dia com essas realidades, sem no entanto, deixar-se "contaminar" por elas.

Na sala, uma estante com um porta-joia bem pequeno, quase invisível. Dava-se por notado quando os olhos grandes e perspicazes lia a inscrição: "A emoção existirá no espaço que cabe emoção". Se não me falha a memória, ele presenteou a esposa no aniversário de 25 anos de casamento. Embora tenha sido convidado especialmente pelos dois, não pude comparecer. Em seu quarto, o criado-mudo, emudecera pelo desuso. Bom para os cupins que estão em festa e ainda que não servidos por garçons, tem a mesa farta lhes esperando todos os dias. O cachimbo desconhecendo o que é fumo e o fogo que lhe queimava as beiradas, nunca mais permitiu-lhe uma baforada bem forte, sob a qual os pulmões rodopiavam de alegria sob o rolo de fumaça. No quarto o fofo colchão de palha murchou; e na sala o quadro está enegrecido e as aranhas aproveitaram para tecer suas armadilhas. O alimento pode ser a feliz surpresa; porém, em cada surpresa, pode estar a armadilha ardilosa do veneno. Filósofo no dever do ensinamento e questionamento, ele observava que nunca deve-se afirmar que o açúcar é doce e o sal salgado, pois o sal e o açúcar após refinados são de características "semelhantes", brancos e granulados em pequenos torrões. Abrindo um sorriso desconcertado, refletia que "Na dúvida e de dúvida o mundo foi construído, molhe o dedo, leve-o ao pote e salive primeiro antes de usá-los. E quem diz que até assim não houve a adulteração do meio a meio, meu Amigo"? Indagava. "Se os homens são danados no trato com eles próprios, com as coisas e com o seu semelhante, então...! Imita e muito, o açúcar e o sal".

Certa feita na alameda próximo à sua casa achei um registro que relatava: "À minha frente está a imensidão das águas do mar, o verde exuberante das matas, uma cachoeira ao longe, a infinitude do firmamento; e a maldita liberdade, sorrindo de mim, usufrui de tudo isto"! - não duvido nada, ao contrário, tenho quase certeza que foi escrito por ele. Por onde passava, ia demarcando as trilhas com pérolas poéticas.

Era dono de um sorriso que nunca lhe realçava os dentes amarelados e dominados pelas bactérias de tártaros e cáries. Dispensava o luxo. Aparentava ser falador, mas simples e tacanho de palavras, pouco dizia. E o pouco que dizia, refletia o pouco que sabia e o que proferia sem dá-los como verdade absoluta, era sempre bem colocado e explanado. Não esparramava palavras pejorativas e de duplo sentido, para não esparramar a negatividade do mal entendido. Como os rins filtram os líquidos, suas palavras eram filtradas pelo silêncio; sobretudo, porque um conjunto de letras formam as palavras. Um conjunto de palavras formam as frases. Um conjunto de frases formam os parágrafos. E em cada parágrafo, um julgamento interpretativo. E se nós, seres errantes, julgamos e interpretamos é porque cada um, ainda que sabendo que está errado, tem a sua "verdade"; porém a razão é apenas uma e nela está a "verdade absoluta". Razão somada à verdade, é igual honestidade. Sobre este dualismo dicotômico, cansei de ouvir dele: "muito diz, quem muito ouve e quando perguntado sobre algo, se cala. Quem pergunta, já possui a resposta; e através do silêncio sim, contém a honesta razão da verdade, àquela que liberta-te dos impropérios da consciência". Deve-se acreditar em seus ditos, pois a sabedoria não nasce da noite para o dia; ao contrário, curva em meias dobras muitas cacundas. E como o meu Amigo andava curvado pelas meias dobras da sabedoria do tempo!

Qualquer distância entre eu e alguém que me compraz como honroso e sincero Amigo, que me faz bem como companhia querida, qualquer medida andada é a metade ou mais do caminho a percorrer em sua direção.

Chegava à moradia do Amigo e imediatamente era recebido por uma sofá macio pela velhice e ondulado pela corcundez. Ajoelhava, fazia o sinal da cruz, pedia licença ao Santo protetor da casa pendurado no alto da parede e sentava sobre o receptor. Sentia-me tão bem em sua casa sentando sobre aquele velho Corcunda de Notre Dame, como apelidamos o sofá, que imaginava flutuar sobre um amontoado de penas de ganso. Uma televisão em preto e branco no alto desnudava o mundo. Às vezes desaforadas e mandonas, às vezes sugestivas e didáticas, as válvulas chiando o leite derramado, atrapalhava a nossa prosa. Pedia silêncio para a danada, que disparava gargalhar de mim.

Ao meio dia em ponto, o Cuco disparava uma gritaria dos diabos em chamas. Abaixava o volume dele, mas o excomungado permanecia na sua doideira de entrar e sair agalopado de dentro de sua casa de madeira. Aquele Cuco era outro que não tinha respeito pela nossa prosa. Chamado pelo cheiro, caminhava para a cozinha e a mesa posta atiçava a minha gula e convidava para o café pós saciedade de comida; e sem mais prosa, na volta do dia, quem se deleitava na casa do Amigo era a dormidela soprada pelos beiços. Lá, naquele recinto rico em humildade, com sol ou frio, fosse quarta ou dia qualquer, o que não faltava era hospitalidade e acolhimento. Eu preferia os domingos. Domingo é consagrado pela amizade como o dia de reunião na casa de Domingos. Ele era tão espetacular, diferenciado, único, que o erro originou o acerto, e o seu nome foi registrado no plural. Costumava brincar, dizendo que ele era um homem pluralizado; difícil de ser encontrado em qualquer multidão, ainda que esta seja-me singular!

E assim passava o dia, quando dava fé, o sino badalava a hora do ângelus. Caminhando insolitamente, passos vagarosos, porém obstinados, íamos ao encontro do pároco que nos benziam dos pés à cabeça. Embora nada dissesse, aquilo o refazia. Amizade igual a nossa, só daqui a cem anos. Confesso que estou até agora abalado. Incrédulo! Os sábados tem sido um martírio; e a hóstia já não é mais a mesma, parece até que foi batizada com o gosto amargo da saudade maestrina. Porque quem ama de coração, a saudade rege a sinfonia da perda.

Ele adorava, deleitava-se em escrever. As letras eram o eco do berro silencioso de sua solidão. Ainda que mal concatenadas e interpretadas, como eram as suas ideias, perdia parte das noites ouvindo-se, através da escrita. O leitor me dá licença, conceda-me uns minutos de sua paciência e atenção para aliviar-me da dor, que como um torniquete, abraça-me indelicadamente, estrangula-me a jugular, para reler o apontamento que ele escreveu em minha homenagem; mas antes vou enxugar as lágrimas:

"Não há escrita sem silêncio. Ou o escritor se impõe ao silêncio ou o grito do mundo atravessa o sentido de sua escrita. Há de se compreender que a escrita tem voz, que grita, que esbraveja, que é pura algazarra. Contudo, nasce silenciosa, apenas balbuciante, sussurradamente, como uma doce palavra de amor ao ouvido. Deve o escritor buscar o silêncio e a solidão. Necessita estar alheio ao mundo para fazer brotar um mundo novo, uma Macondo, um Santana do São Francisco, um Mundaréu. Deve estar distante de tudo para dar vida e sentimentos a tantos que sairão da escrita do mundo. Que bom que o vento avance e sacoleje a cortina da janela. Que bom se a folha seca passar adiante da vidraça ao lado. Que bom se o açoite da ventania traga zunidos e lamentos. E com a brisa e o sol em poente, apenas o mundo tão necessário ao escritor no seu ato máximo de gozo e prazer, no orgásmico instante de fruição de seu monástico ofício. Daí que quero ter o silêncio agora. Daí que preciso de solidão. Não para mim, mas para criar o mundo que brota em meus pensamentos, para posteriormente, dividi-los com quem mais for de sentimentos; pois a emoção existirá onde couber emoção".

Agradeço pela paciência e espera. Sigamos com a escrita. O mar não era tão longe quanto ele imaginava e sempre dissera. Sobretudo, os mares são imensos e cobrem muitos territórios com suas águas; mas amizades puras, ternas, honestas, sinceras são poucas, minguadas e não passam de gotas de chuva desfeitas pelo vento. Certamente está é a velha contradição, a infernal dicotomia que cobre o homem de ilusões; e traiçoeiramente, o coração não revela. Mas como o tempo, pune! Eu fui punido com a separação e embora jamais vivesse iludido imaginando que isto nunca aconteceria, fui punido com a nossa definitiva separação; porém sinto-me bem por saber que ele foi destruído, mas não derrotado. O mar com todo o seu gigantismo, possuído por ondas altas que quebram e destroem, são impotentes para despedaçar, destruir o coração de uma benevolente alma. Muita Paz meu Amigo! Não vou lhe desejar que tenha Luz, porque em vida foste iluminado; e do mar, o farol. Sob avassaladoras ondas e tormentas, quantas embarcações você guiou, direcionou ao trapiche, iluminou-as ao ponto correto de atracamento!? Sempre soube e nunca deu margem às dúvidas, que se dependesse de você meu Amigo, o mundo ancoraria, seria preso às amarras do cais de um porto seguro. Quão valioso foi conhecê-lo, tê-lo como joia rara e Amigo!

Para mim, o meu amigo não foi o remédio, mas o veneno! Pelas suas ideias visionárias e sabedoria perceptiva de um proscrito no silêncio da solidão, me considero, ou melhor, sou hipocondríaco. E faço das palavras dele, as minhas: "toda vivência, toda experiência enquanto não se morre, faz parte do rio da vida; motivo d´eu querer e pedir aos deuses da longevidade e vitalidade para que eu tenha saúde e forças para atravessá-lo, sempre. Quem me dera fenecer como ele, como o meu admirável Amigo: destruído, mas não derrotado.


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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