ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Quem dá voz à Natureza, reconcilia-se com Deus!

Sim: a Natureza é subjetiva! E quando solta um suspiro fundo de contentamento, de alívio ou de dor, este chega aos ouvidos através dos sons onomatopaicos. Contudo, a música e a poesia possuem a delicadeza, a subjetividade e o desprendimento de quem traz no fund´alma a voz embargada de uma Natureza que nada fala; mas em seu íntimo, o silêncio diz muito.


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Às vezes prefiro furtar-me das palavras e refugiar no silêncio da reflexão, principalmente quando tudo o que tinha para ser dito, foi dito; naturalmente, quando não há mais palavras que satisfaçam o diálogo, é a vez do profundo e pacificador silêncio.

Ao se deparar com algo que emociona, não há racionalidade, radicalismo, carranca indissolúvel, rudeza de espírito que não se permita as lágrimas do coração!

Muitos, vários, inúmeros, miríade são os escritores que dão voz a Natureza. Os músicos, por exemplo, desde sempre, contemplam os rios, as cascatas, os animais, o ocaso, o arrebol crepuscular, as cachoeiras cortadas pelas cores do arco-íris, a cabeleira verde das matas e florestas aparadas pelas nuvens ao longe, as ondas marítimas fraquejando ao tombarem desfalecidas nos arrecifes de pedras; e após finalizar o mergulho nas profundezas do invisível, a pena despeja sobre a folha de papel uma profusão de palavras subjetivas, que a operosa objetividade não tem condições de verbalizar. O homem fala de nanotecnologia, entende de robôs e de mecatrônica, discute a existência de água na lua, qualifica-se como o melhor dos melhores, pondera as coisas grandes do universo, mas é incapaz de compreender porque as cigarras fazem tremenda arruaça nas épocas mais quentes do ano.

Enumerando umas poucas letras, porque citar todas é pretensão demais de um desnaturado que conta os segundos para dar adeus às ilusões, sonhos e ideologias, em 1981, Guilherme Arantes compôs e interpretou "Planeta Água". A letra foi uma das finalistas do Festival MPB Shell daquele ano. Inesperadamente a canção ficou em segundo lugar, fato que nem o mais incrédulo dos incrédulos da música admitiria tamanho engambelamento da banca de jurados em favor da música ganhadora. Ademais, sem medo de errar, pode-se afirmar plenamente em qualquer parlamento que é uma das melhores, senão a melhor letra de música sobre o tema. Em versos, a letra perfaz todos os caminhos da água, desde o desenrolar biofísico do ciclo hidrológico, até o que se "perde" retido pela terra para mantê-la sempre úmida e consequentemente, alimentar continuamente as raízes, gerando a seiva que vai percorrer a planta, nutrindo-a até a última folha do galho mais alto. Em razão desta sensibilidade poética, não é de se admirar que Guilherme estava conectado com evoluções maiores e sob a influência de uma horda de anjos e orientação divina, compôs a letra.

“Água que nasce na fonte serena do mundo / E que abre um profundo grotão / Água que faz inocente riacho / E deságua na corrente do ribeirão

Águas escuras dos rios / Que levam a fertilidade ao sertão Águas que banham aldeias / E matam a sede da população

Águas que caem das pedras / No véu das cascatas, ronco de trovão E depois dormem tranquilas / No leito dos lagos / No leito dos lagos

Água dos igarapés / onde Iara, a mãe d'água / É misteriosa canção Água que o sol evapora / Pro céu vai embora / Virar nuvens de algodão

Gotas de água da chuva / Alegre arco-íris sobre a plantação Gotas de água da chuva / Tão tristes, são lágrimas na inundação

Águas que movem moinhos / São as mesmas águas que encharcam o chão E sempre voltam humildes / Pro fundo da terra / Pro fundo da terra

Terra! Planeta Água / Terra! Planeta Água / Terra! Planeta Água

Água que nasce na fonte serena do mundo / E que abre um profundo grotão / Água que faz inocente riacho / E deságua na corrente do ribeirão

Águas escuras dos rios / Que levam a fertilidade ao sertão Águas que banham aldeias / E matam a sede da população

Águas que movem moinhos / São as mesmas águas que encharcam o chão E sempre voltam humildes / Pro fundo da terra / Pro fundo da terra

Terra! Planeta Água / Terra! Planeta Água / Terra! Planeta Água

Terra! Planeta Água / Terra! Planeta Água / Terra! Planeta Água”

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Seguindo, não poderia de jeito nenhum, deixar de mencionar “Passaredo”, letra composta por Chico Buarque, que alerta a bicharada dos perigos causados pelo homem; ou pelo bicho esquisito, que com seu andado de pata choca, se locomove sobre duas patas, como queira. Fundindo simplicidade à complexidade de enumerar boa parte das espécies de pássaros da fauna brasileira, a letra declara o homem como o grande vilão que vitimiza os indefesos, ainda que com pena, sem a mínima piedade. Cada tiro surdo que ecoa na mata, cada incêndio desmedido, cada árvore cortada, é o franco descomprometimento com a renovação; em sentido contrário, certeira diminuição e aumento da extinção das espécies em escala geométrica, pois não morre apenas um.

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“Ei, pintassilgo / Oi, pintaroxo / Melro, uirapuru Ai, chega-e-vira / Engole-vento / Saíra, inhambu Foge asa-branca

Vai, patativa / Tordo, tuju, tuim / Xô, tié-sangue Xô, tié-fogo / Xô, rouxinol sem fim / Some, coleiro Anda, trigueiro / Te esconde colibri /

Voa, macuco / Voa, viúva / Utiariti / Bico calado Toma cuidado / Que o homem vem aí O homem vem aí / O homem vem aí

Ei, quero-quero / Oi, tico-tico Anum, pardal, chapim / Xô, cotovia, ave-fria / Xô, pescador-martim Some, rolinha / Anda, andorinha

Te esconde, bem-te-vi / Voa, / bicudo / Voa, sanhaço / Vai, juriti Bico calado / Muito cuidado

Que o homem vem aí / O homem vem aí / O homem vem aí

A terceira letra é uma menção honrosa cantada pelos Caipiras, que são os mesmos povos tachados de forma pejorativa pelos urbanos como Sertanejos, ou Caboclos, ou ainda Matutos, a um regato que, humildemente, vai recolhendo as águas das ribanceiras. Representados pelos chapéus de aba larga, bigodes amarelados cobrindo os sorrisos, sempre mascando o cigarro de palha no canto da boca, botinas enlameadas nos pés, pelo cheiro de estrume no gibão de couro e a sinceridade nas palavras, a obra transcendental “Riozinho Amigo”, composta por (como é uma composição perdida no tempo, muito mais de meio século de existência, provavelmente, a letra não seja de sua autoria) Zé Fortuna é um hino bucólico em homenagem ao solvente e líquido da vida. Foram muitos os cantores que gravaram esta poesia em forma de melodia; porém, ela é mais conhecida nas vozes de Lourenço e Lourival.

“Meu rio pequeno / Braço líquido dos campos Rodeado de barrancos / Corroído pelos anos

Vai arrastando / Folhas mortas e saudade / Pôr-do-sol de muitas tardes / Ilusões e desenganos

Cruzando vales, chapadões e pantanais / Bebedouro de pardais / Branco espelho de luar

O seu roteiro não tem volta / Só tem ida / Pra findar a sua vida / Na amplidão azul do mar

Riozinho amigo / São iguais as nossas águas / Também tenho rio de mágoas / A correr dentro de mim

Cruzando n`alma campos secos e desertos / Cada vez vendo mais perto / O oceano de meu fim

Riozinho amigo / Nasceste junto a colina / Era um fio d`água de mina / Que cresceu tão lentamente

Margeando matas, ramagens, juncos e flores / Passarinhos multicores / Seguiram vossa corrente / Riozinho amigo / Quantas vezes assistiu / Acenos de quem partiu / Encontros dos que chegaram

Foi testemunha de muitas juras de amor / Quantas lágrimas de dor / Suas águas carregaram

Riozinho amigo / Sob a areia do remanso / Animais em seu descanso / Ali vem matar a sede

As borboletas em suas margens se amontoam / E depois alegres voam / Na amplidão dos campos verdes

A brisa encrespa o seu rosto de menino / Como o mais terno e divino / Beijo da mãe natureza

Lindas paisagens, madrugadas coloridas, / Encontros e despedidas / Seguem vossa correnteza.”

A quarta composição é mais uma inspiração intuitiva e única de Dino Franco e Zé Fortuna; este último foi um dos melhores compositores da música Sertaneja. Por falta de repertório próprio e originalidade, o que é fato recorrente para os "sertanejos" apreciadores dos tufos de fumaça dos escapamentos de carros, Paula Fernandes interpreta esta letra; que os desentendidos, em ato de reverência e respeito, aplaudem de pé.

Como é bonito estender-se no verão / As cortinas do sertão na varanda da manhã / Deixar entrar pedaços de madrugada / E sobre a colcha azulada / Dorme calma a lua irmã

Cheiro de relva / Traz do campo a brisa mansa / Que nos faz sentir criança / A embalar milhões de ninhos / A relva esconde as florzinhas orvalhadas / Quase sempre abandonadas / Nas encostas dos caminhos

A juriti madrugadeira da floresta / Com seu canto abre a festa Revoando toda a selva / O rio manso caudaloso se agita / Parecendo achar bonita / A terra cheia de relva

O sol vermelho se esquenta e aparece / O vergel todo agradece Pelos ninhos que abrigou / Botões de ouro se desprendem de seus galhos / São as gotas de orvalho / De uma noite que passou

A quinta composição, “Olha o bicho livre”, foi escrita por Paulinho Carvalho e Rodrigo Leste e passada ao mineiro Lô Borges para a criação dos arranjos, acordes e interpretação; e faz parte da obra maior do cantor, o disco “Via Láctea”. Músico de nascença, Lô fez parte do “Clube da Esquina”, o qual era composto por ele, Milton Nascimento, Marilton e seu irmão, Márcio. Aliás, a família Borges é praticamente toda ela composta por músicos. A denominação “Clube da Esquina” foi originada da fala da mãe que respondia aos curiosos que queriam saber onde estavam os filhos, ao que ela respondia: “estão tocando e cantando na esquina”.

Como laranja não é cana / Manja bem essa história Um dia os bichos todos / Resolveram cair fora

Um dia os bichos todos / Resolveram cair fora

No muro ficava escrito / Bicho bom é bicho preso com as mãos E eles se arrancaram / E ninguém ficou surpreso, ah, ah...

A sirene nos nossos ouvidos / Feito doida, muito doida sirenou Despertando o guarda / E assustado fulo então ele gritou

De fuga em fuga uma figa ele fez / Lembrando aquilo tudo que o chefe lhe falou /

"Se os bichos fogem outra vez / Você é quem fica preso na jaula"

E arrepiado ele gritou...

Leão, macaco, Ema / Vou fugir também / Vou pra floresta, / Vou direto pra Belém

Pra saber dessa lição / Não é preciso ir à aula não / Bicho bom é bicho / Livre do lado de fora da jaula, êh

Como laranja não é cana / Manja bem essa história Um dia os bichos todos / Resolveram cair fora

Um dia os bichos todos / Resolveram cair fora /

De fuga em fuga uma figa ele fez / Lembrando aquilo tudo que o chefe lhe falou (...)

Como laranja não é cana / Manja bem essa história / Um dia os bichos todos / Resolveram cair fora

Um dia os bichos todos / Resolveram cair fora, ih...

Excomungar o homem moderno e ouvir o silencioso etéreo da Natureza é voltar às origens, quando o Homem de pés na lama era apenas parte dela, nem vítima nem agressor. Sobretudo, quem dá voz à Natureza, implora o desejo de reconciliar-se com Deus; pois se não é a Natureza a sua verdadeira obra mestra, qual será? E os músicos e poetas que possuem esse poder, esse dom natural, são divinos.

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Impressionante como as vistas dos letrados e doutos não conseguem assimilar o que os olhos desse povo veem. Garantidamente, os poetas pragmáticos ambientais nunca souberam e jamais se preocuparam em saber os significados das figuras de linguagem; porém, fazem uso delas nas letras das músicas com a maior naturalidade. Analfabetos das letras e ao mesmo tempo literatos, escreviam nas pedras com carvão e tabatinga sobre as coisas de seu torrão de terra. Admiráveis, aplausos para esses sábios Matutos que tem olhos ávidos e mente criativa para enaltecer o que é singelo! Ainda bem que simplicidade, sensibilidade, merecimento não foram ofertados aleatoriamente por Deus a qualquer um. Pelo contrário, os poucos e raros foram selecionados pela pureza e bondade daquilo que poderia ser útil ao seu meio de convívio.

Contando os seus filhos, Jesus Cristo e a subjetiva Natureza, não há socialista mais socialista, que o Criador. Divide tudo que possui e perdoa até o mais fiel destruidor de sua obra. Todavia, uma vez destruída, é reparada pelos poetas e escritores bons de olhos, sensíveis de ouvidos e através da música, ternos!

Pois então meus amigos leitores, não reconcilia com Deus quem não quer ou são surdos; porque os ensinamentos da orquestra sinfônica regida pela maestrina Natureza são gratuitos e tocam, piam, trinam, sibilam, coaxam, chiam, arrulham, grasnam, cantam para qualquer tímpano obtuso escutar. E o encerramento do concerto é: "Deus, não sou digno que entreis em minha morada, mas ouvindo o silêncio da Natureza retratado pela música, espero ser salvo".

Fotos pertencentes ao autor do artigo


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As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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