ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

Se as drogas transportam, a prostituição é o passaporte

Entre os sonhos, as drogas, a prostituição e os funerais está a volúpia do caos urbano e induzidos por um ou todos os ingredientes, uns vão e outros se arrependem. E pela doce e curiosa ilusão de conhecer as cores do arco-íris, outros nascem, se acovardam e somem precocemente! Difusão da morte, ou a profusa confusão de respirar a vida?


Contextualização: Nem toda pesquisa que origina títulos, nem todo suor laborioso, nem todo mérito ilusionista, assim como nem todo investimento de vida resultam em fama, celebridade, dinheiro, glamour e poder; conquistas que, ao contrário, podem estar no abrir as portas das entranhas e no remexer as fétidas rumas de monturos depositadas nas alamedas e avenidas. Se não é esta a sua realidade, a sua desejada glória, a sombra de sua verdade, é a da alemã Christiane F.; 13 anos, (atualmente com mais de meio século) drogada e prostituída.

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Final da década dos anos 60. Berlim. Esta foi a capital que, arrastando um coelho de pano pela orelha e ninando uma barbie decapitada e sem uma perna das pernas, Christiane e toda a sua família escolheram para morar. Embora a menina ressabiada, arisca feito gato do mato, estivesse aprendendo a conviver com um turbilhão de novidades, luzes e cores, inicialmente tudo parecia pétalas de rosas sopradas ao vento. Realmente por um tempo foi, pois os dois primeiros condados em que morou pouco interveio em sua rotina de vida. E ainda que não aparentasse, devido o seu visual ainda interiorano, total leveza de espírito e nada de revolução de costumes e hábitos.

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Todavia o quintal-social de qualquer filho é muito além dos limites dos muros impostos pela sua família, que é o ambiente especial apenas para veraneio, a reserva de segurança, o teto protetor contra as chuvas e o sol escaldante, razão pela qual e sabendo-se desta indumentária protetora, Christiane ia aos poucos se soltando e reticente com o tamanho das garras do voraz leão urbano, conhecendo os atalhos frequentados pela pervertida juventude alemã. Em cada confluência de rua uma novidade, em cada passagem pedida pelas sirenes das ambulâncias apressadas algo de interessante lhe sorria, em cada aglomerado de pessoas nas praças e calçadões a representação da depravação conjunta; e à medida que ia à escola, vadiava pelos shoppings, jogava futebol de rua e frequentava os redutos de jovens de sua idade, transmutava-se de uma menina recatada e tacanha de família interiorana, para uma adolescente atirada da capital. Começou a pintar o cabelo com cores vibrantes, os lábios e as faces sempre emplastadas de batom, pó de arroz, rouge. As vestes já não eram de uma moça comportada e decotes escandalosos, shorts cortando as nádegas em duas meias peras, saias e vestidos espetaculosos com as alças caindo propositalmente indicavam o que estava por vir. Christiane mudava de água para o vinho. Ou vice-versa. Ou de gata boralheira, para puta felina. E para chegar ao ápice da vadiagem mundana, faltava apenas rugir, lição que, sem maiores cobranças, as ruas lhe ensinaria em breve; pois sem os menores mistérios, as ruas são os portais de entrada para o céu ou para o inferno. A escolha é opcional e livre; o viés é que as consequências são proporcionais e do tamanho do merecimento do ato praticado.

Enquanto os ponteiros dos relógios assinalavam a correria disciplinada dos alemães, contrário ao progresso e a ordem estabelecida, Christiane acompanhava o ritmo dos compatriotas a passos largos e desenfreados pelos labirintos do marginalismo; e com apenas 12 anos de idade, já era um problema insolucionável para os pais. Fumar haxixe e remédios psicotrópicos (tarja preta) eram insaciavelmente, consumidos por ela. Além de LSD, droga pesquisada por Timoty Leary (guru de John Lennon) e lançada em forma de remédio no combate ao câncer, Valium e Mandrix eram facilmente encontrados nos bolsos de suas vestes. Definitivamente, a adolescente pertencia às ruas e em partes, entregava-se inveteradamente às "boas" influências do marginalismo. E tudo predizia que ela nunca mais sairia do labirinto que adentrara; pois em cada suposta saída, um voraz redemoinho a empurrava para dentro do sumidouro. O lema recitado no Clube dos Apreciadores do Fumo Baependi é: fácil é entrar e conseguir, anuviar a mente, pitar e cair...; difícil é levantar, de cabeça erguida caminhar, fugir e sorrindo, sair. As drogas são traiçoeiras e laçam as presas pelo prazer (falso) e sensação de liberdade momentânea. Depois...

A música, especialmente o rock, rolava solta. O power flower influenciava mentes sãs e doentias, tortas e direitas. Porém, onde desfraldavam a bandeira da paz e amor tremuladas pelo rock, obrigatoriamente teria que ter um boa carga de overdose. Não obstante, enquanto os roqueiros subiam o volume do estilo nas caixas, as drogas evoluíam de peso nas balanças, recriavam os efeitos nas mentes, aumentavam as quantidades ingeridas e era objeto da modernidade. Recém posta no mercado, a heroína rondava as inteligências dos heróis e para não ficar para trás, Christiane solicitou para ela a dosagem permitida para as heroínas. E ao assistir um show do David Bowie, a droga que chegou às furtivas, de mansinho, rapidamente abocanhou-a numa toada só. Não só ela, mas todos os seus amigos foram levados de roldão pela inovação maldita.

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Anotado em diário, a ópera dos viciados abria as cortinas para uma adolescente cada vez mais decadente, viciada e consequentemente, impossível era se desligar das ruas; pelo contrário, Christiane fazia questão de se manter conectada com o perambular intenso e obscuro das noites. Nada a perturbava e por isto, ninguém em sã consciência podia dizer que ela não era uma moça antenadíssima naquilo que a comprazia. Contrário do slogan criado por Timoty, que alerta: "ligue-se, sintonize-se e caia fora", Christiane chafurdava-se cada vez mais nos vícios. Definitivamente, suas cartas eram assinadas como uma viciada irreversível, como uma drogada potencialmente irrecuperável; faltava então, abrir as portas das entranhas para potencializar o aprendizado dos monturos das ruas por completo.

Portanto, ainda que sem maiores habilidades na arte de oferecer a um bom ou mau preço o seu insubstituível segredo, haveria de conseguir; pois, quê mistério há em escancarar o maior tesouro, o enigma dos enigmas, a pérola, a joia que toda mulher traz guardada em um porta-joia, aparentemente, seguro? Para chegar lá, à terra prometida, ao paraíso que pode se transformar em campo minado a qualquer instante, no mínimo dois caminhos são as trilhas possíveis. Christiane se enveredou pela mais fácil, ou pela trilha menos recomendada pelos seus pais; que àquelas alturas já não podia mais ser considerada uma família. Sem a recomendação de médicos, seu pai cozinhou o fígado e o pâncreas no álcool; notando a derrocada, sua mãe se entregou as loucuras do mundo; e a irmã ficara sozinha exposta às incertezas de sua sorte.

A nave taxiava no pátio, pronta para levantar voo. De posse do check-in, Christiane se apresentou ao portão de embarque e por sorte, a documentação estava perfeita e foi plenamente aceita. Encorajada pela sua transgressividade, mergulhou de corpo e alma em seus desideratos; e antes mesmo de identificar o seu assento, levou um copo com água ao banheiro, cuja finalidade era saciar a sede de alguma alma penada que estivesse por lá. Banheiros públicos do metrô eram os points que, tanto ela, como os meninos de sua idade frequentavam à procura de amores profanos e escandalosamente, indecentes.

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A dependência química é a desgraça que achaca inteligências e destroça emoções, pondo tudo a perder... ou a ganhar. E à medida que o vício a tomava de assalto, Christiane passou a fazer tudo para comprar a maldita heroína. Relatava para quem quisesse ouvir que, no início se dava ao luxo de selecionar os clientes e se limitava a masturbá-los ou praticar sexo oral. Porém, provocada pela volúpia química das drogas, com o sistema nervoso abalado pela falta de algo e a vontade incontrolável de "tomar na veia", o que fazia várias vezes ao dia, qualquer "bofe" que se apresentasse, seria agraciado com um dos buracos de seu corpo surrado e arrombado pelas picadas. Descobrindo o real significado e utilidade, a vagina era o meio, o fim e a maneira mais viável de alivar-lhe do caos diabólico imposto pela dependência química que lhe corroía o psiquismo. Prostituía dentro de carros, debaixo das árvores, enrolada em cobertor, às escondidas debaixo de pontes e viadutos. Desde que conseguisse uns levados para comprar um papelote, os raios de sol ou o negrume da lua era o que menos importava. Nada a impedia de prostituir; porém, para o seu descontentamento e infelicidade, os desmancha-prazeres da disciplina e das leis a descobriu e depois de muitas e idas e vindas, em 1977 foi presa, acusada de tráfico e consumo de drogas.

Na década de 1980, o livro virou um filme e Christiane não só era drogada e prostituída, como também se tornou celebridade mundial. No dia da pré-estreia, a sala estava repleta de pessoas ilustres; dentre elas, David Bowie, seu ídolo preferido. Ao sair do anonimato dos monturos das ruas, Christiane tornou-se amiga de muitas lendas da música como Nick Cave. E para não perder a mania e o vício, frequentava festas com integrantes do AC/DC e Van Halen. O rock também compunha as notas, tanto de sua predileção musical, quanto das drogas.

Se as drogas transportam, a prostituição é o passaporte e ambos se completam, voam em direção ao inferno existencial; recinto que todo humano possui, pelo menos um, em seu íntimo. Notabilizando-se como uma feliz realizadora, pelos indícios, história e conquista, Christiane possuía vários.

Concluindo a pequena e abundante história de Christiane, quem lhe fiou o passaporte e conferiu-lhe o visto de entrada no território dos drogados que buscam o caminho para a redenção das "cabeças feitas", não lhe permitiu voltar à terra dos normais e caretas. Sobre a questão da prostituição, esta indifere, pois a beleza das curvas e a lascívia feminina possuem prazo de validade e após vencidas pelas adiposidades, pelas rugas e as fuligens do tempo, pelas flacidezes e pelancas, que como jacas podres, despencam dos galhos da árvore da ilusão. A vida não passa, senão, de sonhos aventurosos, os quais as mãos tentam alcançar o vazio das nuvens. Pressupõe-se portanto, que após passado meio século de vida, (tarde ou não) provavelmente, a mulher que desafiou os convencionalismos de sua época saiba desta ferina e invencível realidade. E não há outra; pois o resultado está escancarado na cara.

Quê a sua ousadia ou a clamorosa falha de entregar-se aos monturos e facilidades das esquinas das ruas, sirvam de exemplo para aqueles que representam os novos, ou os velhos tempos! Afinal, pelas vias normais buscadas pela maioria, certo é que, o futuro e o poder percorrem as trilhas sinuosas e incertas das opções do livre arbítrio. Todavia, afrouxe o cinto, deixe-o folgadamente largo, porque as consequências são proporcionais ao que se quer e procura, ainda mais porque, no reino humano, toda e qualquer mercadoria tem um preço. Elevado ou não, o tempo dirá.

P.S.: Com mais de meio século nas costas e poucas esperanças de emancipar-se das drogas, Christiane revela abertamente que continua consumindo metadona, maconha e álcool em doses incontroláveis. Relata ainda que devido ao coquetel holístico de drogas que toma regularmente, contraiu cirrose e também hepatite C. Sente fortes dores no corpo, mais exatamente no fígado e sabe como ela só, que a qualquer momento irá morrer; porém até a última entrevista, abandonar as drogas, jamais. Quem sabe um dia..., mas obrigatoriamente, terá que se divorciar de seu único e impossível amor em vida.

Com o intuito de causar impacto negativo, esclarecer, assustar e amedrontar a juventude sobre a delinquente viagem só de ida em busca do vazio proporcionada pelas drogas, a história de Christiane foi paulatinamente passada e repassada nas escolas alemãs.


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