ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

O pantanal Mato-grossense revelado por Almir Sater e Comitiva

Não é sempre, não é em toda década que brota do solo Brasilis, um brasileiro genuinamente filho da pátria, com visão de águia para as suas raízes; que se sensibilize, orgulhe, admire e invista em seu povo; que enriquece o vocabulário, a cultura regional e brasileira, como fez e faz o violeiro, seresteiro, compositor e cantor, Almir Sater. Esse Senhor Mato-grossense de fina elegância no trato com as coisas de sua terra, pode ser comparado a flor de lótus, cuja bela flor, enobrece o alagado do pântano.


comitiva.jpg

Almir já havia presenciado muitos pores-do-sol; acompanhado de perto pela sua sombra, feito serenatas para luas vagas; desafiado o rugido de onças; dormido sobre a cauda de jacarés; atravessado estreitos igapós de canoa; embalado pelo crepitar da lenha ardendo em chamas, ouvido muitos casos de mula sem cabeça; embebedado seu imaginário nas fantasias de homens simples, os quais o toco de cigarro no canto boca é a centelha luminosa da esperança; aprendido o gorjeio dos pássaros e viajado no trem da morte até Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. Contudo, o "caboclo" ainda possuía os fios de cabelos pretos na cabeça, o amor pelas coisas de sua terra no coração e a esperança da reconquista; portanto, sob os mandos da renovação sem porteiras teria que continuar correndo o trecho à procura de esquecidos oásis. Sobretudo, o pantanal tinha muito mais o que ser visto por olhos perspicazes. E num dia qualquer, daqueles de lua cheia que beija as águas e sob a serena placidez do banhado, dorme os raios dourados do sol; ou daqueles de céu alvejado pelas estrelas; ou de chuva torrencial que lava os pecados das almas penadas, Almir pegou a viola, botou na sacola e com espírito de desbravador, rumou para mais uma viagem aventurosa pelas terras que alternam abundantes inundações em certas épocas do ano e vorazes secas em outras. Assim feito, restava apenas hastear a bandeira da Comitiva Esperança pelos recônditos do Pantanal Matogrossense.

Almir e a Comitiva saiu com a Esperança de encontrar estradas velhas que servissem de novos desvios, por quais o comboio de animais, às vezes harmonioso, às vezes atropelado, pudesse pisotear. Contudo, o inverso da mesma conquista dispõe que os desvios encurtam, diminuem o tempo vida, tanto do vaqueiro, quanto da boiada. Enquanto os dicionários estampam o significado da palavra companheirismo, na vida real, Almir materializa-o. E como músico, ele sabe como ninguém que o concerto não acontecerá conforme proposto, se não estiver acompanhado por uma orquestra afinada, rítmica, bem ensaiada e amigável. Pensando assim, em 1983, ele, o violonista Paulo Simões e o rabequeiro Zé Gomes, firmaram parceria para levar a plasticidade musical, a simplicidade que lhes são peculiar e o contentamento da prosa, para os amigos pantaneiros que viviam socados nos cafundós; bem como, ouvir deles as (hi ou es)tórias daqueles arrebaldes inóspitos, os quais poucos homens arriscam morar. Se para Euclides da Cunha "o sertanejo é antes de tudo um forte", para Almir, o pantaneiro é acima das expectativas um homem valente, arrojado e destemido; não por ser rústico e bronco, mas por saber lidar com a boiada, dominar miríade de cabeça de gado nas longas travessias. E para conseguir êxito e evitar o estouro da boiada, a música raiz está para o matuto da grota, como o aboiar está para o recato da boiada; e ao ouvir o som agudo do berrante, a manada estaca em sinal de respeito e obediência. Quem nasce e luta bravamente a vida toda pelos mesmos ideais, sabe de cor e salteado as cores e texturas das pedras, bem como conhece as intimidades, os mistérios e os pormenores da entranha que o pariu. E o mais admirável: não nega a sua família, nunca!

Esse tipo de aventura e desvende do desconhecido pela população urbana, além de resgatar os costumes do camponês, os hábitos e a fala do matuto, tem por finalidade também retratar a imensa riqueza cultural e a sabedoria popular. E não só isto, visa manter e valorizar as tradições de cada povo "pesquisado". Dando a devida importância ao trabalho de quem se propõe a tarefa de tatear o insólito, desbravar o "perigo" e mapear o inóspito, a experiência traz à tona o prazer de dever cumprido e soberba contribuição para o sentimento de brasilidade. Aliás, em 2010, o fotógrafo Sebastião Salgado declarou à revista "Serafina", que "Nós (brasileiros) abandonamos nossa ligação com o campo, com a natureza (...)".

No século passado Rousseau deu seu parecer sobre a frágil necessidade do homem em relação aos elementos a Natureza: "os homens no estado natural são livres e iguais e não possuem propriedade; cada um contenta-se com as dádivas da Natureza [...]”

O que não é realidade para nós brasileiros, principalmente, depois da evasão ruralista. A desnacionalização agravou-se ainda mais em meados do século passado com a invasão americana, que passou a "dominar" a moda e o cinema, dentre outros. De todos os segmentos artísticos, a música foi o que menos se rendeu ao americanismo; afinal, a M.P.B e a música sertaneja de raiz (detesto este rótulo desarticulador de originalidade; indutor ao erro) era extremamente potencializada. Como toda insatisfação e resistência se compra, o movimento cultural-musical foi quase que totalmente "alugado pela dolarização". E o sucateamento cultural-musical se esparramou vertiginosamente por todos os condados do país.

onça.jpg

Com as tralhas e a matalotagem devida encaixotada, os três amigos saíram para mais um passeio estranho e inusitado. Todavia, se classificado pelos poetas, fariam uma viagem para dar voz a mundos simples, inocentes e mudos; cuja travessia seria feita sobre lombos de animais, na proa de embarcações e no abrir o compasso das pernas nas longas caminhadas. Durante os três meses de vida livre em meio às maravilhas pantanenses, os três amigos espiaram várias espécies de animais, arrancharam-se debaixo de imensos sombreiros de árvores centenárias, dormiram ao relento vigiados de perto por famintas onças e outros animais ferozes.

clip.jpg

Durante os mais de 1000 quilômetros de pura aventura e êxtase, ouviram relatos de pantaneiros, os quais os seres superiores do planeta tem o direito de duvidar, mas os comuns da Terra, jamais; e numa roda fumegante pelas línguas de fogo que subiam incontidas, os três se arrepiaram ao ouvir de um matuto, que jurou de pés juntos, que já esteve bem próximo da Lua. Verdade ou devaneio de caipira, o pantanense confidenciou-lhes categoricamente que, mais ou menos aos sete anos de idade, um bando de sujeitos lunáticos, pequenos e luminosos desceu de uma nave volteante e o raptou. Pêgo pelo braço, foi jogado dentro da máquina luzidia. A nave alçou voo, passou por lugares estranhos, crateras esquisitas, até que por fim, chegaram próximo ao satélite natural da Terra, que é a Lua. A Comitiva ouvia atentamente e lembrando Shakespeare que fez questão de salientar que "existem mais coisas entre a Terra e o céu, que sua vã consciência imagina", sovelavam um ao outro, sem que o sertanejo visse. Afinal, fatalmente ele nunca ouvira falar sobre o dramaturgo, mas naquele momento seu intelectualismo e sapiência eram mais verdadeiros que os do escritor.

marrua.jpg

Em 1984, o cineasta Zuza Homem de Mello, juntamente com o mentor do projeto produziram o documentário "Comitiva Esperança". Em 1990 a extinta Rede Manchete de Televisão exibiu "Pantanal", uma das novelas de maior audiência no país e exterior. Escrita pelo polivalente novelista Benedito Ruy Barbosa, em parte a trama se passa nos recantos do pantanal. E como tal, retrata os costumes, as vivências e o misticismo presente no cotidiano dos pantaneiros. Inicia-se, então, com José Leôncio - personagem interpretado por Cláudio Marzo - e seu pai saindo para caçar Marruás, um espécie de boi selvagem que circulava livremente pelas florestas da entorno de onde residiam. Um dado dia, Zé Leôncio viajou com os peões em comitiva e recomendou ao seu pai que não fosse caçar o bicho selvagem sozinho; entretanto, o teimoso Joventino - também interpretado por Cláudio e outro ator - não acatou o pedido do filho e saiu para caçar o bicho danado, porém, embarafustou mesmo foi com o infortúnio, culminando com o sumiço do velho Joventino no imenso deserto aquático pantaneiro.

atriz.jpgÀ época, Juma Marruá - Cristiana Oliveira - desafiou o puritanismo dos não deflorados ao apresentar parte da nudez feminina pela primeira em uma novela brasileira. A imagens expondo a sensualidade da atriz, as exuberâncias do pantanal, os cenários e a trama garantiram sucesso absoluto de audiência da novela.

Embora não tenha nenhum registro que ateste o descrito a seguir, imagina-se que parte da trama da novela Pantanal tenha sido inspirada no projeto "Comitiva Esperança", réplica de vida e trabalho dos pantaneiros. As participações de Almir, Sérgio Reis e Renato Teixeira fazendo o papel de estradeiros, contadores de casos ao redor de fogueiras, preparando o arroz de carreteiro debaixo dos sombreiros, trovando as coisas da Natureza para aboiar a manada de rezes e gritando a independência e liberdade do pantanal, dão evidências da catarse proposta pelo enredo da novela.

Em contrapartida, de maneira indireta e lúdica, a Comitiva já dava sinais da devastação do bioma pantanense, o qual enormes áreas foram desmatadas, unicamente para o plantio de forrageiras para alimentar gado e soja. Inapelavelmente, desde a passagem da Comitiva, foram registrados mais de 700 quilômetros quadrados de desmatamento. Fora os problemas ambientais mais comuns, o desmatamento causa sérios danos à cadeia trófica.

P.S.: Excetuando as muitas e corriqueiras atividades, atualmente Almir preside o Grupo de Incentivo à Cidadania e Qualidade de Vida - Viver Bem. Inaugurado em 1998, além da relevante contribuição social, o projeto assiste mais de 150 alunos e mães em um espaço de aproximadamente 350 m². Orientado pelos voluntários e professores, as crianças tem aulas de balé clássico, jazz, informática, inglês, ginástica, bordado, organização doméstica, engenharia de alimentos, maquiagem, Kung Fu e bordado em máquina. Completa o desenvolvimento de cultura e apoio à cidadania promovidos pela O.N.G, uma biblioteca com inúmeros títulos disponíveis para leitura e pesquisa. Nos espetáculos, as crianças cantam a música Comitiva Esperança, composição de Almir e Paulo Simões.

Fotos livres retiradas do Google imagens


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious //Profeta do Arauto