ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta"

As várias maneiras de se construir um Feliz ano Velho

Verdadeiramente próspero, autenticado pela felicidade e compadecido pela paz é o espírito, cuja essência guarda, carrega, acalenta e aquece os corações carentes, singelos, necessitados, frios e descrentes.


Em qual confins de mundo foram parar o Lula, o Ferreira Gullar, o Raul Seixas, Dom Paulo Evaristo Arns; o Cazuza que queria uma ideologia para viver; o tudo a temer, do Michel Temer; o Ayrton Sena, a Dilma Rousseaf, o Fidel, o Michael Schumacher; e as vítimas do acidente aéreo com a equipe da Chapecoense, que nunca mais falaram deles? Sabe leitor amigo, é que estou procurando a recompensa por valorizar as verdades dos loucos; bem como, o galardão por tentar desbaratar a hipocrisia e mentiras dos normais.

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De certo modo, o Quero-quero é uma das aves mais inocente, ingênua e displicente da ave-fauna brasileira. Com essas características, como pertencer, como sobreviver com tanta simplicidade e desprendimento em habitats rudes, selvagens, inóspitos, perigosos, como são os ecossistemas (des)humanos?

A gênese

No princípio tudo era luz, beleza, cores e vaidade.

Movimento intenso de carros transitando pela rotatória. Divisada pela geometria das guias e o negro do asfalto, a aparada cabeleira da grama verdejante espraia-se em várias direções; tomando o cenário quase que por completo. Em um ponto ou outro, um maço em forma de bouquet emerge do solo. Flores multicoloridas saúdam os transeuntes. O perfume primaveril cobre as imediações. Como não bastasse o cinza que sobe dos escapes e o ruído infernal, ali é local de práticas esportivas. A pureza do ar e a poluição particulada se fundem numa mistura tóxica difícil de ser digerida pelos pulmões, quem em princípio e a serviço do árduo ofício, deveriam ser de aço anti-oxidável.

Os escravos do relógio e os Adonis e Afrodites da vaidade e beleza correm para cá; correm para lá. De repente um grito: "vamos, intensifique! Mais rápido... se portando como lesma, como bicho preguiça, como quer ganhar a prova"? Entre a resignação, a obstinação e a ira, querendo atropelar o mundo, o fulano parte em desabalada disparada. Novo grito e ele para para tomar fôlego. Um sonoro bufado semelhante ao resfolegar do cavalo de corrida sacode a estrutura óssea que sustenta seus músculos e carne. Ainda ofegante, com o coração querendo escapulir pela boca, sai em disparada novamente. Triste sina desse fulano que além de correr contra o relógio e competir pelo status quo, se quiser ter sucesso perante o seu circuito de amizades e familiares, tem que matar os adversários nas competições. Chegar em primeiro e subir no podium para estourar o litro de champanhe representa o seu reinado. Mal sabe ele, ou não quer enxergar, que correr honestamente pela sobrevivência, sem usar trapaças, surrupiar os adversários, corromper os juízes, já é uma fenomenal vitória.

Provavelmente seu palavriado não passe de coisas sobre o atletismo; cotidiano; datas; cotidiano; atletismo; datas. Esses esportistas não pensam em longevidade, apenas em treinos e nas datas da competição. Pobres de espírito e inadvertidos de sentimentos, desconhecem as muitas vidas que transitam, ocupam o mesmo espaço, o mesmo ecossistema que o deles. Quem presencia o movimento contínuo e acelerado, dá uma forcinha para os atletas: "corram, disparem, deixem o coração escapar pela boca fulano, porque o Fim de ano se aproxima, bem como a Corrida de São Silvestre; seus escravos! Ou preferem continuar com esse monte de anéis adiposos dobrado nas cinturas? Vamos, quadris largos, corram"! Obediente, eles saem cegos e agalopados sobre as duas pernas. Dois ganchos torneados, dois cambitos depilados, correm em disparada sem saber onde é a linha de chegada da vida. O mesmo ocorre com a morte que é cega e surda; porém extremamente frágil e educada, ininterruptamente necessita de ajuda. "Por favor, queira ajudar-me a atravessar a avenida! Oi, alguém ao meu lado, cadê todo mundo?"

À beira da guia um vivente esparrama-se em cima de dois ovos. Salvo os percalços e os contratempos naturais, a incubadora natural trará à luz do sol, da lua e dos pingos de chuva mais dois pernalongas. Circulando como o sentinela que vigia os portões do palácio do rei, outro ser da mesma espécie está em constante vigília. Suportado pelas pernas secas, feito duas varetas finas, move ao redor da família. Enquanto ela, a fêmea está fragilmente cobrindo os ovos, ele o macho, ronda a cavidade que ambos trabalharam penosamente para esgaravatar com as unhas. Simploriamente, esses animais amigos do perigo fazem seus ninhos em lugares abertos e desprotegidos.

Como são aves que não voam alto, seus hábitos são rasteiros, motivo de aninharem em lugares que desafiam a fome dos predadores; obviamente, que os répteis ovíparos são os seus piores inimigos. Em determinadas casos, a criação natural foi cruel com certas espécies de animais e elas que se superem para defender o patrimônio; caso contrário, a extinção dos indefesos é farta alimentação para os inimigos. Tai o porquê o macho circula incansavelmente o ninho e à minima ameaça, abre as asas mostrando a defesa, que são os pontiagudos aguilhões em formato de esporão. Se não respeitados os primeiros ensaios, o ataque é inevitável. A ave levanta voo e flutuando acima do solo em aproximadamente um metro, toma distância e volta voraz direção ao inimigo. E em condições extremas, cavuca impiedosamente o predador. Para a espécie, esta é a lei e único meio de manter a sobrevida da prole. Porém, se o predador for mais forte que os seus instintos, o macho estatela a cauda ao redor do ninho, fingindo que está morto. Aliás, esta é uma estratégia da maioria dos animais frente ao predador feroz; afinal reconhecer a fraqueza perante o mais forte é sinal de humildade e preservação da vida.

O quero-quero, cujo nome científico é Vanellus Chilensis, faz parte das espécies da família Charadriidae. Popularmente, a ave é conhecida por vários outros nomes. Prestimosa com o seu meio, chamada de "Espanta boiada", devido o seu intenso e retumbante alarido, é uma ave muito querida pelos fazendeiros; pois ao notar a presença de estranhos nos campos de pastagens, dispara o alarme de aviso. A ave não permite de maneira alguma intrusos em seu território e nas fazendas, beneficia várias outras espécies que dividem o espaço com ela. Semelhantes aos gansos que são excelentes guardas e estão sempre de prontidão, há casos de empresas que mantém bandos de Quero-quero nos arredores de seus limites para esta mesma finalidade.

Por outro lado, a ave empresta seu nome aos poetas sertanejos, que criam magníficas canções; como a estrofe da letra composta por Barbosa Lessa:

" Quero-quero, quero-quero / Quero-quero gritou lá em cima / Quero-quero quando grita / É sinal que alguém se aproxima".

Se para os pais os perigos são iminentes, para os filhotes o direito à vida não é tão assimilável como acontece com outras espécies e logo nos primeiros dias, são obrigados a deixar o ninho e acompanhar os adultos. Embora "protegidos pelos pais, e uma vez que o habitat são lugares planos, além do risco dos predadores carnívoros, ficam suscetíveis ao pisoteio de animais e humanos. Não raro, com a bola rolando, muitas pernas em movimento e a multidão gritando, um ou outro filhote é encontrado em campos de futebol.

O Apocalipse

Espalhadas pelos recantos da Terra / A morte, a ganância e as guerras / Vindas das trevas / Através delas, o ciclo da vida se encerra!

E eu, como me porto diante da multidão de estranhos que caminha ao meu lado? Assim como cada um que compõe a multidão, estranhando-a. Solto devoradores rosnados. Se não fogem, ataco-os. Quanto mais possível for, busco o respirar que asfixie os demais. Queria eu ser o único a respirar todo oxigênio do planeta. Egoísta, quero todo o ouro das minas e as rumas de monturos para mim. Quero, quero, quero! Não entendeu: quero, quero, quero! Se você não pode ser a presa para enfeitar a mesa na minha santa ceia natalina, saía da frente sem demora! Muito ajuda, quem não atrapalha! Quero, quero, quero! Perdeu, perdeu, perdeu! Quero, quero, quero!

Sigo apressado em direção ao tudo. O caminho que leva ao tudo, é o mesmo que leva ao nada. Dizem ser minha família, irmãos, semelhantes. Vorazmente e implacavelmente, tenho que matá-los para não morrer. Somos pensamentos idênticos. Para mim, a vida é feita de selvageria e nada de pedaços de céu. Sou um Adonis fora de época com os mesmos princípios do deus grego. Meu corpo é talhado pelos pincéis da imaginação. Por vezes traidores e falsários, não acredito nos espelhos; mas acredito piamente no meu poder de sedução. E é através da sedução que abocanho as minhas presas. Prendo-as em minhas teias. Além do engabelamento e enganação, sou a pétala, flor que não deve ser cheirada. Tudo de mal, nada de bem. O néctar dissoluto da maldição. Fel fervilhante corroendo emoções. Devasso racional em ação. Revelado em mim, o serial killer que sofre calado por não poder se declarar em minha imagem e semelhança.

Minha consciência é negra. Ato e não desato. Enforco e não me arrependo. Eu sou: o engodo político; a passagem revirada de fim de ano; o passado sombrio; a borrasca marítima; a dívida (leia calote) contraída e não paga; o céu coberto pelo cinza; as falácias de Papai Noel; o avião em queda livre; a tornozeleira usada pelo ladrão; a bomba espalhada; vampiro, ladrão e corrupto do sangue e do suor alheio; o câncer necrosado; o indulto dos honestos; as balas de revólveres à procura de alguém; as lições do absurdo; a ferida em carne viva mostrada pela ponta afiada do punhal; a religião e o que crê o religioso; a confraternização da santa ceia natalina em família; o ínfimo ponto de luz da droga que queima nos escuros dos becos das ruas e terrenos baldios; o chumaço de dinheiro na cueca; o racismo apresentado através da galinha preta da macumba, em oposição a pomba branca da paz; o feto do estupro bem fodido; as obras do caos; o lúcifer fingindo ser um anjo Gabriel de terno e gravata; o perfume alucinógeno; o consumo nosso de cada dia.

Não sou e jamais quis ser empático. Assim como escondo minha face de facínora, não sou afeito a alteridade. Por que ser aquilo que vai aos poucos ganhando espaço em outras áreas de pesquisa humana, se de humano não tenho nada? A significação da alteridade insinua que todo homem que interage socialmente, não existe sozinho e por isto, a existência do outro é também a sua existência. Apregoa que na relação entre os humanos, a interdependência dos extremos, faculta os meios e ambos, passam a existir e terão as suas necessidades, tanto primárias como secundárias, atendidas. Quê coisa mais tola, quê ideia mais vil! Parece que estudaram apenas o lado bonzinho dos pássaros, dos animais, das aves e do infame quero-quero para formalizar tal teoria. Porém, ingênuos, de bonzinhos o inferno está abarrotado. Aliás, para ampliar os seus domínios, o anjo Gabriel de asas caídas está leiloando as dependências do céu. 2/3 das dependências estão dominadas.

quero.jpgA displicência e ingenuidade possuem um conjunto de limites e regras naturalmente estabelecidas. Quando ultrapassadas e desrespeitadas, os adultos fazem o impossível para defender a geração futura, para defender a harmonia do espaço. Esta é a lei instintiva de sobrevivência entre as espécies. Porém, há de considerar-se que algumas são mais evoluídas e mais fortes que outras.

A fase intermediária

O imaginário é a ponte por onde transita a inspiração. Contudo, somente a realidade permite a que embarcação condutora das verdades navegue os rios das incertezas, sonhos, falsidades e mentiras.

As espécies se expõem, se sucumbem, se devoram diante da complexa realidade desumana. Desde que nascem até a última agonia de morte e não são poucas, pois não apenas presenciam a derrota: habitam em meio a uma multidão destruída; são obrigadas, sim, a lutar pela sobrevivência insanamente. E se dizimam outras espécies, não é pela questão da aniquilação pela aniquilação, mas porque precisam viver e respirar, o que é impossível sem o alimento delas de cada dia. Toda e qualquer espécie, exceto a humana, comete o ato da destruição, só e somente, pela sobrevivência. Nada mais justo.

A maior obrigação dos pais, da sociedade, do poder e outros responsáveis sociais é preservar, manter a integridade, o bem-estar e o maior de todos os valores e de todos por direito, que a Vida. Porém, segundo o provérbio Judaico, "A Humanidade encontra-se num estado de inclinação para fazer o mal e de incapacidade para escolher o Bem em vez do Mal". Por sorte, os Quero-quero continuam chocando os seus ovos nas campinas e renovando a esperança de dias melhores para a prole. Graças a Deus por ter implantado o seu projeto com tamanha perfeição. Se o destroem, é mais pela obtusidade e incongruências cotidianas, mais pela falta de talento e sensibilidade para o simples, do que pela miopia e catarata natural das vistas.

Um fim de ano obtuso e incongruente como este, acontece de Norte à Sul do país o ano todo. É para sempre e Jesus Cristo faz questão de tapar os olhos! Em compensação, o Papai Noel charlatão enche o saco de badulaques e gargalha de satisfação; afinal o mau velhinho usa as criancinhas para endividar os pais e os adultos; e o pior, ainda roubam-lhes o trabalho. Ademais, esse Senhor bonzinho com sua barba branca contumaz engana os humanos e o mundo, menos os filhotes de Quero-quero. Estes despertaram para as falcatruas de seu habitat bem antes da existência deste senhor vendedor de ilusões, sonhos e de nenhuma valia social.

Conclusivamente, para os indefesos, mais fracos e debilitados, a fase intermediária pode não existir: é sonhar que estão nascendo e despertar com a morte! Motivo dos filhotes de Quero-quero abrirem os olhos para os perigos do mundo logo que saem da casca do ovo.

P.S: esta é a homenagem, os parabéns, a mensagem de Fim de Ano do P.A para os ingênuos que ainda que creem que o ecossistema humano não é uma tremenda dicotomia; quando não, uma estúpida hipocrisia personificada pela maquiagem. Se realmente quisermos um mundo melhor, não em 2017, mas sempre, quê mudemos radicalmente os nossos atos, descruzemos os braços, quê aprendamos com os elementos da Natureza e trabalhemos coletivamente para tal; caso contrário continuaremos nadando, patinando na criação dos neologismos, que tudo explicam, mas que não resolvem os didáticos e velhos problemas. Sorte, saúde e sucesso e que Deus nos proteja; porque a cobra fumou, a onça saciou a sede e a porca torceu o rabo faz tempo!


Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta".
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