ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

O Arquiteto da banda Quaterna Réquiem é uma homenagem a Niemayer

A toada tocada aos galopes pelas guitarras das ambulâncias e o tropel de passos apressados urbanos não permitem mais olhar e ouvir a simplicidade do réquiem tocado pelo violino. Tudo, até as nuvens, correm rumo ao frenético. Ao caos aloucado; mas, representada pelo Rock Progressivo, o violino da música de câmara permanece respirando a calmaria do arrebol crepuscular.


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O concretismo presente na capa:

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No alto, bem no alto, quase no topo do estúdio um quadro meio ovalado à deriva. Revoltosas ondas revoltosas, num vai-e-vem ululante, faziam-lhe de pêndulo. A moldura metálica é fundida pelo erudito e símbolos medievais. Representação de um passado que jamais retornará à cena artística? Balançando feito uma mandala doida, o prego reluta com toda as suas forças para segurá-la. Protegê-la. Centrado ao fundo, uma embarcação sofre as consequências de um mar agitado. Um pirata observa o aderna não aderna da embarcação. Arrepios. Desespero. Estupefato e amedrontado, seu chapéu ameaça fugir em debandada. O farol se apaga deixando-o a mercê do lampião que sob os arremedos do vendaval, faísca uns fiapos de claridade bruxuleantes. Insignificantes fiapos de luz que prenunciam a luz no fim do túnel. Sobretudo, a beleza acanha-se perante a revolta. A tormenta, além de atormentar a paz, é o belo ofuscado pelo caos delirante!

Indiferente aos acontecimentos, apoiado nas patas dianteiras, o cão descansa o corpo sobre a cauda do rabo. Animais domésticos vendem caro as sutilezas da passividade para o seu dono e dentre elas, estão os rompantes de quando mais precisamos deles, negam o fogo do auxílio. Vagabundos divagadores que olham o perigo, o desabar do mundo e não faz nada para segurá-lo. Esses desumanos valem a ração que comem? Furiosas, as avassaladoras tormentas se quebram contra o monumento rochoso. A árvore, a pálida e desesperada árvore, não suportando o alvoroço marítimo, inclina seus galhos em direção ao precipício. Bem longe dali, na parte de baixo da moldura, em letras garrafais, a inscrição "Velha Gravura" é quase um epitáfio. O quê o passado, o presente, a descrição da capa e tudo isto significa?

Primeiro álbum:

Implicitamente, numa jogada de marqueting, a aparência externa "identifica" o conteúdo do produto. Assim como a roupa veste por fora o executivo ou o mendigo que está por dentro dela, ao revelar algumas coisas da época medieval e erudita, tacitamente o quadro mostra a música, o estilo e a fonte em que Elisa e seu irmão Cláudio Dantas, fundadores da banda hidrataram suas inspirações artísticas. Ambos retrocederam no tempo e trouxeram à tona a erudição do clássico nas composições. Entende agora porque as bandas de Rock, principalmente as de Progressivo, se comunica(va)m previamente pelas capas? Antes de fazer a criação da capa, o artista plástico toma conhecimento das letras e prevê como a musicalidade será a veículo de transporte ao inusitado. E ainda que fúnebre, tudo tende à perfeição. Como não? Em certos casos, a negada morte tem lá seus traços de perfeição e merece respeito e carinho de quem alinha as suas inspirações aos seus conceitos e realidades.

Estudando um pouco mais a relação da capa com o trabalho da banda, a palavra gravura é o processo de impregnação, fundição, gravação da imagem escrita sobre a superfície de certos materiais. Provavelmente parente próximo da pintura e unindo criatividade com o trabalho manual, a primeira gravura será a matriz, a qual originará outras peças de semelhança máxima. Esta era uma atividade muito, mas muito antiga, ainda numa época que o trabalho manual e a criatividade eram requisitos básicos requeridos pela pura inteligência e percepção das coisas. Era ver o que fosse, a imagem e semelhança era reproduzida.

O elementar que se deve saber sobre a banda:

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Liderada por uma mulher e embrionário do Rock Progressivo clássico-sinfônico, em 1989 nasce no Rio de Janeiro a banda Quaterna Réquiem, (quaterna significa: quatro e réquiem: repouso) que à época contava com a participação dos irmãos citados e Kleber Vogel no violino; músico que além de integrar a banda, fazia parte da Orquestra Sinfônica Brasileira. Jones Júnior na guitarra e Marco Lauria no baixo juntaram-se aos três. Especialmente para o engradecimento da banda, variação das notas e ajustes sinfônicos, Roberto Meyer nas flautas e Adauto Vilarino no oboé. Com esta formação e acima de qualquer expectativa, um ano após formada, a banda lança o "Velha Gravura". A obra, além do raro bom gosto musical nas composições, é uma vintage artística e instrumental de primeiríssima qualidade.

Neste primeiro álbum, considerado o melhor de todos, Elisa Wiermann esbanja conhecimento de música clássica. O instrumental é regido pelo rugido mágico do violino de Kleber Vogel do início ao fim. Som puríssimo, original, sem emendas e acidificado pela inconstância das quebras de notas; marca registrada do Progressivo. Uma portentosa e memorável obra que está acima de muitos trabalhos de bandas aclamadas pelos europeus; continente que produz o melhor do gênero.

O Rock Progressivo brasileiro estava em alta e um dos motivos era os poucos shows de bandas europeias em Terra Brasilis. E apesar da exaustiva contribuição e engajamento da banda no movimento M.P. do B, (Movimento do Progressivo do Brasil) o grupo se separou, sobrando apenas os irmãos e fundadores como remanescentes da banda. A reestruturação foi inevitável; e com ela, muitos músicos passaram pela banda. Para piorar a situação, Kleber também saiu, levando consigo alguns músicos. A dissidência quase que total do Quaterna gerou a montagem do grupo Kaizen.

Inspirado no protagonista do livro "Corcunda de Notre Dame" a banda lança em 1994 o álbum "Quasímodo". Visando retornar à uma época remota, a faixa principal contém 39 min e mais uma visão inspirada no romance Nossa Senhora de Paris de Victor Hugo. Para alento daqueles que primam pelo fantástico em forma musical, a execução da peça conta a participação especialíssima de um monge beneditino. O conjunto da obra é raro, belo, único e de uma expressividade fora do comum. Neste, a guitarra ficou por conta do competente Roberto Crivano; dedilhando alto Fábio Fernandez no baixo.

Talvez pelo puritanismo do clássico-erudito, embora tenha sido elogiado pela crítica do Progressivo brasileiro, o álbum não foi unanimidade (mais pela exigência dos críticos, do que a obra em si) quanto o primeiro. Porém, bastante interessante no tocante ao som produzido pela bateria no contratempo e as constantes batidas das baquetas contra os pratos. No geral, o álbum é transcendência e vale a pena conferir!

O homenageado:

Prestando uma justa e merecida homenagem a Oscar Niemayer, o terceiro álbum viria mais tarde, cujo título é "O Arquiteto". Respirando os seus últimos dias, ao tomar conhecimento da obra do Quaterna sobre sua profissão e trabalho, Oscar retribuiu em palavras: "Além de agradecido pela gentileza de uma faixa musical dedicada a mim, constatei que o CD "O Arquiteto" lançado pelo grupo musical Quaterna Réquiem mostra a capacidade de suas músicas em ver e sentir a arquitetura do mesmo modo que sua própria música. Um projeto da mais alta qualidade e conteúdo artístico, que muito me agradou." - Oscar Niemeyer: 15/04/2012.

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Este álbum marca o retorno de Kleber ao violino. E não faltava mais nada, apenas ouvidos para apreciar aquilo que um mestre do belo, como Oscar sugeriu; afinal as sensibilidades das mãos e ouvidos se comunicam pelos traços da geometria, associado às cifras matemáticas das notas musicais.

Para quem conhece de Rock Progressivo, guardada as proporções, ao ouvir o "Quaterna" logo dirá que o trabalho da banda é uma réplica perfeita de certas bandas de Progressivo italiano. Ouvido, visão e versão de cada um.

O retorno:

Retornando ao primeiro álbum, a faixa "Ramoniana" é um primor musical, em que todos os instrumentos em consonância com as notas, transporta o ouvinte para o sideralismo além do tempo. Incluindo o sopro singelo de um oboé, impossível é não desprender-se da matéria e num transe incomum, voltear o mundo durante os 6 min de duração da peça. Em seguida vêm "Aquartha". Música estranha de título, mas que completa a travessia virtual de uma nau sem rumo. A terceira é "Velha Gravura". São mais de 10 min de fusão e variação instrumental. Na opinião de quem escreve o artigo, disparadamente, ambas representam uma das melhores trilogias instrumentais-progressivos já produzidas no país. Salutar obra-prima para os tempos conturbados, como vive atualmente o Rio de Janeiro, momento por qual o país atravessa; o que deveras, é uma nau desgovernada à deriva, prestes a adernar. Contudo, não será desta vez que o apocalipse da malidicência musical tomará para si o país, pois o réquiem Progressivo da banda carioca, liderada por Elisa Wierman, foi criado para defender aqueles que apreciam a indecifrável música erudita-sinfônica.

P.S.: Artigo dedicado ao nosso colega de escrita e admirador do bom e audível Rock Progressivo, (o único que, além da humildade que lhe é peculiar para agradecer quando não tem informação sólida sobre a banda) conhece mais apropriadamente o estilo entre os que escrevem sobre música para o portal: o carioca e músico Alexandre Tomé, garimpado no Obvious. No Brasil é raríssima uma mente aberta, um pensamento livre como o dele. Quisera eu ser músico, mas é muito para minha deficiente inteligência. Mas como ouvir não é dedilhar, de Progressivo agente proseia; e ele já percebeu isto nos textos que escrevo sobre o gênero. Por outro lado, já que sou incapaz de tocar um instrumento, leio os seus escritos, e por eles sou tocado. Valeu...; sorte, sucesso, finas e sutis notas Progressivas no seu dia-a-dia meu caro! São mais de 300 bandas catalogadas; e por aqui, pelo canal Obvious, agente vai se ouvindo; preferencialmente, Rock Progressivo.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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