ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

O Arquiteto da banda Quaterna Réquiem é uma homenagem a Niemayer

A toada tocada aos galopes pelas guitarras das ambulâncias e o tropel de passos apressados urbanos não permitem mais olhar e ouvir a simplicidade do réquiem tocado pelo violino. Tudo, até as nuvens, correm rumo ao frenético. Ao caos aloucado; mas, representada pelo Rock Progressivo, o violino da música de câmara permanece respirando a calmaria do arrebol crepuscular.


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O concretismo presente na capa:

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No alto, bem no alto, quase no topo do estúdio um quadro meio ovalado à deriva. Revoltosas ondas revoltosas, num vai-e-vem ululante, faziam-lhe de pêndulo. A moldura metálica é fundida pelo erudito e símbolos medievais. Representação de um passado que jamais retornará à cena artística? Balançando feito uma mandala doida, o prego reluta com toda as suas forças para segurá-la. Protegê-la. Centrado ao fundo, uma embarcação sofre as consequências de um mar agitado. Um pirata observa o aderna não aderna da embarcação. Arrepios. Desespero. Estupefato e amedrontado, seu chapéu ameaça fugir em debandada. O farol se apaga deixando-o a mercê do lampião que sob os arremedos do vendaval, faísca uns fiapos de claridade bruxuleantes. Insignificantes fiapos de luz que prenunciam a luz no fim do túnel. Sobretudo, a beleza acanha-se perante a revolta. A tormenta, além de atormentar a paz, é o belo ofuscado pelo caos delirante!

Indiferente aos acontecimentos, apoiado nas patas dianteiras, o cão descansa o corpo sobre a cauda do rabo. Animais domésticos vendem caro as sutilezas da passividade para o seu dono e dentre elas, estão os rompantes de quando mais precisamos deles, negam o fogo do auxílio. Vagabundos divagadores que olham o perigo, o desabar do mundo e não faz nada para segurá-lo. Esses desumanos valem a ração que comem? Furiosas, as avassaladoras tormentas se quebram contra o monumento rochoso. A árvore, a pálida e desesperada árvore, não suportando o alvoroço marítimo, inclina seus galhos em direção ao precipício. Bem longe dali, na parte de baixo da moldura, em letras garrafais, a inscrição "Velha Gravura" é quase um epitáfio. O quê o passado, o presente, a descrição da capa e tudo isto significa?

Primeiro álbum:

Implicitamente, numa jogada de marqueting, a aparência externa "identifica" o conteúdo do produto. Assim como a roupa veste por fora o executivo ou o mendigo que está por dentro dela, ao revelar algumas coisas da época medieval e erudita, tacitamente o quadro mostra a música, o estilo e a fonte em que Elisa e seu irmão Cláudio Dantas, fundadores da banda hidrataram suas inspirações artísticas. Ambos retrocederam no tempo e trouxeram à tona a erudição do clássico nas composições. Entende agora porque as bandas de Rock, principalmente as de Progressivo, se comunica(va)m previamente pelas capas? Antes de fazer a criação da capa, o artista plástico toma conhecimento das letras e prevê como a musicalidade será a veículo de transporte ao inusitado. E ainda que fúnebre, tudo tende à perfeição. Como não? Em certos casos, a negada morte tem lá seus traços de perfeição e merece respeito e carinho de quem alinha as suas inspirações aos seus conceitos e realidades.

Estudando um pouco mais a relação da capa com o trabalho da banda, a palavra gravura é o processo de impregnação, fundição, gravação da imagem escrita sobre a superfície de certos materiais. Provavelmente parente próximo da pintura e unindo criatividade com o trabalho manual, a primeira gravura será a matriz, a qual originará outras peças de semelhança máxima. Esta era uma atividade muito, mas muito antiga, ainda numa época que o trabalho manual e a criatividade eram requisitos básicos requeridos pela pura inteligência e percepção das coisas. Era ver o que fosse, a imagem e semelhança era reproduzida.

O elementar que se deve saber sobre a banda:

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Liderada por uma mulher e embrionário do Rock Progressivo clássico-sinfônico, em 1989 nasce no Rio de Janeiro a banda Quaterna Réquiem, (quaterna significa: quatro e réquiem: repouso) que à época contava com a participação dos irmãos citados e Kleber Vogel no violino; músico que além de integrar a banda, fazia parte da Orquestra Sinfônica Brasileira. Jones Júnior na guitarra e Marco Lauria no baixo juntaram-se aos três. Especialmente para o engradecimento da banda, variação das notas e ajustes sinfônicos, Roberto Meyer nas flautas e Adauto Vilarino no oboé. Com esta formação e acima de qualquer expectativa, um ano após formada, a banda lança o "Velha Gravura". A obra, além do raro bom gosto musical nas composições, é uma vintage artística e instrumental de primeiríssima qualidade.

Neste primeiro álbum, considerado o melhor de todos, Elisa Wiermann esbanja conhecimento de música clássica. O instrumental é regido pelo rugido mágico do violino de Kleber Vogel do início ao fim. Som puríssimo, original, sem emendas e acidificado pela inconstância das quebras de notas; marca registrada do Progressivo. Uma portentosa e memorável obra que está acima de muitos trabalhos de bandas aclamadas pelos europeus; continente que produz o melhor do gênero.

O Rock Progressivo brasileiro estava em alta e um dos motivos era os poucos shows de bandas europeias em Terra Brasilis. E apesar da exaustiva contribuição e engajamento da banda no movimento M.P. do B, (Movimento do Progressivo do Brasil) o grupo se separou, sobrando apenas os irmãos e fundadores como remanescentes da banda. A reestruturação foi inevitável; e com ela, muitos músicos passaram pela banda. Para piorar a situação, Kleber também saiu, levando consigo alguns músicos. A dissidência quase que total do Quaterna gerou a montagem do grupo Kaizen.

Inspirado no protagonista do livro "Corcunda de Notre Dame" a banda lança em 1994 o álbum "Quasímodo". Visando retornar à uma época remota, a faixa principal contém 39 min e mais uma visão inspirada no romance Nossa Senhora de Paris de Victor Hugo. Para alento daqueles que primam pelo fantástico em forma musical, a execução da peça conta a participação especialíssima de um monge beneditino. O conjunto da obra é raro, belo, único e de uma expressividade fora do comum. Neste, a guitarra ficou por conta do competente Roberto Crivano; dedilhando alto Fábio Fernandez no baixo.

Talvez pelo puritanismo do clássico-erudito, embora tenha sido elogiado pela crítica do Progressivo brasileiro, o álbum não foi unanimidade (mais pela exigência dos críticos, do que a obra em si) quanto o primeiro. Porém, bastante interessante no tocante ao som produzido pela bateria no contratempo e as constantes batidas das baquetas contra os pratos. No geral, o álbum é transcendência e vale a pena conferir!

O homenageado:

Prestando uma justa e merecida homenagem a Oscar Niemayer, o terceiro álbum viria mais tarde, cujo título é "O Arquiteto". Respirando os seus últimos dias, ao tomar conhecimento da obra do Quaterna sobre sua profissão e trabalho, Oscar retribuiu em palavras: "Além de agradecido pela gentileza de uma faixa musical dedicada a mim, constatei que o CD "O Arquiteto" lançado pelo grupo musical Quaterna Réquiem mostra a capacidade de suas músicas em ver e sentir a arquitetura do mesmo modo que sua própria música. Um projeto da mais alta qualidade e conteúdo artístico, que muito me agradou." - Oscar Niemeyer: 15/04/2012.

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Este álbum marca o retorno de Kleber ao violino. E não faltava mais nada, apenas ouvidos para apreciar aquilo que um mestre do belo, como Oscar sugeriu; afinal as sensibilidades das mãos e ouvidos se comunicam pelos traços da geometria, associado às cifras matemáticas das notas musicais.

Para quem conhece de Rock Progressivo, guardada as proporções, ao ouvir o "Quaterna" logo dirá que o trabalho da banda é uma réplica perfeita de certas bandas de Progressivo italiano. Ouvido, visão e versão de cada um.

O retorno:

Retornando ao primeiro álbum, a faixa "Ramoniana" é um primor musical, em que todos os instrumentos em consonância com as notas, transporta o ouvinte para o sideralismo além do tempo. Incluindo o sopro singelo de um oboé, impossível é não desprender-se da matéria e num transe incomum, voltear o mundo durante os 6 min de duração da peça. Em seguida vêm "Aquartha". Música estranha de título, mas que completa a travessia virtual de uma nau sem rumo. A terceira é "Velha Gravura". São mais de 10 min de fusão e variação instrumental. Na opinião de quem escreve o artigo, disparadamente, ambas representam uma das melhores trilogias instrumentais-progressivos já produzidas no país. Salutar obra-prima para os tempos conturbados, como vive atualmente o Rio de Janeiro, momento por qual o país atravessa; o que deveras, é uma nau desgovernada à deriva, prestes a adernar. Contudo, não será desta vez que o apocalipse da malidicência musical tomará para si o país, pois o réquiem Progressivo da banda carioca, liderada por Elisa Wierman, foi criado para defender aqueles que apreciam a indecifrável música erudita-sinfônica.

P.S.: Artigo dedicado ao nosso colega de escrita e admirador do bom e audível Rock Progressivo, (o único que, além da humildade que lhe é peculiar para agradecer quando não tem informação sólida sobre a banda) conhece mais apropriadamente o estilo entre os que escrevem sobre música para o portal: o carioca e músico Alexandre Tomé, garimpado no Obvious. No Brasil é raríssima uma mente aberta, um pensamento livre como o dele. Quisera eu ser músico, mas é muito para minha deficiente inteligência. Mas como ouvir não é dedilhar, de Progressivo agente proseia; e ele já percebeu isto nos textos que escrevo sobre o gênero. Por outro lado, já que sou incapaz de tocar um instrumento, leio os seus escritos, e por eles sou tocado. Valeu...; sorte, sucesso, finas e sutis notas Progressivas no seu dia-a-dia meu caro! São mais de 300 bandas catalogadas; e por aqui, pelo canal Obvious, agente vai se ouvindo; preferencialmente, Rock Progressivo.


Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
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