ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

O perfil de um caramujo canalha e anacrônico sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, esses bichos mimetistas camufladores são egoístas e não suportam retardatários na pista". Faz-se saber, que se for pelo perfil, ele não é exemplo a ser seguido por ninguém

Creedence é o colorido da página em branco do rock

Creedence Clearwater Revival, a banda socializada e socializadora, escreveu sua história nas improváveis páginas em branco do rock. E a explicação está no simples fato da popularização do ritmo que animava os bailes com o country-rock maneiro e dançante edificado pela banda. Entretanto não resumiu apenas nisto; ao contrário, foi de uma musicalidade acima da média. Creedence fez música para todos; ou para a maioria dos participantes de uma geração, ainda que nada afeita ao rock.


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Meados dos anos de 1960. Liderada pelos ingleses, a música passava por uma espécie de reconstrução. Os ritmos que dominavam o mercado fonográfico perdiam força para os estilos vindouros. A velharia era descartata para dar lugar a uma nova música com variação constante de notas, guitarras elétricas, teclados distorcidos, bateria e variados instrumentos de sopro. Informal, as letras livres e sem rimas eram caso a parte. Para completar a revolução, de acordo com a proposta musical, cada banda criou o seu visual próprio; com isto, os integrantes chamavam atenção pelos cabelos longos, barba por fazer, calças desbotadas de boca larga (boca de sino) e tênis sujos e remendados. Essa trupe não tinha nenhum compromisso com a beleza; em compensação, primavam pelo intelectualismo cultural e humano.

Aliás, os Beatles, (lembra da capa do disco em que a imagem mostra os quatro atravessando a avenida?) ironizaram os costumes burgueses da cidade grande usando calça jeans; veste que até então era usada basicamente pelos trabalhadores braçais e ruralistas. O estilo debochado e rebelde, a lá Jesus Cristo, provocava a ala moderada e conservadora inglesa. E não menos, a realeza, que mordia os beiços, franzia a testa, rangia os cacarecos de dentes com o visual estabanado e o reverberar sonoro das notas e timbres bem trabalhados da moçada garagista. Implacável para a época, o rock era a barbarização cantada sem verso, sem prosa e nada de métrica. Era o grito e o apelo que satisfazia, por assim defini-lo. Contudo, no movimento musical disseminador de rebeldia, também havia os rebeldes-moderados; e o leitor sabe sobre quem estou escrevendo.

Certamente, afirmo plenamente, que o leitor conhece, sabe tudo sobre a banda Creedence Clearwater; então, vou dar por encerrado o artigo. O quê; não conhece? Permita-me uma pergunta: qual sua idade? Está explicado! Os seus avós, ou seus pais, não te disse nada sobre a banda? Sendo assim... peço perdão; e óbvio, vou redimir do pré-julgamento. Fique tranquilo, pois o que depender do escritor deste, o leitor não vai morrer pagão... "ufa, graças senhor"!

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Atravessando o mar, dentre os muitos da América, atraca-se em algum porto dos EUA; país que o blues escolheu para morar e por isto, ganhou fama. Paralelamente ao blues, com vistosos cavalos e homens vestidos a caráter, inclusive com esporas no tornozelo, o country corria por fora. E o rock puro? Com todo respeito ao Tio Sam, ao The Door´s e a banda Rain, mas em se tratando de rock puro, os EUA mantém as portas fechadas, motivo de não acompanharem os elaborados trabalhos europeus. Entretanto, inteligentemente, a banda "Golliwogs" fundiu o rock ao country. Até aqui tudo bem, podemos prosseguir? O leitor já ouviu falar, conhece como a palma de sua mão a banda citada? Não? Também puderas, "Golliwogs", esse palavrão estranho era o nome da banda antes de ser CCR e não durou mais que uns meses.

Mas muito antes de Credence ser Creedence, a banda era um trio de música instrumental formado por John Fogerty, Stu Cook e Doug Clifford. Agora o bizarro: havia um cidadão americano que se chamava Credence Newball que os integrantes do CCR curtiam muito e pensaram em homenageá-lo, pondo o nome dele na banda. Olhando por outro ângulo e prevendo um possível processo judicial, astutamente, alguém acrescentou a letra "e" na primeira sílaba do nome do sujeito e daquele momento em diante a banda se chamaria Creedence. Ótimo! E o restante do nome?

Como a palavra beer em inglês é cerveja em português; eureka: os integrantes do CCR eram amantes do beer e por isto, pegaram carona no comercial da cerveja Olympia que bebiam inveteradamente e através dele tiraram a palavra Clearwater e adicionaram a primeira palavra. Mas Creedence Clearwater não bastava, e imaginando que o ser humano pode muito bem ser uma fênix mitológica e renascer das cinzas quando quiser, associaram uma coisa à outra e novamente, eureka: CCR - Creedence Clearwater Revival. Provavelmente a banda seja a primeira e única no mundo a criar uma geometria, com sentenças matemáticas e tudo mais, para solucionar um simples problema de nome. Porém, seja como for, a criatividade, a percepção e as sentenças matemáticas existem é para solucionar os problemas cotidianos humanos, bem como as carências de nomenclatura de bandas de rock.

O ritmo dançante é uma das marcas do Creedence. Aliás, dança(va)m com o requebrado do rockabilly. Ao ouvir, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Elvis Presley, Buddy Holly, Bill Halley, Johnny Cash e outros arrulham desesperados nas tumbas por não poder curtir o estilo que eles criaram, de perto. Supõe-se que no céu não tenha o som batido do rock, por isto, estão tomados pelo silêncio absoluto da morte.

A formação original do CCR data de 1967 e contava com John Fogerty (guitarra e vocais), Tom Fogerty (guitarra), Stu Cook (baixo) e Doug Clifford (bateria). Fazendo um som impecável, não demorou muito para a banda explodir nas rádios americanas e em 68, abiscoitaram o disco de ouro com o álbum, cujo nome é homônimo ao da banda.

Para ser mais exato, em 69 a banda soltou três pérolas e desses, sete músicas apareceram por tempo indeterminado nas paradas da Billboard Hot. O mérito foi além do ocultismo musical e por diversas vezes, o Creendence foi carta marcada nos festivais de rock. E durante os 5 anos de carreira foram mais que suficientes para a banda colecionar entre singles e álbuns, nove discos de ouro e sete discos de platina. O sucesso estrondoso se deveu porque, contrário de outras bandas que iniciavam tocando certo estilo e ao depurar o som com o tempo, migravam para outro gênero, (exemplo de Led que miscigenou o estilo com o blues) o CCR começou e terminou fazendo country-rock. Feito que deve ter deixado o mestre do country americano, Willie Nelson de cabelo em pé. Aliás, aqui no Brasil não se tem conhecimento de outra banda que fez ou faça country-rock.

Tudo bem, aceito a ideia de que seus avós e pais nunca ouviram falar em Creendence, mas duvido que “Have You Ever Seen The Rain” eles não tenham escutado de montão. Esta foi a faixa da banda que mais tocava de cima à baixo no Brasil. Era o bolachão de petróleo chiar na ponta da agulha dos toca-discos das rádios ou bailes, que os pés do ouvinte ficavam ouriçados, pedindo para libertá-los do laço. De certo foi a canção mais simples de acordes, humilde de arranjos, porém a sonoridade traz um jeito campeiro, flertando com o rock clássico e vice-versa. O hit foi bem aceito pelo público de modo geral, foi tão popularizado pelo grupo, que o ex-coveiro Rod Stewart, com sua voz rouca e embargada, também gravou e se deu muitíssimo bem. Na voz do roqueiro loiro inglês, a versão foi ainda mais acolhida pelo público, do que com o Creedence. Coisas de dileção próprias de épocas não se discutem; embora questionadas, admitem-se.

Vale pincelar que os tempos não eram nada favoráveis à música, motivo de tudo ser confeccionado com o máximo esfôrço de todos, desde os integrantes que faziam a montagem e transporte dos equipamentos até a engenharia de som. Portanto, devido a falta de recursos digitais, tudo era mandado pro ar na raça, sob o peso da competência e consequências das muitas limitações. A priori, nem se imaginava tais recursos; os quais, nos dias atuais, qualquer um faz barulho com os instrumentos. Batem as mãos e assoviam, porque cantar e tocar é através do apertar botões. Acionou a parafernália de botões, o serta-nojo e idiotices mais estão nas caixas.

Já em “Fortunate Son”, os arranjos, acordes e metais sinalizam o lado mais acidificado do rock ‘n’ roll feito pela banda. Aproveitando a deixa da guerra, a letra faz uma crítica rasgada aos compatriotas e estadistas que açoitavam e bombardeavam os vietinamitas sem dó e piedade. Em certa passagem, a composição retrata que John Forgerty não é filho de pai abastado, portanto como pobre e nacionalista, teria que morrer pela pátria. Esta música foi repaginada pela banda de punk californiana Circle Jerks. Na versão do Circle, a sonoridade é mais carregada com a bateria retumbando e solos distorcidos de guitarras estridentes, cujo peso é para ilustrar quão covarde e vil foram os ataques dos EUA sobre os minguados "inimigos".

Atente-se a velocidade, a fúria das veias pulsando e os trejeitos de cada um ao executar sua parte nesta música! O lendário John era pura energia e representava 1/3 da banda. O country-rock produzido pela banda é descomunal! Destarte, a originalidade e o puritanismo ainda é, - e sempre será - assombro para os traidores, para os desertores e futuristas.

O potencial musical do Creendence era maior do que qualquer suposição, acima de qualquer conjectura, e para o contentamento dos roqueiros de curtiam uma longa balada, cheia de efeitos sonoros, variação de notas, pouco vocal e bastante instrumental, a música "I heard it through the grapevine" é o presente de congratulação. A faixa com mais de 10 min é viagem garantida a paraísos imaginários e através dela, muitos cabeludos se perderam em devaneios.

Por sinal, eu estava encalacrado numa cidadezinha pequena, rodeada por ruidosos chuás de cachoeiras, cheiro de relva molhada, acompanhado implacavelmente pelo odor de estrume de animais e flores deliciosamente perfumadas despertando os enamorados para o colorido café da manhã, na serra da Mantiqueira. A noite com seu jeito faceiro caiu vorazmente sobre o arraial, o que fez-me sair para uma caminhada leve com as faces açoitadas pelo vento minuano. Como não bastasse a leveza do local, a música "I heard it through the grapevine" estava sendo fritada pela agulha de uma velha e rota vitrola. A mim não restou outra coisa, senão, esquecer o paradeiro do vilarejo e lançar minha alma ao exorcismo sonoro. Memorável revisita à serra, mais serra, de todas as serras brasileiras. É o Creendence contribuindo para re-memorização do que compraz e faz bem ao ego! Música: Rock, principalmente Progressivo sui generis de muitas linguagens; MPB, Sertanejo de Raiz, Jazz, New Age; Blues e gêneros afins) escrita, leitura, viajar sobre duas rodas, razão, emoção, lareira, caminhada para os picos, frio, sexo heterossexual (vale a redundância) de vez e sempre, muita sombra e água fresca aliviam os pecados do penitente. Ademais, ser vagabundo ocioso ainda é um belo exemplo de como se portar responsavelmente em meio as aventuras, nada palatáveis dos humanos.

Confira aí direito, veja e reveja, consulte sua cachola, acho que o leitor também tem uma página em branco em seu diário que foi escrita por alguma música do Creedence e merece ser revista e relida...! Não acredito que nenhuma delas não tenha embalado suas palavras e olhares à conquista da(o) mocinha(o) no parque de diversão nas tardes de domingo.

O ego é limitado pelo bem e o mal, contém a dose letal, e quem cruzar a linha demarcatória, corre risco de ser envenenado; e foi exatamente o que aconteceu com a banda. Depois dos muitos boatos e intrigas internas, John atritou diretamente com seu irmão, Tom Fogerty. O ambiente ficou tenso, com o mercúrio dos termômetros estilhaçando os vidros, de modo que eles nunca mais trocaram uma palavra, sequer. E o pior: o impasse pôs fim à banda. Seria, como foi, a morte definitivamente do country-rock, estilo que nasceu, morreu e foi sepultado nos EUA. E teve como protagonista principal, a voz esquisita e ao mesmo tempo inconfundível de John Fogerty. Admiravelmente única!

No meio, exatamente no meio, nem um milímetro para lá ou cá, está o veneno da ira, da mágoa e da fúria. Pensando em aniquilar o inimigo, os irmãos cruzaram a linha demarcatória, tomaram do líquido egóico em demasia e os aniquilados, foram os quatro integrantes da banda. Uma pena!

P.S: É claro, é óbvio que a audível, a benevolente música não tem cor, mas se tivesse, sem dúvida seria branca. Pois, o branco representa a benignidade, a fluência da paz, a limpeza espiritual e a operosidade; atributos que são as chancelas e carimbos do velho rock´n´roll. Então, por que do título? Simplesmente, é chamariz para atrair a atenção do leitor; porque no afinal, o Creendence fez história com o country-rock, e isto é o que conta para a música. É tanto verdade, que nunca mais apareceu outra banda derivada desse estilo. A página sob a qual foi escrita as notas e cifras do country-rock, amareleceu pelo tempo, se perdeu no esquecimento, voltando a ser branca como a neve.

Iniciei o texto provocando o leitor, nada mais justo que assim o termine; e caso queira saber mais sobre a banda, a consulta ao Google é livre. Todavia, não me responsabilizo, não me culpe depois pelo seu desvio de conduta; afinal ouvir Creedence é retroceder no tempo e aderir o simples e cafona como princípios e modo de vida. De repente, quem sabe, tirar uma chinfra com os óculos escuros na cara, calça pantalona de boca de sino, camisa branca de manga comprida e o rádio de pilha, marca Evadin, coladinho no pé da orelha. Afinal, os pássaros, as árvores frutíferas, sorvete, chafarizes, fonte luminosa, tudo cabe, ou pelo menos cabia, numa tarde de domingo no parque. Assim, a vida era uma página em branco, iluminada, colorida pela magia do ritmo, ora cadente, ora frenético do Creedence.


Profeta do Arauto

O perfil de um caramujo canalha e anacrônico sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, esses bichos mimetistas camufladores são egoístas e não suportam retardatários na pista". Faz-se saber, que se for pelo perfil, ele não é exemplo a ser seguido por ninguém.
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