ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Festival de Águas Claras foi o Woodstock Brasileiro

"Woodstock brasileiro"? Como assim; esse troço existiu? Sim Bicho-grilo virtual; sim Sr. Bate-teclas; sim Porra-louca depressiva; sim Spider-man do fumacê dos escapamentos de carros; o evento também conhecido por "uma grande Quermesse brasileira" existiu e vocês precisam saber. E culturalmente, ideologicamente, está muito, mas muitos patamares acima desses encontros pop-cata-Real que fazem por aí para reverenciarem os americanos e europeus, denominando-os de eventos de rock; que de rock e psicodelia não tem nada. O Festival não foi um evento musical, apenas; mas a ruptura de paradigmas, a revolução necessária contra os costumes e caretices cotidianas.


1975. Iacanga. São Paulo. Os ponteiros dos relógios marcavam pontualmente 4h e 30min; horário de Brasília. Madrugada fria daquelas que congelam insetos e répteis. Perfume de marola impregnado no ar. Com a cabeça feita, o povaréu depurava-se do paganismo da mesmice se batizando na lama. Raul Rock Seixas exalando álcool pelos poros. No imaginário de cada um, mariposas metamorfoseavam em libélulas e penetravam em suas mentes. Com apenas 16 anos, em tenra idade, Marisa Orth experienciava a porra louquice da liberdade de ser, o que quisesse ser. Estava decretado o Power Flower brasileiro. Estava decretado a paz, o amor e as drogas regados ao mais puro e honesto som do Rock and Roll. Estava decretado a abertura do Primeiro Festival de Águas Claras; o "Woodstock brasileiro". Ademais, no contexto cultural, atualíssimo. Onde buscaram inspiração para criar as mal fadadas baladas Rave? Quem foram os iniciados que trouxeram à baila os problemas ambientais, a liberdade feminina e movimentos mais, livres de preconceitos. Óbvio, que foram prescritos pelos ideais da contracultura, nos cenários e visuais psicodélicos dos hippies.

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Uma espécie de carta magna foi escrita para que a realização de um, fosse o gozo do outro. - se pensou besteira, foi exatamente a besteira pensada, pois todos gozaram juntos, o gozo ecumênico do doce sabor da confraternização - A ordem e o compromisso estabelecido, assinado e aprovado em ata rezava que todos: homens, mulheres, genéricos, indefinidos, animais, bichos, simpatizantes, aves, pássaros e curiosos deveriam andar pelados, nus como vieram ao mundo por três ou mais dias. Melhor se fosse com as mãos nos bolsos e como todo regimento advindo da liberdade é para ser rigorosamente seguido, não se via as mãos dos presentes. E durante os dias de festival não houve um só ser pensante, um só vivente racional ou irracional que não experimentou a liberdade plena. Subiam em árvores, banhavam-se na lama, limpavam-se no poço lunar, proseavam com as flores e piscavam feito vaga-lumes. Alguns exotéricos, místicos, espiritualistas e iniciados amarraram-se na cauda do cometa, criaram asas, se transformaram em anjos e nunca mais voltaram ao reino humano, vegetal e animal; nunca mais quiseram pastar o capim seco enraizado na selva de pedra e cheirar o perfume dos resíduos de óleo diesel e de gasolina nos grandes centros urbanos.

iacanga1.jpg O Festival apresentou belas, ilustres e deliciosas cores temporais em preto e branco. Note que a moça - hoje sabe-se lá o quê - da extremidade esquerda estampava na camiseta a bandeira de Minas Gerais; estado também conhecido como a pátria da liberdade.

Beldades expunham o corpão violado na vitrine dos libertários sem se preocupar com a volúpia dos clientes, pois onde há disciplina e respeito dos olhos, da boca e das mãos, o assédio fracassa. Para o bem dos que primam pelo correto, todas elas traziam um segredo, levavam consigo uma joia rara e especialíssima trancafiada em um ínfimo porta-joias, porém diante da liberdade incondicional, ofertaria para quem a doadora quisesse. E ao doá-la, nenhuma delas doava nada mais do que toda mulher possui; claro, que a joia de umas é de menos valor que as de outras mais gostosonas, cheirosas, boazudas, tesudas; mas eram - como são - todas iguais. Ou melhor, somos todos iguais, afinal os deuses da igualdade desconhecem alguém de carne e ossos que investe, deposita, deixa cair pepitas de ouro na latrina do banheiro.

bandeira.jpg Originária do latim, a expressão na bandeira de Minas Gerais significa: "Liberdade ainda que tardia"

A música alternativa foi a mola propulsora para a ruptura e revolução nos hábitos e costumes sociais vigentes.

liminha.jpgO extraordinário Liminha do "Som Nosso de Cada Dia" tirando uma chinfra e viajando sozinho ao som incidental extraído de sua guitarra.

Hoje até não, porque os comuns, os engravatados, os maltrapilhos e empresários, põem o celular no ouvido e saem falando pelos cotovelos rua a fora. No entanto, nos anos dourados, conhecidos com as eras da erradicação da normalidade no mundo, para ser insano, o doidão tinha que expressar sua tendência longe da civilização; afinal, a caretice dominava o cenário dos hipócritas. Então, para onde correr para ficar numa boa, numa nice, no sossego cara? Curtindo a beça os my friends do rock, da marola, da paz e do amor? O lance legal é que os incomuns arrumavam um jeito revolucionário para tudo. Definitivamente, era uma trupe diferenciada, tanto conceitualmente em se tratando de ideologias, como em atos e loucura. Sem medo e arrependimento, desafiavam impiedosamente os Senhores do Breu Soturno urbanos. Por sinal, as redes sociais tão faladas e usadas pelos perfumados do concreto, foi criada por um americano Ripão dos anos 60-70. Inspirado no movimento hippie, cuja premissa era sumir dos grandes centros e assumir o não consumismo, a divisão igualitária e o respeito pelo espaço alheio vivendo em comunidades, criou o Orkut. O Raul e Paulo Coelho, por sua vez, contribuiu com a liberdade interiorizada sem limites quando escreveram "Sociedade Alternativa".

Raul já havia entregado os pontos para a overdose, perdendo a partida, ou melhor, o início do show por WO. Óbvio que o Maluco Beleza tinha crédito com os doidões da lama, porém, foi intimado a se juntar aos demais músicos para bradar o grito incipiente de abertura: "Faça o que tu queres, pois há de ser tudo dá lei". Faço saber que naquela época eram menos os gatunos e roedores corruptos de queijo nas despensas alheias; e por isto não houve necessidade de um juíz Sérgio Moro, para por ordem na pensão. Então, perante as leis, tudo era permitido; desde que o honesto "Vou fazer o que eu gosto" fosse a ordem. Seguindo o preceito, o Progresso era consequência.

A música alternativa estava em alta no país. Muitas bandas, cantores, arranjadores e letristas davam bandeira e botavam o bloco na rua. Aliás, quem abriu de fato o Festival foi João Gilberto que, com um banco e o violão, dedilhou as seis cordas para desfraldar a musicalidade da Bossa. A maioria dos enlameados compunha a ala do rock, mas nem por isto deixou de aplaudir a apresentação de samba-bossista.

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A piração competitiva - no bom sentido, porque onde rola a paz & amor, não há espaço para a degola - rolava solta. E cada um que fizesse algo inovador para ter os aplausos do público. E o hilário, para não dizer bizarro tomou conta do espaço; e Arnaldo Baptista trepou em cima de uma árvore e de lá, além de soprar beijos para a plateia, tocou flauta por mais de 3 horas sem parar. Saiu de cima do galho com a bunda em frangalhos e a boca sedenta para fumar um baseado; ou pitar um bem bolado cigarrinho do capeta.

A Santa Virgínia - evitando a ideia de profanação, é o nome da fazenda, que fique claro - estava incendiada pelo exorcismo da epopeia promovida pelos cabeludos-peladaços. Para reforçar a citação, abro um leque para contar uma história que ouvi de um amigo de longos, grossos, finos e curtos baseados, o qual disse-me com todas as letras que esteve lá. Até aí nada de mais, afinal, dai aos loucos varridos, o Gardenal que é o alívio imediato dos sintomas da doideira, por direito. Porém, o bizarro foi quando ouvi dele que o pessoal estava pra lá de Marrakeshi e caminhavam de ponta a ponta da praia, com a ponta de um cordão amarrada na altura da glande do pênis e a outra, amarrada mais ou menos em volta da testa. E vez para outras, abaixavam a cabeça em sinal de reverência, de modo que o "chico bento", como cunhado pelo figurão, subia e descia. Em seguida o mais incrível: a mulherada retribuía a mesura, com um solene toque. Um leve aperto. Óbvio que tudo acontecia dentro dos parâmetros da respeitabilidade estipulado na Carta Magna, mas se alguma donzela dada ao oferecimento desafiava a virgindade dos duendes, a rapaziada não perdia a chance e bola para dentro da mata virgem; que de virgem não tinha nada. Tanto à época, como hoje, difícil é encontrar água límpida na fonte, a qual o gado não pisoteou suas margens para matar a sede. Metem a língua e salivam o regato. Aquele meu amigo era um tremendo canastrão; porém gente boníssima e sabia das coisas.

Outro que abusou de apertar o gatilho do relógio para bater o cartão de ponto no evento foi Celsão de La Mancha, à época com 19 anos, cheirava leite e testosterona. Molecão novo, mandava geral; se pintasse, mudava de nome rapidinho: preferencialmente, Adão no paraíso. Por definição, o doidão preferia ser chamado de “hippie cibernético”, pois como era um sujeito de ideias avançadas, além de prever o seu futuro revolucionário, assim o via. Ao chegar ao local foi logo rondando o entorno e em poucas horas sabia de tudo o que acontecia nos arredores. Na realidade a santa, a divina descoberta que mais fez a cabeça do hippie foi um alambique de multi-destilados nas imediações; e de vez em sempre, pegava carona na garupa de um motoqueiro qualquer para ir à fonte buscar água que passarinho não bebe: "Tinha um alambique ali perto e de vez em quando a gente saía na garupa de uma moto, ia até lá e trazia dois garrafões. Comida, batíamos nas casas para pedir. Fiquei uns quatro ou cinco dias acampado e fui uma das últimas pessoas a sair, por causa da paz.”

Celsao de La Mancha.jpg O hippie cibernético bem na dele. "Peace and love my brother"! Quem nasceu para ser filhote de Deus, do Bem, da Paz e do Amor, ainda que brancos, não dispensa os cabelos e a barba por aparar.

O Festival prosseguiu com os raios de sol espraiados, lamaçal em redemoinhos, agito dos insanos e muito som ruidoso e chiado nas caixas. Era terminantemente proibido falar em depressão. Por lá passaram Os Mutantes, tocando a música "Balada do louco" - justíssima homenagem feita aos presentes - o inigualável Paulinho da Viola, Egberto Gismonti, o insano Walter Franco vociferando:

"Em vermelho natural / Com gosto de água e sal / No rosto e no lençol / Misturando o bem e o mal".

O leitor entendeu o que ele quis dizer, ou não? Quem pensa que o Raul foi o doidão guru dos doidões, está redondamente enganado. Citando apenas um que dividia o título com Raul, Taiguara foi outro lendário na arte de se expressar contra o regime através de metáforas. Isto lhe rendou mais de 100 letras de músicas censuradas pela governança dos que apontava o dedo para o cacetete e dizia: "esta é a borracha de apagar ideologia".

Jorge Mautner desnudava o "Maracatu atômico", que também foi gravado por Gilberto Gil, que como bom reacionário e defensor dos direitos humanos, marcou presença à reunião. Já Alceu Valença liberou as borboletas para a dança frenética e louca nos vales e cachoeiras. E mais um... e mais outro, e mais um... até que chegou a vez do albino, experimentalista e jazzista Hermeto Pascoal; Tom Zé e muitos outros artistas renomados da música alternativa. À essas alturas, nenhuma alma penada sabia onde estava; pelo contrário, diziam que haviam sido abduzidos. O que era verdade, pois sair do ritual cotidiano do faz tudo igual doutrinário, para cair num transe irracional, livre de leis, regulamentos e procedimentos corretos, como foi o Festival de Águas Claras, era a transcendência libertina dos doidões. Entretanto, exemplarmente na paz. Definitivamente, feito flor de lótus, a flor mais bela dentre todas as flores, os doidões banharam as boas novas na lama da Paz e do Amor!

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Em tempo, quem esteve presente ao evento e ainda se lembra das cenas, afirma categoricamente que se o Woodstock americano incendiou e promoveu a contracultura no mundo, o Festival Brasileiro não ficou devendo nada para os gringos e na América do Sul, só dava o Festival de Águas Claras, que teve mais três edições de mesmo porte e enlevo. Sem dúvida, os anos dourados da música entraram para a cultura alternativa do país; como cultura é a revolução e transitoriedade da quietude e costumes para as boas novas da renovação, meteram uma imensa, robusta e generosa rocha sobre o acontecimento para que ninguém tome conhecimento do que é bagunça organizada, para que ninguém saiba o que a rebeldia entrópica fez (e pode fazer) pelo amor e pela paz. Não menos pelo feminismo... pela liberdade... pelas drogas; por que não? O Festival teve esse propósito e nas entrelinhas, também insinuou que entra nesta viagem sem volta, quem quer. Perante a amplitude do movimento cultural, tudo faz parte da liberdade adquirida e as escolhas e opções eram, como realmente são, de cada um. Cada um que pague pelo crime que cometeu; sobretudo, que suporte as ferroadas das consequências e sofra calado. E fim de papo!

Fim do Rito. Fim da Paz. Fim do Amor. Fim do festival. Fim do back. Fim do escrito. Morou no assunto Baby?

P.S.: a escrita livre, solta, àquela de filósofos sóbrios, coloquial dos botecos e das ruas expressada no texto é em referência a linguagem vigente na época. Sobretudo, o desprendimento anárquico em todos os sentidos estava acima dos conceitos formados. Caso contrário, não era o lema "Faça o que tu queres, pois há de ser tudo da lei"; e sim da moralidade, dogmas e dos formalismos doutrinários. Porém, ratifico: deveria ser seguido pela Carta Magna dos Doidões, cuja premissa era o respeito e o honesto acolhimento mútuo acima de todas as virtudes.

Os festivais foram exemplos de ordem, respeito e harmonia. E ainda que 15 mil doidões tenham aglomerado, apinhado em um espaço reduzido para acompanhar os shows, tudo transcorreu absolutamente em paz. Não houve um mínimo caso de abuso, discriminação, assédio, racismo ou algo equivalente; o que comprova que o anarquismo-libertário é uma tendência de vida possível. Basta, porém, que cada um desprenda-se da ganância do materialismo inveterado; enigma que os sôfregos pelo money ainda não desvendaram; e se revelado, é a incessante procura pela moeda do nada, a intensa busca pelo ouro de tolo.

Pelo que se sabe, o local onde o evento foi realizado era propriedade de Antônio Checchin Júnior, o pai de Leivinha, líder e organizador do festival.

Imagens retiradas do Google


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A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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