ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

Curitiba e a devastação são as vitrines do paradoxo Ambiental paranaense

Os humanos são multifacetados e por acharem que são dotados de inteligência e racionalidade, salvo raríssimas exceções, fazem dos anéis de ouro que possuem nos dedos o retrato de si mesmos. Como prova, dedique uns minutos diariamente para reparar detalhadamente no que está acontecendo ao seu redor e tire suas conclusões.


curitiba.jpgCuritiba é a oitava cidade mais populosa do Brasil (Foto: Divulgação/Câmara de Curitiba)

Embora a introdução induza que o texto irá tratar de assunto ligado a psicologia ou política, o conteúdo principal é relatar como os humanos alteram a paisagem da arte ecológica para algo degradado e deteriorado como se estivesse reverenciando o sagrado. E acompanhando o movimento do Planeta, com esse intuito quase que único, seguem embrutecidos e em constante movimento rumo ao pior; pois o quadro que pintam é o reflexo de suas faces. Atualmente procurar no Brasil um estado com mais de 5 milhões habitantes que possa afirmar sem medo de errar, o qual sob os fundamentos e critérios econômicos, políticos e sociais certifiquem que é modelo para o país, que encha os olhos dos turistas de canto a canto, que a paz e a harmonia, tanto humana quanto ambiental sejam os cicerones, é mais difícil que garimpar ouro no vácuo. Algum realista e verdadeiro de princípios pode suscitar a seguinte afirmação: "se atualmente não há, é porque em nenhum momento houve. E se houve, foi nos tempos de meus bisavós".

Em comum acordo, pois a resignação é a quietação do espírito e agindo de tal maneira, jamais sofrerá as consequências oriundas do desassossego. Contudo, o resignado não passará de um filho acomodado do destino. No viés da suposição filosófica, ao menos um município foi condecorado com os planos de papel dos governos e se chama Curitiba. Fundada em 1693, a cidade capital do estado do Paraná contabiliza mais de 1 milhão e 800 mil habitantes circulando pelos seus arredores; o que se comparado com São Paulo que possui quase 11 milhões de usuários somente na capital, o número de habitantes é mínimo.

Ponto de parada dos tropeiros que transitavam entre Viamão, Rio G. do Sul e Sorocaba, São Paulo, Curitiba teve o seu progresso acelerado com a chegada em massa de poloneses, italianos, alemães e ucranianos; e os traços culturais desses povos podem ser vistos nas obras de arte espalhadas por toda cidade. Porém o ponto de maior relevância foi a reconstrução, tanto geométrica quanto urbanística, por qual a cidade passou no século passado.

Tanto é que o sistema de transporte inspirou o TransMilênio, implantado em Bogotá, capital da Colômbia. Sobre a questão ambiental, Curitiba chegou a ser considerada cidade ecológica devido o planejamento e assentamento da malha viária urbana, fluidez nos transportes e sobretudo, por causa das inúmeras praças e áreas verdes que acolhem muitas espécies da ave-fauna e diversos elementos da botânica. Soma-se à inovação, a implantação de expressivos projetos de sequestro de carbono nas fachadas dos prédios. Todo esse poderio ecológico resulta em uma substancial qualidade de vida para os curitibanos, humanismo para os visitantes e o charme de dizer que a cidade já marcou presença na lista dos municípios de maior preservação ecológica do mundo. Todavia, as rodas verdes da sustentabilidade estacionaram na plataforma da continuidade e já não se fala mais frequentemente nesse título; quiça não tenha caído do galho e estilhaçado no solo do esquecimento. Com isto, a bela obra de arte tende às artificialidades, ao decadente, ao desprezado e feio.

trem.jpgApós mais de um século sob sol e chuva, a solidez da peça é o reflexo do aço bruto vindo da Europa. Isto sim era Engenharia feita resistir o tempo. Aliás, até um tempo não muito distante, os profissionais desta sublime área, -quando conscientes de seu papel social constroem o futuro - desconheciam as palavras gambiarras, desmatamento e a safadeza da corrupção. Se por um lado, construíram monumentos que ultrapassam as barreiras do tempo, a ferrugem do mesmo tempo corroeu-lhes a ética e a vergonha. E a falta de tais adjetivos na inter-relação cotidiana é o precipício moral de todos! Como na política, na Engenharia Carmem Lúcia "O escárnio venceu o cinismo". Escrevo como Engenheiro e amante dos ensinos da técnica matemática aplicada e o pensamento crítico da filosofia; os quais remontam os tempos e em tese, - se não houver um chumacinho com muitas cédulas de cem pratas envelopadas, pois vendem o papagaio, a sogra, a mãe e até a alma para o malfeitor - são os mesmos.

Saindo de Curitiba, uma viagem daquelas que vale o clichê "de tirar o fôlego" é descer a serra do Mar de trem. Iniciada em 1880, a ferrovia que liga Curitiba ao porto de Paranaguá foi construída por mais de 9 mil homens corajosos, batalhadores e desejosos de ter o progresso econômico paranaense passando pelas suas mãos e suor. O que era impossível para muitos engenheiros seniores europeus tornou-se realidade para o jovem engenheiro Teixeira Soares de apenas 33 anos. E após cinco anos, considerado tempo recorde devido às condições topográficas e as viabilidades técnicas serem totalmente adversas à implantação do projeto, os 110 km de trilhos passou a encurtar o tempo entre as duas cidades; assim como diminuiu o sacrifício dos povos que residiam, uns enfurnados e outros encafuados, nos sopés da serra. Para a época, apesar da lamentável perda de mais 6 mil homens para o trabalho escandalosamente bruto e o presságio do que seria os anos vindouros para o meio ambiente e capital natural paranaense, foi um feito e tanto da engenharia brasileira.

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Na travessia, o que mais tem são pontilhões ligando as superfícies altas dos profundos abismos, imensas florestas verdes cobrindo o horizonte ao longe, jorros de água despencando de ribanceiras feito véu de noiva levado pelo vento, e se o turista ficar extasiado ao se deparar com o suor derramado pelos operários que abriram as elevadas crateras e fendas nos rochedos, uma parada na estação que dá acesso ao pico do Marumbi faz-se necessário. Porém, se o coração estiver quieto, comportado e palpitamente disposto para uma caminhada leve (levíssima) de 10 km, em 1000 m, - rampa média de 10% - separam o nível da estação ao topo mais alto do pico. Em 1789, Joaquim Olímpio foi o primeiro andante das montanhas paranaenses a escalar o ponto mais alto do maciço. E ao descobri-lo, bradou: "Ou mudem os seus conceitos e tenham respeito pela beleza da Vida, ou o fogo da Morte em cadeia a manterá cativa para sempre"; e assinou a placa inaugural do montanhismo no Brasil. A vista lá de cima é bela demais para apenas dois olhos nus de um aventureiro desbravador das matas.

Mudando o roteiro e direcionando a locomotiva do progresso para o Norte, a região concentra muitas cidades desenvolvidas economicamente do estado. Dentre elas está Londrina, cidade que já foi a pioneira no plantio e cultivo de café. Não é preciso recorrer a primeira lei da matéria para saber que para algo se estabelecer em determinado ambiente, o local tem que estar livre e desimpedido, pois dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo; portanto, a biologia e a química respondem pela tese de quê um tem que perder espaço para a planta exótica dominar o território. E foi exatamente isto o que ocorreu em todo o estado. Mas como?

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Até por volta de 1950, o estado resguardava uma boa reserva florestal sob seus domínios. Não obstante, um cinturão verde cobria-o "quase todo". Porém, o desenvolvimento desordenado havia saído dos pampas e vinha devorando tudo. Subiu a serra, passou pela região de Curitiba, atingindo a messoregião. O relevo relativamente plano e o solo bastante aproveitável contribuía para a expansão da agricultura e pecuária. E com o avanço desenvolvimentista promovido pelos exploradores que detinham o capital, o desmatamento e o tocar fogo deliberado foram inevitáveis; e até os primeiros anos deste século, o Paraná recebeu o título de estado mais desmatado da união. Lógico que após 2000 em diante, uma vez que aparentemente não tinha mais o que derrubar e a cultura rasteira tomava conta do horizonte ao longe, a devastação diminuiu em certa região, porém avançou pelos recantos vizinhos; chegando ao centro-oeste.

Todavia, o efeito carrossel do sobe e desce estava consolidando - quase - e quando não havia mais nada em um lado para destruir, atacava-se o outro. E entre os anos de 2014 e 2015 o estado retomou a título que sempre foi dele por direito de desmatamento, e em relação aos anos anteriores, as espécies remanescentes de araucária passaram a figurar no escopo das mais desflorestadas. Sordidamente, nos derradeiros 30 anos, o Paraná foi o estado que mais desmatou as reservas de araucária, e o mais assustador, é o responsável por 1/4 de tudo o que foi derrubado desta espécie florestal no Brasil. Além de produzir o pinhão, fruto rico em nutrientes, fibras e muito consumido no Sul e parte do Sudeste, a árvore é o símbolo representativo do estado; atributos que não lhe confere o direito de ser preservada. Pelo contrário, deve ser retirada para o plantio da riqueza.

paraná1.jpgDurante as fiscalizações na região de Palmas (PR), técnicos encontraram várias áreas desmatadas; entre as espécies derrubadas estão araucárias e imbuias (Foto: Adriana Loduvichack/RPC) Fonte: g1.globo.com/pr/campos-gerais-sul/noticia/2016/06/fiscais-do-ibama-fazem-operacao-de-combate-ao-desmatamento-no-parana.html

Semelhante a uma via de mão dupla, o Paraná é um estado, o qual as tradições culturais e o desenvolvimento oriundo dos europeus não conseguiu romper com os paradoxos ambientais tão visíveis originados pelas mesmas origens de colonizadores. Ecologicamente, adotou-se um critério na capital e no restante do estado, outro. No entanto, devido às estações em forma de tubo e aos ônibus que trafegam em avenidas exclusivas, Curitiba foi escolhida pela O.N.U (Organização das Nações Unidas) como cidade modelo a ser seguido na reconstrução do Afeganistão. Está mais do que claro que os humanos são multifacetados e agem conforme a ocasião e suas vontades próprias. No caso do estado do Paraná, a maneira como tratam o meio ambiente, é o mesmo que desconstruir as teorias da Sustentabilidade. Sobretudo, usar de maneira deliberada os elementos da Natureza representa a diminuição das reservas naturais; e a consequência, é a escassez de recursos para a sobrevivência das gerações vindouras; que será composta pelos filhos, netos e bisnetos dos usuários atuais.

Tais atitudes desregradas e perdulárias escrevem nas entrelinhas que às vezes o belo se confunde com a insensibilidade dos desmandos, tornando a obra de arte feia, depressiva e decadente. E perante o narcisismo do homem e a fragilidade ambiental, o belo é um quadro fiel à ganância e infiel aos princípios naturais. Sobretudo, em casos como a atual realidade do estado do Paraná, o homem pinta a sorte futura, que nada mais é que a pintura do quadro: "As palafitas da falência"!

paraná5.JPGVocê está na selva dos mortais que se matam até por vaidade! Sem se preocupar com o elitismo linguístico e o refino na dialética, as favelas inspiram e argumentam poetas e filósofos.

Fato recorrente em todos os centros urbanos do Brasil, variando apenas em proporção e o estilo da paisagem, a favelização está concentrada nas periferias; e em Curitiba não é diferente. Mesmo porque o que não é visto nas vitrines do exibicionismo; e embora posto para a vendagem, não tem valor monetário e por isto, não há comprador que leiloe a obra de arte.

Contrário dos alquimistas, para prejuízo, ruína de todos, os humanos modernos transformam ouro em latão desprezível. Coisas de baratas, ratos e restos de gente, se pudessem, devolviam para quem lhes ofertou; porém como é impossível, os vermes e bactérias presentes nos monturos são obrigados a digeri-los.

Notas: fotos de domínio público retiradas do Google.

P.S.: A série de escritos sobre o estado do Paraná, iniciada com as maravilhas da cidade de Prudentópolis, conhecida por concentrar em seu território as maiores cachoeiras do país e o Parque Estadual Vila Velha, será concluída com o texto sobre o parque Estadual de Guartelá; um dos canyons mais belos do país.


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