ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Curitiba e a devastação são as vitrines do paradoxo Ambiental paranaense

Os humanos são multifacetados e por acharem que são dotados de inteligência e racionalidade, salvo raríssimas exceções, fazem dos anéis de ouro que possuem nos dedos o retrato de si mesmos. Como prova, dedique uns minutos diariamente para reparar detalhadamente no que está acontecendo ao seu redor e tire suas conclusões.


curitiba.jpgCuritiba é a oitava cidade mais populosa do Brasil (Foto: Divulgação/Câmara de Curitiba)

Embora a introdução induza que o texto irá tratar de assunto ligado a psicologia ou política, o conteúdo principal é relatar como os humanos alteram a paisagem da arte ecológica para algo degradado e deteriorado como se estivesse reverenciando o sagrado. E acompanhando o movimento do Planeta, com esse intuito quase que único, seguem embrutecidos e em constante movimento rumo ao pior; pois o quadro que pintam é o reflexo de suas faces. Atualmente procurar no Brasil um estado com mais de 5 milhões habitantes que possa afirmar sem medo de errar, o qual sob os fundamentos e critérios econômicos, políticos e sociais certifiquem que é modelo para o país, que encha os olhos dos turistas de canto a canto, que a paz e a harmonia, tanto humana quanto ambiental sejam os cicerones, é mais difícil que garimpar ouro no vácuo. Algum realista e verdadeiro de princípios pode suscitar a seguinte afirmação: "se atualmente não há, é porque em nenhum momento houve. E se houve, foi nos tempos de meus bisavós".

Em comum acordo, pois a resignação é a quietação do espírito e agindo de tal maneira, jamais sofrerá as consequências oriundas do desassossego. Contudo, o resignado não passará de um filho acomodado do destino. No viés da suposição filosófica, ao menos um município foi condecorado com os planos de papel dos governos e se chama Curitiba. Fundada em 1693, a cidade capital do estado do Paraná contabiliza mais de 1 milhão e 800 mil habitantes circulando pelos seus arredores; o que se comparado com São Paulo que possui quase 11 milhões de usuários somente na capital, o número de habitantes é mínimo.

Ponto de parada dos tropeiros que transitavam entre Viamão, Rio G. do Sul e Sorocaba, São Paulo, Curitiba teve o seu progresso acelerado com a chegada em massa de poloneses, italianos, alemães e ucranianos; e os traços culturais desses povos podem ser vistos nas obras de arte espalhadas por toda cidade. Porém o ponto de maior relevância foi a reconstrução, tanto geométrica quanto urbanística, por qual a cidade passou no século passado.

Tanto é que o sistema de transporte inspirou o TransMilênio, implantado em Bogotá, capital da Colômbia. Sobre a questão ambiental, Curitiba chegou a ser considerada cidade ecológica devido o planejamento e assentamento da malha viária urbana, fluidez nos transportes e sobretudo, por causa das inúmeras praças e áreas verdes que acolhem muitas espécies da ave-fauna e diversos elementos da botânica. Soma-se à inovação, a implantação de expressivos projetos de sequestro de carbono nas fachadas dos prédios. Todo esse poderio ecológico resulta em uma substancial qualidade de vida para os curitibanos, humanismo para os visitantes e o charme de dizer que a cidade já marcou presença na lista dos municípios de maior preservação ecológica do mundo. Todavia, as rodas verdes da sustentabilidade estacionaram na plataforma da continuidade e já não se fala mais frequentemente nesse título; quiça não tenha caído do galho e estilhaçado no solo do esquecimento. Com isto, a bela obra de arte tende às artificialidades, ao decadente, ao desprezado e feio.

trem.jpgApós mais de um século sob sol e chuva, a solidez da peça é o reflexo do aço bruto vindo da Europa. Isto sim era Engenharia feita resistir o tempo. Aliás, até um tempo não muito distante, os profissionais desta sublime área, -quando conscientes de seu papel social constroem o futuro - desconheciam as palavras gambiarras, desmatamento e a safadeza da corrupção. Se por um lado, construíram monumentos que ultrapassam as barreiras do tempo, a ferrugem do mesmo tempo corroeu-lhes a ética e a vergonha. E a falta de tais adjetivos na inter-relação cotidiana é o precipício moral de todos! Como na política, na Engenharia Carmem Lúcia "O escárnio venceu o cinismo". Escrevo como Engenheiro e amante dos ensinos da técnica matemática aplicada e o pensamento crítico da filosofia; os quais remontam os tempos e em tese, - se não houver um chumacinho com muitas cédulas de cem pratas envelopadas, pois vendem o papagaio, a sogra, a mãe e até a alma para o malfeitor - são os mesmos.

Saindo de Curitiba, uma viagem daquelas que vale o clichê "de tirar o fôlego" é descer a serra do Mar de trem. Iniciada em 1880, a ferrovia que liga Curitiba ao porto de Paranaguá foi construída por mais de 9 mil homens corajosos, batalhadores e desejosos de ter o progresso econômico paranaense passando pelas suas mãos e suor. O que era impossível para muitos engenheiros seniores europeus tornou-se realidade para o jovem engenheiro Teixeira Soares de apenas 33 anos. E após cinco anos, considerado tempo recorde devido às condições topográficas e as viabilidades técnicas serem totalmente adversas à implantação do projeto, os 110 km de trilhos passou a encurtar o tempo entre as duas cidades; assim como diminuiu o sacrifício dos povos que residiam, uns enfurnados e outros encafuados, nos sopés da serra. Para a época, apesar da lamentável perda de mais 6 mil homens para o trabalho escandalosamente bruto e o presságio do que seria os anos vindouros para o meio ambiente e capital natural paranaense, foi um feito e tanto da engenharia brasileira.

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Na travessia, o que mais tem são pontilhões ligando as superfícies altas dos profundos abismos, imensas florestas verdes cobrindo o horizonte ao longe, jorros de água despencando de ribanceiras feito véu de noiva levado pelo vento, e se o turista ficar extasiado ao se deparar com o suor derramado pelos operários que abriram as elevadas crateras e fendas nos rochedos, uma parada na estação que dá acesso ao pico do Marumbi faz-se necessário. Porém, se o coração estiver quieto, comportado e palpitamente disposto para uma caminhada leve (levíssima) de 10 km, em 1000 m, - rampa média de 10% - separam o nível da estação ao topo mais alto do pico. Em 1789, Joaquim Olímpio foi o primeiro andante das montanhas paranaenses a escalar o ponto mais alto do maciço. E ao descobri-lo, bradou: "Ou mudem os seus conceitos e tenham respeito pela beleza da Vida, ou o fogo da Morte em cadeia a manterá cativa para sempre"; e assinou a placa inaugural do montanhismo no Brasil. A vista lá de cima é bela demais para apenas dois olhos nus de um aventureiro desbravador das matas.

Mudando o roteiro e direcionando a locomotiva do progresso para o Norte, a região concentra muitas cidades desenvolvidas economicamente do estado. Dentre elas está Londrina, cidade que já foi a pioneira no plantio e cultivo de café. Não é preciso recorrer a primeira lei da matéria para saber que para algo se estabelecer em determinado ambiente, o local tem que estar livre e desimpedido, pois dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo; portanto, a biologia e a química respondem pela tese de quê um tem que perder espaço para a planta exótica dominar o território. E foi exatamente isto o que ocorreu em todo o estado. Mas como?

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Até por volta de 1950, o estado resguardava uma boa reserva florestal sob seus domínios. Não obstante, um cinturão verde cobria-o "quase todo". Porém, o desenvolvimento desordenado havia saído dos pampas e vinha devorando tudo. Subiu a serra, passou pela região de Curitiba, atingindo a messoregião. O relevo relativamente plano e o solo bastante aproveitável contribuía para a expansão da agricultura e pecuária. E com o avanço desenvolvimentista promovido pelos exploradores que detinham o capital, o desmatamento e o tocar fogo deliberado foram inevitáveis; e até os primeiros anos deste século, o Paraná recebeu o título de estado mais desmatado da união. Lógico que após 2000 em diante, uma vez que aparentemente não tinha mais o que derrubar e a cultura rasteira tomava conta do horizonte ao longe, a devastação diminuiu em certa região, porém avançou pelos recantos vizinhos; chegando ao centro-oeste.

Todavia, o efeito carrossel do sobe e desce estava consolidando - quase - e quando não havia mais nada em um lado para destruir, atacava-se o outro. E entre os anos de 2014 e 2015 o estado retomou a título que sempre foi dele por direito de desmatamento, e em relação aos anos anteriores, as espécies remanescentes de araucária passaram a figurar no escopo das mais desflorestadas. Sordidamente, nos derradeiros 30 anos, o Paraná foi o estado que mais desmatou as reservas de araucária, e o mais assustador, é o responsável por 1/4 de tudo o que foi derrubado desta espécie florestal no Brasil. Além de produzir o pinhão, fruto rico em nutrientes, fibras e muito consumido no Sul e parte do Sudeste, a árvore é o símbolo representativo do estado; atributos que não lhe confere o direito de ser preservada. Pelo contrário, deve ser retirada para o plantio da riqueza.

paraná1.jpgDurante as fiscalizações na região de Palmas (PR), técnicos encontraram várias áreas desmatadas; entre as espécies derrubadas estão araucárias e imbuias (Foto: Adriana Loduvichack/RPC) Fonte: g1.globo.com/pr/campos-gerais-sul/noticia/2016/06/fiscais-do-ibama-fazem-operacao-de-combate-ao-desmatamento-no-parana.html

Semelhante a uma via de mão dupla, o Paraná é um estado, o qual as tradições culturais e o desenvolvimento oriundo dos europeus não conseguiu romper com os paradoxos ambientais tão visíveis originados pelas mesmas origens de colonizadores. Ecologicamente, adotou-se um critério na capital e no restante do estado, outro. No entanto, devido às estações em forma de tubo e aos ônibus que trafegam em avenidas exclusivas, Curitiba foi escolhida pela O.N.U (Organização das Nações Unidas) como cidade modelo a ser seguido na reconstrução do Afeganistão. Está mais do que claro que os humanos são multifacetados e agem conforme a ocasião e suas vontades próprias. No caso do estado do Paraná, a maneira como tratam o meio ambiente, é o mesmo que desconstruir as teorias da Sustentabilidade. Sobretudo, usar de maneira deliberada os elementos da Natureza representa a diminuição das reservas naturais; e a consequência, é a escassez de recursos para a sobrevivência das gerações vindouras; que será composta pelos filhos, netos e bisnetos dos usuários atuais.

Tais atitudes desregradas e perdulárias escrevem nas entrelinhas que às vezes o belo se confunde com a insensibilidade dos desmandos, tornando a obra de arte feia, depressiva e decadente. E perante o narcisismo do homem e a fragilidade ambiental, o belo é um quadro fiel à ganância e infiel aos princípios naturais. Sobretudo, em casos como a atual realidade do estado do Paraná, o homem pinta a sorte futura, que nada mais é que a pintura do quadro: "As palafitas da falência"!

paraná5.JPGVocê está na selva dos mortais que se matam até por vaidade! Sem se preocupar com o elitismo linguístico e o refino na dialética, as favelas inspiram e argumentam poetas e filósofos.

Fato recorrente em todos os centros urbanos do Brasil, variando apenas em proporção e o estilo da paisagem, a favelização está concentrada nas periferias; e em Curitiba não é diferente. Mesmo porque o que não é visto nas vitrines do exibicionismo; e embora posto para a vendagem, não tem valor monetário e por isto, não há comprador que leiloe a obra de arte.

Contrário dos alquimistas, para prejuízo, ruína de todos, os humanos modernos transformam ouro em latão desprezível. Coisas de baratas, ratos e restos de gente, se pudessem, devolviam para quem lhes ofertou; porém como é impossível, os vermes e bactérias presentes nos monturos são obrigados a digeri-los.

Notas: fotos de domínio público retiradas do Google.

P.S.: A série de escritos sobre o estado do Paraná, iniciada com as maravilhas da cidade de Prudentópolis, conhecida por concentrar em seu território as maiores cachoeiras do país e o Parque Estadual Vila Velha, será concluída com o texto sobre o parque Estadual de Guartelá; um dos canyons mais belos do país.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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