ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Tanto um como o outro já existiam há mais de 2017 anos

Onde houver o interesse, a exploração, a divisão, o oportunismo, a desonestidade e a guerra, que eu leve a paz, a igualdade, a multiplicação e a fraternidade. E onde se encaixa, entra a justiça nessa estória, Vira-lata indigesto? É a consequência das quatro virtudes praticadas ininterruptamente, ou durante os 3600 s do dia. Portanto, mantenha-se vigilante, porque o caminho para a retidão é um único labirinto estreito, enquanto que os desvios, além de ser alamedas verdejantes, amplas, compridas, largas e espaçosas, são muitos e variados.


Contextualização: Embora as prateleiras de sua estante estejam repletas de livros sobre Sociologia, História, Antropologia, Turismo, Filosofia, Bíblias, Psicologia, Meio Ambiente, Literatura, Biologia, Medicina, Física, Gramática, Hidráulica, Mecânica dos Solos, Cálculo, Direito e disciplinas mais, o empirismo do botar a mão, do remexer a terra ainda pode ser uma ferramenta fundamental para entender as ocorrências e as mudanças dos tempos. E os fatos a seguir, redundantemente, são fatos e foram todos eles experienciados por ele, o experimentalista, que é uma espécie de Sam Chupança vagando, flutuando acima dos pesadelos discutíveis humanos, ou declaradamente um arredio, um vagabundo, um canalha debochando de uma sociedade que varre para debaixo do tapete a imperfeita máscara da perfeição. Por suscitar as palavras humano e humanismo, como o leitor classifica o filho do Criador, o miraculoso Jesus Cristo, a criatura que foi enrolada em trapos de panos, o menino que foi aquecido pelo sopro das ventas dos animais, cuja cotação atual no mercado monetário é mais baixa, infinitamente menor que o valor, que a cotação do papai noel nas Bolsas de Valores de todos os países?

"Olhos os livros / Na minha estante / Que nada dizem de importante / Servem só pra quem / Não sabe ler (...) Eu também vou reclamar - Raul Seixas

july_11_.jpgNão me pergunte por quê, mas meu nome é Ovelha. Pelo amor que tens às coisas sagradas, se é que Deus existe no seu coração, não faça como fizeram, de brincar de tosquiar a ovelha!

Não, nem tudo nas falas sobre o Natal e ano vindouro podem ser tomados como verdade absoluta e o que ratifica as inverdades, é a filosofia que trata da crítica comportamental através dos postulados. Sobretudo, porque as teorias sobre o comportamento são dissertadas consoante as ocorrências da época. Tudo é mutável conforme as ocasiões e por isto, os quatro fatos a seguir podem, - como não? - representar a verdade.

Sábado. Ainda que nada afeito aos ruídos sonoros e agressivos urbanos, o (des) Humano - qualquer um pode fazer o papel dele - sai para ouvir o concreto asfáltico fritar os pneus de sua magrela. Cidade ofuscada pelos sérios problemas políticos e econômicos, os quais refletem no comércio de modo geral e na fisionomia dos transeuntes. Aliás, até o céu contribuía para o mal-estar generalizado, pois grossos chumaços de algodão prenunciavam chuva intermitente. A cultura do consumo, das benesses do ter acima do ser e as aparências advindas de ambas, os torna um rio de contentamento. O poder do dinheiro move sorrisos e bem-estar; todavia, sem estes amuletos cotidianos, a sociedade naufraga em um mar de angústias, que às vezes é melhor ficar encafuados dentro de casa. Indiferente aos problemas de ocasião, o único objeto que participa da decepção humana, é o espelho. Revelador, este objeto não pode faltar nos casarões e palácios, nas casas; ou por mais decrépito que seja, nos casebres.

A manhã agourenta deflorada pela noite espreitava a virgindade da tarde. Ele estava numa jornada quieta, sem maiores dores de cabeça; pelo menos por onde pedalava, que era uma região nobre, com casarões, largas avenidas e solene arborização nas laterais. A riqueza faz bem às vistas. Em cada praça chilreada pelos pássaros, a possibilidade de um belo e irreal cartão postal da cidade. Mais para mal do que para bem, os citadinos desentocam de suas casas para o banho de sol. Enquanto desfilam os tamancos, os tênis de marca e as vestes coladas no corpo, as madames disparam os flashes da máquina fotográfica do celular. Adestrados, os cães e gatos atendem o aceno da dona e fazem pose para o disparo. Uma, duas, três... e mais outra. Os animais não falam, mas os olhos reluzentes dos donos dizem que eles estão acima da paz e da guerra, acima do bem e do mal. Nunca na história da zootecnia se sentiram tão prestigiados.

Troque seu cachorro / Por uma criança pobre / Sem parente, sem carinho / Sem rango, sem cobre / Deixe na história de sua vida / Uma notícia nobre... Rock da cachorra. Eduardo Dusek

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Com cuidado, com o máximo cuidado ele aproxima a magrela e observa as fraquezas alheias. Bisbilhoteiro desde muito, pede licença e pergunta: "Por favor, senhora, a madame não quer, não deseja comprar mais um filhote"?

- Ei, largue de ser enxerido! Siga seu caminho intrometido! Moro em apartamento. - O ciclista não se dá por vencido: "É que estou necessitado. São lindos; dóceis; amáveis! É uma pena ter que desfazer deles".

Com cara de poucos amigos, a madame abre espaço para o diálogo.

- Qual é a raça dos cães que o senhor está vendendo. Esse aqui é um puro sangue; um legítimo e vermifugado Terrier inglês que só come ração importada de valor altíssimo; e se me recordo bem, à época paguei uma fortuna de mais de 3 mil dólares para trazê-lo da Inglaterra. Até pouco tempo era o único desta linhagem que havia no Brasil.

- Desconheço essa raça, mas se a madame está falando, acredito. Os meus, do orfanato que fecharam, passaram-me 100 filhotes da raça Tomba-lixo; ou Vira-lata, como queira. Com direito a um saco de ração e um repelente para pulgas todo mês, durante dez anos, a senhora se interessa em ficar com um. Ficando com apenas um, já seria de grande valia social. É uma criança à menos nas ruas que teria obviamente um lar; assim espero.

Enquanto o céu se desfez do nevoeiro, a madame se fechou em copa. E requebrando em cima dos tamancos, a ponto de quase quebrar os tornozelos, se benzeu. Passou a mão no celular e quando o bisbilhoteiro ouviu: "é da polícia?.."; sentindo-se culpado e procurando explicação para o que fez, pirulitou sem deixar os vestígios das pegadas. Como dizem nos botecos: deu linha na pipa. Lógico que pedalou pesado; pois aqui na Terra das Leis, corruptos e esquemas prediletos, qualquer coisa é motivo de processo judicial. Ainda que não precise e faça parte de elite burguesa, ganhar uma graninha sem dispender uma gota de suor não faz mal a bolso nenhum; pelo contrário, qualquer madame de calça esfarrapada agradece.

Parecido com o líder negro Martin Luther King, que insultou a sociedade americana ao dizer que para contrair inimigos não é preciso fazer guerra, mas apenas dizer a verdade que não deveria ser dita, (des) Humano consegue contrair arengas e encrencas até com os colegas - acredita nos dicionários, mas não acredita em amizades sinceras, respeitosas e honestas; por isto, o máximo que consegue nas suas relações são colegas - e vizinhos próximos sem sair; ou melhor, em frente à sua casa.

"Não acredito na humanidade, porque não acredito em mim. Não acredito no Brasil, porque não acredito no brasileiro"!

A erva daninha encobria as flores e plantações herbáceas. Sufocadas pelos abraços do sombreado frio da morte, poucas delas respiravam. A mofinagem das folhas e do caule é o clamor da falta que lhes fazem os raios de sol; porque o solo é pura fertilidade. Se aparecesse uma alma benevolente para limpá-las, provavelmente suas folhagens voltariam a sorrir e contagiá-las pela fotossíntese clorofilada.

"Com muita raça, fiz tudo aqui sozinho / Nem um pé de passarinho veio a terra semeá / Agora veja, cumpade a safadeza / Começou a marvadeza, todo bicho vem prá cá" - trecho da letra "Capim Guiné" de Wilson Aragão, interpretada por Raul Seixas.

Saturado de tanto ver a covardia da erva daninha contra a plantação, (des) Humano meteu uma enxada e uma picareta no ombro e foi à luta. A erva menor carpia com a enxada e os arbustos maiores metia a picareta implacavelmente, cuja finalidade era matar o mal pela raiz. Fazia os montes, separava a folhagem que poderia se transformar em serrapilheira, e o que fosse descartável, descartado seria. Minhocas e insetos pululavam da terra. A passarinhada fazia a farra, dava graças pela benevolente refeição. Trinavam, chilreavam , gorjeavam o prazer de comida farta e o melhor: sem precisar dispender energia batendo asas. E qual é o pobre "penetra" miserável que não gosta de uma boquinha livre na festa de aniversário do irmão rico?

"Pensando localmente, agindo globalmente" - a frase é de autor desconhecido; porém, usada como uma espécie de logotipo na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento – UNCED / Rio-92, com a Agenda 21.

Às vezes (des) Humano escorava o corpo em cima enxada e punha-se a observar o movimento dos vizinhos. Abelhudo de nascença, inquiria: "ei fulano, você tem uma enxada afiada na sua casa?" Surpreso com a iniciativa, o interpelado arregalava os olhos; em seguida dava a resposta. Se a resposta era positiva, ele retrucava dizendo que não precisava de enxada coisíssima nenhuma, mas sim de mãos cascudas para ajudar a carpir. Todavia, se a resposta fosse o contrário, espertamente e até certo ponto insolente, sugeria ao fulano que apresentasse ao trabalho, porque enxada ele possuía quantas fosse necessário. Farto vivencialmente, não deixava brechas para saída de emergência da presa. E no rufar dos tambores, não apareceu vivalma para lhe ajudar; ao contrário, enquanto permaneceu fazendo a capina e a destoca, a rua ficou deserta e por ali, ninguém quis trafegar.

"Fazei o bem até aos que vos odeiam!" (Mt 5.44). Popularmente, é o "Fazei o bem, sem olhar a quem".

A capina seguia fria. Ajuda: somente da passarinhada; fato que (des) Humano parecia estar gostando, pois mexia e remexia a terra para ver a ligeireza da passarinhada à cata do alimento. "A vida de todos os viventes do planeta poderia ser menos sofrida, menos sufocada pelas altas temperaturas, se os humanos bons e maus de coração facilitassem, afrouxassem os nós das gravatas que encarceram vossas gargantas diariamente".

Natal que se aproxima. A buzina do caminhão de lixo é disparada. Moradores fazem de conta que são surdos. Correm para dentro de casa. "Caixinha de natal; caixinha de natal dos garis". Nada de alguém enfiar a mão no bolso e a desculpa é posta na conta da crise econômica. Essa coitada deve ter costas largas para suportar a população brasileira inteira, pois todo o infortúnio por qual o país passa é causada por ela. A crise deve estar envergonha de ter que carregar a cruz de sua máxima culpa. "Moradores, não esqueçam da caixinha de natal dos garis; colabore com o nosso peru!" Nessa hora, não só o peru, o frango e a aves de modo geral, mas a leitoa, o cabrito, o carneiro e outros quadrúpedes bateram asas das mesas dos garis já no dia 2 de janeiro do ano que está prestes a morrer.

(des) Humano faz nova parada para observar a passagem do caminhão. Barulho incontido; até os cães em sinal de protesto, choramingam. De supetão, o enxadeiro chama o vizinho que está entretido com a obra, que tem ficar pronta até a chegada do papai noel. O "bom velhinho" opera milagres na vida de quem nele acredita. O dizimador de erva daninha inquire: "Por favor, você tem 50 reais em mãos para dar para os garis? Além de ajudar-me, evita d´eu ter que parar com a capina; que é a minha prioridade nesse momento". O vizinho, vigiado de perto pelos três filhos que mais parecem feitores da obra, - como se portavam, não descruzam os braços nem para pegar um pedaço papel higiênico - mete a mão no bolso da calça, puxa a carteira e de lá retira a cédula pedida. "Não, agente divide o valor: eu dou pra eles os cinquenta reais e digo que está sendo dado meio a meio por nós dois: 25 reais seu e 25 meu e família".

Com a visão encoberta pelo caminhão, (des) Humano confere a veracidade dos fatos. "Será que falou em meu nome; e se é tão bonzinho, por que não não deu antes? Porque lembrou apenas agora"? Os sintomas da crise é tão presente no meio humano, que quando o assunto é pagar ou doar, muitos contraem a síndrome do pânico, a amnésia profunda do Alzheimer e esquecem onde depositaram o dinheiro. Desde a antiguidade, o maior sentimento do homem está no bolso. Aliás, são extremamente ciumentos e preservam com unhas e dentes esses acessórios que embelezam as vestes.

Impossível haver paz, amor, justiça e igualdade, sem a operosidade das mãos. Do trabalho em tempo; do fazer fraterno, o qual o coração pulsa a espontaneidade do desprendimento. Carpir, escrever e ler é fácil; difícil é radicalizar; portanto, esqueçamos tudo... "Pois ficar à toa é tornar-se um estranho às estações e sair do compasso da vida, que marcha majestosa e orgulhosamente submissa rumo ao infinito". - Sobre o trabalho; Kalil Gibran

Como a erva daninha que dá trabalho, sufoca, é contra os princípios de sobrevivência, e por fim mata a benevolente plantação, o entulho crescia progressivamente em frente a casa do vizinho. Pela lei da proporcionalidade, se subiam a fundação, estruturas, laje e alvenaria, as rumas de restos de material subiam em equivalência ao montante construído. Às vezes as leis artificiais, aquelas criadas pelos homens para doutrinar os homens, servem somente para encher as páginas da Constituição, as páginas dos Códigos de Edificação municipais e consequentemente, gerar dividendos para àqueles que criaram as leis, bem como para os que transformam árvores em celulose. São planos de papel, que ficam estagnados nos arquivos empapelados dos arquivos mortos, apenas.

Para levantar um prato de comida no dia 25 e honrosamente, celebrar a santa ceia natalina em praça pública, um andante empurra um carrinho de supermercado. Corre contra os ponteiros do relógio; que infalivelmente, não pára. "Os chineses não tinham outras coisas a fazer, a não ser perder tempo para inventar o relógio, a primeira e mais escravista máquina do mundo?" Alguns maltrapilhos são sábios e não poupam a sociedade de suas aversões pelos hábitos corriqueiros suportados silenciosamente pela maioria, para não dizer todos.

IMG_3969.JPGSempre soube que o "poliglotismo" é nada, é vazio absoluto, quando a prosa cai para a retórica, para o campo das ideias, para o aconchego da dialética, para a contundência da filosofia. Quis estudar vários idiomas e embora tenha múltiplas utilidades, língua não lava banheiros. Pela inutilidade, desisti!

Oferece os préstimos a um e a outro. Vai daqui, vai dali e de porta em porta, o carrinho ade, vazio vai chegando ao final da rua. Por sorte ou desgraça, convence o morador-construtor a retirar parte do entulho. Falam em trabalho, mas os valores ficam em segundo plano, e como a dignidade é amplamente superior a necessidade, o maltrapilho inicia o combate ao monturo. Sua pá cavuca fundo. Passado certo tempo, o carrinho está cheio. Não fazendo-se de frouxo, bota força para empurrá-lo. A topografia plana do logradouro é generosa com o andante; porém seus músculos ululam nos braços, nas pernas e coxas secas. Com muito custo, aos trancos e barrancos, some na esquina.

Trepidando. Batendo as laterais e rangindo as rodas, o barulho do carrinho volta a importunar o silêncio reinante. Tudo na vida, principalmente o amor e as coisas dependem de manutenção, conservação e lubrificação constante. O andante enche novamente a máquina e parte em direção ao aterro sanitário clandestino. Esse tipo de assento sanitário é encontrado em qualquer confluência das grandes cidades brasileiras, alimentando moscas, ratos, baratas, insetos e logicamente, gerando sobrevida para pés descalços, para os sem-teto e descamisados. Ao decompor-se, o chorume negro e gorduroso é belo atrativo para os vetores de doenças bacterianas.

"Assim disse o Filho do Pai: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do Pai!" (Jm - 17:5)

Mais um carreto, mais uma viagem de entulho, mais força, mais queima de energia dispendida e o resumo é a paciência que se esvai: "dona, espere aí... a senhora falou que eram duas carrinhadas. Já levei três e o entulho não acaba, pelo contrário, é eu sumir na esquina que a ruma aumenta, o que está acontecendo? Quanto a senhora vai me dar? Daqui a pouco vai querer que eu desmonte e carregue sua casa.

- Dez reais.

- O quê, 10 reais? Faço questão de trazer todo o lixo de volta e deposito aqui; e a dona que suba a escada e coloque-o de volta onde quiser. Tá pensando o quê? Sou mendigo, mas não sou burro, não senhora. Até os burros merecem respeito.

- Calma! Quanto você quer, então?

- Calma, calma, calma o quê? 10 reais deveria ser cada carrinhada. Para retirar o que está, aqui sem mais nada, no mínimo 40 reais.

- É muito dinheiro pra pouco trabalho, para carregar pouca coisa... pago, 20. Tudo bem?

- Por que a senhora não põe o seu filho, que tem comida gratuita diariamente, para carregar? Acho que esse valor daria para pagar a comida, a luz, a água, a roupa, o carro, a gasolina, o IPTU, a faculdade, o motel, a camisinha e não sei mais o quê..! Entende agora por que ele tem onde morar, e eu não? Às expensas da sombra, do suor alheio, não há felicidade que reclame, ao contrário, será eternamente sorridente. Cuidado, a madame por estar alimentando a serpente! Preste atenção, porque o seu filho pode ser a picareta, com a qual a dona está cavando a própria sepultura. Ninguém conhece o âmago de ninguém, minha senhora! Sob os seus domínios o playboy pode ser um coisa; e fora, um crápula completamente diferente. Já catei no lixo belos frascos cheio de perfume que não correspondiam a fragância mencionada no rótulo. Assim como já ouvi rumores que o lúcifer era anjo de luz. Biologicamente, madame, uma bactéria é infinitamente mais útil ao Meio ambiente, mais necessária à Natureza do que eu, do que a senhora, do que seu filho. Cruz-credo! Qual a sua utilidade, a não ser consumir e procriar, dona? Empobrecer o mundo? A senhora sabia que o filho do Brad Pitt trabalha? Li uma matéria que relatava a dignidade do filho dele servindo as mesas, trabalhando de garçom em Londres. E o seu filho, o quê faz?

- O que o filho dele faz ou deixa de fazer, não me importa; não me interessa.

- Mas me extorquir, usurpar o meu suor para capitalizar pro seu filho, cruzar o braços e achar um pequeno príncipe, isto sim, interessa. Claro, que importa! Difícil encontrar alguém que não faça parte do bando, da súcia de corruptos, ladrões do prato de comida alheia!

Com os nervos à flor da pele e ainda tentando saber quanto iria receber pelo trabalho árduo, o carreteiro das ruas some na esquina. Ao ouvir o entrevero, o marido aparece: "O que está havendo, aqui, mulher?"

- É esse casqueiro; andante de rua; resto de monturo; noia, fumador de crack, que não cumpre com os acordos! Promete uma coisa e faz outra. Combinamos pagar 10 reais para carregar todo o entulho, agora vêm com essa de quê não foi isso que falamos! Vou dispensar esse revoltado... por isto que a casa dele é debaixo dos pontilhões, viadutos e pontes. Ninguém merece um idiota indolente, como ele!

"Só vivendo, experienciando, respirando as realidades cotidianas consigo uma posição relativa para minha metamorfose ambulante. Sobretudo, para ser um Vira-lata sociável, as minhas boas maneiras de conduta dependem da conduta, da padronização, da personalização da maioria; o que faz-me crer que uma cadela rebelde e ordinária, - ainda que seja forte, resistente e solidária - não faz verão sozinha. Não faz inverno, primavera, verão, outono... inverno...; não constrói, não carrega o mundo, não apaga o incêndio, solitariamente!"

A redenção de Jesus Cristo lembra que se o leitor é de Natal, feliz natal e o quanto merecer, melhor ainda 2017. Cuidado com o pecado da gula. Peixes morrem pela boca; insinua também que deve-se lembrar, sempre, de quem limpa as nossas porcarias de cada dia. Ainda dá tempo, pois nunca é tarde para dar uma lembrancinha, oferecer um sorriso, ofertar um copo com água para quem tem sede, doar um abraço, pousar a mão sobre ombros tristonhos, doar um prato de comida, abrir o coração indiscriminadamente e dizer: "te amo", fazer alguém feliz; aliás, tarde é a extrema-unção que é o presente natural de todos; cuja revelação é prenunciada pelas lágrimas do que deveria e não foi feito em tempo. A manhã do dia seguinte pode ser o tarde de hoje!

Se é que ele existe, o que Deus ama, valoriza e preza naqueles que se dizem irmãos de Cristo e filhos dele, é a honestidade, a justiça e o trabalho que garantem o sustento de cada dia. O resto são falácias de falsos profetas e escribas! Ô meu amigo, um rock and rollzinho bem arranjado nas caixas, (sem anedotas e mesquinharias) aquele regado à flautas, oboés e horda de anjos, certamente o compraz; o faz sorrir, feliz da vida.

Fim de ano são mesas redondas, grandes e fartas, rodeadas de convivas. À meia noite dos dias 24 e 31 de dezembro, as facas de serra apresentam-se ao trabalho e enterram-se avidamente, violentamente, enquanto que os garfos seguram firmemente as nesgas de carne dos animais que esperneiam, sofrem e sentem calados, sem se fazer sentir... é por esta e outras que resistir ao sistema abrupto humano, é o mesmo que degustar da mais pura e tenra carne da melancolia, tanto animal, quanto humana!

P.S.: Fato é que nas profundezas deste imenso Planeta Terra não há espaço para o humanismo, bem como para o exercício do respeito, para a difusão da paz e justiça; e sordidamente, são palavras obsoletas e soltas que ainda aquecem os dicionários, porém frias, gélidas por não presidir a inter-relação cotidiana. O viés é que quem possuir na ponta da adaga a afiada arbitrariedade aguilhoada, quê fure os olhos do combatente. E cegando-o, imediatamente, a vitória é questão de segundos. No faroeste capitalista-tecnológico, é matar ou morrer; quando não, é a forma mais humana e consentida de escravizar o próximo...; mas é natal; é fim de ano! Mais um fim de ano, que não finda nunca.

"Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma" - Eclesiastes (9:10).

Ninguém no mundo, nem a mais mísera vivalma insolente que vaga dias e noites pelos hemisférios sobre as linhas divisórias da maior extensão do planeta Terra, trabalha para sobreviver. Ao contrário, derrama as gotas de suor para saciar o apetite da conquista, capitalizar e armazenar em lugar seguro as moedas de ouro e prata ganhas. E a cada segundo, o cofre do mundano é semelhante a um pernilongo depois de banquetear a santa ceia, torna-se ainda mais pesado, impossível de ser carregado.

O bisbilhoteiro; maltrapilho experimentalista; resto do monturo; douto e quase poliglota; Vira-lata e cata treco, reserva sete dias todos os anos para se deixar levar pelo espírito do jogo dos sete enganos; porque segundo ele, ser enganado os 365 dias é morte precoce.

A imagem da cadela foi retirada do Google; enquanto que a segunda pertence ao autor do texto.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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