ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Apenas uma nota musical é suficiente para reconhecer o honesto Rock Progressivo

Focus é o expoente máximo, a banda precursora, a fonte geradora de energia do melhor Progressivo que faz soprar as notas musicais que movem as pás dos Moinhos de Vento no país dos diques hidráulicos e ciclovias. Aliás, a retumbância musical da banda vai além, motivo de ser considerada pelos críticos como a essência musical de todo território que compõe os Países Baixos.


Desculpe-me pela alta dosagem e elevado teor de hormônio serotonina consumido, mas bom humor e molhar as trilhas com muitas lágrimas desprendidas pela adrenalina que corre nas faces dos penitentes são preponderantes para escritores sem pena; e antes de prosearmos um pouco sobre a banda, farei um breve relato de como se deu a inspiração para escrever sobre essa inesgotável, vulcânica, eruptiva e erudita banda de Rock Progressivo.

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No decorrer do último giro pelo vasto mundo mergulhado em lombo de animais, caminhado até solapar os calcanhares, trilhado até criar bolhas na sola dos pés, atravessado estreitos em barcaças, dormido sono solto e desfolado a bunda em cima de descansadas e preguiçosas sacarias que iam e viam, pra lá e pra cá, em cima de carrocerias de caminhões e voado léguas e mais léguas nas asas de pássaros-de-prata, corria pelas minhas veias um líquido inquietante, o qual desassossegava meus neurônios e importunava, agredia insolentemente meus tímpanos. Meus sentidos mantinham-se desolados, obscuros, procurando uma luz mágica e clareadora, chamada pelos entendidos de Música de Qualidade; àquela endereçada aos poucos e sensíveis ouvidos que ultrapassaram a barreira de quase meio século de uso.

Estava há muitos dias na estrada e por onde andava, nenhum caminho, guiado ou não, que levasse-me, se não ao mais puro, terno, único, honesto e inegociável Rock, preferencialmente Progressivo, pelo menos à uma música salutar; pois ouvir Demônios da Garoa não foi suficiente. Todavia, foi útil ouvi-los, afinal, é permitido dormir na estação ferroviária, mas perder o trem derradeiro e aos devaneios mundanos se entregar, jamais.

IMG_5273.JPGFoto pertencente ao autor do artigo

A viagem chegava ao fim e dava como certo que, Rock, somente quando chegasse à terra do Cristo Redentor, quando estivesse na terra das gangs do tráfico e para não ser ainda mais o denunciador das Cruéis Verdades, na terra dos Corruptos, Corruptores e Al Capones modernos, com a chancela Eike Batista, Luis Molusco, do famoso grileiro de terra Zé Queen... Enfim, estava de volta à terra dos homens de cara envernizadas que não sabem, ou procuram não saber de nada a respeito dos atos praticados por eles. No paraíso da Permissividade, tudo é mistério e quase nada, luz que ilumina a verdade centrada na razão.

Seno. Cosseno. Co-tangente, é a tangente em verso de gente. Epicentros formados pelo epiceno comum a dois gêneros. Obscenos. Não entendeu nada? Exato: contrário do fator reagente contido no Rock Progressivo, no Paraíso da Permissividade, cada um com seus propósitos e atos aleatórios são sentenças e enigmas difíceis de serem desvelados.

Sem pés, mas com uma cabeça em cima do pescoço, entre duas orelhas, cobertas por um chumaço de cabelo. Ou melhor: lá, todo Saci-mágico com bolsos cheios e mente vazia possui dois pés e um Habeas Corpus na cartola.

Última chamada para o embarque. Os abastados primeiro e por fim, os pés esfarrapados e chulezentos, que por motivos óbvios, optam pela tarifa econômica. A passos lentos, da classe dos últimos, eu era um dos primeiros. Contudo, nem toda profundeza é abismo, como nem todo abismo é atalho para a morte, e contando com um pouco de sorte, ouço algo que ouriça minha percepção. Apuro os tímpanos e para minha surpresa, era a estupenda canção instrumental "House of the king" do Focus. Sorrateiramente, dei meia volta, indo ser o último dos últimos na fila.

Refletindo, definitivamente conclui que títulos, ostentação, mania, poder e dinheiro não significam cultura refinada.

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Magistralmente, a flauta soprada por Thjis van Leer invadia meus ouvidos, remexia meus neurônios, dava nós em minhas tripas, reavivava minha essência e sem o mínimo medo das altas temperaturas, ainda que não seja Ícaro, voava às alturas. Incrivelmente, naquele aeroporto minúsculo, dominado por bigodes amarelados e carrancudos; mulheres encostadas nas paredes passando a língua nos lábios cobertos pelo baton vermelho e arribando a saia, o sistema de som apresentava aos viajantes uma das melhores obras-primas do Rock Progressivo mundial. Pensei: "mesmo sabendo que o Papado não reconhecerá os autores como santos, o milagre merece ao menos ser retratado através de algumas linhas".

É chover no mar, assim como é sol escaldante no deserto ao meio dia, dizer que Focus é mais uma banda dos anos 70; época áurea da glorificada música mundial. Por sinal, até o Brasil, país culturalmente distante da seleta cultura - no país nanico culturalmente, poucas se salvam; uma delas? As obras barrocas do completo e inigualável Aleijadinho - fez música de qualidade e no pacote da grande relevância cultural e pouca expressividade para os brasileiros, estava o Rock Progressivo.

Focus é a benevolente focagem derivada das trilhas percorridas pela desfocagem dos integrantes da banda. Do erro, deu-se o certo; pois, como estudantes lunares, um queria isso, outro queria aquilo. Outro não queria nada com nada; e embora talentosos, consequentemente, no que dependesse da maioria, tudo resumiria ao nada. Todavia, no meio do curso havia um queria tudo, não para si, mas para todos e uniu os amigos, mostrando-os a verdadeira dimensão do que faziam, que era tocar um ou mais instrumentos. Entre dilemas intelectualizados bebericados em copos cheios, coisas mais e planos exequíveis, Thijs, o organista, flautista e posteriormente líder e vocalista da banda, convenceu o baixista Martin Dresden a aprofundar suas ideologias musicais na garagem de sua casa. Entre fios empretecidos de picumãs e teias de aranhas que escorriam do teto, as ideias fluíram melhor quando um apresentou ao outro o que ambos já sabiam. E no primeiro flerte musical, as longas variações e improvisos instrumentais os nutriam com o que há de mais completo e profundo no erudito.

O nome Focus não existia até 1970, quando o guitarrista Jan Akkerman filiou-se ao grupo. Não obstante, a banda completava-se com o baterista Bert Ruiter. Com esta formação e nome definido, o quarteto lançou em vinil o disco "Moving Waves" em 1971. E enquanto a maioria das bandas apuravam sua musicalidade com o decorrer do tempo, o álbum desabou no país dos diques como bomba. Foi literalmente um espasmo clássico em forma de Rock Progressivo.

Dentre as tantas, a faixa inicial, denominada "Hocus Pocus" é uma obra rara; com Thjis mostrando toda sua habilidade incondicional. A música é um interlúdio falseteado e ritualístico ditado pelo vocalista, fundido com uma recorrente e fantástica reiteração de um riff de guitarra. Nessa peça meio ópera, além do grupo, destacam-se as afinadas cordas vocais de Thijs e o dedilhado do guitarrista no ir e voltar, acelerar e desacelerar, parar e continuar; a bateria no contratempo. Uma obra, além de única e operosa, inigualável e o tempo levará mais alguns séculos para iluminar certas inteligências para produzir outra semelhante, porque igual, jamais!

Inspirada na ópera de Monteverdi e arrebatada por variações contantes em seu progresso musical, a canção instrumental "Eruption é uma transcendência de quase de 20 min. E por ser uma suite perdition, com as mesmas notas e acordes termina. Ainda nesse mesmo disco, a faixa intitulada "Janis" é um revertério instrumental que faz o coração repensar a criança inocente não descoberta na rudeza adulta. Flutuação desconcertante!

Aos trancos, sopros, reuniões, desentendimentos, novos integrantes, shows mund`afora e encontros casuais para lançamento dos demais álbuns, a banda virou o milênio. E entre aventuras e desventuras lançou mais 14 álbuns; mas pedindo licença ao Thijs, nenhum deles tão simplório de capa e espetacularmente arranjado, quanto o "Ondas Móveis".

Após debutar nos palcos europeus, por volta dos anos de 1990, a banda resolveu servir uma encorpada canja musical aos brasileiros; e por várias vezes, subiu ao palco de casas de shows de cidades brasileiras. E embora disseminasse o estilo incomum do Progressivo radicalmente clássico, indo aonde a seleta cultura estivesse, Thijs e seus "comandados" estiveram em São Paulo para alguns espetáculos. Dentre eles, a banda se apresentou no "Projeto SP"; que era um pequeno circo, coberto por lonas rotas. Aliás, o show foi acompanhado por um público diminuto, porém seletivo, clássico, exigente e culturalmente, evoluído; que é o mínimo que a música de qualidade merece. Para quem ainda tem dúvida, está matutando querendo saber que estilo e a qual gênero pertence: música de qualidade é aquela que não se expõe, não se apresenta em qualquer palco e não pertence aos modismos de época; afinal, honestidade não tem valor monetário e obviamente, não se compra.

PS.: Para manter a espinha ereta, a língua dentro da boca e o coração sereno, viagem e trabalho, muito trabalho honesto é a saída para os males do Paraíso da Permissividade; e claro que no pacote inclui-se o honesto e inviolável Rock Progressivo. Como Progressivo por aqui somente a corrupção, incultura e a falta de vergonha na cara, a central metereológica da música de qualidade prevê para as próximas décadas chuvas intermitentes e risco iminente de deslizamento de terra nos morros. Destarte, fuja do bestial sistema de moradia enquanto há tempo... vá conhecer os fenômenos advindos da intempérie, saber com quantos pingos enche um copo de água; correr perigo no vasto mundo. Vá ter contato, reconhecer o Rock Progressivo através de uma única nota musical, que é mais, muito mais que as descoradas bandas Yes e Pink Floyd!


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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