ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Espírito Santo Enfurecido

Em tempo, pensemos nos verdadeiros frutos do Espírito Santo: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Gálatas: 5:22


"Não sei por que é tão distante e inacessível o porto da paz, do amor, da felicidade! - indagava consigo, o velho e imaculado Santo, canoeiro de tantas ilhas.

Vito2.png Essas águas, que outrora foram mansas, serenas e plácidas, seus remos não talhariam mais. A fúria, a desonestidade e a rudeza dos tempos, fura, assassina, cega o coração daqueles que descortinam o mundo com os olhos da alma.

"Como não sabe, claro que você sabe?!... é porque a ignorância é uma prisão de portas abertas, amplas e ilimitada, mas nem todos sabem e querem viver sob o domínio da liberdade democrática. Em um sistema democrático pleno, o dever e o bom senso superam o direito. E se tais virtudes acontecerem no seio social, como sobreviverá os profissionais ligados à justiça humana?"

De forma intensa, incisiva, direta e como lhe desse um tapa na cara, de forma pesada, rebatia sua consciência; que também pode ser considerada uma espécie de Espírito da verdade e justiça divina.

A melhor forma, a maneira mais subjetiva, mais sublime de exercer inteligência é sendo perceptivo. Por falta de percepção, morre o lobisomem, morre o gato, morre a jararaca, morre o rei da selva, morre a iena, morre o jasmim, morre a barata, morre o elefante, morre o dono do mundo, morre o manequim, morre o rato do Homem.

Como se deu a queda e derrota...

Estava escrito em toda e qualquer profecia, que a labareda da destruição, incendiaria o Espírito Santo um dia. E para os céticos que leem, mas não se importam com as datas do zodíaco, eis que o profetizado se cumpriu no ano do galo de fogo.

Longe, bem longe, vinha a multidão. O cumulus nimbus que se formou em céu algodoado e com o tempo tornou-se sombras endiabradas, era composto por inteligências de todos os gostos, gêneros e espécies diversas de animais; que faziam de uma Vitória, inúmeras derrotas. O furacão devastador, as sombras endemoniadas desciam a ladeira rodopiando. Altos e baixos. Negros. Brancos. Mancos e coxos também. Bronzeados e albinos. Anciões e netos. Moscas e pernilongos. Carecas com perucas vermelhas e cabeludos com fios de picumã escorrendo pelas costas, também tinham. Exagerados e extravagantes. Havia de tudo um pouco; e milagrosamente, o pouco se transformou num enorme cordão de afiliados ao proselitismo.

Dias e noites se alternavam entre escuridão e claridade. Fogo e jatos de água. Vida e morte. Firme e obstinado, o tropel dos bate-palmas, bate-latas, manda-paus, atira-pedras botavam os blocos quebra-tudo na rua. Olhos grandes - monstruosos - afoitos no abismo da selvageria... causando miséria, pisoteavam as folhagens, sujavam as águas da ilha, quebravam vidraças, tombavam carros. Impossível contar quantos!

Algumas casas tentavam dormir. E enquanto os idosos dormiam engabelados pela esperança improvável, crianças voavam pelas noites acompanhadas com putas, cáftens, larápios, mendigos, corujas e pássaros curiangos. Iniciam cedo, para parar cedo. Seguem rigorosamente o lema: "não há avô que não tenha sido pai; e não há pai, que não tenha sido filho um dia. Redundantemente, as heranças e os legados consanguíneos são hereditários".

Ao ouvir o ordeiro e disciplinado séquito, deu meia-volta e escondeu-se numa moita. Entocado roendo as unhas, ficou espiando feito bicho-do-mato. Assustado feito cão sem dono. Babava como cachorro enlouquecido pelos estrondos do espetáculo pirotécnico. Tapou os olhos para aliviar o sofrimento dos ouvidos.

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Soltando fogo pelas ventas, um bando urrava daqui. Outro berrava de lá. Um queria uma coisa; outro reivindicava outra. Mas em verdade, o bando de cá unia-se ao bando de lá para formar o todo, porque a união faz a força. Dois e dois, são cinco. A força impõe medo e representa a conquista. Palavras de ordem ribombavam, comprimiam-se procurando lugar no espaço. Silenciavam-se de vez em quando. Esquisito silêncio; e parecido com o efeito do brinquedo bumerangue, retornavam de instante em instante. Ao retornar, a turba arrepiava os cabelos, franzia as testas, fechava-se em copas, lustrava as ferraduras, empunhava o que tinha nas mãos e o impropério de palavras vitoriosas estavam de volta às ruas de uma Vitória derrotada. Afiadas. Operantes. Iradas. Raivosas: "cerca daí, que eu rebato daqui. Quebra daí, que eu destruo daqui. Rói, fura, passa a peneira, saqueia o saco, amigo Paco".

- Dá na canela... quebra o osso da tíbia... na moleira... "no imbigo"... na medalhinha de São Expedito! Vai que ele é frouxo e amarela! Miguelito, suma, dê cabo no sentinela! - heroicamente bradavam os sócios-coadjuvantes da balburdia.

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Bem mandado, Miguelito não só fez o solicitado, como passou a mão num boneco que estava vestido na vitrine. Despiu-o e mandou a carcaça na rua. Os restos mortais daquela figura descorada e sem sangue caíram estatelados no meio fio: a cabeça de um lado e o resto do corpo em outra, dividiram-se em duas partes sem simetria e espírito.

Uma escola itinerante passava por ali: não uma escola formadora; não uma escola que se preocupa em melhorar o nível cultural e intelectual do povo; não uma escola que seja disciplinadora e garanta o futuro dos discentes e docentes; uma escola que dá bons frutos e seletas sementes com o tempo; mas um escola de samba. Trêmulas e agonizantes, as pernas tentavam ressuscitar. Sambavam, pois o momento lhe era propício. Como fora malabaristas no passado, pedalavam no ar. Acompanhando o resto do corpo, tombaram desfalecidas. Era o fim do manequim; nunca mais enfeitaria as vitrines, nunca mais induziria os olhos dos vivos ao consumo desumano; nunca mais seria visto e contemplado pelos passos lentos e demorados das madames. A cena arrancou aplausos e assovios da turba; que queria mais por direito, e entre gestos obscenos, vandalismos e sarcasmo, gritavam em uníssono: "Judas, Judas, Judas, pau nele! Venham todos à malhação do Judas, o traidor de Cristo... o traidor de nossos direitos".

Levado ao hospital e posteriormente ao IML, a família do manequim espera pelo laudo médico para saber a causa-mortis.

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- Bisbilhotando o que é certo, o infeliz manequim que estava no lugar errado, no momento errado, teve múltiplas fraturas no corpo; mas o que ocasionou a morte, foi uma fratura aberta no crânio, fato que causou hemorragia interna. Sinto pela família enlutada, mas faltou percepção ao seu ente querido. Que seu espírito tenha a merecida paz em outra dimensão!

Ass.: Dr. Pacífico da Cruz- Médico, Escritor, Sociólogo e Comendador da Paz - CRM 71

Passado a procissão dos bem intencionados, ou da doideira do Espírito Santo, fato que não ocorreu em horas, muito menos em dias, os cães saíram das locas rastejando. Trôpegos, os gatos lambiam a sujeira do rebuliço. E entre o alívio, o corpo dolorido pela posição incomoda, a desidratação e fraqueza devido à falta de sódio, açúcares, água, vitaminas, sais minerais na corrente sanguínea, ainda ressabiado se voltariam mais tarde, quem conseguia pensar, indagava com o Vento chamado Absurdo, um senhor vivido que conhecia bem àquelas paragens, que soprava o rescaldo e grunhia contando o que sobrara, querendo saber dele se por onde segue, caminha a humanidade, teria que andar na contramão, em sentido contrário, pois a maioria, ou todos sempre e invariavelmente detém a razão. E o senhor Vento soprava dizendo que por mérito e competência, o séquito de amigos de mesma ideologia era o legítimo e único detentor da verdade absoluta.

O cordão do Espírito Santo está sempre certo. O erro pertence somente à alguns e naquele instante, somente aos que questionavam, pensavam o problema; pois a democracia republicana foi estudada por longos anos pelos Gregos em tempos muito antigos, para quando implantada nos dias atuais, servir o povo, ser útil na inter-relação, dirimir e propor meios de convivência justa e igualitária entre a maioria; e não entre todos.

Retirou as folhagens verdes que o cobria. Sacudiu o corpo, como os animais se sacodem para espantar as pulgas, eliminando os restos de ignorância ocasionados pela nuvem de poeira deixada pela passagem do séquito. Seguiu vagando. Queria muito que o Espírito Santo cobrisse aquele povo com a guerra da paz; porque de atitudes e procedimentos corretos, de conquistas suadas, de Vitórias impostoras, de leis estapafúrdias e amor aos berros, pauladas, pedradas, amotinação, gás lacrimogênio, balas de festim, saqueamentos e muito sangue derramado desnecessariamente, bastava o que ele vira.

"Que essa multidão que acompanha o Espírito Santo, que tudo exige e nada oferece, permaneça nas trevas, mas ao menos, tenha discernimento e sabedoria para distinguir a guerra da paz; bem como, diferenciar a luz do trigo do joio das trevas".

Todavia, convém dizer em nome dos assustados, prejudicados, saqueados e perceptivos, que a ignorância é uma gaiola e desta verdade irrefutável ninguém oscila pendurado no pêndulo da dúvida. As gaiolas são mais úteis, mais necessárias do que a liberdade de voar de asas abertas; pois são nas gaiolas sem portas que residem as gretas de um ocaso seguro e previsível.

Paradoxalmente, por saber e conhecer os direitos do que é viver em liberdade, deleitando-se com as leis de uma democracia descorada e insípida, a sábia matilha que se auto-qualifica como pertencente ao Espírito Santo, ataca em bandos. Convenientemente, certas espécies animais são desleais e nunca atacam sozinhas; mesmo porque os instrumentos de uma orquestra sinfônica são tocados por um bando..., salvo engano, de músicos.

No espetáculo odioso proporcionado por um Espírito Santo enfurecido, não apenas presenciou-se a derrota de mais de cem pessoas; como a certeza de que habitamos em meio a uma multidão destruída. Morta de princípios, fundamentos e conquistas por meios e forças próprias; certificando que o espírito não é tão santo como pregado pela crença popular.

PS.: "qualquer semelhança com o que ocorreu na cidade de Vitória, Espírito Santo, é mero subterfúgio que inspira a literatura dos escritores sem pena". - era o que trazia o cartaz que apareceu exposto na categoria Literatura do Obvious, site cultural lido em todos os países de língua portuguesa.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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