ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!

Entre a tragédia e a superação, prevaleceu o rock da banda Lynyrd Skynyrd

O alarido do rock está para aqueles que fazem da vida, energia e movimento; assim como o silêncio supremo está para a estática da morte. Exatamente no centro, dividido em partes iguais, está a possibilidade de viver e o funesto e inesperado ato de morrer. Este é o prefácio biográfico da banda de rock americano, Lynyrd Skynyrd.


lynyrd2.jpg

Valendo-me do surrado clichê de tempos idos, o qual os frágeis mortais modernos preferem abster-se, (com gel, ou tinta no cabelo, brinco na orelha e quatro rodas nas mãos se acham purificados pela infinitude) os grãos da morte foram semeados nas covas dos caminhos por onde a vida trafega. Silenciosa, tacanha, imprevisível, sórdida, aleatória, inegociável, atemporal, ela viaja em qualquer meio de transporte; e quanto mais rápido for o meio, proporcionalmente será sua velocidade de atuação. Assim sendo, é impossível escrever sobre a banda Lynyrd e não mencionar o trágico acidente aéreo que forçou a renovação dos integrantes da banda.

Para quem curti o som pesado, ao invés do leve, para quem imita Jesus Cristo e pensa em carregar uma cruz pesada para pagar os pecados, ao invés de transportar a leveza de cem quilos de algodão nas costas, essa música é imprescindível. É uma pedrada exatamente no centro geométrico da moleira e quem sobreviver ao ataque sonoro, ressuscitará ao ouvi-la pela terceira vez e ainda pedirá mais: bis... bis!

Certos acontecimentos e fenômenos que ocorrem do nada, são prenúncios e indícios do futuro que nos espera. São passagens obrigatórias e delas, cientistas, mágicos, espíritas ou videntes nenhum escapam. Difícil dizer se essa tese pode ser aplicada à banda, mas o histórico de tragédias iniciou lá atrás, ainda nos tempos de school. As más línguas bateram contra os dentes, afirmando que numa partida de Baseball, o endiabrado Ronnie rebateu uma bola aloucada com tamanha violência, que acertou em cheio seu amigo, Bob Burns, que estava acompanhado com Gary Rossington na arquibancada. A pancada foi tão forte, que Bob ficou inconsciente por alguns minutos.

Apesar do desconforto inicial, o que gerou alguns rachas e rusgas, o episódio arrancou muitas risadas nas noites mal dormidas pelo grupo de amigos. E se por um lado houve um certo mal-estar, por outro, a música os unia; e influenciados pelo pop-rock das bandas Yarbirds, Cream, Stones, e principalmente pelo country-rock dos conterrâneos do Creedence Clearwater Revival, seguiam criando desordem pelas ruas de Jacksonville, cidadela do sul da Flórida. Era dar na "telha" que montavam os equipamentos, plugavam as caixas e os microfones velhos nas tomadas, e qualquer coreto, qualquer praça carcomida pelo óxido do tempo era palco para uma sonora e demorada apresentação.

A questão é meio filosófica, mas ainda que controverso, em tudo que cerca de mistérios a vida cotidiana existe um porquê; basta que o curioso, o linguarudo, o fofoqueiro queira se aprofundar no assunto. E a história do nome da banda é bem parecida com a história do nome oficial do CCR. A diferença é que os integrantes do Lynyrd não curtiam muito o professor de ginástica da tradicionalista e rígida escola em que estudavam. Por sua vez, the theacher Leonard Skinner, também não era lá afeito aos cabelos longos e sujos; irritava-se com os tênis furados que entorpeciam suas narinas com o poderoso gás derivado do chulé; e o que mais lhe provocava: a rebeldia do rock and roll, motivo de constantemente suspender os pupilos Ronnie, Gary e Bob das aulas de ginástica ministradas por ele.

Diz o ditado que numa democracia representativa e ordeira "manda quem detém o poder e respeita quem tem juízo"; e fim de papo. Contudo, numa ocasião qualquer, o subordinado, o súdito do rei vai à forra. Palco montado. Fios desencapados faiscando por todos os lados. Os integrantes da banda One Percent tomam os seus lugares. Show prestes a começar... de repente o brado: "Nós somos o One Percent, mas vamos mudar nosso nome esta noite. Todos que quiserem que mudemos para Leonard Skinner, aplaudam!", disse Ronnie. A moçada foi ao delírio. Assovios. Arrotos e mais arrotos. Aplausos e mais aplausos; até quando alguém berrou, rosnou nervoso: "Ronnie, você disse que irá mudar, mas não falou qual será o novo nome da banda. E aí..."?

Provocador, Van Zant apressou-se em dizer que, como todos que estavam ali amavam o professor Leonard Skinner de coração e espírito, em homenagem ao teacher amado por eles, daquele instante em diante bastava trocar as vogais do nome do professor por Y. Tempos depois, Gary comentou que a mudança das letras era para preservar a identidade do atroz culpado. Inocente, o professor foi para cova sem saber que sua ira e descontentamento com os alunos rebeldes e cabeludos foi motivo de inspiração e sucesso da banda que levava o seu nome. Se soubesse, tivesse certeza da presepada de Ronnie, cobraria direitos autorais pelo uso.

lynyrd.jpg

Contrária da produção artística americana, que é fazer aquilo que produza efeito rápido, imediato e com isto, a massa consuma imediatamente, venda o produto na mesma estação em que fora fabricada, a banda criou um estilo próprio de fazer música. Contudo, quando o apreço pelo trabalho sobrepõe as expectativas, o retorno é deveras imediato. Porém, é conveniente dizer que as expectativas foram superadas pela competência e talento de cada um em prol da banda.

Donos de um estilo totalmente abstrato, misturando o tudo com o nada, sem nenhuma ligação com o rock tradicional da época, Lynyrd criou o chamado southern-rock, estilo também conhecido como rock-americano. A musicalidade da banda é marcada pela clareza das guitarras, compasso da bateria, acompanhado nota por nota pelo baixo e um teclado meio rabuscado. Quase uma orquestra sinfônica, a formação inicial contava com sete integrantes. Já as letras flutuam entre o existencialismo humano aos elementos da natureza. Em "Free Bird", por exemplo, o relacionamento humano é "retratado" pela metáfora de um pássaro preso, que ao se libertar do alpiste, farelo e água dados pelas mãos humanas (grades) que o prende, vislumbra quão é imenso o ocaso. Ao contrário, mantido como estava, o voo ("pois eu devo seguir viagem, agora") seria de um pássaro de asas cortadas.

O inusitado dessa música é a composição rítmica, a qual as guitarras de Gary Rossington, Allen Collins e Ed King, revezam entre solos e timbres diferentes; fato praticamente único dentre todas as bandas. Após o vocal, a parte final é composta pela exibição e estrelismo dos três. Apresentação, simplesmente monumental!

Em "Simple Man", a letra aclara os tempos que ficaram no passado. Tempos em que uma mãe orientava o filho não para ser um filhinho mimado, daqueles chorões sorumbáticos que não afasta da barra de sua saia, mas um filho liberto do medo de correr o mundo; um filho livre das amarras, mas preso à sabedoria de lidar com as coisas do mundo. Tempos em que uma mãe ensinava os filhos a respeitar e dar vez ao próximo, acima de si; uma mãe que ensinava o filho a ter parcimônia, calma, para esperar o momento apropriado para realizar determinada tarefa; conquistar pelo trabalho o que lhe fosse digno; uma mãe que orientava o filho para ficar longe, manter distância da luxúria da beleza da carne e do ouro, ("tudo que você necessita está em sua alma") cobiças humanas que tanto trazem as efemeridades dos prazeres mundanos, quanto assassinam sonhos espiritualmente inocentes e longevos. "Simple Man" é uma singela oração dedicada ao filho por uma mãe visionária e coração terno. Uma mãe, enfim, que seguindo os preceitos religiosos, em tempos idos dizia: "E não esqueça filho, há alguém lá em cima".

"Simple Man" é uma canção para mães e filhos que se perderam nos curtos, embaraçosos e espinhosos labirintos que não existem mais. Sobretudo, a formação familiar moderna não passa de um imenso e largo jardim adornado com pétalas de flores em ambos os lados, que não permite ao jardineiro regá-lo com as lágrimas da dificuldade; apará-lo com os instrumentos que levem o nome de obstáculo. Indiferente à CNTP, a modernidade é um gás liquefeito invariável e contínuo, só falta engolir.

Tuesday's Gone é uma balada carregada de sentimento, destacado vocal do Van Zant e leves sonoridades alternadas entre guitarras e piano. Recital típico de um fim de terça feira. A musicalidade da banda já estava mais que sedimentada, já havia invadido os pubs, casas de shows, estúdios, palcos, programação de rádios e televisão alternativos; porém, a canção Sweet Home Alabama consolidou o Lynyrd no cenário do rock-americano. Esse hit musical, além de ficar conhecido nos EUA, rendeu bons dividendos para a banda e circulou por boa parte do mundo, obviamente, mais pelos lados da Europa.

Sob os arranjos e acordes de Sweet Home Alabama, esponsais já pediram a mão um do outro em casamento. Com a recomendação de que o Deus maior radicado no céu, salva; e o rock alivia, os deuses da terra os abençoaram.

A barcarola musical do Lynyrd era cantada pelos quatro cantos do país. Buscando ainda mais a independência, a banda adquire um pequeno avião para ganhar tempo e encurtar as distâncias entre os shows. Com isto, a agenda triplica; e em outubro de 1977, a aeronave denominada "Free Bird" levanta voo em direção ao estado de Lousiana com 26 pessoas a bordo. De repente bate o desespero e o pássaro livre de prata começa perder velocidade e altura.

Embora os pilotos tenham tentado solucionar o problema, que segundo as controvérsias geradas pelo fato, o avião apresentou uma falha mecânica, de modo que o consumo de combustível aumentava progressivamente. Fora isto, suscitaram a ideia que o consumo foi calculado errado para aquela travessia. De certo mesmo, é que o acidente foi inevitável, com o avião desmontando a cauda sobre uma extensa floresta em Mississippi. Ronnie e o guitarrista Steve Gaines morreram imediatamente ao desmanche da aeronave; enquanto Cassie Gaines, sua irmã, com a garganta perfurada de canto a canto, chorava copiosamente agonizando a morte nos braços de dois músicos sobreviventes. Morreram ainda o manager Dean Kilpatrick, além do piloto Walter MacCreary e do co-piloto William Gray. Esse foi um dos desastres aéreos mais triste da história da música; e até hoje fãs do mundo todo lamentam a perda precoce dos principais integrantes da banda.

A morte representa os quatro curingas da vida e preterir qualquer um deles, (e apenas um basta) é tolice; pois a morte é necessária à renovação, mas morrer sem completar o ciclo, morrer inesperadamente, pular fora do combinado, levando consigo as dúvidas e não saber os porquês foi chamado à eternidade às pressas, é no mínimo insensibilidade do coordenador de projetos do caos.

Todavia, por sorte e consolo daqueles que primam pela honestidade musical, nem todo ato fúnebre põe fim aos planos elaborados, e entre a tragédia e a superação, prevaleceu o rock da banda, que esteve na Terra, no ar, no fogo e nos palcos por mais um longo e demorado tempo. Porém, fazendo valer a máxima que alerta que para morrer basta estar respirando, é bom que se diga, que tragédias e mais tragédias é o que não faltaram à sempre reformulada banda de southern-rock, Lynyrd skynyrd.


Profeta do Arauto

Mendigo, andarilho, irresponsável com pedigree de vacante, cínico com passaporte de intelectual que se encontrou, quando não, caminha dentro de sua essência... e adeus hipocrisia, religião, materialismo, futebol, melindres, carnaval, drogas, álcool etílico, taças de vinho, papo furado em botecos, praia, netos, animais domésticos, montanhas, arrebol, política, trabalho, vaidade, beijo insípido, catecismo, alter ego, adultério, viagens, sexo obrigatório e mecânico, filhos bastardos, medicamentos tarja preta, esquizofrenia, silhueta, filhos oficializados, depressão, aposentadoria, terapia, solidão... Chega: morri para os hedonismos dos normais!.
Saiba como escrever na obvious.
version 10/s/musica// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Profeta do Arauto
Site Meter