ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Entre a tragédia e a superação, prevaleceu o rock da banda Lynyrd Skynyrd

O alarido do rock está para aqueles que fazem da vida, energia e movimento; assim como o silêncio supremo está para a estática da morte. Exatamente no centro, dividido em partes iguais, está a possibilidade de viver e o funesto e inesperado ato de morrer. Este é o prefácio biográfico da banda de rock americano, Lynyrd Skynyrd.


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Valendo-me do surrado clichê de tempos idos, o qual os frágeis mortais modernos preferem abster-se, (com gel, ou tinta no cabelo, brinco na orelha e quatro rodas nas mãos se acham purificados pela infinitude) os grãos da morte foram semeados nas covas dos caminhos por onde a vida trafega. Silenciosa, tacanha, imprevisível, sórdida, aleatória, inegociável, atemporal, ela viaja em qualquer meio de transporte; e quanto mais rápido for o meio, proporcionalmente será sua velocidade de atuação. Assim sendo, é impossível escrever sobre a banda Lynyrd e não mencionar o trágico acidente aéreo que forçou a renovação dos integrantes da banda.

Para quem curti o som pesado, ao invés do leve, para quem imita Jesus Cristo e pensa em carregar uma cruz pesada para pagar os pecados, ao invés de transportar a leveza de cem quilos de algodão nas costas, essa música é imprescindível. É uma pedrada exatamente no centro geométrico da moleira e quem sobreviver ao ataque sonoro, ressuscitará ao ouvi-la pela terceira vez e ainda pedirá mais: bis... bis!

Certos acontecimentos e fenômenos que ocorrem do nada, são prenúncios e indícios do futuro que nos espera. São passagens obrigatórias e delas, cientistas, mágicos, espíritas ou videntes nenhum escapam. Difícil dizer se essa tese pode ser aplicada à banda, mas o histórico de tragédias iniciou lá atrás, ainda nos tempos de school. As más línguas bateram contra os dentes, afirmando que numa partida de Baseball, o endiabrado Ronnie rebateu uma bola aloucada com tamanha violência, que acertou em cheio seu amigo, Bob Burns, que estava acompanhado com Gary Rossington na arquibancada. A pancada foi tão forte, que Bob ficou inconsciente por alguns minutos.

Apesar do desconforto inicial, o que gerou alguns rachas e rusgas, o episódio arrancou muitas risadas nas noites mal dormidas pelo grupo de amigos. E se por um lado houve um certo mal-estar, por outro, a música os unia; e influenciados pelo pop-rock das bandas Yarbirds, Cream, Stones, e principalmente pelo country-rock dos conterrâneos do Creedence Clearwater Revival, seguiam criando desordem pelas ruas de Jacksonville, cidadela do sul da Flórida. Era dar na "telha" que montavam os equipamentos, plugavam as caixas e os microfones velhos nas tomadas, e qualquer coreto, qualquer praça carcomida pelo óxido do tempo era palco para uma sonora e demorada apresentação.

A questão é meio filosófica, mas ainda que controverso, em tudo que cerca de mistérios a vida cotidiana existe um porquê; basta que o curioso, o linguarudo, o fofoqueiro queira se aprofundar no assunto. E a história do nome da banda é bem parecida com a história do nome oficial do CCR. A diferença é que os integrantes do Lynyrd não curtiam muito o professor de ginástica da tradicionalista e rígida escola em que estudavam. Por sua vez, the theacher Leonard Skinner, também não era lá afeito aos cabelos longos e sujos; irritava-se com os tênis furados que entorpeciam suas narinas com o poderoso gás derivado do chulé; e o que mais lhe provocava: a rebeldia do rock and roll, motivo de constantemente suspender os pupilos Ronnie, Gary e Bob das aulas de ginástica ministradas por ele.

Diz o ditado que numa democracia representativa e ordeira "manda quem detém o poder e respeita quem tem juízo"; e fim de papo. Contudo, numa ocasião qualquer, o subordinado, o súdito do rei vai à forra. Palco montado. Fios desencapados faiscando por todos os lados. Os integrantes da banda One Percent tomam os seus lugares. Show prestes a começar... de repente o brado: "Nós somos o One Percent, mas vamos mudar nosso nome esta noite. Todos que quiserem que mudemos para Leonard Skinner, aplaudam!", disse Ronnie. A moçada foi ao delírio. Assovios. Arrotos e mais arrotos. Aplausos e mais aplausos; até quando alguém berrou, rosnou nervoso: "Ronnie, você disse que irá mudar, mas não falou qual será o novo nome da banda. E aí..."?

Provocador, Van Zant apressou-se em dizer que, como todos que estavam ali amavam o professor Leonard Skinner de coração e espírito, em homenagem ao teacher amado por eles, daquele instante em diante bastava trocar as vogais do nome do professor por Y. Tempos depois, Gary comentou que a mudança das letras era para preservar a identidade do atroz culpado. Inocente, o professor foi para cova sem saber que sua ira e descontentamento com os alunos rebeldes e cabeludos foi motivo de inspiração e sucesso da banda que levava o seu nome. Se soubesse, tivesse certeza da presepada de Ronnie, cobraria direitos autorais pelo uso.

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Contrária da produção artística americana, que é fazer aquilo que produza efeito rápido, imediato e com isto, a massa consuma imediatamente, venda o produto na mesma estação em que fora fabricada, a banda criou um estilo próprio de fazer música. Contudo, quando o apreço pelo trabalho sobrepõe as expectativas, o retorno é deveras imediato. Porém, é conveniente dizer que as expectativas foram superadas pela competência e talento de cada um em prol da banda.

Donos de um estilo totalmente abstrato, misturando o tudo com o nada, sem nenhuma ligação com o rock tradicional da época, Lynyrd criou o chamado southern-rock, estilo também conhecido como rock-americano. A musicalidade da banda é marcada pela clareza das guitarras, compasso da bateria, acompanhado nota por nota pelo baixo e um teclado meio rabuscado. Quase uma orquestra sinfônica, a formação inicial contava com sete integrantes. Já as letras flutuam entre o existencialismo humano aos elementos da natureza. Em "Free Bird", por exemplo, o relacionamento humano é "retratado" pela metáfora de um pássaro preso, que ao se libertar do alpiste, farelo e água dados pelas mãos humanas (grades) que o prende, vislumbra quão é imenso o ocaso. Ao contrário, mantido como estava, o voo ("pois eu devo seguir viagem, agora") seria de um pássaro de asas cortadas.

O inusitado dessa música é a composição rítmica, a qual as guitarras de Gary Rossington, Allen Collins e Ed King, revezam entre solos e timbres diferentes; fato praticamente único dentre todas as bandas. Após o vocal, a parte final é composta pela exibição e estrelismo dos três. Apresentação, simplesmente monumental!

Em "Simple Man", a letra aclara os tempos que ficaram no passado. Tempos em que uma mãe orientava o filho não para ser um filhinho mimado, daqueles chorões sorumbáticos que não afasta da barra de sua saia, mas um filho liberto do medo de correr o mundo; um filho livre das amarras, mas preso à sabedoria de lidar com as coisas do mundo. Tempos em que uma mãe ensinava os filhos a respeitar e dar vez ao próximo, acima de si; uma mãe que ensinava o filho a ter parcimônia, calma, para esperar o momento apropriado para realizar determinada tarefa; conquistar pelo trabalho o que lhe fosse digno; uma mãe que orientava o filho para ficar longe, manter distância da luxúria da beleza da carne e do ouro, ("tudo que você necessita está em sua alma") cobiças humanas que tanto trazem as efemeridades dos prazeres mundanos, quanto assassinam sonhos espiritualmente inocentes e longevos. "Simple Man" é uma singela oração dedicada ao filho por uma mãe visionária e coração terno. Uma mãe, enfim, que seguindo os preceitos religiosos, em tempos idos dizia: "E não esqueça filho, há alguém lá em cima".

"Simple Man" é uma canção para mães e filhos que se perderam nos curtos, embaraçosos e espinhosos labirintos que não existem mais. Sobretudo, a formação familiar moderna não passa de um imenso e largo jardim adornado com pétalas de flores em ambos os lados, que não permite ao jardineiro regá-lo com as lágrimas da dificuldade; apará-lo com os instrumentos que levem o nome de obstáculo. Indiferente à CNTP, a modernidade é um gás liquefeito invariável e contínuo, só falta engolir.

Tuesday's Gone é uma balada carregada de sentimento, destacado vocal do Van Zant e leves sonoridades alternadas entre guitarras e piano. Recital típico de um fim de terça feira. A musicalidade da banda já estava mais que sedimentada, já havia invadido os pubs, casas de shows, estúdios, palcos, programação de rádios e televisão alternativos; porém, a canção Sweet Home Alabama consolidou o Lynyrd no cenário do rock-americano. Esse hit musical, além de ficar conhecido nos EUA, rendeu bons dividendos para a banda e circulou por boa parte do mundo, obviamente, mais pelos lados da Europa.

Sob os arranjos e acordes de Sweet Home Alabama, esponsais já pediram a mão um do outro em casamento. Com a recomendação de que o Deus maior radicado no céu, salva; e o rock alivia, os deuses da terra os abençoaram.

A barcarola musical do Lynyrd era cantada pelos quatro cantos do país. Buscando ainda mais a independência, a banda adquire um pequeno avião para ganhar tempo e encurtar as distâncias entre os shows. Com isto, a agenda triplica; e em outubro de 1977, a aeronave denominada "Free Bird" levanta voo em direção ao estado de Lousiana com 26 pessoas a bordo. De repente bate o desespero e o pássaro livre de prata começa perder velocidade e altura.

Embora os pilotos tenham tentado solucionar o problema, que segundo as controvérsias geradas pelo fato, o avião apresentou uma falha mecânica, de modo que o consumo de combustível aumentava progressivamente. Fora isto, suscitaram a ideia que o consumo foi calculado errado para aquela travessia. De certo mesmo, é que o acidente foi inevitável, com o avião desmontando a cauda sobre uma extensa floresta em Mississippi. Ronnie e o guitarrista Steve Gaines morreram imediatamente ao desmanche da aeronave; enquanto Cassie Gaines, sua irmã, com a garganta perfurada de canto a canto, chorava copiosamente agonizando a morte nos braços de dois músicos sobreviventes. Morreram ainda o manager Dean Kilpatrick, além do piloto Walter MacCreary e do co-piloto William Gray. Esse foi um dos desastres aéreos mais triste da história da música; e até hoje fãs do mundo todo lamentam a perda precoce dos principais integrantes da banda.

A morte representa os quatro curingas da vida e preterir qualquer um deles, (e apenas um basta) é tolice; pois a morte é necessária à renovação, mas morrer sem completar o ciclo, morrer inesperadamente, pular fora do combinado, levando consigo as dúvidas e não saber os porquês foi chamado à eternidade às pressas, é no mínimo insensibilidade do coordenador de projetos do caos.

Todavia, por sorte e consolo daqueles que primam pela honestidade musical, nem todo ato fúnebre põe fim aos planos elaborados, e entre a tragédia e a superação, prevaleceu o rock da banda, que esteve na Terra, no ar, no fogo e nos palcos por mais um longo e demorado tempo. Porém, fazendo valer a máxima que alerta que para morrer basta estar respirando, é bom que se diga, que tragédias e mais tragédias é o que não faltaram à sempre reformulada banda de southern-rock, Lynyrd skynyrd.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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