ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

O perfil de um caramujo canalha e anacrônico sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, esses bichos mimetistas camufladores são egoístas e não suportam retardatários na pista". Faz-se saber, que se for pelo perfil, ele não é exemplo a ser seguido por ninguém

Tarancón é a interatividade entre o que vem da alma e a cultura latina

Através dos respingos na janela eu olho de soslaio, direto, reto. Sorvo semblantes: amantes, deserdados, felizes, errantes. Vejo tudo, ou quase tudo. Acima: vazio. No meio, de luz o facho. Nudez Cinderela. Embaixo. Silhueta em relevo; dança o enlevo. Fresta única. E muitas vidas que passam debaixo dela.



tarancon2.jpgContracapa do bolachão lançado em 1976

Enquanto a chuva não chega, mansa ou feroz, silenciosa ou atroz para lavar os pecados das almas penadas; enquanto o sol não banha os jardins, cujas flores roxas que caem das árvores trazem o perfume da renovação; enquanto as dunas não exibem as pegadas dos solitários; enquanto as plantas parecem não se importar se vivem ou morrem; enquanto os ventos não uivam pela noite trazendo consigo o frescor capaz de mudar um mundo adormecido em berço esplêndido; sintamos inundados pelo brilho da lua cancioneira do grupo Tarancón; também interpretada pelo "Terramérica", conjunto fundado no final dos anos 70 e dissidência das bandas precursoras do estilo:

Minha lua navega serena / Vai de ipanema ao céu do irã. Para ela a moda não é tudo a guerra / Não duvida o dia de amanhã.

Minha lua corre apaixonada / E a passarada segue o seu corcel. Oh lua, oh lua rainha / Oh a lua é minha, é de quem quiser

Oh a lua, a lua é das princesas / E com mais certeza será dos garis, Dos cantores, dos trabalhadores / Será dos atores quando a noite cair.

E será também dos prisioneiros / Será dos canteiros e do chafariz Oh lua, a lua da cidade / Da humanidade e de quem quiser.

Hosana nas alturas! Pois, todo apaixonado tem uma lua que o influencia!

Quem acompanha a política cultural empregada entre os países latinos não imagina que já houve projetos visando, dando ênfase, principalmente, a difusão e a divulgação da cultura popular de cada um dos 10 países da América, em um único circuito.

O tempo é amargo como o fel, é ar e água em contato com as estruturas dos grandiosos monumentos, oxidando o que é belo. As misturas do Homem são perigosas, mas às da Natureza são piores. Irreversivelmente inegociáveis!

Criado com a finalidade de levar ao público paulistano as diferentes culturas dos países latinos, o Memorial da América Latina em São Paulo é um dos espaços que ainda resiste a fuligem ferruginosa do tempo. Apesar que em 2014 os desmazelos daqueles que mandam e desmandam na cultura brasileira, e um incêndio nada amigo varreram a sala Simón Bolívar e até um ano atrás, as marcas das labaredas do descaso ainda escureciam as paredes do auditório; porém bem ou mal, operante ou não, as estruturas do Memorial ainda estão assentadas sobre o que a cultura dos países latinos podem oferecer aos amantes da arte.

Rica, diversa, pluralizada e folclórica, a música andina mantém guardada em sua essência as sonoridades ritualísticas e os costumes dos povos da parte alta dos Andes. Não obstante, para a completude cultural e enlevo desses povos, os instrumentos rústicos e primitivos eram, (ou são) basicamente confeccionados pelas mãos de quem os tocam. E dentre os vários, a flauta de cana ou osso, a zampoña ou sicus, similar a flauta de pan, a tarka - flauta ortoédrica de madeira de uma só peça com seis furos também conhecido como anata no norte da Argentina. O bombo leguero, é o bumbo de couro de ovelha ou guanaco; o charango, instrumento de 10 cordas ou mais, feito com a carapaça de tatu chamado "Quirquincho" ou de madeira, são os que mais chamam atenção. Artesanato e poesia se misturam na música andina.

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Entretanto indo aonde a euforia contagiosa estivesse, nos anos dourados, os quais a cultura ocupava os amplos largos de praças, enormes estacionamentos de estabelecimentos comerciais, enchia as salas de ecos graves e agudos, dando brilho ao zunzunzum antes e após os espetáculos, as vozes de Milton Nascimento, Victor Jara, Violeta Parra, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Mercedes Sosa, Fagner, grupos folclóricos, exposição de fotos e muitos outros venenos digeríveis da arte passaram pelo Memorial. Todavia, provavelmente o grupo que melhor representa a música e a interação latina na cultura da América do Sul, é o conjunto Tarancón; e cantando "Gracias a la vida", gracias a la Naturaleza, gracias a los espíritus buenos; e valorizando o sol e o sal da América do Sul, o nome do grupo é aludido ao acidente ocorrido com uma mina de carvão nas Astúrias, Espanha. Prestando uma justa homenagem e tornando público o fato que vitimou 11 trabalhadores, o trágico acontecimento é formalmente relatado na canção "En la mina el Tarancón; de autoria do grupo.

Eclético e obreiro da contracultura, o grupo fez bastante sucesso junto à juventude reacionária brasileira; e embora com o tempo tenha incorporado novos temas ao repertório, quando surgiu nos anos 70, as letras faziam críticas rasgadas ao sistema político adotado nos países do continente sulista, discorria sobre os descuidos e abandono de crianças, criticava o preconceito racial e os muitos outros problemas sociais e econômicos da América do Sul. Tal faceta musical fez com quê o grupo caísse nas graças dos universitários, centros acadêmicos e público estudantil, que à época uniam-se em defesa e engajamento na luta pela democracia. Politizar e inteirar as sociedades sobre os problemas sociais dos países latinos era a coqueluche artística da época, em que "bater de frente" e resistir aos mandos dos militares demarcavam o território entre o brega e o chique. Com isto, os artistas angariavam a preferência da classe média intelectualizada; composta basicamente por estudantes. Vale ressaltar que o grupo jamais fez música visando a separação de classe social e sim, música popular para quem tivesse ouvido para o estilo. Os arranjos, os acordes, os instrumentos, os gregarismos e interações com outros músicos de estilos variados e as letras reforçam essa tese.

Segundo as palavras de Emílio, um dos fundadores (...) "Uma viola caipira, um atabaque verde com coqueiros do Jica, violão da Miriam, flauta doce D’Alice, os primeiros sons do Tarancón, banda brasileira que vira 4 décadas, 2 séculos, 2 milênios". Tocando em praças públicas e posteriormente, em eventos alternativos e estudantis, assim o grupo iniciou suas atividades.

Dando o devido crédito à quem ele pertence, a inspiração para a criação do grupo foi de dois brasileiros, o Dércio Marques, junto com o fenomenal Zé Gomes; músico que já dividiu o palco com Elis Regina, Elomar, Arthur Moreira, Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho, Almir Sater, e ensinou os primeiros toques do bombo leguero para o pessoal do Tarancón.

Tanto o festival, quanto essa apresentação é tipicamente de uma época que jamais voltará; de um tempo remoto quando não havia tantas divisões de classes, gêneros, feminismos, castas, "negrismos, cotismos, branquismos", excessos de direitos, machismos, indianismos, separatismos, apartheids, segregação, entropia democrática, dinheirismos no Brasil. A cultura, e uma nação começa por ela, era verdadeiramente socializada e respeitada; prova é que até os meios de comunicação colaboravam e a multidão se misturava pacificamente. E não pense o leitor que o leu é saudosismo nostálgico de alguém ultrapassado; justificativa simplista e infundada dos ditos modernos e tecnológicos.

Apresentando a canção Mira Ira, o grupo Tarancón esteve presente no Festival dos Festivais promovido pela Rede Globo no ano de 1985. A letra e os arranjos foram compostos por Lula Barbosa e Vanderlei de Castro, ficando em segundo lugar na pontuação geral.

Mantendo o ideal de fazer música alternativa e independente, após quase 50 anos de estrada e muitos nomes novos na formação, o grupo ainda mantém a energia que arrebata corações nos shows. E cantando canções que ficaram no passado, as emoções do presente e sentimentos que virão, ao se apresentar na Virada Cultural recentemente, o grupo não teve como não curvar-se perante o público cativo que o acompanha desde os primórdios e retribuindo o carinho, o aplaudiu de pé e pediu "mais uma, mais uma, mais uma", ao final do show. E em vez de uma, as palmas e assovios renderam mais três músicas. Atualmente não, mas antigamente, quem não batia palmas e dançava, além de não ganhar sorvete, era escalado para embalar a criança.

Sensual. Mística. Incógnita. Passarinheiro teatral. A letra é de Pratinha e Jean Garfunkel, porém, interpretada por inúmeros músicos. E o imponderável: cada versão melhor, mais sonora, mais alegre e mais audível que a outra.

Villa Lobos disse que os pássaros se comunicam pela música e sob o cantarolar passarinheiro, ao cessar a chuva, a poeira se retira, o ar enfadado pela quentura do sol entende que é hora do recreio, o vento respira a fluidez da filtração, folhagens verdejantes farfalham, insetos salpicam alegria sobre a relva molhada, os telhados silenciam, camas e travesseiros bocejam, a secura sai de mansinho à procura de um gole de água, gargantas umedecem, sorrisos debruçam nas janelas, cidades renascem e aviõezinhos de papéis pousam nos aeroportos das recordações.

Chuvarada grossa ou chuvinha de água fina que chega ao solo esperneando vida;

com gosto de mato verde, arribando a saia e soprando as flores pálidas do manacá, perfume de alfazema;

revele as sinestesias da plebeia Cinderela que é fogo, paixão, terror e gozo na serra de Borborema.

Chuva mansa ou feroz, ruidosa ou silenciosa, em qualquer dia, em qualquer hora, venha aos sensíveis, retire a estupidez dos selváticos, encharque a Terra de luz, inunde-a de paz sem demora!

Ainda mais porque os tempos, as necessidades, a psicodelia, as ditaduras, o flower-power, as janelas são outras. Os amores, as chuvas, as flores, as fantasias das estradas, os pios dos pássaros são outros; e ainda que outra, a música não pode calar-se. Pois sem o eco da música a vida seria um erro. Um inevitável e monótono erro de não descobrir a face oculta da realidade, sobretudo, porque só a música tem o poder de passear pelos recônditos e profundezas do sublime; tem o poder de declamar melodicamente a poesia existente em cada ser.

Tai os porquês do grupo Tarancón, após quase 50 anos, fazer música desbravando o que vem da alma com tanta propriedade. E não obstante, porque o passeio, a centelha que aquece a essência humana não apaga, jamais!


Profeta do Arauto

O perfil de um caramujo canalha e anacrônico sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, esses bichos mimetistas camufladores são egoístas e não suportam retardatários na pista". Faz-se saber, que se for pelo perfil, ele não é exemplo a ser seguido por ninguém.
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