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Profeta do Arauto


Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social

As duas faces de uma mesma patagônia

Sem recorrer às minúcias da geografia, a patagônia chilena inicia sua aventurosa e gélida travessia nas Ilhas Chiloé. E se é um conjunto de ilhas, supõe-se que o portal de entrada seja Castro, cidade que está encravada pouco abaixo de Puerto Montt, comuna relativamente grande para os padrões do Chile, com mais de 200 mil habitantes.


Face 2: Patagônia chilena

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A palavra Chiloé é originária de Chille-Hué e por intuição deduz-se que a região no todo, tenha sido como foi, habitada por índios e em sentido literal, significa “ambiente das gaivotas”. O que é verossímil, pois aonde se vá, dividindo o espaço com bandos e mais bandos de pinguins, lá estão elas de asas abertas pegando carona nas lufadas de vento, fazendo verão, sobrevoando os lagos, ironizando as leis da Física e num rasante fenomenal à procura de alimento, dando boas vindas aos olhos que perdem preciosos minutos em observá-las.

O arquipélago se esparrama em muitos meandros, formando mais de 25 ilhas. Cada uma delas possui suas peculiaridades e dentre elas, destacam-se as igrejas construídas durante a permanência dos jesuítas e franciscanos naquelas bandas. São igrejas simples, sem enlevos arquitetônicos e a diferença para uma alcova, é a pequena cruz que sinaliza o louvor e a glória divina, assim como o telhado divisor de águas da construção. Porém são tão representativas, que das mais de 60 igrejinhas, 16 são reconhecidas pela UNESCO como patrimônio da humanidade.

Em certa altura do esparrame, do nada uma faixa de terra corta os picos gelados, bem como o verde intocado das matas. Lagoas de águas doces aparecem, pássaros gorjeiam com incrível potência, solícitos, imensos blocos de gelo glaciares arredam do lugar, abrindo espaços e como fênix mitológica, a vida renasce. Com mais de 1100 km de extensão, a Carretera Austral liga a Região dos Lagos ao que for habitável nos cafundós; e além de servir de ligação e intercâmbio entre os nativos, recebe um sem número de turistas, aventureiros, esportistas e pessoas da Terceira Idade. Devido a formação e adaptação à inospitalidade das baixas temperaturas tão comum para eles, basicamente os desbravadores são os homens brancos da Europa.

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Por muitos séculos, Aysén, como é denominada a região cortada pela Carretera, constava apenas nos mapas chilenos e fora os nativos que viviam isolados, mais ninguém conhecia as belezas naturais, as quais a Natureza cautelosamente tratou de esculpir profundos, desumanos e abismais fiordes, largos canais e imensos bosques verdes. Motivo pelo qual, a região é abastada de Parques Nacionais. E enquanto alguns se mantém quase intocados pelas pegadas das espécies de duas patas, outros podem ser visitados sem maiores dificuldades.

A patagônia vai se abrindo, segue seu percurso em direção ao Sul. A imensidão sem limites de fronteiras, livre de ocultação e com as porteiras abertas, é um mundo bão, Bastião! Mas atravessá-lo é missão para ferozes, os quais detém os misteriosos rugidos da fé! Sim, por que, no caso da Patagônia chilena, ao aproximar o final da Carretera, geleiras se fecham a tal ponto, que para ultrapassá-las, somente de avião. Outra opção para se chegar aos atrativos que estão na parte baixa da rota, é adentrar o território argentino e seguir por terra pela ruta 40, que ao longo dela, há muitas entradas para o Chile.

A parada crucial e irresistível do percurso é o Parque Nacional Torres del Paine. Nunca ouviu falar? Por sua conta e risco, não conhecê-lo é uma das maiores perdas imagináveis que o leitor terá no decorrer de seu ciclo vital. Alerta dado, a outra dica é que não se chega ao Parque, sem antes adentrar a cidade de Puerto Natales.

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Cidadezinha miúda, banhada por um imenso lago e circundada, obviamente por cabeleiras nevadas que escorrem pelas ancas dos picos. Como é parada obrigatória, vale a pena apreciar o lago que, com suas águas cor azul-turquesa, puxa as rendas das saias e faz cócegas nos sopés dos pináculos. Aliás, é um lago aqui, outro ali, mais um lá, e o cenário descrito e as obras da Natureza permanecem perenes do início ao fim; afinal a região é riquíssima em águas dulcícolas.

A entrada do parque está aproximadamente 70 km da cidadela. Dali está o grande desafio da patagônia chilena, porque, se em outros lugares pode-se ir de carro, para se chegar debaixo das barbas da Três Torres (como as chamam) para pedir a benção, não há outra escapatória, senão, usar o que Deus nos deu, que são os dois pés. A caminhada não pede maria male e bom-bocado; pelo contrário, para fazê-la é necessário muito açúcar e elevadas dosagens de proteína e carboidratos no sangue. Fora os 5 km da entrada principal à recepção secundária, mais 10 km distribuídos em 800 metros de desnível separam a parte baixa à parte alta. Detalhe: o 1 km derradeiro é pesadíssimo e devido o pedregulho solto, altamente escorregadio.

A trilha é um espetáculo naturalmente fantasioso, típico de novos episódios de "O Senhor dos Anéis"; e se uma portentosa raiz retorcida se parecer, tomar a forma de um bicho nojento, como o asqueroso Gollun, não é nenhuma alucinação de andante. Todavia, embora o caminho seja totalmente esquisito e inesperado, dispensa objetos cortantes como maneira de defesa: é só pedir licença, que as educadas e passivas folhagens, as grossas raízes, os ventos uivantes, as pedras escorregadias, as corredeiras barulhentas e as cancerosas pinguelas em fase final de vida, dão passagem ao caminheiro.

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Porém, nem só de dureza a trilha foi tecida e um canal circundado por rochedos negros parece não ter fim; florestas fechadas por arbustos retorcidos; ruidosas corredeiras de águas límpidas e gélidas atropelam a pedras descid´abaixo, vão acalmando os exasperados e oxigenando os sem fôlegos. Sobretudo, se Deus existe e ainda preocupa-se em servir o melhor para os seus servos, certamente aquele pedaço de chão não lhe tira o sono; pois, longe de olhos esgarçados pela destruição do desmatamento, permanece lindamente intocada!

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Fecha o complexo patagônico chileno a cidade de Punta Arenas; que embora não receba o título de mais austral da América do Sul, é do país. Com pouco mais de 123 mil habitantes, é considerada a capital do Estreito de Magalhães, que devido a desventura do navegador português Fernão de Magalhães, foi descoberta em 1520.

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Um fato inusitado, para não dizer bizarro, é as pessoas tirarem fotos beijando o dedo polegar do pé do índio Aónikenk, cujo monumento está na praça de Armas Muñoz Gamero; centro. Reza a lenda que esse ritual deve ser cumprido para que o beijoqueiro volte à cidade. Se esse é o desejo dos Puntarenenses, adios; Punta Arenas never more! Fui para nunca mais voltar!

Fotos pertencentes ao autor do artigo

Quem não leu e quiser conhecer a patagônia argentina, basta vasculhar a página que encontrará o texto. Valeu!


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Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social .
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