ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Bicicleta combina com saúde, liberdade, ar puro e estradas

"Viver é como andar de bicicleta: é preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio". - Einstein.


Assim que se equilibra sobre os dois cambitos de pernas e os primeiros passos são inevitáveis, qualquer criança, indiferente a raça, altura e status social, é presenteada com uma bicicleta. E se a bicicleta é o primeiro objeto mecânico/circulante que ela ganha, é também o primeiro a ser depositado, aposentado no asilo de brinquedos em troca do falso conforto viciante das duas rodas da moto, ou das quatro do carro; e aí, viver a aventura de equilibrar-se sobre as duas rodas de uma bicicleta nunca mais.

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Ainda que seja apenas nas ruas circundantes ao quarteirão de casa, pedalar é hábito saudável e deve ser praticado com regularidade; mas viajar sobre duas rodas é ainda mais salutar. E não requer prática e tampouco, experiência: deu partida na mente, sistema neuronal faiscou, pedalou pesado, sangue circulou pelas veias, equilibrou, foi ao Japão. Todavia, como qualquer viagem, viajar requer poesia: cai a brisa fria. Desprendida da aragem, nada é para sempre, não veio para ficar. Dê licença; desobstrua o caminho para a liberdade sobre duas rodas passar.

Lubrificada e revisada. No alforge, kit primeiros socorros, cereais, carboidratos, frutas, água e isotônicos. Na carteira: uma foto esmaecida da família; uma nesga de papel rabuscado com o "Tenha uma boa viagem meu amor, te amarei, sempre"! da única mulher oficializada; uns trocados e os documentos pessoais. Na mente: peso das responsabilidades descartados; muita disposição e equilíbrio emocional para superar o que der e vier; e claro, limpeza dos chips neuronais para novas memórias fotográficas. Tais coisas é o que a vida mais requer e se não apreendidas, o tempo se incumbirá de levar a cobrança com juros e correções monetárias à porta do súdito descumpridor/desavisado.

Sonolento, o sol deixa os aposentos; seus raios escorrem radiantes sobre as morrarias. Horizontes ofuscados se abrem límpidos para mais um dia de labuta. Os músculos das pernas ululam. O coração pulsa acelerado pelo sangue aquecido. O corpo lubrificado pelo suor. Sobe e desce constantes. Os pulmões respiram aliviados no plano; e embora toda dificuldade pode e deve ser superada, feliz o coração calejado e cascudo que sabe o peso do fracasso e a alegria contida na dor. Certamente resiste a um número maior de ataques.

Dia que se vai. Poeira salpicada no ar. Estradas que não findam. O roteiro é livre e os caminhos para se chegar lá, alternativos. A liberdade é contrária ao aprisionamento, mas para criar asas e poder dizer: sou livre como o albatroz-errante, o valor a ser pago é proporcional a envergadura das asas abertas ao vento.

Passa por aqui; abrem-se porteiras acolá; atalha-se por ali, pula um riachinho de água doce em outro ponto; afugenta os ruminantes que tiram uma soneca na pista, e vai se indo. Indo para aonde? Sem outra opção, tudo que tem vida e respira está indo, caminha em direção ao desconhecido. Desconhecido? Não, menos para a metafísica; sobretudo, ela sabe muito bem para aonde todos os seres animados estão indo, porém, para não ariscar, para não assustar a presa, se mantém silenciosa. E faz muito bem em se manter calada, afinal, a vida não passa de uma canastra abarrotada de ilusões; as quais, como uma vela acesa, o pavio expõe a chama bruxuleante que consome, desidrata, arranca ínfimas, diminutas lágrimas diárias. Iludidas pelas fantasias, a perfeição e a beleza da vela correm e escorrem em direção ao derretimento da queima, à esquecida cinza soprada, incinerada pelo nada.

Aventura combina com incertezas. Certo é que o viés pedaleiro insinua que o Japão não é tão longe; pois, longe é lugar que não existe; e para se chegar lá, basta exclusivamente que o corpo esteja hidratado e não menos, alimentado.

Uma frondosa copa de árvore sinaliza o paradeiro; indica que ali é uma confluência. Nem sempre o GPS chamado destino esclarece, dá dicas corretas e confiáveis sobre as trilhas e os caminhos a serem seguidos. Para lá ou para cá, o importante é chegar em algum lugar; sobretudo, se é que ele existe para os bêbados, ciclistas, corsários e equilibristas, o importante é atracar a embarcação em algum porto seguro. Porém, vá para aonde vá a carruagem de fogo, é preciso parar para renovar o fôlego.

Água. Açúcar. Sódio. Tudo rigorosamente dosado. Mais amor pela vida; menos acomodação pela bicicleta; e pelo sal do suor, nada de ódio.

Pássaros se apresentam para beliscar as migalhas. Feita a coleta, batem asas e transformam-se num ponto negro no azulado do céu. Como os pássaros na terra e as nuvens que nunca fixam residência, o dia escorre por entre os dedos. Não sei o leitor, mas não sou dono de nada. Resta-me somente um passaporte, um voucher (como brasileiro, adorador do país, a começar pelo idioma, detesto os inglesismos), a passagem somente de ida. Retomar o pedal é preciso e não menos, suar a camisa; pois pular obstáculos, superar as adversidades e limpar as pulverulências da mente é tão natural como as migalhas que alimentou o pássaro. Morrer de fome é o luxo da riqueza, ou por demais, acomodação da pobreza.

Ao longe cai a tarde;

O dia se despede morno;

No sol que morre, enviesado.

Fadiga. Músculos avolumados pedindo trégua. Por sua vez, o corpo pede um banho relaxante. Já o estômago exige comida em abundância. As luzes apagam-se. Portas e janelas se fecham. Nas praças os pássaros curiangos rompem com o silêncio reinante. Chegou o momento de espojar o corpo; e ainda que espinhenta e humilde, a cama conforta e repara o cansaço. Em tais condições, impossível a depressão superar, medir forças com a estafa causada pelos esforços do dia. Aliás, como ilustres estradeiros, os sertanejos e caipiras afirmam que mente vazia, desocupada e corpo insofrido são as ferramentas ideais para as benevolentes obras do Lúcifer e dentre elas, está a tão temida depressão.

Deveras, enquanto os sábios da retórica dizem que qualquer iniciativa é válida quando o objetivo é conquistar algo importante, não se deve duvidar das palavras daqueles que, após lavrar a terra o dia inteiro em troca dos alimentos que enchem as mesas, reúnem-se nos paióis das querências para filosofar a paz que a quentura do sol e os calos nas mãos doados pelo gume afiado da enxada lhes proporcionam como ensinamentos. Às vezes o senso comum, o conhecimento, o saber e a atuação prática advindas deles, é proporcional ao tamanho dos instrumentos utilizados na adquirência dos mesmos.

Mais tarde, bem mais tarde, após sopros e mais sopros ressonados nas diminutas casas, quase não se fazendo ouvir, o latido de um cão corta a madrugada fria. Um vento núncio de tristezas e alegrias traz a proximidade do inverno. As folhas caídas atropelam-se, aloucadamente varrem a cidade de uma única rua de ponta a ponta. Em breve, a datação nos calendários já não é a mesma do dia anterior; e a estação do ano também não.

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O dia amanheceu cedo. Sinos badalam; pássaros povoam as árvores. Cidadela em festa. Algazarra entre pássaros, homens e crianças. Paralelepípedos ajustados à geometria. Igrejas, casas e casarões coloniais simbolizam o passado. O sol preguiçoso retoma suas atividades. Horizontes se descortinam. A tarefa diária anuncia os ruídos dos vaqueiros aboiando o gado. Cães apresentam ao cerca daqui, que eu cerco de lá. Um carro tocado por bois geme no cerrado. Pedal que segue. Trabalho intenso. Corpo lavado pelo suor derramado. Novamente a rotina, os porquês e as histórias dos mourões, dos arvoredos, das sombras, de gente e das confluências dessa longínqua estrada serão as mesmas contadas ontem. Com ou sem delongas, o hoje é fiel representante do ontem. Amanhã... será outro dia... de suor...? De pedal?

Nas manhãs em que arrebol horizontino pede colo;

O céu adorna o leito com cores vívidas.

De bicicleta viaja-se em direção às incertezas, pois a logicidade, a coerência, a constância e as formas geométricas empregadas na arquitetura de casas e casarões são devaneios de arquitetos que não se assentam em lugar nenhum. Contudo, retornar ao ponto de partida, que também é considerado ponto de chegada, equivale dizer que a liberdade sem fronteiras é a marca registrada de quem é feliz; e a autonomia é o logotipo. Ambos demonstram o invisível estado de espírito e o coração andante do felizardo. Pois, afinal, uma viagem qualquer, que parte de um ponto qualquer, atravessa obrigatoriamente o coração do viajante e finda-se num horizonte que ainda está por surgir. Quem trafega por tais caminhos, sabe o que a metáfora significa; sobretudo, quem viaja de bicicleta, viaja para dentro da essência humana e o recomeço é sempre em uma nova estrada.

O Homem ainda não produziu, não teve lucidez, inspiração suficiente para criar nada, nada, mais condutor à liberdade, do que a subserviente bicicleta. Essa sim, deve ser venerada como tecnologia de ponta a serviço e lazer do Homem. Sentimentais, fortes, bravias, resistentes e temperamentais, apelidadas de "Magrela", Amélia nenhuma, Raimunda nenhuma, Filomena nenhuma, quanto mais mulheres feministas, é como ela. As "Magrelas" são ouros puros ouros, e não Melenas.

As bicicletas possuem propriedades tão sutis, tão lenitivas e mitigadoras, que para conhecê-las, para saber de suas maledicências e benefícios, as mentes reticentes e acomodadas precisam pedalar uma delas. Pés nos pedais. Força nas pernas que o espigão aparece e a ladeira descamba para o outro lado, logo.

Quase semelhantes, relacionando uma coisa à outra, a música e os livros (quando refletidos, filosofados) transportam a imaginação, viagem do coração por territórios e hemisférios desconhecidos, mas não transportam o Eu materializado, como os pedais de uma BICI! E o meu Eu físico, materializado, precisa, necessita tirar a bunda da cadeira. Mas, porém, todavia, Música que tenha significado, Livros chancelados pela reflexão e viagem de Bicicleta se completam.

Com ou sem cia, duas rodas combinam com saúde, liberdade, ar puro, estradas e poesia. Sorte, movimente-se continuamente e nada de desânimo; porque uma mente equilibrada, próspera e sã, exige a solidez e a dureza do diamante bruto contido na atitude para sedimentação e preenchimento dos vazios; vazios que são os constantes desequilíbrios de pensamento, de racionalidade, de comportamento e atos humanos!

Fotos pertencentes ao autor do artigo


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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