ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto


Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social

A dor e a música: agentes transformadores na vida de Cat Stevens

A cidade do Rio de Janeiro já teve bons e nostálgicos motivos para ser condecorada com o título de "cidade maravilhosa"; e nos anos 70, teve o privilégio de receber sob seus domínios o violão do cantor, compositor, arranjador e músico completo, Cat Stevens. Contudo, o fluminense, o carioca e o brasileiro podem perguntar: "quem é Cat Stevens; algum invasor vindo de outra galáxia, usando alpercatas, tarbush e solidéu, fingindo ser fiel seguidor dos mandamentos de Maomé e núncio da paz? Tenho dúvidas se esse terráqueo andou por aqui."


Sitting. Essa música faz parte do álbum Catch Bull At Four, lançado no final de 1972, não deixa dúvidas da evolução musical e o firme propósito de redenção de Stevens.

Contextualização: "Poeira ao vento. Tudo o que somos é poeira ao vento." - refrão da bela e poética canção "Dust in the wind" de autoria de Kerry Livgren, líder do Kansas, também interpretada por Cat Stevens.

cat.jpgRegistro de Cat no final dos anos 60. Não perdia tempo e como um artista desse gênero e quilate deve ser, grudado no violão e compenetrado à escrita.

Cat é um cidadão inglês defensor das causas humanitárias, fruto da união entre um grego e uma sueca. Na certidão de nascimento seu nome é Steven Demetre Georgiou. Com a separação de seus pais, Steven e sua mãe mudam-se para o interior da Suécia. Iniciado na arte, desenhava e para aprimorar os traços, fez um curso de cartunista. Porém, ao ser presenteado com um piano de cauda, a música perscrutou sua corrente sanguínea logo cedo; e foi ela (a música) quem lhe conferiu o apogeu do sucesso e mesmo não sendo afeito ao glamour, o degrau da fama. No entanto, ainda vacilando entre um instrumento e outro, influenciado pelos Beatles, com 15 anos adquiriu uma guitarra; mas apaixona-se mesmo é pelo violão. Em meados dos anos 60, depois de debutar em muitos palcos como músico amador, assinou contrato com a Decca Deran Records, adotando o nome artístico "Cat Stevens".

Cat não musicava palavras, reportava o silêncio da Natureza, as boas obras do Homem; a liberdade, justiça e igualdade tão almejadas pelos sensíveis, sonhadores e desejosos. Para entendê-lo em toda sua inteireza, o ouvinte tem que parar no tempo e perscrutar os seus devaneios magnetizados pela espiritualidade; pois a inspiração momentânea são repentes provenientes dos jamais conhecidos mistérios da alma.

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Amigo do ilustre e performático Hendrix na adolescência, Stevens chega ao status de popstar (segundo ele, jamais quis e pensou. Neste quesito, Cat assemelhava-se ao poeta Carlos Drummond) antes dos 20 anos; porém, o apogeu lhe trouxe alguns inconvenientes e o primeiro, foi com o produtor musical que o impedia de escrever as letras com cunho reacionário. A proibição rompia com sua originalidade; ainda mais porque, Janis Joplin e outras mulheres rugiam alto em defesa dos direitos e liberdade feminina; Jim Morrison vomitava suas paranoias contra a hipocrisia familiar e as loucuras destruidoras das guerras; e ele, juntamente com Bob Dylan, James Taylor, Jim Capaldi, John Lennon, George Harrison e tantos outros, eram os anjos de luz enviados pelo emissário da paz e amor. Não obstante, nunca esquecendo do eco nauseador que a música de protesto causava aos acomodados e senhores do poder, a paz e o amor o levou a ser o que foi, em anos vindouros.

Oh baby, baby, é um mundo selvagem / É difícil atravessar apenas com um sorriso / Oh baby, baby, é um mundo selvagem / Sempre lembrarei de você como uma criança, garota.

Devido os desacordos e a amargura de não ter publicado o que gostaria que fosse, Cat se enveredou pelos caminhos do álcool e das drogas, tornando-se quase depressivo em potencial. Para completar, recebeu gratuitamente um abraço generoso infestado de bactérias, resultando numa fervorosa tuberculose, doença que o afastou dos palcos por mais de um ano. Esse episódio foi marcante, decisivo e o divisor de água em sua vida e ao retornar ao universo da música, mostrava-se "tacanhamente desiludido" com os princípios de vida dos homens credenciados pela rotina; entretanto, na contramão, tornou-se fiel defensor das coisas humanitárias, místicas e espirituais. Durante o período de residência, o hospital foi para ele, como o cemitério é para o vivo, e presenciando toda sorte de rejeição, mortes todos os dias, seringas de sangue e injeções espetando braços e nádegas dos enfermos em carne viva, fez com que Stevens repensasse os conceitos de espiritualidade e valores próprios. Parecido uma espécie de Tim Maia inglês em tempos de Cultura Racional, tornou-se vegetariano, pesquisou doutrinas religiosas e praticando Yoga e Meditação, silenciou o ego reclamante da infeliz sorte sobre uma esteira aberta em piso frio.

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A concretização do onirismo espiritual ocorreu em 1978, quando, segundo ele, passou por uma provação de quase se afogar nas águas da praia de Malibu, fato que chamou de sua epifania renovadora e encontro com os mandamentos do Alcorão, livro sagrado criado por Maomé. No entanto existe um custo para ser pássaro livre e novamente o pensar pacificador e libertário de Cat o fez vítima de si e em 2004, com nome de "Yusuf Islam", sob alegação de relação com o terrorismo, foi proibido de entrar nos EUA pelo Departamento de Segurança Interna. À época, seu nome constava na lista de vigilância do país; motivando a mudança de rota do avião em que estava.

A gravação da canção "I Love My Dog", principia Cat na música. E embora tenha sido regionalizada nas paradas inglesas, não indicava que o músico iria se deslanchar rápido.

Longe de ser músico e muito menos letrista, compor depende da vivência, transpiração e inspiração, enquanto que criar os arranjos, acordes e notas depende mais de ouvido e técnica apurada. Tal teoria (talvez até conspiradora) pode ser aplicada ao cantor e após os abalos sísmicos/emocionais, pelos quais passara, no início da década seguinte foi descoberto por Jimmy Cliff, que gravou 'Wild World' em formato de reggae. Era o que faltava e a música alcançou o status das 10 melhores na Inglaterra. Em novembro daquele mesmo ano, Cat lançou o disco "Tea for the Tillerman"; que atingiu o Top 20 inglês e americano de 1971, ano de lançamento. Com o inseparável violão e um banco solitário, definitivamente, Stevens deixou de ser promessa, para figurar entre qualquer lista dos melhores músicos do Planeta; porém, vale ratificar que jamais quis e se imaginou estrela. Tudo aconteceu do ocaso, para o acaso.

Canções curtas, mas longas o bastante para quem ainda tem no coração o sentimento que ontem não representa o hoje. Sobretudo, caminhar por alamedas estreitas, banhar-se em regatos de águas cristalinas, tagarelar ao pôr do sol e renovar os ares respirados, é preciso!

... "o ódio não é o real é a ausência do amor". - Raul Seixas

Como defensor das coisas espirituais e humanitárias, em nome dele, Namastê aos que dispuseram seu tempo em saber um pouco de sua carreira. Em breve será disponibilizada a segunda parte.

Imagens livres retiradas do Google.

P.S.: As estrelas são astros que possuem brilho próprio, porém, tal fenômeno físico não é suficiente para tirar-lhes lhes da ruína do ofuscamento, para não extirpar-lhes da decadência; por outro lado, a paz e a simplicidade do anonimato não possuem brilho próprio, mas contribuem para iluminar as noites mais negras do ocaso de qualquer vivente. - o autor

Nota do autor: 2010. Estava voltando de Machu Picchu, exatamente na travessia entre Olanta y Tambo e Valle Sagrado. A van lotada de europeus. Do nada Cat Stevens aparece nos falantes e um adolescente respeitoso e prestimoso com suas raízes e origens, pede silêncio e diz para os demais: "façamos uma prece em forma de silêncio para louvar Cat Stevens". Apartando-se do que estavam fazendo, todos curvaram-se... diante das palavras do mestre, Cat Stevens. Fiquei extasiado!

Moral da nota: cultura e valorização patrimonial são coisas valiosíssimas; e povo que não cultiva o ouro achado, será eternamente povo provinciano; e para o bem da verdade, é como o papo de dois caipiras que vez para outras, se encontram na boca da noite para fumar o cachimbo da paz e filosofar a vida do povo: "é sempre a mesma coisa: nada de velho, nada de novo, ainda mais quando a massa de manobra é pau mandado, compadre."

Para quebrar o silêncio e após dar uma longa e sortida baforada no pito velho, mal acabado e iluminador de ideias, o outro resmungou seu descontentamento: "Indiferente a cor, poder aquisitivo, aparências, escolaridade, crença, altura, o carro que usam, parece-me que essas megeras vieram ao mundo sob encomenda e fazem questão de ser assim e não mudam, nunca. Fazer o quê... compadre? Vírus ruim quando se torna resistente, leva-se tempo para estudar uma vacina; demanda paciência, provetas e labor para pesquisar um antídoto. Mas uma hora a casa cai; ah, se cai...; dê ao tempo o que lhe pertence, que em nome da transformação, o faiscar fulminante do relâmpago iluminará a mente desse povo!"


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Matemáticos e filósofos equacionam os derradeiros números da vida em troncos de árvores, guardanapos, pratos, papel higiênico, portas e paredes de banheiros, cuja finalidade é fortalecerem-se contra a média que não desvia do padrão de sabedoria e inteligência igualitária social .
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