ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta"

Quase um conto/resumo do livro O Ateneu de Raul Pompeia

Início do ano letivo. Sérgio, moçoilo de 11 anos, idade propícia e perigosa que pode desviar o iniciante do único caminho da hombridade e cidadania, é levado pelas mãos do pai ao internato Ateneu e assim que pôs os pés nas escadarias, despediu-se do filho com a seguinte expressão profética e motivadora: " Vais encontrar o mundo (...). Coragem para a luta ". Tomara tal decisão por três motivos: em garantia do futuro do filho; porque a instituição era renomada e os educandos pertenciam quase que em sua totalidade, a elite da cidade e arredores; e para que ele (Sérgio) não fosse mais um resignado e discriminado proscrito social, como o patriarca era. Religioso fervoroso, benzeu-se com o sinal da cruz três vezes e virando-se como um corisco que risca o céu, deu as costas para a escola e retornou para o caminho árido e pedregulhoso que viera.


Contextualização: É preciso abrir a porta e enfrentar o mundo. Jogar os pensamentos, roupas, sapatos, pertences, gatos, cães, tudo que for antigo e ultrapassado fora e enfrentar o mundo em nome do sonho ou da simples necessidade de seguir, de experimentar vida nova. Ninguém atravessa os caminhos da eternidade sob a cegueira da clausura. O futuro de tudo está na estrada. Assim, é preciso levantar antes do despertar dos galos, muito antes do sol botar a cara acima das morrarias e partir; e se já estiver na estrada, prosseguir; pois os traçados são longos, a geometria sinuosa, os devaneios abismais e as pernas e a paciência do caminheiro, curtas.

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o conto que irá ler, é quase um conto literário moderno, porém, não vale um conto antigo, tal que, não merece ser contado, mas como amante dos deveres e das demências, através do sopro do vento e da insana insolência, flertei com o ventre de Maria, por isto, contarei sim, o conto que nada conta. Todavia... espero que o leitor que sabiamente tem o que contar, não tenha nada contra o "Quase um conto/resumo do livro O Ateneu."

Com uma formação teórica de dar inveja, que excedia os parâmetros do conhecimento, a virgem Máxima Reyna, com seus 30 anos de intocabilidade, os quais passou incólume às bulinagens tão comuns entre os adolescentes, era douta em praticamente qualquer assunto. Entendia das leis primárias da Física. Heresia, Resistência dos Materiais, Hermenêutica, Religião, Matemática e Filosofia. Letras: esnobava; sobretudo porque falava seis idiomas e chamuscava mais meia dúzia deles na ponta da língua. Pensando no que a relação, o envolvimento humano, as palavras insípidas e contrárias ao seu pensar podiam lhe acrescentar intelectualmente, foi morar numa república mista por um tempo. Queria se conhecer às avessas; pois, os contrários andam lado a lado, de mãos dadas e apresentam suas ponderações nas estações opositoras.

No campo da Bioquímica, dominava como poucos cientistas as misturas, titulações e reações. Fora os muitos simpósios sobre Meio Ambiente, pesquisava inveteradamente as maneiras de equilibrar a Natureza e o capital natural em seus devidos lugares; e sempre que possível, fazia passeatas estudantis, agitava a comunidade; escrevia artigos, criava vídeos e lançava-os na internet em prol da conscientização do uso racional da água, diminuição e uso, tanto das tecnologias, quanto do carro; socializadora, montava campanhas sobre reciclagem de lixo; dava palestras em oficinas gratuitamente sobre Educação Ambiental para crianças e adultos. Reyna tornou-se uma espécie de comendadora do Meio Ambiente e por onde passava, deixava as pegadas ecológicas e pétalas de flores. Ambientalmente, dando à ela o que lhe é devido, muitos reacionários e ativistas da república a tinha como exemplo e um dos motivos, era os cinco litros de água que usava para cozinhar um ovo. Asquerosa e repugnante por princípios familiares e paradigmas educacionais contra as bactérias, salmonella, vírus, fungos, moscas, baratas, minhocas, louva-deus, piolho-de-cobra, grilos e insetos de modo geral, se por acaso fosse cozinhar mais um ovo ou algo parecido, renovava a água em sua totalidade.

Autodidata e nutróloga por vivência e prática, tomava bastante água e suco, por sinal, alimentava-se de líquidos, frutas, legumes, verduras, ovos; e em último caso, quando estava sem nada para comer o que era quase regra, tomava miojo escaldado com bastante água fervente. Gozando de venerável saúde, tanto física quanto emocional, usando as prerrogativas que o Direito Civil do país e o destino lhe permitiam e seguindo com rigor a dieta proposta, pediu emprestado o espremedor de frutas da vizinha de quarto e sem pedir informação sobre a tensão das tomadas, conectou-o em uma tomada aleatoriamente. Assim que acionou o botão de funcionamento, saiu em disparada berrando: "socorro, socorro, o espremedor ficou louco e em vez de espremer a fruta, está saindo fogo pelas ventas; socorro, a casa está pegando fogo, culpa do espremedor, socorro. Fujam em debandada... socorro! Estamos no internato Ateneu, e não sabemos! Salve-se quem puder!"

Se trancou no quarto e embora não tivesse propensão à depressão, fora os danos causados ao criado-mudo e a penteadeira, naquela noite chorou copiosamente. No dia seguinte, um pouco mais conformada com a lambança que fizera, ligou para os pais. Com os olhos inchados, os cabelos desgrenhados parecendo uma bruxa, preferiu não botar a cara na janela para que o sol reluzisse o pó de arroz que cobria de verniz suas faces descoradas; e só saiu da alcova ao ouvir os ruídos do carro que trazia seus progenitores: não demoraria muito e estaria de volta ao lar, doce lar, reduto, o qual não devia ter saído. E apesar do potente ar condicionado, GPS para guiá-los, vídeo-laser em todos os bancos e os livros que a entretinha e o preferido era O Ateneu, a viagem seguia monótona.

Calada, com os pulmões ofegantes e respirando pelas ventas em pequenas doses homeopáticas, sua mãe mordia os beiços. Seu pai, um senhor parrudo e bonachão, descuidava-se do volante para torcer o bigode e alternava a fala gestual entre resmungos e gracejos sem graça, nada expressivos para àquele momento. Sã e salva sentada confortavelmente no banco traseiro do luxuoso carro, Máxima desviou as vistas das páginas do livro e com sua voz de maritaca nauseada, rosnou alto a filosofia da família Reyna: "realmente, tenho que concordar com a senhora minha mãe, que mundo não é para qualquer desafiador; e embora corajosa, não é para qualquer mente intelectualizada. E para vivê-lo intensamente, as vísceras tem que passar pelo processo de ulceração! As engrenagens da máquina chamada mundo não giram o cada qual com sua felicidade, sem ser na dor; pois, enquanto a dor é ilimitada, a ousadia é frágil, medrosa e efêmera!"

Reprimindo-a e solicitando silêncio, seu pai resmungou um pouco mais alto, de modo que fez-se ouvir: "Minha vida, assim como você minha filha, existem, só não fazem sentido! - Descontente, completou: "Não pertenço à classe, mas acho que é devido o excesso de Direito. A palavra que mais se fala nessa merda de família, é direito... direito... direito! Até quando só pensarão em Direito, nesse porra de mundo? Dizem isso, porque certamente ninguém tem deveres, ninguém pensa coletivamente, valorizando os compromissos assumidos consigo, bem como com o próximo. Quanta insensibilidade; insignificância!" Dando a entender que não gostou das colocações fora de hora do marido, a matriarca fechou-se em copa; emburrara a tal ponto, que ninguém, nem a morte conseguia furtar-lhe um sorriso, uma palavra, um suspiro, sequer; ao contrário, reagia bufando. E se por acaso tivesse que xingar, espancar, dar na cara de algum objeto, esse seria o seu espelho; pois o arrependimento ferroava-lhe a inteligência, matava suas esperanças; esperanças assassinadas logo nos primeiros 5 anos de casamento mal sucedido.

Discordante da prosa desencontrada do pai, Máxima dizia coisa com coisa e acertava sempre na mosca. E mais um vez falou com conhecimento de causa, pois dentre as muitas formações, era anatomista, com pós-doctor em Harvard; e durante o curso e pesquisas, acompanhada pelos seus pais, alugaram um apartamento com lavadeira, cozinheira e motorista exclusivamente para ela. Ficou por lá seis anos estudando com afinco; e em razão de toda infraestrutura e comodidade, voltou para o Brasil sem conhecer a cidade de Cambridge, estado de Massachusetts; EUA.

Felizarda e sabendo de cor a representatividade de se ter uma família completa, deitada à beira do lago/balneário que circunda o palácio, soliloquiava dizendo que parentes é como os dentes na arcada dentária e se arrastam pelo tempo até que a morte separe um dos demais parentes, encavalados, apinhados, pendurados um em cima do outro; e se um dente dói, o parente do lado senti calado. Às vezes por um minuto resmunga, reclama do resgate kármico, mas quando lembra da lei consanguínea, cala-se, suporta as ferroadas da dor sovelando a raiz.

Jogava uma pedra na água e estudava o fenômeno físico proporcionado pelas ondas. Aturdida com a mudança repentina do humor que variava da água para o vinho em minutos, refletia procurando saber o que é menos pior, se pertencer a uma família recheada de irmãos, tios, avós, incontáveis primos e demais parentes, ou extirpar os dentes da boca e no lugar, pôr um par de dentaduras postiça para sempre. Remoía, engolia a seco a ideia de que parentes é um mal necessário e a qualquer momento pode ser útil para apagar o incêndio e a dor provocada por um, ou vários dentes; e isto a confortava, a mantinha quieta, imóvel, resignada e inoperante, achando graça do sorriso largo de canto a canto na boca que abria de vez em sempre para os entes queridos.

Verificando os apontamentos e diplomas recebidos nos simpósios, conferências e os títulos conseguidos no decorrer dos infindáveis anos de educando, encontrou um juramento que fizera diante do colegiado de professores que compunha a mesa examinadora na primeira tese de mestrado: "Se a disciplina e a ordem dependem de minha sabedoria, pesquisa e conhecimento, o desenvolvimento e o progresso do país passam pelas minhas mãos. Assim será para sempre adorados mentores, mestres e doutores!"

Estava molhando os pés de pele fina e sensível na piscina, quando a governanta lhe passou em mãos a carta assinada pela administração da república: "Boas férias e breve regresso, Máxima! Contrário da escola Ateneu que foi incendiada e até agora não sabem o autor do grandioso feito, os esteios da república foram recuperados e estão em pé, firmes, rijos, acolhendo e recolhendo os seus discípulos, renovando esperanças e para a temporada que se aproxima, esperamos pelos seus inovados saberes e fomentando incêndios, contamos com seus enriquecedores conhecimentos. Gênios como a Senhorita constroem o mundo; e quem nos dera ter a república sempre cheia dessas mentes!"

Aproveitando o ensejo, a Administração comunica também que estamos alterando a razão social para: "República Aprisco do ensino, conhecimento e saber"; porém enquanto não atualizam a documentação, continuamos assinando como: "República Hospício Loucos por Saia; e embora saibamos que nesse campo a Senhorita não passa de alienada, continuemos riscando o palito de fósforo, quem sabe uma hora o lacre do hímem incendeia...! Antes tarde do que nunca; e boa sorte!

Att.: Adm.

P.S: Arts. 1º ao 5º do CC e Arts. 1177 a 1186 do CPC esclarecem que:

"Capacidade é a medida da personalidade. Todas as pessoas possuem a capacidade de direito, ou seja, todos são capazes de adquirir direitos e deles gozar. Por outro lado, nem todos são capazes de exercer seus direitos e os atos da vida civil, que consistem na capacidade de fato. Assim, a incapacidade civil é a restrição legal imposta ao exercício dos atos da vida civil. De acordo com o artigo 3º, do Código Civil, "são absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil:

I - os menores de dezesseis anos;

II - os que, por enfermidade ou deficiência mental, não tiverem o necessário discernimento para a prática desses atos;

III - os que, mesmo por causa transitória, não puderem exprimir sua vontade". Há também aqueles que são relativamente incapazes de praticar certos atos da vida civil, são eles: os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos; os ébrios habituais, os viciados em tóxicos, e os que, por deficiência mental, tenham o discernimento reduzido; os excepcionais, sem desenvolvimento mental completo; e os pródigos.

Os absolutamente incapazes serão representados por outra pessoa capaz, ao passo que os relativamente incapazes serão apenas assistidos em alguns atos.

Nota final do conto novo, que não vale um conto antigo: Detentor de títulos, mestrados e doutorados, o pai de Máxima, Mendel Lourys, tinha guardado em seus recônditos memoriais que experiência e autenticidade, além de tornar os atos verdadeiros, é o que conta e o remete à seriedade. Teorias? Embora pague caro por elas, as teorias e postulados o faz rir cinicamente. Entendido no assunto, pelas leis da probabilidade hereditária/biológica, o que acontece em sua casa é produto dos conceitos genéticos.


Profeta do Arauto

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