ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta"

Vênus: quando uma deusa vale por todo trabalho musical da banda

Uma homenagem da deusa Vênus às mulheres que soltaram o verbo, o palavrório, a garganta em nome da música. Dona de uma talentosa, levitante e arrebatadora voz, Mariska Veres é uma das homenageadas e certamente, contribuiu e muito, para dilacerar os corações de muitos marmanjos sacudos; afinal, quem disse que os corações dos brutos não amam, errou redondamente! Os brutos não amam, suicidam-se por amar demais!


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Contextualização: Showzaço esse Shocking Blue. Antes ouvia só em rádios, ou alguma gravação rústica. Aqui, adaptei o Home Theater no PC e a música é outra coisa. Fins de semana, pinguinha da boa e cervejas, tira gosto, vou curtindo meu fim de semana, quando tenho que ficar em casa. É só diversão, numa boa. - faço das palavras do Ilacir Rodrigues, a linguagem de quem conhece a banda e obviamente, é fã incondicional. O som do Shocking Blue é no mínimo, para os maus sujeitos do samba, porém prestáveis de inteligência e ainda melhores dos pés.

Originais, autênticas, desafiadoras, sem os vincos na cara de tanto tricotar as mesmas estampas, as mulheres contribuíram de forma decisiva para que a música alternativa ganhasse, tanto o mercado fonográfico, quanto novos adeptos. Indiscutivelmente, vozes suaves, estéricas, sensuais, graves, roucas, agudas, é o que não lhes faltavam. E quando elas caíam para vocalizar o rock, a primeira coisa que faziam era desprender-se da mesmice, aparentando por fora, a liberdade que sentiam por dentro. No quesito vocal, as mulheres eram intrépidas e não ficavam devendo nada para nenhum macho sacudo com dois grãos operantes; e devoravam impiedosamente o microfone.

Não há fruição orgásmica sem a nostalgia da química do "provei, degustei, aprovei, bis, quero mais!" E quem desconhece o sabor da originalidade, perde o respeito por aqueles que construíram o mundo, inclusive pelos ensinos do Criador e quando exemplares, dos próprios pais; e a música Vênus do Shocking Blue, banda que marcou uma época, se inclui no pacote desrespeitoso da falta de originalidade dos modernos: para esses, qualquer porcaria sonora é prato plenamente degustável e calórico para a intelectualidade; sobretudo, haja merda para tantos paladares auditivos.

Esse Dinossauro, Bicho-grilo espreitador, Visionário das futilidades, Vaga-lume que permeia noites de lua cheia e implora humildemente sua atenção, primando pelo respeito e apreço pelo leitor, pensando em dar o melhor de si aos apurados e seletos ouvidos, mexeu e remexeu os arquivos, revirou as prateleiras e acervos do conhecimento, se debateu com tempestades de vinis velhos e empoeirados, presenciou a batalha de neurônios decrépitos contra avalanches de inovações tecnológicas, humilhou-se perante mesas de som de muitos canais, negaceou os funqueiros, passou rasteiras em capoeiristas, pulou mandingas, deu rabo-de-arraia em desavisados, saco-mortal em bateladas de aparatos, desvencilhou da maledicência da modernidade encontrada nos caminhos, e quando o cansaço da busca e o desânimo da insensatez musical lhe carcomiam a paciência e a esperança, eis que o brilho do ouro 18 quilates perdido em chamas da banda Shocking Blue reluz em frente aos seus olhos. Aliviado, retornou do devaneio e com a pena em punho, debruçou sobre a mesa para relatar o que se passara com a banda em tempo remoto e distante.

Este escrito tem muito a ver, a linguagem e o conteúdo estão bem próximos do texto que escrevi sobre o CCR - Creedence Clearwater Revival; e por tal motivo, honestamente, o leitor não deveria lê-lo, pois lamentavelmente, creio que não tenha nada de novo. Por que, será? Simplesmente por que as palavras, ainda que perdidas nos parágrafos dos capítulos, serão repetidas em todos e quaisquer livros de muitas páginas. Como não bastasse, ainda mais quando as histórias entre uma e outra banda são semelhantes, pertenceram à mesma época e chancelaram uma geração. Se o que leram até agora soa indução ao erro, precipício de informações, pergunte para o seu vovô, papai, mamãe; vovó, titia; vizinho, sei lá... mas pergunte para alguém de cabelos prateados e rugas na cara quem foi Shocking Blue; impossível que ninguém de tempos passados não saiba nada sobre a banda que estou escrevendo.

Nada erudito, Shocking Blue fazia um pop/roquezinho antigo de salão, (digo de salão, porque o ritmo era basicamente dançante) bem temperado instrumentalmente, dotado de qualidades excepcionais e notável equilíbrio musical. Como a maioria das bandas daquela época, chama atenção o nivelamento dos arranjos e acordes promovidos pela banda do início ao fim em todos os álbuns.

A banda ficou conhecida no Brasil quase que exclusivamente por um ou dois hit; e em qualquer pista dançante dos anos 70, a voz marcante de Mariska Veres e o alarido garganteado de Robbie van Leeuwen, músico que desempenhava outras funções na banda, retumbavam nas caixas.

vERES.jpgBela. Olhos. Lábios. Modelados. Duas meia luas. Naturalmente bela. O canto de Veres. Encanto dos súditos. Vênus era ela.

Sabido é, principalmente em tempos de plásticas e vaidades sem precedentes, que Vênus é deusa na mitologia romana; afinal, beleza se põe na mesa e na terceira estrofe, a letra presta uma homenagem a diva romana da beleza: "Suas armas eram seus olhos de cristal / Fazendo todo homem louco / Negra como a noite escura ela era / Tem o que ninguém mais tinha."

Fatalmente, não é de se duvidar que as mentes que desnudavam a música setentista não lembrem o nome da banda, mas em um singelo bailinho qualquer, em um parque qualquer, com domingueiras, pipoca, refrigerante, sorvete, roda gigante, bilhetinhos apaixonados, musiquinhas meio cafona nos auto-falantes, os pés não parassem quietos ao ritmo alucinante de Vênus; e quem não dançava, embalava a criança. Onde havia um ajuntamento de pessoas, ainda que não houvesse sonoplasta entendido no assunto, as vozes de John Forget e Veres não ficavam em silêncio. E uma vez identificado as músicas, o que via-de-regra era através do ritmo, ouvintes como Ilacir Rodrigues tornavam-se fãs assíduos, com carteirinha, botons e tudo mais.

O álbum que contém a música Vênus foi gravado em 1969, mas só após um ano do lançamento é que explodiu nas rádios de muitos países. A banda foi tão badalada, que atingiu o primeiro lugar por um bom tempo; chegando vender mais de 350 mil cópias entre Europa e EUA. Portanto, fazendo um som popular e socializado, este é o ponto principal de semelhança entre as bandas. Aliás, salvo os erros tão presentes e comuns em minhas (des)escritas, algumas notas e acordes lembram vagamente o CCR.

Na contramão e mostrando a originalidade da banda em fazer o que mais agradava os integrantes, Robbie van Leeuwen introduziu a cítara nos arranjos, dando um toque especialmente indiano/celta ao estilo. Com isto, a banda quebrava com o ritmo e notas de poucas variações, com o vocal acentuado de Mariska nas canções e aderia o instrumental relaxante praticados pelos espiritualistas, místicos e esotéricos.

Outro som que deixou as pegadas nas pistas de todo o mundo, é "Never Marry A Railroad Man". Chega de mansinho, com um acorde de guitarra, acompanhada pela bateria, logo emendam com os demais instrumentos. Frenesi puro. À certa altura, numa reviravolta mirabolante, a música toma novos rumos.

Destaque também para "Long And Lonesome Road". Contudo, se o leitor veio à página pela curiosidade, mas o seu negócio é rock, "Love machine e Fireball Of Love" talvez satisfaça sua volúpia pelo som mais pesado. A primeira segue o ritual de um riff contínuo, enquanto a segunda já sai com a guitarra em disparada e a bateria sem ter o que fazer, acompanha o frenesi sonoro. Estranhamente, o ritmo tem um quê de salsa, ritmo latino, porém acelerado, tendendo ao rock dos bons tempos. Confira!

Completava a banda originária da Holanda, Klaasje van der Wal no baixo e temperando tudo na cozinha, o baterista Cor van der Beek e outros.

Em resumo, o som produzido pela banda é potencialmente audível e vem carimbado pela superação, sentimento característico de uma geração que se envolvia com o segmento artístico e punha a mente, o coração, a alma, a paixão, o amor e a competência em detrimento da música; afinal, tudo era feito na raça, na vontade, na aptidão, no orgasmo gota-a-gota e quem pertence ao "provei, degustei, aprovei, bis, quero mais, muuuito mais", deleita-se com a ousadia desses afortunados.

P.S.: A canção Vênus é tão popular e querida mundialmente, que atualmente ainda é tocada nos calçadões das principais cidades do mundo; sobretudo, porque é a trilha sonora de músicos amadores. E se bem ou mal tocada, difícil é eles não ganharem uns trocados ao apresentá-la no repertório. Conclui-se então, que Vênus além de ser deusa da beleza, garante a sobrevivência de quem não teve a oportunidade de nascer na Holanda e contribuir para o som performático da banda Shocking Blue.

Atente-se, ouça minuciosamente, com ouvidos apurados e libertos de impurezas, os acordes, as notas, o ritmo, o som da banda e note onde REM, Nirvana, Tina Tuner e outros se tornaram conhecidos na mídia. Como vieram bem depois da banda, tomaram água límpida diretamente da fonte para criar suas canções e arranjos.

O Dia Internacional da Mulher foi no dia 8; e do Homem, o resto do ano. Corretíssimo estava quem criou a data. Aprofundando na questão, tudo leva crer que foi uma mulher (talvez a deusa Vênus) quem vislumbrou tal proeza dotada de razão. Salve-a!


Profeta do Arauto

O perfil de uma lesma canalha, anacrônica e gosmenta sem perfil, resume-se ao: "Ei, esperem por mim! Não entendo o porquê dessa correria atabalhoada, o porquê de tanta competição, se iremos para o mesmo lugar! Embora não aparentem, sapatos camufladores e tênis mimetistas são egoístas e não suportam retardatários na pista. Faz-se saber, portanto, que se for pelo atletismo cotidiano, não compito e nem sou exemplo de atleta".
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