ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

O solilóquio dos inocentes na canção The logical song do Supertramp

E as perguntas não desistem, ao contrário, assaltam o meu silêncio, roubam a minha paz, sovelam a minha inocência: "Será que a felicidade é uma constante na vida dos homens adultos? Se não, então, o que é essa tal infelicidade e quais são os fatores limitantes para não obtê-la? Embora não tenha uma opinião formada e nada saiba sobre coisas subjetivas, lançaram-me no abismo conflituoso entre a débil realidade do meu Eu e a aparente fortaleza do mundo adulto!"


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O movimento hippie já foi tido como a revolução comportamental de épocas; já foi retratado como o estilo de vida do diabo; já foi adorado por vagabundos e ociosos; odiado por conquistadores, poderosos e endinheirados; mas por mais que os conservadores não queiram, por mais que entendam que o estilo é ultrapassado, sempre, sempre, vem à tona alguma coisa que foi galgada no estilão de ser dos cabeludos, a lá Jesus Cristo. Excluindo o inaproveitável, contribuiu milagrosamente e significativamente para o rompimento dos costumes, para a quebra dos paradigmas e ainda que negado socialmente, cada movimento artístico que compunha o todo, ainda inspira algumas mentes a observar o seu e o mundo ao redor, elucida os hipócritas obscuros sobre o quão é ridículo aprisionar inteligências, alertam sobre os conflitos internos causados por sistemas, tanto social, quanto familiar e político opressores. A letra da canção "The logical song" do Supertramp é uma viagem íntima para dentro de si; e os últimos parágrafos porá em evidência o porquê do título e a afirmação da tese, ora lida.

As diferenças entre as ideologias dos hippies do passado e presente:

Full. Completo: esse é o significado que melhor representa o movimento Hippie. No pacotão do movimento artístico proposto pelos doidões que vagavam pelo mundo de alpercatas, com a brasinha do Capeta acesa entre os dedos, com os corpos ensebados pela economia do recurso natural água e muita luz criativa na mente, havia a música; a valorização dos elementos da Natureza e recursos ambientais; as novas maneiras de conduta e vivências entre os adeptos na sociedade alternativa; a pintura nas capas dos discos; o teatro mambembe; a espiritualização através do místico e do esotérico; a adquirência da qualidade de vida através da alimentação natural e prática de esportes; logicamente, o grito da contracultura do dizer não à cultura capitalista dos costumes e hábitos consumistas, através da escrita literária e musical. Os bufões, também conhecidos como "Porra-loucas" ou "Ripongas", nada mais eram que uma espécie de ciganos em missão pregando o amor e a paz, pregando a contracultura de forma civilizada, disseminando a obediente desobediência civil; afinal, a época era de guerras. E o movimento por ter sido feito por Homens gregários e magnânimos para, ou melhor, contra os homens de visão gananciosa e oculta, obviamente, fracassou.

Em contrapartida, no extremo do abecedário social, os homens/hippies engravatados, donos da ciência, conhecedores de saberes improdutivos, prepotentes e gananciosos modernos socializam, emprestam, doam, vendem, fazem qualquer negócio para se verem livres das mães, esposas ou esposos e filhos, mas não socializam, não dividem o trabalho e as tarefas, bens, vidas e sentimentos em comum. Não souberam se relacionar respeitosamente em comunidades alternativas, mas hipocritamente, vivem muito bem em comunidades virtuais; pois se um ser (porque amigo para aparar as lágrimas não é) jamais visto e conhecido que faz parte da patota, escreveu a verdade que o suposto "amigo" do outro lado condena e portanto, não deveria ser dito e muito menos exposto em comunidade, o fulano virtual dá um freeze (botando até o idioma português na geladeira, obrigatoriamente tem que ser congelamento em inglês) no energúmeno/fofoqueiro e delator das verdades alheias, automaticamente, na hora.

Sobrando, então, os "amigos" das selfies, de papos furados, das risadas, kkkks, valeu, bacana, "estou enviando a foto"; legal; "são 15h e meu cão ainda não defecou"; "Puxa amiga, quem não defecou aqui em casa foi o meu papagaio Mitico: estou preocupada!"; "Preciso ir ao médico urgente mas me falta companhia, pois faz uma semana que não sai nada de meu intestino, só entra no estômago, acho que estou com barriga d`água"; e hashtag#besteiróis que seguem. Amizades virtuais não exigem sentimentos, ombros amigos, lágrimas, sofrimento, dor, amor - se é que existiu -, emoções; apenas frieza de espírito e coração gélido.

O anárquico, libertário, (hippie às furtivas?) e líder de uma raça, King Martin Luther, disse que para contrair uma legião de inimigos em campo aparentemente santo, não precisam armas e o extremo da guerra; mas apenas dizer as verdades ocultas nos semblantes dos covardes atiradores em inocentes.

Na música, por exemplo, tivemos estupendos mestres/doidões/hippies compondo arranjos, harmonias e acordes instrumentais para lá de anormais; bem como letras que exorcizam os depressivos e mortos. Onde estaria a mente do Raul (salvo engano a composição é dele e Cláudio Roberto; contrário do que pensam, o melhor parceiro de composição do Maluco beleza) ao compôr a letra: "Canto para minha morte"? Certamente deveria estar entorpecida por um chá de cogumelo. Em princípio, a letra não cita a palavra cogumelo, em compensação, cita a erva como fonte de renovação: "E que a erva alimente outro homem como eu / Porque eu continuarei neste homem / Nos meus filhos". Qual seria essa erva que serviria de alimento para o filho? Excluindo os eufemismos, as letras do Doidão Beleza sempre foram metáforas carregadas de duplo sentido.

Tivemos a visceralidade da canção "Child in time" do Deep Purple. E o que dizer dos cabeludos do Led, liderados por Robert Plant, ao escrever a letra "Starway to heaven"; (Escadaria para o céu); pouco provável que no momento estivessem na Terra. Outra letra afrodisíaca é "Beira mar"; composta por Zé Pretinho e ofertada ao Zé Ramalho, para que o músico amante de vampiros à meia noite e místico de coisas inimagináveis, a continuasse. A solidez musical completa-se com a sanfona do menestrel Dominguinhos, à época com a cara cheia de espinhas em tenra idade.

Estendendo o assunto sobre a letra, as falas do além dizem que o mentor Zé Pretinho, após perder o duelo de martelos agalopado, (duelo entre dois combatentes que se fazia, ou ainda fazem, no Norte e Nordeste) foi "chorar as pitangas" à beira-mar e ao ouvir o marulho das águas, imaginou que aqueles ruídos fossem do galope de um cavalo alado. Imediatamente, enquanto os ruídos marulhavam sua imaginação, fez os versos de onze sílabas (hendecassílabos), com a mesma estrutura de décima (estrofe de dez versos). Estilo rímico mantido por Zé nos arranjos e harmonia.

Valorizando o que lhe pertence e mais ainda, por ser ignorado pelos brasileiros, Oswaldo Montenegro prescruta os sentimentos dos esquecidos "A lista". Fora as harmonias presentes na canção, uma belíssima letra apoquenta as emoções dos ingratos e falsos amigos. E como aparecem amigos líquidos na vida de falsos e ingratos amigos! Parece até que se amam pelo nefasto: "seremos amigos até quando os olhos estiverem abertos e as necessidades das úteis barganhas nos acolherem." Depois, não tendo mais nada a oferecer um ao outro, somem no deserto do nunca mais; ficando para trás apenas o nevoeiro de areia do esquecimento.

Esse show foi no Brasil; na época que a boa e profícua cultura impelia alguns brasileiros ao melhor da arte que se produzia e propagava pelo mundo.

No pacotão disseminado mund`afora pelo movimento hippie, o que não falta é arte, ousadia, rebeldia e revelação. Uma das canções mais reveladoras que aclara a adolescência de uma geração arredia sem causa e ao mesmo tempo sorumbática, depressiva, vazia interiormente, é "The logical song". Uma dicotomia perfeita entre o ir e ficar; um paradoxo reflexivo entre aceitar de bom grado o sim e a recusa de ouvir o não com resposta ao solicitado; um maniqueísmo inebriante sobre os mandos adultos e a inocência de uma criança. A contradição entre os reais pesadelos e os (ir)realizáveis sonhos dos humanos. Pois, enfim, a arte de pensar a vida é um eterno conflito existencial jamais resolvido.

O enfoque da letra da canção "The logical song" é puramente psicológico. Dilacerante, supõe-se no momento de escrever a letra, Roger Hodgson estava sob profundo ataque híbrido entre lucidez e revolta interior. Líder e vocalista da banda inglesa de pop/rock/prog, Supertramp, o disco "The breakfast in América" foi gravado em 1979 e inicia relatando o passatempo de uma criança feliz com o seu meio.

"Quando eu era mais novo, a vida parecia tão maravilhosa, milagrosa, linda, tão mágica. E todos os pássaros nas árvores ficavam cantando tão alegremente, felizes e saltitantes, me observando."

Tudo muito simples, natural e humilde, até quando arrancam-lhe de seu habitat e apresentam-lhe o futuro. Um futuro destituído de humanismo. E ainda que não formada emocionalmente, a precocidade apresenta-lhe o mundo nada amável dos adultos:

"Mas depois me mandaram para longe para me ensinar a ser sensato, lógico, responsável, prático. E me mostraram um mundo onde eu podia ser tão confiável, clínico, intelectual, cínico."

Ainda que respirasse ingenuidade, suspirasse a desídia tão peculiar aos inocentes de idade, a metafísica da indagação corroía-lhe a consciência.

"Às vezes, quando o mundo inteiro está dormindo, os questionamentos são profundos demais para um homem tão simples. Por favor, diga para mim, por favor, o que foi que aprendemos? Eu sei que parece absurdo, mas por favor, digam-me quem eu sou?"

Porém, ela que tivesse cuidado com as palavras, afinal, ainda que impere a hipocrisia, por soar desaforo, os adultos condenam as verdades.

"Mas cuidado com o que vai dizer, senão vão lhe chamar de radical, liberal, fanático, criminoso."

E caso queira ser benquista nesse novo espaço territorial, ela que se enquadre à personalização e aceite de bom grado às padronizações impostas pelo meio.

"Será que você não quer deixar aqui seu nome? Gostaríamos de sentir que você é aceitável, respeitável, legal."

Estando ela de acordo e a ata assinada, nada mais restava a sua consciência, à não ser, remoer tamanha desilusão, ruminar o desprazer de "ser", o que jamais quis ser.

"À noite, quando o mundo inteiro está dormindo, os questionamentos são profundos demais para um homem tão simples."

O tempo voava como os pássaros e ela ainda cheia de dúvidas, presa às incertezas de "Ser ou não ser, eis a questão"; afinal, a vida adulta, de gente grande não permite pensamentos, sonhos e ilusões de crianças, jamais!

"Por favor, diga para mim, por favor, o que foi que aprendemos. Eu sei que parece absurdo, mas por favor, digam-me quem eu sou."

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"As respostas para as coisas subjetivas me foram dadas: eu queria ser pleno e incrivelmente feliz, mas não me levaram ao encontro de minha felicidade e ainda que tardiamente, agora eu sei. E embora eu seja uma pessoa admirável com os meus propósitos e requisitos, aprendi pela humilde e honesta intimidade, que não adianta forçar e queimar as etapas de vida. Por isto, tenho convicção plena que a minha felicidade está guardada em algum lugar no espaço e no momento oportuno, ela brilhará, como brilha a pepita de ouro puro em meio à lama encascalhada. Esta é a letra de minha canção lógica; e parecida uma oração, faço questão de ouvi-la todos os dias. A letra os meus tímpanos sabem de cor, agora só resta espraiá-la em sorrisos em minha vida; porque as lágrimas secaram!"

“A opinião pública é uma tirania débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos”. - mestre Thoreau

Infalivelmente, perante as normalidades sociais, as sociedades de modo geral, impõem normas, personalizam hábitos e padronizam costumes. Ou és cordeiro, ou os cães ajuntadores do rebanho.

P.S: Reconheço que o texto é fragmentado e discordante sob o aspecto título-enredo em seu todo, mas foi escrito de forma proposital a esclarecer o quanto o movimento hippie e as suas muitas variantes artísticas se preocupavam com as entrelinhas da descoberta e liberdade humana. Ainda mais sabendo que a tristeza, a melancolia e o terrível mal do século imperam sobre as mentes, ocupam vorazmente o vazio interior, porém, não nascem ao acaso e ainda que inacessíveis aos sentidos, muito menos, proliferam sem motivos aparentes; e a letra da música "The logical song" do Supertramp escrita à mais de 40 anos já retratava as entrelinhas da questão. Quem ouviu e entendeu o recado, entendeu; quem não entendeu, que vá chorar na cama. Afinal, como os vírus e bactérias, o solilóquio dos inocentes escolhe morada e por preferência e preservação, são os ambientes quentes, frios e úmidos. Semelhantes aos líquens, são os bioindicadores dos bolores da vida; e ainda que sem vida, gerando vidas! Poluídas e depressivas vidas!


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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