ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim de uma perna pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico



Na toada do Boca livre, ventos violados e Natureza se tocam!

"Vem morena ouvir comigo essa cantiga / Sair por essa vida aventureira

Tanta toada eu trago na viola / Prá ver você mais feliz" - Toada



Contextualização: De vento em intenso vento, desfaz-se o tempo, dando lugar à brisa leve que saudade traz. De vento em intenso vento, desfaz-se a saudade, dando lugar à brisa leve que os tempos idos, refaz. Seja invadido, tomado dos pés à cabeça, renda-se ao divino, pedale a imaginação transcendente; e para completar a levitação, deguste a poesia contida na Natureza com a sensível música do "Boca Livre." Tão necessária em tempos conturbados, quanto escrever as intimidades em versos livres nas pétalas em branco do diário biográfico abertas em cada página desabrochada em tenra flor.

Feliz o coração que desperta ouvindo música, certamente a paz angelical e Deus o habita.

"Um coração vazio / voa vadio / feito uma pipa no ar" - Quem tem a viola

Preguiçoso e nada convidativo, o dia ameaça raiar nos arrebaldes. Tanto é diferente, quanto igual aos cemitérios, as cidades de casas enfileiradas e janelas abertas para as ruas estreitas ainda estão vazias. Dormem os formosos e diminutos túneis arquitetônicos do passado. Em dias claros, o colorido das paredes espelham o brilho cintilante do sol, uma na outra. Nas calçadas, as folhas secas se misturam aos ciscos, galhos e restos de matéria orgânica à espera das bactérias que refazem a vida. Equilibrada e operante, é a Natureza devolvendo à ela o que lhe pertence; pois as coisas naturais vieram da terra, e para a terra voltarão. Dessa lei premissa, aqueles que pertencem aos reinos animal e vegetal não escapam. Sementes que germinaram da terra, crescem em forma de planta, se tornam adultas, florescem e dão bagas com boas ou más sementes, são chanceladas pelo prazo de validade, chamado período evolutivo; não obstante e ainda que alce altos voos, árvore nenhuma é dona de suas sementes, frutos e asas. Uma hora ou outra, as asas serão aparadas, os frutos desidratados e as sementes secas cairão com o galho e tudo. Humildemente, subserviente e sem questionar os porquês do desmazelo dos ventos e coisas invisíveis, toca a Natureza juntar os restos, depurá-los e reiniciar o processo evolutivo da transformação natural.

bocalivre.jpg

A aura urbana é quase silenciosa e não é silêncio pleno, porque as águas do riachinho chiam ladeira abaixo e um de lá, outro de cá, os bem-te-vis alardeiam os fios e copas de árvores piando as perguntas e respostas que só os passarinheiros decifram. Por sua vez, para quem habitualmente desperta antes da aurora, o vento acordou tarde e por esta razão, corre desesperado para acordar as folhas e folhagens verdes, sacodem fortemente as roupas embandeiradas nos varais dos quintais, batem em portas e janelas das casas e pedindo desculpa pelo atraso, despertam os residentes.

Até os galos perderam a hora e se não fosse o vento, dormiriam indefinidamente. Responsáveis com seus deveres, o dia será de muita ciscadeira para esgaravatar os insetos, de sublime energia de macho, alento fecundador e muito cacarejado para as esposas enamoradas. Quietas e silenciosas, as folhas farfalham regozijando, zombando das timidezes, as quais passaram a noite. Em respeito aos que dormiam, a serenata da lua e estrelas tocou acordes absolutamente silenciosos no oboé e flauta.

Por que início certos textos sobre música com uma prosa poética, ou citação/reverência à Natureza? Simplesmente por que, se sua alma reina soberana nas alturas, ela é a fiel representante, a procuradora do Criador na Terra. Puríssima divindade materializada. Mas, talvez os filhos dotados de razão, não consigam associar uma coisa à outra e podem querer saber: e o que isso tem a ver com aquilo? Resposta simplista: Villa Lobos disse que os pássaros se comunicam pela música. Irrefutável verdade. Indo além, a sinfonia completa-se com os demais elementos da Natureza; mas, para isto, tem que haver olhos para ela, ponderação do observador e esquecimento dos relógios.

Estando os assentos do teatro tomados pela plateia que delira, assovia, apupa e bate palmas ao ver todos músicos da Natureza apostos, o espetáculo pode iniciar? Ora se o Homem é a obra máxima do Criador, supõe-se que ele também tenha algo a acrescentar, alguma coisa para melhorar e tornar ainda mais melodiosa a obra, mais representativa aos olhos, ouvidos, mãos e pés, motivo de um dos álbuns do quarteto vocal carioca, Boca Livre, lançado em 1980, se chamar "Bicicleta". Acertadamente, pois música, estradas, bucolismo, campo e bicicleta pedalam a liberdade tão sonhada pelos humanos. Assim adquiridos, o livro chega tocado pelo vento para a mente lê-lo debaixo de um sombreiro de árvores; com o corpo recostado ao tronco e as pernas esparramadas sobre as robustas raízes.

Já citei em outros textos sobre música que a capa era o segredo revelado do que havia dentro dela. O visual era tão fiel às letras e melodias, que o admirador do estilo comprava de olhos fechados o bolachão (eu mesmo fui um desses) já prevendo tal amistosidade entre os elementos; e realmente, a capa tinha total parentesco com a sonoridade. Capas, melodias e letras: casamento perfeito. E foi com esse sentimento que o artista gráfico fez a capa do segundo disco do quarteto, Boca Livre; conhecido como o disco da "Bicicleta". Simples de detalhes, a imagem mostra uma bicicleta solitária pedalando livremente num dia claro de sol, observada por uma revoada de pássaros. Aliás, o leitor deve ter percebido ao clicar no cursor para ouvir o disco disponibilizado, que a imagem mostra os quatro músicos emparelhados olhando a revoada de pássaros que cortam o ocaso.

bocalivre1.jpg

Mas antes, o grupo carioca formado por Mauricio Maestro, Cláudio Nucci e David Tygel e o violonista Zé Renato lançou o disco "Boca Livre" no final da década 70. Como sempre, os investimentos para a cultura eram racionados, para o bem da verdade, o país passava por uma recessão das bravas e como cultura não enche barriga, os mandatários do poder dispendiam centavos para tal finalidade.

Pensando nesse sórdido episódio que carcomia a arte brasileira e contando com recursos próprios, fato inusitado e raro para a época, o quarteto lançou o disco "Boca Livre". Uma obra fora dos padrões da MPB, porque, o estilo musical até então estava galgado na Bossa Nova fecundada por Tom Jobim e outros; na fusão entre as guitarras elétricas e coisas harmônicas de Gil e Caetano. E claro, na psicodelia rústica e crua resultado do trabalho de certas bandas de rock progressivo. Embora tudo se resumisse em "MPB", a diversidade do estilo gerava um racha de público; o que era perda considerável para a música brasileira de qualidade e não menos, para a sobrevivência do músico em carreira solo ou em grupo. Acreditando e fazendo prevalecer a máxima que produto qualificado, feito com ingredientes selecionados demora, mas acaba se sobressaindo, o grupo investiu no estilo fino e requintado, cujos arranjos instrumentais e vocais apurados, fugia por completo daquilo que se fazia até então. Cantando as coisas da Natureza, dá uma nuance de atingir outra dimensão, tamanha é a dissonância vocálica e alternância nos solos instrumentais. Em contrapartida, numa guindada espetacular de 180 graus, certas letras aclaram as realidades humanas, camufladas pelo nó da gravata e sapatos lustrados, os quais pisam em tapetes vermelhos. A música desse pessoal setentista foi assim; e irrigada com a tenra honestidade, iniciava com a ideia de que toda verdade deve ser dita.

"Quando sou fraco / Me chamo brisa / E se assobio / Isso é comum

Quando sou forte / Me chamo vento / Quando sou cheiro

Me chamo pum!" - O Ar (Vento)

No disco inaugural a sofisticação musical inicia com "Quem Tem A Viola e Toada", as quais as letras exaltam o transporte proporcionado pela sonoridade do instrumento. Poupando o leitor de ler o que foi escrito com outras palavras, a viola permeia as letras com as coisas da Natureza; portanto, a energia e força da boiada cortando estrada; as águas que fluem por gravidade levando vida aos que dela dependem; o sol produzindo a clorofila fotossintética e o tristonho elo que une Diana ao amigo que há muito não via. Nessa música, a letra nos remete aos tempos imemoriais de brincar no terreiro em noites de lua cheia.

Outra pepita de ouro são as músicas "Feito Mistério e Barcarola do São Francisco"; (a letra desta última é de autoria do estupendo Geraldo Azevedo). As letras são de rara beleza e os acordes instrumentais contam com um violado esplendoroso. Na primeira, a certa altura do transe musical, uma magistral quebra de nota desperta aqueles que ouvem música fora do plano físico. E antes que as luzes da peça musical chamada "Boca Livre" apagassem, antes que as cortinam fossem unidas prenunciando o fim do espetáculo, ainda foi possível tomar leite puro na caneca tirado na teta da vaca em "Fazenda; e com todas as mãos apostas nos bancos da varanda acenando o adeus, retornar da viagem à "Minha terra" (Tema da peça teatral "Papa Highirte). Toda essa nostalgia sonora ficou atada a um tempo remoto, mais parecido a um rolo de filme roto e envelhecido, porém ao repassá-lo, nota-se que houve a transformação natural do tempo, mas o belíssimo conteúdo é o mesmo. Pois, deveras, a música se perpetua no seu estilo de arte. E ainda que não haja nada, tudo há de ser resgatado; e a tecnologia oferece essa dádiva. Aperte os botões e encontrarás a música do "Boca Livre" a tempo e a hora. Sorte do leitor, porque antigamente era somente para meia dúzia de terráqueos cabeludos que, habitando o vazio do espaço, possuíam energia suficiente para ir aonde estrelas musicais, como o quarteto de vozes, desfraldassem os instrumentos para cantar a trilha sonora da vida, cujas canções valiam as lágrimas nos olhos, os sorrisos nos lábios e as emoções em sensíveis corações.

"Na praça vazia, um grito aiii;

Casas esquecidas, vinho, vasos e portais"

Em 1989, o grupo lançou pelo selo "Som Livre" o bolachão negro de petróleo, chamado "Boca Livre em concerto"; cujo material foi gravado durante a temporada no no Canecão (RJ). Apesar das várias mudanças na formação e uma delas foi a entrada do guitarrista Flávio Venturini, um tremendo músico, mas que não durou muito tempo, o grupo atingiu o ápice de sua performance musical e por isto, ficou conhecido internacionalmente. E em 1993 foram coroados com a participação histórica no disco "Deseo", de Jon Anderson, que como deve ser de conhecimento do leitor, era vocalista da banda inglesa de Rock Progressivo, Yes.

Guardando munição, caneta e material para mais um artigo, sobretudo, a música do "Boca Livre" é para ser lida em doses homeopáticas, o trabalho harmônico, a técnica aplicada aos arranjos e os acordes é surreal. Ouvi-los minuciosamente, com os tímpanos limpos e os pensamentos ainda que desordenados, são ordenações sonoras que reorganizam os planos superiores da alma. Definição que ainda é pouco para o primeiro disco.

Se a música do "Boca Livre" fosse uma viagem de bicicleta, o mais conveniente é parar, estacar no meio da estrada: ponto exato que garante a visibilidade do que ficou para trás e o que virá pela frente. Como o que é subjetivo não pode ser mensurado, materializado pelos números matemáticos, o trabalho do grupo é atemporal; e em qualquer época, em qualquer lugar, em qualquer viagem é aprazível e necessária aos que primam pela música de qualidade. Líquido e certo é que a música do "Boca Livre" dá sentido à vida, mas imaginando que fosse outra coisa e tivesse sabor, enquanto o observador em cima do píncaro aprecia os pingos de chuva inundando os baixios ao longe, fatalmente seria a degustação de um chocolate finíssimo ofertado por Deus. Sobretudo, a música do quarteto vocal é a proximidade da criação com o "Criador de todas as coisas."

Na toada do Boca Livre, ventos violados e Natureza se tocam; assim posto, feliz é o espírito que palpita vida ao ouvir a música do quarteto!


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim de uma perna pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Profeta do Arauto