ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as minhas retinas nuas na réstia dos raios sol que chocam-se contra a alvura da neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, crio asas, imito os pássaros, tento entender por quem os sinos dobram; por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante. Escrever é disseminar intimidades, é praticar a solidariedade, sentir-se útil. Altruísmo em essência: expressão de um coração silente

Ensaio à cegueira (Ensaios Terroristas não devem ser lidos)

Se eu não acreditar em meu semelhante, ainda que trapaceando-me, estarei duvidando de mim. Aplicando os bons aprendizados de discípulo, faço como Cristo: se me chicotearem pelas costas, viro de frente para tomar lambadas. Se estapearem a face direita, dou a esquerda para esbofetearem. Indubitavelmente, qualquer tipo de Cegueira é agressiva, vil, ignóbil. É o estupro coletivo promovido pelo terror!


Dia com céu ensolarado. À tarde ventos intensos. Boca da noite. O dia caminha para fim.

catarata.jpg

- Bom final de tarde, Dama! - A moça empinou o nariz.

- Bom final de tarde, Cavalheiro! - O moço virou a cara para o outro lado.

- Bom final de tarde, moça! - ainda que sabendo o significado de moça, meteu os fones nos ouvidos e foi se ouvir em lugares distantes.

- Bom final de tarde, Senhor!

- Está pensando que sou velho, o senhor está no céu?!

- Bom final de tarde, seu bicho!

- Uauuau..., uau!

- Que qualidade de safra; povo bronco, hein, Vacante?

- Uauuau, au, au!

Apoiado pelas mãos do Bicho, empinou o corpo sobre as duas patas dianteiras e ficando de pé, cheirou-o até onde foi possível. Se houvesse altura suficiente, lavava-lhe a cara, lambendo-a. Posto de volta no chão, o rabo fazia seu cumprimento à parte e parecia um alegre e vistoso para-brisas movimentado-se intensamente contra os pingos de chuva. As palavras calaram-se. Tendo o focinho cofiado por duas mãos intrusas, ficou por ali mesmo. Dia cansativo pelas andanças. Troncho, trôpego, jogou o rabo de lado e arriou o corpo sobre as patas traseiras. Sensível e observador, o Bicho lera os pensamentos de Vacante. Aprendera andando pelas cordas bambas do destino, que bichos enxergam e pensam. Vai se saber se ele está certo ou errado. Pensamentos de bichos, vistos e analisados por outros, podem ou não, ser inteligentes, sábios ou loucas idiotices.

- Está exaurido, com as pernas doces de tanto vagar. Garanto que não salivou nada e agora, ameaçando chuva, onde esse infeliz irá dormir, está assustado com os trovões e relâmpagos. Embora saiba praticamente todos os idiomas que unem os diálogos no mundo, ainda que tenha respondido: "uau; Uauuau..., uau!" sua linguagem materna, por sorte, muita sorte minha, alguém ouviu-me. Estou agradecido por ele existir! Estava entrando em desespero. Pânico, pois a munição, chamada paciência, estava chegando ao fim. A saliva estava esgotando e as palavras por um fio. Sinto-me renovado.

Fora Vacante, apenas o céu o ouviu. Trovões ribombavam. Relâmpagos rabiscavam figuras estranhas de fogo. Como previsto no dia anterior, ameaça de chuva.

O Bicho que desejava bom final de tarde aos transeuntes berrou em resposta aos ruídos ameaçadores de chuva: "Um bom final de tarde", gentileza, olhos, sensibilidade e educação não intensificam a chuva, não estupram homem ou mulher nenhuma. Agora, a falta de educação, a indiferença, o orgulho, a empáfia, o engradecimento, a soberba, a falta de escrúpulo, a ganância e a ignorância, sim; seus estúpidos! Animais famintos pelo dinheiro; possuidores de olhos na cara que não enxergam com os olhos da alma!"

E foram, tanto ele, como Vacante procurar abrigo na loca debaixo da ponte. Entraram de gatinhas no local barulhento. Recebidos pela mesa posta, dois pães velhos e embolorados deram-lhes boas vindas. Cada visitante puxou um para seu prato. Nem precisou de talheres, comeram com as mãos. Diferente da metereologia que comete lá seus erros, o ambiente era desrespeitoso com o diálogo dos civilizados que bebericavam muitos happy hours nas redondezas; e como molambos velhos, chegavam tombar para os cantos.

À noite, a barulhada danada de chuva se juntou ao local, mas ficou nisto. Os trovões e relâmpagos diabólicos foram dormir com o boa noite do Bicho; menos os desrespeitosos e intensos ruídos do local, que atrapalhavam e importunavam a boa noite de sono dos bichos: do bicho, bicho e do Bicho político/racional. Os residentes fixos do local não admitiam e pelo rodar da carruagem, manterão a palavra de não admitir, uma ou muitas boas-noites de sono de intrusos! Por isto, teriam que pular fora antes do silêncio do romper a aurora.

Não demorou muito desde que trocaram a última palavra antes de dormir e de um salto desengonçado, Vacante pulou dos aposentos e caiu na aragem. Estava atrasado para a viagem à floresta, acontecimento que ficara sabendo pela boca do Bicho. Teria que chegar cedo para pegar o ingresso que o credenciava a participar do simpósio: "Final da Empatia e o início do estupro coletivo".

O Bicho era um bicho comum, daqueles que dizem ser de carne fraca, que com o tempo, além de ficar lânguida, perece que nem os urubus comem e se prestar para alguma coisa, deve ser para alimentar os vermes; racionalidade enrubescida; animal político motivado pela corrupção social e familiar; emotivo, mas de emoções e sentimentos embrutecidos, motivados pelas ofertas cotidianas; e quase um invertebrado de ossos quebradiços, alterou o semblante, mudou da água para o vinho, ou melhor, do dia para noite, seus óculos cegaram, os neurônios faiscaram, seus olhos saltaram da órbita, suas pernas bambearam quando remexendo as quinquilharias que depositam nas esquinas das ruas, encontrou uma folha intacta que sobrevivera aos ataques e derrames de lixo, escrita sobre o resumo do livro "Ensaio à Cegueira", do português, prêmio Nobel de Literatura, José Saramago. Após lê-lo, nunca mais voltou ao normal. Foi a redenção às avessas ao que prega o conteúdo do livro; e atualmente, vaga cegamente tateando os paredões separatistas do mundo. Ou melhor, sem tapa-olhos e menos ainda colírio, como fizera com Vacante, esclarecendo todo mundo a olhos vistos. Pois segundo professado pelo Bicho, é dever de quem vê, de quem enxerga a plenitude, acender a lâmpada, clarear a mente dos obtusos. O obscurantismo e a infertilidade do solo matam a safra; por outro lado, faz proliferar os carunchos dos grãos de safras passadas. A última coisa que o Bicho quer para si e para a coletividade, é o plantio da cegueira, a inundação do terror no mundo. Indubitavelmente, qualquer tipo de Cegueira é terror, estupro coletivo. Vil; ignóbil!

Leia um pedaço da carta, a qual a professora Teresa Cristina Cerdeira da Silva explica que: "... esse Ensaio sobre a cegueira pode ser lido inversamente como um ensaio sobre a visão. Esses cegos chegaram ao fundo do poço de onde puderam ver surgir suas fraquezas, sua arrogância, sua intolerância, sua impaciência, sua violência, a monstruosidade dos universos concentracionários. Mas assistiram também à sua própria força, à sua solidariedade, à sua generosidade, ao seu espírito revolucionário e à revisão de seus próprios preconceitos. Este, repito, é um ensaio sobre a visão: do outro, das relações humanas, das linguagens e seus clichês, da verdade, do poder e até dos gêneros literários nesse romance que, como se sabe, se quer ensaio. Porque este não é tão-somente um romance cujo assunto é a cegueira, mas também um ensaio entendido como experiência, experimentação que revele a possibilidade de enxergar para além das aparências, para além dos seus próprios limites convencionais." (SILVA, 1999: 294)

Recompensando o refinado interesse do leitor pela leitura, vou repassar mais um trecho da carta, esse escrito por WALTER PRAXEDES; Docente na Universidade Estadual de Maringá.

O egoísmo como cegueira é novamente mencionado quando o transeunte que ajuda o primeiro cego a voltar para casa aproveita-se da ocasião para roubar-lhe o automóvel. Mas o narrador não realiza um julgamento apressado da atitude do ladrão, e considera-o um "...simples ladrãozeco de automóveis sem esperança de avanço na carreira, explorado pelos verdadeiros donos do negócio, que esses é que se vão aproveitando das necessidades de quem é pobre" (EC: 25). Pelo visto, o narrador relativiza a importância do crime do roubo para colocar em evidência o seu julgamento sobre os motivos que levam os indivíduos a buscarem os seus interesses por meios escusos: "...No fim das contas, estas ou outras, não é assim tão grande a diferença entre ajudar um cego para depois o roubar e cuidar de uma velhice caduca e tatibitate com o olho posto na herança" (EC: 25).

Doutos, Mestres e Doutores que nada ensinam, que nada dizem, que nada veem, as salas das Universidades da vida estão cheias! Não obstante, para não dizer que a sensibilidade dos cuitelinhos sugando o néctar das flores não existem, um seriado nominado trilogia do "C": Ciência e Comprometimento completaria o ensaio da Cegueira; levando é claro, à claridade. Deve haver um apagador que acenda as luzes em alguma parte do mundo.

Agradeço aos que leram o Ensaio à cegueira às avessas do Bicho. O resto da carta, descubra o leitor, nele mesmo. "Conheça-te, a ti mesmo". Acredito na sua boa visão, leitor e irmão. Sorte grande, paz, mais lamparina e candeeiros; desejo do Bicho, não aos que leram, mas aos seres que habitam o planeta/mundo!

P.S.: escrevi o texto com o dedo no gatilho de um rifle, cuspindo palavras e suspirando emoção. O Ser deixou de ser Humano e não perdoam, pelo contrário, estupram a seco os seus irmãos. Culpa da cegueira? Digo cegueira nas regiões da fome no Brasil, na USP... nem vou citar a cegueira que está acontecendo na Síria!

O texto é expressivamente verdade. Sedendo, clamando por Amor ágape e ecumênico, às vezes saio pelas ruas e faço exatamente o lido. A experiência descrita, por exemplo, foi quando alternava entre um esporte e outro na USP (Universidade de São Paulo)

usp.jpeg Aproveito o ensejo, deixo o link sobre a cegueira que está acontecendo na faculdade de Medicina da respectiva instituição:

http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2017/04/1874794-medicina-da-usp-se-mobiliza-apos-tentativas-de-suicidio.shtml. Imagem pertencente à autora da matéria.

Sobre a cegueira da fome no Brasil, leiam o que escreveu o amigo de escrita de outro canal: Rangel Alves da Costa.

Palavra Solta – a Semana Santa e o prato de muito sertanejo

"Marizane Silva, Secretaria de Ação Social da Prefeitura Municipal de Poço Redondo, recentemente me relatou um quadro verdadeiramente assustador. Segundo a secretária, já estão confirmadas e cadastradas quase cinco mil famílias em estado de absoluta carência, no patamar da miséria absoluta, ainda que muitas destas recebam verbas provenientes do Bolsa Família. Tais verbas, no entanto, não suprem sequer metade dos gastos essenciais, tais como alimentação, remédios, aluguéis e outras despesas emergenciais. Disse-me a secretária que em diversas ocasiões, ante a gravidade da situação de famílias passando fome e todos os tipos de necessidades, não há sequer como esperar, a não ser priorizar o atendimento a estas pessoas e minorar seus estados de sofrimento. Garantiu-me ainda que a Secretaria de Ação Social está se esforçando o máximo para que o município de Poço Redondo não desampare os seus em quaisquer situações de comprovadas necessidades. De minha parte, acrescentei dizendo que é por isso mesmo que o Memorial Alcino Alves Costa promove a cada Semana Santa a distribuição de cestas de alimentos. Ainda que poucas, mesmo assim colocam na mesa, durante um ou dois dias, o alimento tanto desejado pela população mais carente. Então todos estão convidados a também ajudar o Memorial a colocar na mesa do pobre um pouco de alimento. Faça sua doação de alimentos não perecíveis no Memorial Alcino Alves Costa."

Comentei: "Venerável sua atitude. Aproveitando o espaço que te pertence e intrusamente estou dando pitaco, convido você e os demais leitores à investirem no voluntariado descomprometido. Altruísmo nunca é demais: não avolumam os escrotos e muito menos, dilatam vaginas. Por que político cê sabe como é... além de fazer milagre com o chapéu da taxação de impostos altíssimos, que aliás saem de nossos suores, cadastram o endereço do pedinte e depois batem à porta do fulano, pedindo o troco. Valeu... faço parte de grupos de voluntários desde os 20 anos, hoje estou com 151 e não me arrependo, jamais, das horas disponibilizadas para tal finalidade. E saibam todos, que não é uma, duas... ou cem horas.

E não foram apenas senhoras assistidas, se é que me entendi. Foram idosos, crianças, gestantes, paraplégicos, cães, pássaros e tudo que aparecia nas instituições filantrópicas, a qual era fiel depositário de minhas forças e visão, ou contra as injustiças que minhas vistas viam e veem no dia a dia. Trabalho intenso com os olhos, mente, com os pés e mãos, energia, força física, entrega; isto é transformação do amor em atuação aos necessitados, tanto fisicamente quanto, emocionalmente. O auxílio amoroso não escolhe a doença. A conjugação do verbo praticar o Amor em primeira pessoa do modo indicativo, do modo construtivo, do modo operoso, é ou deveria ser, inerente ao Homem. Eu amo, tua amas, ele ama... sem amarras, sem alarde, sem distinção de raça e sexo, sem fisionomia, sem status social, sem diferença de cor da gravata, sem fronteiras, sem religião."


Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as minhas retinas nuas na réstia dos raios sol que chocam-se contra a alvura da neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, crio asas, imito os pássaros, tento entender por quem os sinos dobram; por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante. Escrever é disseminar intimidades, é praticar a solidariedade, sentir-se útil. Altruísmo em essência: expressão de um coração silente.
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