ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusto com o sombrio, queimo as retinas na réstia do sol na neve, reflito sobre os porquês dos ecos, por fim, junto as letras na escrita para salvar a queda de seu mutável e incomodado teto

A filosofia nicotinada da bituca de cigarro

…o maldito Filósofo é o núncio de uma sociedade alienada que se recusa à ouvi-lo. Portanto, impede-o de anunciar certas verdades intoleráveis. O que é compreensível e também puderas, a nicotina das guimbas de cigarro são armas brancas que dilaceram, cortam, ferem, sangram, enfumaçam, agonizam os pulmões, mas não matam cristão e fumante nenhum.



"Mergulho de cabeça em mim mesmo, flutuo pela devassidão de minha essência, porque em qualquer outra, além de não me pertencer, é mero artificialismo que para o Eu introspectivo de propósitos e conceitos, nada lhe é útil."

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E seguia imperativo em seus pesadelos: "torno-me filósofo, confabulo com as estrelas, derreto minhas emoções feito cera fria exposta ao sol do deserto, cuspo no saco do Sacristão pedinte, dou nós em minhas retinas ao olhar fixo no centro de uma mandala, esconjuro os políticos e escrevo tais coisas quando sou tomado pela ira mundana, quando me sinto inserido na miséria da mesmice, quando meus sentidos morrem num defunto mesquinho arrastado pelo cortejo desumano em direção ao cemitério da igualdade; mas por mais que incisivas, agudas, avariadas, não supera o que disse Alexander Pope: "Sentir raiva é vingar-se das falhas dos outros em si próprio".

Bela. Deveras, uma bela mulher. Letrada. Presunçosamente, da cabeça aos pés era inundada de predicados. Com grandes dotes à conquista, sentia-se realizada de ser formada em dormitórios, os quais propiciou-lhe as mais belas poesias, muitos pares de sapatos, guarda-roupas abarrotados, perfumes importados e variadas conquistas que uma donzela não deflorada, pode almejar.

Nos espaços em que adentrava, tapetes vermelhos corriam em disparada para acariciar o deslizante desfile de seus pés. Velas bruxuleavam à meia luz. Vitrais mudavam de cor e o teto abobadado resplandecia ao vê-la apossar de olhos inebriados. Olhos que rodopiavam dentro das órbitas, procurando decifrar os mistérios contidos naquele requebrado, híbrido de esbelta sensualidade e avario feminino. Não havia cama masculina que não a desejasse. Aplausos; assovios; aplausos. E por onde passava, deixava o perfume da conquista. Liberava o hormônio do desejo. Indubitavelmente, ser benquista, a realizava e compensava os olhados sexuados, com um sorriso dissimulado. Toda modelo com um perfil como o dela, tem um quê de vagabunda não declarado no semblante. Perfis e latências desfilam na mesma passarela, pisam sobre o mesmo tapete, porém em sentidos opostos.

- Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusta-me o sombrio, queimo as retinas na réstia do sol na neve, reflito sobre os porquês dos ecos, fumo uma bituca de cigarro, tento entender por quem os sinos dobram, por fim, junto as letras na escrita para salvar, evitar a queda do mutável e incomodado teto da residência de meu semelhante.

Com seus fiéis escudeiros, um fone de ouvido e um cobertor esfarrapado achados nos monturos, o Filósofo seguia perdido pela vastidão das estradas. Maltrapilhos são cosmopolitas e o horizonte lá no fim de mundo não lhe metia medo. Ia sem destino, porém com a cachola abarrotada de propósitos e enquanto nas os realizava, a música o entretinha. Nada a fazer é quase o mesmo de nada ter a fazer, motivo de andar à toa, para não ficar atoa. Ao notar o alarido descomunal no entorno por onde passava, mudou o percurso e entendeu por bem fazer uma visita inesperada ao local. Diminuiu o volume da música que entupia seus ouvidos de coisas ultrapassadamente conhecidas de outrora; pois, para os maltrapilhos que perambulam pelas estradas, falar bem ou mal da vida do povo, não é nada de velho ou de novo. Os ponteiros dos relógios assinalam os tempos, mas os costumes, hábitos e vivências do povo são todos iguais. Exatamente iguais e desrespeitosos com a evolução que pregam, fazem e procedem exatamente como a maneira que mais lhe agradam.

"Baby

Dê-me seu dinheiro que eu quero viver / Dê-me seu relógio que eu quero saber / Quanto tempo falta para lhe esquecer

Quanto vale um homem para amar você / Minha profissão é suja e vulgar / Quero um pagamento para me deitar

Junto com você estrangular meu riso / Dê-me seu amor que dele não preciso"

Expulso pelos seguranças, pois não havia sido convidado para o evento, do lado de fora, um mendigo bisbilhotava pela greta o desfile. Jamais passara pela sua cabeça coisa tão bela e ao mesmo, esquisita; afinal, quem propôs ao mundo tanta desigualdade: de um lado, um maltrapilho condenado à fome e do outro, alguém fadado ao elogios obsequiosos da plateia. E enquanto um nunca houvera degustado palavras de apreço; o outro, nunca soubera o que é desonra. O infeliz pensava que ele e a Modelo eram peixes de mesma espécie, um nadando em remansos calmos e plácidos, e o outro em mares tormentos e revoltos, no mesmo aquário.

- Não me permito a hipocrisia, desonestidade, a falta de honradez e seriedade. Definitivamente, não existo no presente. Sem contar que quando havia um pingo de esperança escorrendo nos fios de cabelos longos dos esperançosos, nunca acreditei, agora de cabeças raspadas, absolutamente carecas, afirmo plenamente: o futuro é como as estradas que caminham incertas; sobretudo, uma segue por aqui, outra tafuia por lá, mais outra que não sabe aonde vai dar! E ainda tem aquelas que ao se enrolar em seus caracóis antinaturais, saem pela tangente. Essas são as piores, pois, beijam os abismos.

Separadas por espessas portas trancadas e grossas paredes feito um bunker alemão, duas realidades se deparavam: dentro, a realização e conquista de poder e ser o que quisesse ser; fora, a perda dos sentidos pela desilusão imposta pelo destino. Obras do acaso? E enquanto um indagava o sombrio sobre os porquês, possibilidades e merecimento; o outro atirava pétalas de rosas à lua.

Lá dentro, seguia o desfile. O jurado cabisbaixo. Mentes absortas, compenetradas repensando as cenas. Apreensão na plateia; em contrapartida, a elegância da beldade pousava silente para as fotos. E como esperado , o resultado se repetiu. Chamada a discursar, subiu ao palco e regozijou: "existem muitas formas de uma pessoa tentar se engrandecer. Uma delas é divulgando as realizações. A outra é desmerecendo quem realiza. Pessoas que normalmente se incomodam com os feitos alheios estão sentindo falta de realizar. Realize e vocês se sentirão mais em paz com vocês mesmas e o que os outros escrevem, desfilam, aparentam, divulgam ou deixam de divulgar, não parecerá tão importante.

Suas palavras atingiram o mendigo como uma morsa apertando o objeto, como uma flecha que acerta o combatente de frente numa emboscada. Notara que aquelas palavras furaram-lhe as vistas, cegara-lhe as emoções, mas não cegara-lhe a razão. A cerimônia chegava ao fim. Em fila indiana, a ganhadora do concurso adentra a limousine. Convidados assoviam. Saraivadas de aplausos.

- "Mulher: a mais nua das carnes vivas é aquela cujo brilho é o mais suave." Isso foi dito por Antoine de Saint-Exupéry, mas andando pelo mundo, fui e voltei, dormi em bancos de praças, passei por lugares infindos, duelei com leões invisíveis, atravessei vaus perigosos, ataquei os inimigos, dei voltas fugindo de emboscadas e contei nos dedos da mão esquerda, foi uma ou outra mulher que encontrei, cujo brilho não reluzia mais que os raios de sol. O que era mais subjetivo aos seus olhos e narinas, o sentimento de liberdade, a vaidade dos narcisos, a cultivação da pobreza, a suavidade feminina ou o perfume das flores? Explique-me, por favor, Antoine!

Espreitando o movimento, agora no espaço republicano e pertence à todos, liberto para o ir e vir, o mendigo dispara sua razão, até pouco tempo antes difamada, contra a emoção declarada: "Parabéns donzela! A realização íntima é a auto estima do ego; e o seu deve estar reinando solene nas alturas. Ao voltar à Terra, onde ele pousar, a humildade bate asas. Safa-se, pois, perante as conquistas e realizações, como foi vosso discuso permeado pelas entrelinhas do separatismos, os contrários, se repelem. No entanto, sem se declarar realizada, a morte recolhe em seu lar fedido a porcos ou adornando com flores perfumadas, tanto a realização, quanto o realizador. Quando estivermos lá, terei a oportunidade de cumprimentá-la pessoalmente por essa data especial. Só pode superior, quem presta-se às passarelas da superioridade; contrário, inversamente proporcional, só pode ser humildade, que deriva dos perigos impostos pelo destino. Estou de partida para nunca mais; mas antes, parabéns novamente; e em nome da humildade combatendo o ego... fui! Tchau ego das passarelas!

"Baby

Nossa relação acaba-se assim / Como um caramelo que chegasse ao fim / Na boca vermelha de uma dama louca

Pague meu dinheiro e vista sua roupa / Deixe a porta aberta quando for saindo / Você vai chorando e eu fico sorrindo

Conte pras amigas que tudo foi mal / Nada me preocupa de um marginal"

Deu meia dúzia de passou e estacou repentinamente. Uma flor da espécie heliotropia mirava detidamente o sol. Tentou recordar seu nome, mas nada o fazia voltar a realidade: estava tomando pela sensação transcendente de estar; mas onde? Colheu um maço de flores e exatamente no momento que ia jogá-lo para o ar, algo o repreendeu: "acima da poesia, está a racionalidade filosófica, como poucos filosofam o desatino, vem e vão, padecem pelo mundo sem tino. Ponteiros que correm; viver em vão. Mas o que seria da alma sem poesia, música, mendicância, filosofia?

A resposta lhe veio de imediato e não poderia ser outra, senão, estar a só, estando com todos; realizando o irrealizável; conquistando, sem se deixar conquistar; amando sem ser amado, em qualquer lugar. Definitivamente, enquanto a morte não o separa, ele de seu Eu perispiritual, nunca mais foi visto naquelas paragens. Porém, está na estrada. Segue seu caminho cantarolando Zé Ramalho e nos momentos vagos, entre uma divagada e outra, astutamente, lança indigeríveis pétalas de flores aos porcos.

"Baby

Nossa relação acaba-se assim / Como um caramelo que chegasse ao fim / Na boca vermelha de uma dama louca

Pague meu dinheiro e vista sua roupa / Deixe a porta aberta quando for saindo / Você vai chorando e eu fico sorrindo

Conte pras amigas que tudo foi mal / Nada me preocupa de um marginal"

Assim que terminou a música, sentido profunda leveza interior, arriou as tralhas, sentou-se no meio da calçada atrapalhando os trança pés dos transeuntes e suspirou esse pensamento numa folha de papel que lhe servia de amiga e nunca, jamais dissera não para os seus anseios: "Toda Modelo, toda madame, toda mulher possui um segredo deflorado ou não, um segredo deflorado ou não, toda Modelo, toda madame, toda mulher possui. Joia guardada em um porta joia e pelo menos para um vagabundo como eu, jamais será revelada. Ofertada. Contento-me com os desígnios, sob os quais tenho que trafegar; sobretudo porque Deus não é humano de carne e ossos, motivo de ainda apreciar e abrir as portas para os andantes e pobres desvalidos de realização; pois, esses não usam máscaras e maquiagens em seus rostos ensandecidos pela honesta vergonha!

Como nem todo conto fantástico acaba em mar de rosas, termina aos ósculos e amplexos, finda com os aplausos dos convivas ao ver o casal saindo para lua de mel, o andante estava ofegante pela estafante caminhada carregada de suor e latas com o fundo empretecidas pelas chamas dos fogões à lenha improvisado. Respirou fundo, tomou fôlego e finalizou o delírio:

- Minha escrita respira a plenos pulmões, possui alma, vida própria e não descarto sua leitura por algum leitor; porém, alerto que não me responsabilizo sobre a apreciação conceitual do que for lido, afinal de contas, a loucura, a psicopatia e a revolta interior não se manifestam pelos gritos insolentes das palavras. Torno-me filósofo, confabulo com as estrelas, derreto minhas emoções feito cera fria exposta ao sol do deserto, cuspo no saco do Sacristão pedinte, dou nós em minhas retinas ao olhar fixo no centro de uma mandala, esconjuro os políticos e escrevo tais coisas quando sou tomado pela ira mundana, quando me sinto inserido na miséria da mesmice, quando meus sentidos morrem num defunto mesquinho arrastado pelo cortejo desumano em direção ao cemitério da igualdade; mas por mais que incisivas, agudas, avariada, não supera o que disse Alexander Pope: "Sentir raiva é vingar-se das falhas dos outros em si próprio".

Pode ser o que for, mas o Filósofo das ruas nunca deixou que sua filosofia morresse à míngua pelas metades. E sobre as ocorrências daquele dia, nada mais deveria ser acrescentada, enfim, era noite e ele corria contra os ponteiros dos relógios para arrumar um lugar para dormir; pois, onde estava não havia viadutos, rodoviária, pontes elevadas e cabanas cobertas com lona rota disponível para recolher-se; abrigos que humildemente ele chama de minha casa, minha vida; meus aposentos itinerantes.

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P.S.: contrário do enredo do filme "A Dama e o Vagabundo", entre os opostos, existe um abismo enorme e profundo que só pode ser transposto pela fantasia e sonhos.


Profeta do Arauto

Leio livros, ouço música, indiferença observo, assusto com o sombrio, queimo as retinas na réstia do sol na neve, reflito sobre os porquês dos ecos, por fim, junto as letras na escrita para salvar a queda de seu mutável e incomodado teto.
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