ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Desce mais uma dose de Blues brasileiro, por favor!

Apenas uma? Que nada bluseiro, solicitamente, vou descer quatro doses exageradamente etílicas para sua escolha e prazer. Como peru bêbado em véspera de natal, quero ver você fazer o 4 com as pernas e em transe absoluto, rodopiar sua alucinação em cima dos calcanhares. Deguste, saboreie, tome um porre, caia com a taça e tudo, pelo chão; afinal, nunca é tarde para embriagar-se com o melhor do Blues feito em terras indígenas e o mais sublime, as obras não fica(va)m devendo nada para os trabalhos dos americanos, considerados mestres do gênero.


Final de século e por aqui nada da cultura musical tomar os licores da renovação. Nada de uma pequena, ínfima dose produzida com a amarula tipicamente brasileira. Nada de nada para ofertar aos levantadores de taça; e tudo que se ouvia, resumia-se ao hard rock do Purple e outras, ao depressivo pop/rock nacional; à MPB que relutava em não morrer à míngua, e para manter-se falante nas caixas, respirava por aparelhos. E uma vez que a dose do Clássico foi sempre mirrada, regrada, um "suja fundo de copo"; a menor das menores, a Bossa; o sertanejo, através do veneno de Tião Carreiro e Pardinho agonizava as últimas notas do pagode de viola; o Jazz perdera o esganiçado do sax e o clássico Rock progressivo morriam, jaziam nos mesmos cemitérios da Saudade e nem a centelha da nostalgia ressuscitavam-os. Enquanto alguns ritmos sem ritmo subiam, musicalmente, o Brasil descia a ladeira a galope.

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Por tudo isso, o universo musical brasileiro prenunciava o caos sombrio no século vindouro. Porém, para quem não aceita de braços cruzados, não fica sentado contando estrelas, não aceita passivamente a passagem da carruagem, devia os sedentos por música de qualidade acreditar nisso? Será que não havia ninguém que pudesse quebrar com esse paradigma obscuro na música? Para isto, não estaria faltando algum gênero derradeiro para se sucumbir o fim, com os demais estilos?

Blues! Óbvio que estava faltando o Blues. Todos os outros gêneros haviam passado por aqui, menos o Blues. E de onde veio esse estilo musical? De onde veio não é tão interessante, quanto fazer um Blues, para um povo blue, a cor púrpura da boa música.

Sabemos que genuinamente, separado pela pureza, sem a pulverulência dos estrangeirismos, o Brasil não produziu um só estilo de música; em contrapartida, como em outros, nesse estilo, tivemos músicos tão célebres e bons, quanto os seus professores. Dentre eles, destacam-se Nuno Mindelis, André Christovam; a banda Baseado em Blues e Blues Etílicos, a banda do gaitista Flávio Guimarães.

Ligados aos movimentos culturais estudantis nas principais Universidades do país, (estudantes da USP Ribeirão Preto foram os que mais deram condição e prestígio ao estilo, motivo da maioria dos festivais terem sidos na cidade do interior paulista) de sempre em sempre espocavam uma novidade aqui outra ali. E se voltássemos a presenciar o que foi o movimento, dispensariam maiores firulas de palavras e apresentações, mas como décadas e mais décadas passaram e nada, faz-se necessário retomar, reviver parte da jornada desses cavaleiros inglórios, retomar as cavalgadas obscuras desses paladins em terras insólitas. Então, servindo-me de garçom, desço quatro doses da melhor destilação do Blues brasileiro e sirvo-as de bandeja para quem do Blues, é blue.

Inspirado na música de Freddy King, o álbum San ho Zay do Blues Etílicos é o píncaro máximo do Blues brasileiro. Segundo as estatísticas, esse álbum ultrapassou a marca de 34 mil cópias vendidas nos anos de lançamento e ainda segue sendo comercializado, feito inédito no Brasil; e não menos no mundo.

Blues Etílicos:

Contradizendo os menos esclarecidos, aqueles que aceitam de bom grado as falácias dos charlatões midiáticos, essa banda vem do Rio de janeiro, a cidade "maravilhosa" que o mundo conhece como o paraíso do samba. É formada por quatro extraordinários músicos; daqueles catados em peneira de malha zero, pois para um país onde ninguém se arriscava produzir um musical Blues, os cariocas eram o supra-sumo e se adaptaram, se encaixaram geometricamente bem no estilo. Diamantes lapidados que irradiam os prismas luminosos da música alternativa.

Atravessando décadas de existência, a banda lançou uma profusão de discos. Gravou e abriu shows dos mentores do estilo; dentre eles, honradamente, estendeu tapetes vermelhos para a passagem de B. B. King, Buddy Guy, fez sala e acendeu velas para iluminar a guitarra de Robert Cray, Sugar Blue, Ike Turner, Magic Slim e muitas outras "feras" das guitarras distorcidas e gaitas harmônicas.

O vocalista norte americano Greg Wilson adaptado às praias do Rio, as cores das matas brasileiras e ao idioma, dá um toque de autenticidade e originalidade americana, interpretando as letras nos dois idiomas; porém, primando pelo português. Flávio Guimarães, por sua vez, é o devorador de gaita. Entra em cenário rompendo com tudo, trincando as estruturas e para aliviar a garganta de Greg, faz a segunda voz. A guitarra slide de Otávio Rocha remetem às notas e acordes ao característico estilo, seja acompanhando ou sozinho, os solos são eletrizantes. Endemoniado e acrobata, deitava no chão e tocava o instrumento como os pés e mãos. Animalesco, realizava proezas jamais vista com a guitarra.

Cláudio Bedran enerva a ferocidade do baixo e na cozinha, Pedro Strasser serve a mesa com os pratos, pisa forte nos pedais acelerando-os nas batidas dos bumbos, destrói as baquetas que fazem o papel de garfos e como não bastasse, regula as sonoridades com um groove suingado e sólido. Pela completude e os muitos anos de estrada, a banda tem a competência de alentar os tímpanos e o dom de agradar os mais diversos públicos. Seus quase 30 anos de aventura no mundo do Blues comprovam isso e o público cativo agradece de pé.

Como disse uma amiga que não conhecia o som da banda e ao vê-la e ouvi-la tocando ao vivo no Centro Cultural São Paulo, pontuou eletrizada: "essa "porra" de som que eu desconhecia, esse Blues feito por eles, é melhor que um coito elétrico". E foram palmas, palmas e mais palmas, tanto para o palavrão que escapou-lhe da alma, quanto para a banda. "Não é em todo momento que o êxtase musical me penetra as entranhas; por isso, tenho mais que desprender-me do verbo que prende-me às mesmices musicais. Por que não conheci antes essa "fodeção" musical à mais tempo!"

Álbum Mandinga, uma mandinga das boas em se tratando de Blues. Para ouvi-la, basta chamar o pai de santo André, posicionar cursor sobre cursor e feliz da vida, acionar o devaneio bluseiro. Um disco memorável em todos os aspectos.

André Christovam:

André pode ser considerado a pedra preciosa que ficou presa na peneira do garimpador; e após percorrer mundos distantes, retorna às origens. Ainda pairando, oscilando entre um estilo e outro, experimentou a levada do rock com Raul Seixas, Golpe de Estado, Rita Lee, Marcelo Nova e outros; mas estava inclinado, sua guitarra tendia, prestava menção honrosa mesmo era para o Blues.

No final dos idos de 1980 lança o disco "Mandinga" pela gravadora Eldorado, ligada à rádio paulistana de mesmo nome e ambas pertencentes ao Jornal Estado de São Paulo, que à época investiu bastante na música qualificadamente alternativa. O álbum é inédito sob vários aspectos, principalmente, no que tange as letras em português, provavelmente, o único "genuinamente" na discografia brasileira. Esse trabalho incipiente de André foi excelentemente aceito pela crítica e público especializado no estilo.

Atravessando uma ponte por longos e invernosos 7 anos, em 1997 dá um basta ao hiato solitário e lança o disco Catharsis. Nesse, quebra com o paradigma do anterior e ainda que muitas delas sejam instrumentais, o título de todas as faixas são em inglês. Todavia, indiferente a procedência dos títulos das faixas, os arranjos, harmonias e acordes são de primeira linha. Merecidamente, foi tido como obra prima e esteve presente nas prateleiras de lojas especializadas e sofisticadas de discos de Blues do país por muito tempo. Atualmente, uma cópia do original, somente nas mãos de colecionadores.

Nuno Mindelis:

Brasileiro da gema? Sim, mas por amor, acolhimento e apreço pelo país. Dando a verdade como supremacia, Nuno nasceu em Cabinda, Angola. A família navegou os mares em busca da Índia e por falta de observância correta das cartas, veio parar aqui e para sorte dos brasileiros e felicidade de Nuno, nunca mais saíram. Em se tratando de guitarra bluseira, a formação de Nuno é invejável e aos cinco anos, já esmerilhava, corria os dedos sobre as cordas. Apaixonado pelo instrumento, mais tarde, por volta de meados de 1970, foi morar no Canadá e lá, montou uma banda. Seu amor pelo blues foi o primeiro, único e nunca mais parou de investir no estilo.

Rodado, com algumas horas de voo e bebericar em muitas taças em noites vagas, provar do sabor amargo do desejo, dizer sim para os acordes solitários de sua guitarra em bancos de praças ermas, a conquista veio em 1998, quando a "Guitar Player" promoveu o segundo o concurso mundial de aniversário de 30 anos da revista e o condecorou como o melhor guitarrista de blues do mundo. Há muito mais o que escrever sobre o bluseiro, mas ser o melhor do mundo por uma revista especializada, é tudo; e dispensa maiores apresentações do bluseiro, portanto, recado dado e ponto final.

Baseado em Blues:

Com Sérgio Rocha na guitarra; Pedro Augusto nos teclados; Fabio Mesquita no baixo e Marco BZ na bateria; a banda começou tocando em casas e bares noturnos. Com muitas doses de blues no copo e poucas pretensões na mente, o grupo fez alguns shows no Circo Voador, espaço cultural que abrigou debaixo de sua tenda Tim Maia e muitos outros. Excurcionaram pelo Brasil interpretando velhos e conhecidos bluseiros americanos e quando tudo parecia que ficaria nisso, eis que são encaminhados ao estúdio para a gravação do disco "Madrugada Blues". Fora "Velha Roupa Colorida", música do nosso mago Belchior e imortalizada na voz de Elis Regina, as demais composições levam a assinatura dos integrantes da banda.

Respeitando os bluseiros brasileiros e a seriedade com que fizeram do estilo um dos portais da música brasileira, Blues Etílicos é disparadamente a banda que melhor representa o Blues no país. Contudo, diante de tantas adversidades, resistência das gravadoras, desconhecimento e indiferença do povo brasileiro, todos aqueles que se meteram, se doaram à prática e feitura do estilo merecem ser aplaudidos, merecem doses e mais doses do veneno do Blues; pois como sabemos, os brasileiros são resistentes, ouvidos tapados, olhos furados, provincianos para as novidades. E a prova é que, por um motivo ou outro, a safra de bluseiros está em ciclo terminal e ninguém, nem meia dúzia de músicos se atreveu a dar continuidade ao que foi feito pelos paladins do Blues.

Letra "Espelho cristalino" interpretada numa abordagem incidental. Se com Alceu Valença, o autor da obra, a versão já era psicodélica e "chorava as penas da beija flor derretidas no asfalto", com os arranjos para um musical Blues, com a gaita arrastada, implorando aos violões uma levada acelerada de ritmo, ficou ainda mais fora de propósito, irreverente, anormal de padrão, estradeira; porém mantendo o místico e o inobservável por retinas opacas. Ouvi-la, com o Blues Etílicos é como se o estado do Mississippi fugisse na calada da noite dos EUA e viesse refugiar no Brasil.

Outro que gravou essa letra foi Zé Ramalho e estranhamente, na sua voz, o título é: "Adeus segunda-feira cinzenta". Havia tanta magia na mente desses figurões, que nem eles explicam o que se passava no momento de transe, o qual se submetiam ao escrever as letras; no entanto, comungavam da mesma espiritualidade devaneadora e por isto, dividiam as dádivas sonoras entre si. Shakespeare estava certo ao dizer que há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar as vãs filosofias. Imaginar é o mesmo que dar vazão ao vento que está em toda parte e não está em parte alguma. Deveras, a subjetividade do vazio, o eco dos gases se propagando pelo vácuo, existem e valem a interação musical do espiritualmente místico.

Enquanto um ou outro se propõe a respirar a liberdade de fazer o que se quer e almeja, o restante se sucumbe, se mata, guerreia pelo dinheiro. Portanto, assim que o pessoal do Blues Etílicos disser adeus aos palcos, muito provavelmente, será a falência do Blues; exatamente como faliu a Bossa, o Jazz, o quase nada de rock, o fiasco do punk, a MPB...; faltou mais algum estilo? E existe mais algum em terras indígenas? Sim, claro, a pirataria e o funk! Deveras, deve-se concordar com o músico nordestino Xangai, que disse que "quem nasceu Zé, não morre Jhony não." Trocar o ruim, pelo pior, sempre; faz parte do escopo, é nossa política cultural, está no sangue e já vem incorporado no DNA do brasileiro.

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P.S.: entenda que foram apenas quatro doses de Blues, efeito alcoólico suficiente até que eu sirva novas dosagens. Trago no meu âmago a problemática de embebedar o leitor aos poucos; assim, proporcionalmente, vou apossando de seu coração e gosto pela leitura em doses homeopáticas. Aguarde! Porém, para aqueles apressados que exalam música pelos poros, aqui no portal Obvious tem outros textos excelentes sobre o estilo.


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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