ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Raul Seixas, Jim e Chê são os ícones dos nascidos para serem selvagens

Born to be wild é a energia vital que inspira a sobrevivência dos roqueiros em meio ao caos urbano; a metralhadora que dispara mágoa em forma de reflexão; a trilha sonora dos aventurosos; o som dos revolucionários rebeldes estradeiros. Definitivamente, o filme "Sem destino" e a música "Nascido para ser selvagem" marcaram, carimbaram, chancelaram, lapidaram uma geração de doidões ociosos que pouco se preocupavam com as falácias dos pseudo moralistas; porque a dignidade do trabalho pregada por eles, não os conduziam à lugar nenhum. Em oposição, pelo princípio psicológico do estímulo e resposta, o negócio dessa trupe reacionária cosmopolita era divagar, ora lentamente, ora apressadamente, o total comprometimento pelos seus semelhantes e nada pelo dinheiro e menos ainda pelas guerras.


Contextualização: Diplomas e títulos de nobreza dão status, mas não se usa, não tem utilidade nem em banheiros públicos. Por que? Por que por onde andei e nos banheiros que pedi emprestado para limpar-me das minhas limpas, puras, dançantes, ingênuas e fétidas impurezas derivadas do alto teor de proteínas consumido no dia anterior, nunca cheirei o perfume, nunca vi um, ao menos um diploma, sendo-me útil. Se não vi diplomas, títulos de nobreza, então...; penso que devem estar sentados em tronos de ouro e trancafiados em palácios, cujos portões, são guardados por miríade de súditos e 10 mil potentes trancas e ferrolhos.

raul.jpgA pousada Guartelá está encravada em Castro, Paraná e abriga o museu da memória viva do Raul. Socado em meio à mata verde e belezas naturais inconfundíveis, anualmente o recanto recebe mais de mil motoqueiros/doidões no encontro "Viva Raul vivo: viva!" Foto pertencente ao autor do texto

Viver intensamente o suor da independência, o poder da autonomia e a indescritível liberdade "nossa" de cada dia, que é o maior pecado terreno para a maioria, ou de quase todos os humanos do Planeta, não foi e jamais será para os fracos, acomodados no divã, acorrentados pelas zonas de confortos, depressivos, medrosos e covardes. Infalivelmente, esses atributos formacionais, iniciam pela criação de berço e continuam sendo introjetadas nos filhos em doses homeopáticas pela própria família moderna no decorrer de suas vidas. E quando despertam da cegueira imposta pela tolerância do pseudo bem estar, morrem por causa do medo, falecem por causa da ansiedade sem causa aparente, dizimam-se por causa da indisposição de enfrentar o perigo. Por fim, morrem para o Rock, morrem para o nunca mais, que é o mesmo que morrer de vez para a vida.

O bom e desgastado, mal falado pelas bocas insensatas, embolorado pelo tempo e aprazível Rock, sempre foi o som, o estilo de vida, a música, a sonoridade, a harmonia e companhia dos cabeludos estradeiros. Luz no fim do túnel, fio reto de estrada a perder de vista na retina, o Rock pesado, leve, balada ou Progressivo nos falantes, cheirava estrume. Fazia subir a fumaça de relva e terra molhadas. Levantava e abaixava a poeira. Trocava pneus, fazia os reparos mecânicos, lubrificava os compartimentos e peças das "carangas e motocas." Servindo como bússola e setas, orientava os condutores, qual caminho seguir. Pois, para os roqueiros, a felicidade possui residência e nunca era, como não é, tão distante de onde se está nas estradas do Rock. E é para lá que os doidões reacionários iam e vão; se encontra(va)m para confraternizar o Rock honesto, puro e sem as pulverulências de mídias compradas. Vendidas. Prostituídas.

Disparadamente, em se tratando de música, o Rock sempre foi a expressão máxima da rebeldia e desafiava o Poder, a religião, a sociedade e a família impiedosamente. E sempre que o arredio de princípios, que alguém dotado de descontrole social queria sentir por fora, o mal estar que estava sentindo por dentro, recorria ao musical/Rock para aliviar-se da ira, da neura, dos ataques das mesmices, das paranoias, tanto sociais, quanto familiar. Bastavam os certinhos, moralistas e incomodados das mansões e palacetes imporem leis, regras e procedimentos corretos, que os rebeldes das estradas, contratavam a expedição "Rock insolente", para nela, viajar. E sumiam em devaneios, transcendiam o Cosmo, viajavam entre as perguntas não respondidas e ideologias jamais concretizadas. As estradas, por quais essa trupe trafegava eram sinuosas, perigosas; porém destituídas de desvios. Contraditoriamente às dos comuns e normais, as estradas dos roqueiros eram (são) retilíneas; e em alguns casos, de curto percurso. Pois, como atletas que correm contra os tic-tac, tic-tac dos relógios, preferem viver 10 anos à mil/por hora, do que 100 à dez.

Dos roqueiros estradeiros que apareceram por aqui, na terra que leva o nome do Pau Brasil, talvez o mais conhecido seja o rebelde e reacionário Jim Morrison. Revoltado com o pai que passava dias de calmaria e noites remando contra as tempestades em alto mar, o ladrão de cultura, como ficou conhecido, caiu nas estradas ainda cedo. E é comum vê-lo nos clipes pilotando um carro, fumando desvairadamente e quando não ouvia o desespero poético brotando de seu coração, ouvia um Rock cantado, declamado, chorado, sorrido, gritado pelos lábios de outrem. Se os Roqueiros foram (são) humanos, sabendo exatamente o que elas oferecem, as estradas são altruístas e inspiram os poetas/letristas do Rock.

Chê Guevara não foi músico, bem como não foi cantor, menos ainda intérprete, nunca tocou nada, porém nutria a corrente sanguínea com dosagens maciças de poeira das estradas. Diferente de Jim, que nasceu revoltado e portanto, previra o seu futuro, Chê era um pequeno burguês argentino e tinha tudo a tempo e a hora, desde mesa abarrotada de comida; roupa lavada e engomada no guarda-roupas; energia elétrica que não lhe cobrava valor algum para iluminá-lo; até água em abundância para escovar os dentes, lavar os cabelos, a cara e a bunda; que como qualquer outro humano, conhece a de seu colega, menos a sua.

Ernesto Guevara vivia feliz e acomodado em seu canto, desfrutando de boa vida e bebericando do conhecimento dos livros. Sobretudo, em outros tempos os neologismos eram menos frequentes na boca do povo e embora fizessem uso, ninguém sonhava que um dia pudesse ser um feliz usuário da zona de conforto que o sistema familiar, ou social lhe oferece. Todavia, atualmente, há os revolucionários e revoltados de bracinhos cruzados, os bebezões de plantão que passam horas e horas, dias e dias, meses e meses com os dedos em riste, martelando, esmagando as teclas do computador; contrário desses e dos historiadores que estudam as revoluções no contexto histórico, mas que não revolucionam, não costuram nem a cueca furada que usam, não trocam nem o botijão de gás da casa deles, bem ou mal, Chê fez história nos campos de batalha e praticou a revolução guerrilheira nas trincheiras e estradas.

O médico Chê era roqueiro? Sim. Dos bons, e além de entorpecer-se com o veneno do mais puro Rock, montava em sua moto e viajava pelos recantos mais longínquos da Argentina. E após conhecer o país, começou a viajar pela América. Numa dessas viagens aventurosas, aportou-se na Bolívia e estando faminto, com a barriga varando nas costas, com a pele emoldurando o quadro, cujos ossos da costela se via na pintura da desolação da fome, parou a motoca numa estrada qualquer e pediu comida para uma senhora. Solicitamente, a anfitriã mandou-o sentar, enquanto preparava o arroz destemperado e mal cozido com batatas; prato preferido e quase único dos bolivianos ainda hoje.

E enquanto a caldeirada de comida aguada borbulhava sobre as chamas do fogão à lenha, Chê reparou detidamente o modo de vida daquela família; respirou fundo para inalar o mal cheiro que exalava alegria no sofrimento silencioso nos olhos de três crianças; percebeu que as prateleiras da despensa estavam gordurosas pelas grossas escassezes de alimentos; notou que o banheiro já não tinha utilidade e por isto, recorriam as moitas e touças ressequidas pelo desprezo da Natureza; lamentou o descadeiramento do cão que arrastava a parte traseira no assoalho esperando que a morte desse cabo ao seu sofrimento; remoeu a tristeza ao deparar-se com as paredes e o teto parecidos com fatias de queijo suíço; por fim, Chê comeu com gosto e prazer o prato de comida insosso. E num dizer silencioso que quase escapa-lhe pela boca, sua língua confidenciou aos beiços, que para quem não tem coisa pior nas latas para preparar junto às refeições, a fome é o melhor tempero e a humildade, a melhor mistura.

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Comeu o suficiente, o que comeria um exército. Com aquele apetite todo, concluiu que se a fome tivesse cor, fatalmente seria tingida com a fortaleza e resistência do preto. Terminado o banquete, agradeceu a senhora e ao sair disse para si: "o que presenciei não está previsto no escopo do Rock; não são as ideologias de quem é roqueiro. De agora em diante darei a minha contribuição para mudar o mundo, nem que seja à base do grito, nem que seja à base da força e do armamento; mas alguma tem que ser feita por mim. Quem sou eu para ter tudo de tudo, comer de tudo, do bom e do melhor, estudar nas melhores escolas argentinas e a maioria dos povos não ter nada? Nem o mínimo para sobreviver? Não possuem, não tem uma mísera América latrina para cagar o seus desprazeres de vida? Condolências por esse povo, sim; covardia, comigo não! A partir de agora não sou mais o Chê médico, não sou mais argentino, mas o Chê guerrilheiro, o Chê cosmopolita das causas sociais".

Depois daquela experiência, Chê dispensou a motoca e se isolou no mundo procurando explicação para o visto. Esteve combatendo em nome dos países mais pobres da África. Não obstante, pelas trincheiras por quais passou, foi rodeado de traidores, desviou e caiu em muitas emboscadas, presenciou inúmeras mortes e por fim, acometido por uma asma incontrolável que lhe acompanhava desde criança, tombou me Vallegrande, (salvo engano) cidade que fica em Serra Leona, Bolívia; que por ironia dos deuses da covardia e traição, foi pego numa cilada. Na Bolívia o "Rock" iniciou sua aventura armada e lá mesmo, foi o fim da estrada para Chê; ratificando a tese de que onde toda revolução da vida se inicia, um dia pela morte, há de ter fim. O início escreve o desabrochar da flor, que ao murchar, revelará o fim do dissabor. A vida veio do pó vivo e para pó da morte, voltará.

Steppenwolf. "Lobo da Estepe." Essa é a banda que prefaciou esse estilo de vida, que deu condição dos pássaros sem asas de serem os abutres do asfalto. Sem adentrar aos maiores detalhes da formação inicial, a banda começou a pintar as cores do Rock em seus trabalhos no Canadá, para posteriormente, solidificá-las em Los Angeles, EUA. Brincando de fazer música até então, o guitarrista alemão John Kay tomou a frente do grupo e resolveu profissionalizar a banda. Dos remanescentes, ficaram o baterista Jerry Edmonton e o tecladista Goldy McJohn. Para completar o quinteto, fizeram parte o guitarrista Michael Monarch e o baixista Rushton Moreve. Estava montada a banda que faria do Rock, a inspiração musical para os cabeludos viajar, tanto no som, quanto montados em suas "carangas".

Para a época, pode-se dizer que faziam um Rock pesado, tendendo ao estilo Heavy metal, com as guitarras distorcendo o som em "grunhidos estridentes", acompanhada pelos metais e as batidas fortes de bateria. É tão verdade, que na música "Born to be Wild" aparece a expressão "Heavy Metal Thunder". Outra particularidade a ser destacada, é que devido a energia emanada pelo ritmo eletrizante, o hit musical explodiu nas paradas de sucesso dos States e consequentemente, as vendas acompanharam o sucesso repentino. Todavia, o motivo maior para que a banda atingisse o apogeu nas paradas americanas, foi a participação da música citada na trilha sonora do filme "Easy rider" dirigido pelo diretor e cineasta Dennis Hopper.

motoca2.jpg A organização de motoqueiros, que amavelmente leva o nome de "Os Abutres", bem como outras, são conhecidas pelo epíteto de "anjos do asfalto" por prestar socorro e favores nas estradas e fazer trabalhos de voluntários em instituições filantrópicas. Mexe e vira, com muita festa e rock and roll na veia, sorrisos nos lábios e muita descontração para fazer o bem, invadem as pequenas cidades levando provisão aos asilos, às casas de recuperação de dependentes químicos, ao lar de crianças carentes, etc.

Numa feição mal humorada, de carranca sisuda, pode estar o sorriso oculto da benevolência. Pois, nesse caso, o inteligível não é visto; e o que não visto pelos olhos, não é assimilado pela clareza da mente e transparência do coração.

O enredo do longa metragem mostra uma geração de cabeludos livres de dogmas religiosos e familiares; despreocupada com as responsabilidades impostas pelos relógios de ponto; prega um estilo de vida arbitrário, anarquista e irresponsável em relação às tatuagens de serpentes, borboletas, dragões e duendes; aos piercings e corpos másculos; ironizam a geração dos "bons mocinhos" que arrepiam os cabelos com gel; critica ferrenhamente os costumes impostos pelo estilo padronizador das sociedades. Fundindo rebeldia com liberdade adquirida, tanto o filme, quanto a música foi o manifesto libertário de "dizer não" a cultura vigente; uma espécie de amuleto e hino que faltava para os motoqueiros e motoristas que preza(va)m pelo Rock qualificado. E o deleite de terem os ventos voluptuosos açoitando vossas caras em cima de uma motoca e carros sem capota.

Finalizando esse texto odiável socialmente, os anjos e serpentes passam anos e mais anos bebericando veneno e ácido que lhe são dados no lar, para mais tarde, quando atingir a maioridade, inoculá-los secretamente na sociedade. Família é a mesa posta, o banho de água quente debaixo do chuveiro e a cama forrada com lençóis, cobertores e fronhas cheirosas do parasita. Do ladrão; dos políticos; dos corruptos; dos usurpadores do leite materno; da prostituta; do traficante; do oportunista; do meliante; do mal caráter; dos cínicos; dos caloteiros; dos vagabundos que dormem até meio-dia; dos barganhadores; dos estúpidos; dos asnos; dos cretinos que não saem de Creta e dizem conhecer o mundo; de quem escreveu esse texto sorumbático; menos dos honestos, dos libertinos humildes e dos libertos pela simplicidade. Esses dormem e sobrevivem sob as intempéries do relento.

Deveras, Raul, Jim e Chê são os ícones dos nascidos para serem selvagens das Américas.

P.S.: Esse texto foi inspirado no comentário que recebi de um leitor, o qual relatou que "Nunca acessei o site e nunca li um artigo seu. Eu gosto de Rock, mas por pouca influência familiar, praticamente inexistente, me vi obrigado à me tornar mais influenciado, me fez ser rebelde sem causa, ovelha negra, erva daninha por todos eles e mesmo assim infelizmente tenho pouco conhecimento sobre o Rock em geral, busco sempre conhecimento. Voltando ao começo quando disse que nunca acessei o site e nunca li um artigo seu, que por acaso apareceu como sugestão no navegador, acredito que você ganhou um novo leitor, nunca pensei muito sobre capas, sempre me deixei influenciar pelos outros que sempre dizem que algo deve ser ouvido. Acho que me influenciou a pensar mais por conta própria. Você disse em vários pontos que o Rock não é seu maior conhecimento, me fez pensar que também não precisa ser expert na nobreza do Rock para gostar e ter atitude. Muito obrigado!"

Viver intensamente suor de cada dia, que é o maior pecado terreno para a maioria dos humanos, não foi e jamais será para os fracos, depressivos, medrosos e covardes! Esta foi a catarse proposta pelas várias expressões dos "Nascidos para serem selvagens", que poucos lúcidos, uma ou outra mente indicada a dedo, como o leitor acima, captou o não declarado pelas inúmeras linguagens do Rock. Agora sofrem, respiram por aparelhos, por não terem ouvidos e olhos para o quadro monocrático, sem moldura e nu, pintado à quase 50 anos pelo musical/Rock.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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