ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Um espetáculo musical dedicado aos Canalhas!

O radialista Gil Gomes iniciava e terminava os programas com a frase: "Se você agir com dignidade, poderá não consertar o mundo, mas certamente, será um canalha a menos".

Já Padre Nicolau desafiou os incrédulos e enrustidos ao dizer: “Acredite: só o canalha precisa de uma ideologia que o justifique e absolva.” E o que foi dito pelo músico e compositor paulistano, Walter Franco, sobre a canalhice?


Contextualização: Sexta-feira. 28 de abril de 2017. Berros de ordem nas avenidas das principais cidades do país. Foi golpe! Golpe; isso mesmo! Repito: foi Golpe; FDP! Suas mães estão com os cambitos arreganhados nas camas mal cheirosas, alugando as estrelas solitárias em dias ensolarados nos quartos escuros dos bordéis fedorentos e embolorados, golpistas miseráveis! Tumulto generalizado. Princípio de quebra-quebra. Um ônibus incendiado. Outro mais. Bombas de efeito moral são lançadas. Um manifestante é atingido no rosto. Sangue sangra seu brio de rosa escarlate. Risco de morte. Fora golpistas; abaixo a corrupção dos canalhas! E a greve quase tomou o país de assalto. Um dia para ser esquecido ou lembrado?

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Berrar contra as "genialidades" dos canalhas dispende muita energia e loucura! Porém, nem o tempo dá jeito, porque uma vez "genial" canalha, sempre canalha "genial"!

Quase 70 anos e uma energia pulmonar intensa, retumbante, pesada, agressiva, indomável e humana para cantar. Essa é a compromissada proposta e séria revolução do Walter Franco em todos os tempos. Quem o acompanhou, sabe.

O dia parecia os anos 70. Caça aos canalhas numa esquina. Bisbilhotagem do papo dos intelectuais em outra. A caçada aos desordeiros segue ferrenha. Com uma diferença básica: se não é uma classe de canalhas, é outra. E passados quase 50 anos, a bola da vez são os políticos do país. E convenhamos, devemos adotar o clichê popular: "Os tempos mudaram", pois até os habitats evoluem, quanto mais as caças que se transformam em caçadores, caçando as caças que tanto os caçaram, cujo habitat são as florestas de concreto urbanas. E Walter Franco soube explorar isso.

SeSC (Serviço Social do Comércio) unidade Pinheiros; São Paulo. 21 horas. Portas fechadas. Luzes a lusco-fusco. O show está por um triz e entre a ansiedade e o átimo de tempo, as cortinas abrem-se e a leve musicalidade de uma cítara indiana, pacifica o silencioso ambiente. Dois músicos sentados sobre uma toalha vermelha reverenciam a plateia e uma horda de anjos povoa os arredores da sala. Pousa ao lado deles. Abaixo a baderna do desrespeito à ética e a moral, tanto política quanto humana, e que suba o volume da música restauradora de conceitos, impostora de padrões de respeitabilidade e de elevada espiritualidade. Fora os dois músicos, quem irá presidir a aura sonora por quase duas horas ininterruptas de espetáculo? E o público aplaudiu de pé a entrada no palco de Walter Franco, cantor e compositor que cantou a letra da canção "Canalha" aos brados no final dos anos 70.

Com seus mais de 60 anos de existência e uma energia avassaladora, desses mais de 40 dedicados, prestando favores à rebeldia reacionária e à música, Walter Franco é um daqueles "mal ditos" da MPB. Por que? Pelo desconhecimento, não só ele, mas Jorge Mautner, Tom Zé, Ermeto Pascoal, Jards Macalé, Lula Barbosa, Naná Vasconcelos (in memoriam) e outros vários músicos, são (foram) os obscuros da cantoria e música instrumental brasileira. Não obstante, elogios, absurdos, depravação, politização, caos e escárnio social caminhav(a)m, transita(va)m, revira(va)m vossos ideais e zumbe(ia)m suas ideias de ponta de cabeça.

Como a maioria dos filhos de pais de classe média, Walter teve tudo para ser mais um engomadinho de terno e gravata, carregador de pastinha entupida de folhas de papéis com anotações das boas maneiras de conduta; processos judiciários descrevendo as leis e procedimentos corretos; notas promissórias não pagas pelos caloteiros e tudo aquilo que compraz uma sociedade que impõe padrões aos que nascem sob seu poder; inclusive esteve com os pés dentro de faculdades promissoras, mas arredio de princípios e com o aval da mente aberta de seu pai, foi tocar seu violão e berrar a plenos pulmões: "Canalha".

O espetáculo seguia ora lento, espiritualizado, reflexivo; ora pesado, retumbante na caixas, com um Walter ofegante pela energia e esforços dispendidos e quando queria tomar fôlego, mirava as janelas e as saídas do auditório e após confessar seus pesares para os invisíveis e infiéis, disparava: "o dia de hoje lembra os anos bravos por quais atravessei. De tempos em tempos, a falta de seriedade vai se repetindo; mas que ela fique lá fora, porque aqui a coisa é séria. Muita séria. Estamos aqui por causa de vocês e ainda que fossem duas pessoas ou uma, apenas uma pessoa presente, a seriedade e o comprometimento seria a referência do show. Minha carreira foi pautada por tais atos honestos e nunca, jamais permitirei a canalhice ao meu redor. Aqui está a minha semente e enquanto estivermos, tanto eu quanto a mãe dele na Terra, não permitiremos desvios de conduta que não sejam do bem. Fazer música, fazer o bem, difundir a paz, explodir corações, expandir a espiritualidade à dimensões superiores e arrebatar o amor, não importa para quantos, para quem; em concordância filho!?"

Enquanto pai e filho abriam os braços para um amplexo caloroso, cabeças em êxtase, bateram contra o teto. Correto e verdadeiro em suas palavras, por não planejar, o país está sempre voltando ao passado; e sem nunca existir no presente, consequentemente, o futuro da "Pátria amada, Brasil", fica à mercê do "Deus dará"; expressão tão comum aos acomodados e canalhas de espírito, moral, ética e seriedade! Reforçando a máxima popular, em esquinas e esquinas, o que se ouve é: "farei a minha parte" e não, juntos, faremos a nossa parte; motivo do país cada vez marchar firme em direção ao ostracismo proposto pelos canalhas, para os canalhas. Pois, ainda que cada um faça sua parte, o isolar, o individualizar para fazer sua parte, é falta de empatia social, sinal de egoísmo mútuo.

O primeiro disco gutural, ou melhor inaugural, do cantor e compositor foi a música do disco "Ou Não", lançado em 1973. Sabe-se lá do porquê do título, mas as letras são estranhas, esquisitas, vertiginosas e se isso é sinal do porquê, é de arrepiar quando Walter dispara seu vocal berrado em "Mixturação". Cruel e ferina, a letra faz uma leitura direta, sem rodeios de palavras, limpa, suja, sem absorvente, em carne crua, livre de eufemismos, sem os melindres de mulher, sem o mimimi vitimado tão presentes nas palestras femininistas:

O raciocínio lento / O poço, pensamento / O olho, orifício / O passo, precipício.

Eu quero que esse teto (entenda outra palavra, menos teto) caia / Eu quero que esse afeto saia.

Eu quero que esse teto caia / Eu quero que esse afeto saia.

Em vermelho natural / Com gosto de água e sal,

No rosto e no lençol / Misturando o bem e o mal.

O disco é fechado com a música "Cabeça". A letra esquisitíssima não é recomendável para cabeças que não pensem, que são tocadas pelos ventos, sem fluidez de ideias. Esse álbum é para ser amado ou odiado. Na opinião de quem escreve o texto, está mais para ser odiado; "mal ditos" tem que ser estilhaçados em pedacinhos bem miúdos; sobretudo, fazem mal para povos hipócritas, sensíveis e melindrosos.

Apresentação do Ziraldo, outro desatinado, obscuro, "Mal dito" da arte/cartum brasileira

Em 1975 lança o álbum "Revólver". Já prevendo o futuro do país, a passagem entre uma música e outra é marcada por um ruído, parecido estampido. Após o hiato de 3 anos, em 1978 o disco "Respire Fundo" sob pelos baixos ares. Nesse disco, Walter mantém a pegada experimentalista e inicia com a letra que dá nome ao disco. No entanto, a letra que dá o tom exato daquilo que ele quer(ia) para a humanidade é "Coração Tranquilo". Uma pegada musical com acordes violados, uma sanfona dando o toque de xote e o restante dos instrumentos acompanhando:

"Tudo é uma questão de manter / a mente quieta / a espinha ereta e o coração tranquilo".

Em 1979 o "mal falado" da música lança o disco "Vela Aberta". Provavelmente o mais conhecido. Nele, uma vela valsa livremente pela liberdade das águas dos mares. Embora seja da mesma safra, Walter foi um músico alado dos movimentos de MPB, mas esteve presente em alguns dos Festivais de Águas Claras; afinal, onde a música alternativa pousava, o berro dilacerado de "Canalha" era pedido e ao mesmo tempo ovacionado. Com a palavra berrada nas caixas, a a plateia ia ao delírio do xingamento ao orgasmo em segundos. E como gozavam!!! Em contrapartida, na letra "Serra do Luar", o refrão "Viver é afinar o instrumento / De dentro prá fora / De fora prá dentro" mostra um Walter ameno, menos agressivo e mais poético.

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Walter teve suas letras interpretadas por muitos cantores da MPB, dentre eles Leila Pinheiro, Oswaldo Montenegro, Chico Buarque e mais recente, em estilo de rock meio balada, pela banda paulista Ira.

Um dia para ser esquecido ou lembrado? Para quem é de paz e amor, o movimento que aconteceu nas ruas no dia do show e o que acontece paulatinamente no país é para ser esquecido, mas para quem conhece e é de música alternativa, não só lembrado, como rememorizado sempre. Show, além de espetacular, como Walter disse várias vezes, sério e respeitoso às causas sociais, mas sem baderna, sem desonra, sem desonestidade e sem canalhice: "Pelo simples fato da banda desafinar num espetáculo, é sinal de que não ensaiamos e portanto, estamos sendo corruptos com a nossa proposta e desrespeitoso com vocês; que não estão aqui, se não para nos prestigiar. Deixemos, pois, a corrupção para quem é de corrupção; porque não passam de canalhas e continuemos fazendo música." Com a guitarra rugindo alto, o baixo ensandecido, a bateria retumbante e o teclado apaziguando o incêndio sonoro e aos gritos e berros da plateia, o teto do teatro reverenciou, beijou o chão.

Se antes Walter era um personagem da música fora do Cosmo orbital, agora difundindo e praticando o espiritualismo, tornou-se universalizado; se não para o mundo, pelo menos para si e quem mais quiser. E em que pese os muitos anos vividos, seu show alterna a adrenalina e o peso de guitarra, baixo, violão, bateria e teclado em doses certas, com a viagem transcendente ao som da cítara tocada pelo seu filho, Diogo e tabla de Gui Vitali; por sinal, abusa dos pratos, baquetas, pedais e bumbos. Bate muito; gratíssima revelação da bateria brasileira! Dando a ela o que lhe pertence, toda a banda é excelente e além do trabalho sério, honesto e comprometido individualmente, os músicos são mestres no que fazem.

Rima Canalha, Rima!

Canalha, no modo indicativo, conjuga o verbo que não ajuda;

Mas se conjugado corretamente em todos os modos, tudo atrapalha.

Rima Canalha, rima!

Um caso Canalha; em cada casa.

Avariada perambulando pelas ruas, menos Anália.

Rima Canalha, rima!

Alma limpa e consciência alva,

Sem lar, sem as condicionantes das dúvidas;

Se meteu em muitos casos.

Espírito alegre. Livre alma sem casa!

E você leitor, qual a sua dileção musical, que gênero musical faz sua cabeça? O "Um espetáculo musical dedicado aos Canalhas"; ou os enlatados americanos que os midiáticos lhes empurram goela abaixo!?

Walter3.jpgEmbora não apareça na foto, esta é a banda número dois de Walter, e foi formada pelo filho, Diogo Franco.

Sequencialmente da esquerda para a direita, completam a banda: Marcelo Guanabara (Teclado e Voz), Daniel Kid (Baixo e Voz), Raulito Duarte (Guitarra e Voz), Walter Franco (mais de 40 anos de voz e violão) e Gui (batera).

Nota: "Eu vejo um museu sem grandes novidades; eu vejo o futuro repetir o passado..." Cazuza

P.S.: lamentavelmente a música está cada vez mais enfraquecida, cada vez mais clamando por renovação e sordidamente, em menos de um mês a cultura musical brasileira perdeu Jerry Adriani, Belchior (mais um para a coleção: Kid Vinil) e como não bastasse, entre um papeado e outro, emocionado Walter relatou para os presentes que recentemente faleceu um dos bateristas que o acompanhou por longos anos. Além da perda de seres humanos, a música brasileira está cada vez mais órfã e o mais cruel e desanimador: sem peças de reposição. A cultura do país vai de mal a pior, afinal, na arte o que mais tivemos foi música e com a morte varrendo a esplendorosa safra que a representa, como ficará o nível cultural das mazelas sociais e corruptos brasileiros quando toda ela for extinta? Como ficará, nem Deus responde; mas que está aumentando em escala progressiva os canalhas, isso tá; afinal não há mais nada para combatê-los! Abrem alas; e saindo dos ventres, lares, praias, favelas, apartamentos, piscinas, esgotos, casebres, debaixo dos dormentes e se equilibrando nas pranchas de surf nas ondas dos mares, certeza absoluta e irrefutável é que o país está tomado pelos canalhas, pois covardia, delação premiada, omissão, hipocrisia, braços cruzados, oportunismo, zonas de conforto, (se ficou alguma outra classe fora, por favor, cite-a nos comentários; não vejo necessidade do etc, pensando melhor...) etc, também são formas tácitas de canalhice.


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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