ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

A música não escolhe a idade dos músicos para executá-la

"Toda vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar" é o segundo disco de Siba e a Fuloresta. Com seu ritmo ribombando nas caixas, contagie-se e seja contagiado. O luar e as estrelas das noites brincantes os pertencem...; o sol do dia também. Dai as mãos, feche a roda e brinque de dançar à vontade com as letras rimadas, humor contagiante e o ritmo alucinante da inusitada ciranda. Sobretudo, no que depender das rodas de ciranda, brincar de ser criança não escolhe idade. É isso mestres da banda Fuloresta?


Ciranda: dança Amanda! Amanda dança, requebra, "forrozeia", menos ciranda! Em verdade, se Amanda não ciranda, certamente é de moda e desconhece o ritmo frenético, dançante, alegre, pulsante, agitado e vistoso das brincadeiras de roda. Aliás, as brincadeiras de rodar ciranda é quase nada, pouquíssimamente divulgada no Brasil; e o pouco que ainda tem, vem dos subúrbios da zona da mata pernambucana. Aos poucos, o maior patrimônio de um país, que é a cultura regional, vai sendo extirpada do cotidiano do povo. Não há de ser nada e para alegria dos gringos, gaijin e polacos, em breve estaremos solteiros, para não dizer, órfãos de cultura e arte.

siba1.jpgSiba e a banda Fuloresta composta por senhores, os quais ele chama carinhosamente de "meus filhos". Respeito, musicalidade e carinho é o que não faltam entre pai e filhos.

A capa foi criação e produção dos artistas gráficos "Os gêmeos e mostra que toda vez que a criança dá um passo, o mundo muda de lugar. Sobretudo, as múltiplas vidas que circulam no Planeta, ainda que presas, são como um balão: frágeis. E itinerantes, circulam para lá, para cá, mas ainda que sem objetivos, estão indo para algum lugar.

Ninguém sabe ao certo o que é, e como se deu a ciranda no Brasil. Há pesquisadores que atestam que veio dos portugueses e espanhóis; no entanto, sob o crepitar, o choro da lenha seca queimando em chamas desalmadas nas festas de rodas e dos voos de morcegos frugívoros em noites enluaradas, era comum a meninada dar as mãos, fechar um círculo, girar a roda em sentido horário, ou anti horário e se divertirem cantando: "ciranda, cirandinha / vamos todos cirandar / vamos dar meia volta / volta e meia / vamos dar".

Se é movimento para infantes ou adultos barbados, a ciranda de Siba e convidados é considerada folguedo. E pensando em dar visibilidade às danças de terreiro, ao folclore, ao baile das jangadas nas águas, ao povo simples e alegre dos arrebaldes, Siba juntou sob sua tutela uma "gang de velhinhos fuleiros" que estavam encostados nos monturos da música folclórica pernambucana e em 2007, lançou o disco "Toda vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar". Verdadeira pérola cirandada bem humorada de letras, valores e costumes, os quais, não se encontram facilmente na atualidade.

Na terra do frevo, do maracatu, do coco, do mangue beat e outros ritmos, Siba era (é) figura respeitada e aplaudida; e por inúmeras vezes, havia participado do carnaval de Olinda. Todavia, alegrar uma multidão de noturnos insones e inebriados pelo lança perfume exalado em corpos escorregadios pelo suor, é totalmente diferente de alegrar o coração de um público diminuto que prima por sentar no toco de madeira ao fim de tarde para papear o dia em família, ou entre amigos para recordar as Marias, os Josés e o gado que passaram em suas vidas. Entre um papo e outra prosa literária, alguém tange o verbo poético de eras passadas: "quando os problemas foram surgindo e o gado sumindo na palhada árida, no curral e nas pastagens secas, sobraram somente as recordações de tantas luas. Uma lua brilhando solenemente lá em cima; e nenhuma lua mugindo ou berrando nos cercados das campinas. Uma lua brincante no ocaso de um céu sertanejo e nada de luas tocadas pelo sol escaldante, aqui em baixo. Rebanhos de luas que sumiram em meio às nuvens das saudades e recordações, compadre"!

- Te entendo; amigo de tantas jornadas em lombo de jegues! E confesso que não é nada fácil retirar as fotografias amarelecidas dos porta-retratos de eras passadas, para recortá-las no presente, como estamos fazendo agora. A emoção é tamanha, que dos olhos sai água em bica... seu moço! Continuemos tocando, cirandando, antes que eu mergulhe, desabe em um mar de lágrimas. Quem canta, faz perecer os males das lágrimas e pelas centelhas da alegria, se encanta.

A canção "O inimigo Dorme" faz parte do disco "Baile Solto". Pode-se dizer que é uma das poucas letras intimistas de Siba.

siba2.jpgProjeto e atelier "Toca Brasil." Local onde Siba pesquisa a cultura popular nordestina, compõe as letras e se reúne com a banda para criar os arranjos, harmonias e acordes das canções.

Cantor, compositor, guitarrista, rabequeiro e célebre fazedor de poesia - talvez o único - rimada, Siba esteve presente no Mestre Ambrósio, conjunto precursor do mangue beat. Ao findar o grupo e após percorrer as ruas de parte de São Paulo, capital, Siba retorna as raízes e faz paradeiro em Nazaré da Mata, um dos pontos da música regional nordestina.

"E a cadência compassada / da jangada balançado / imita o povo dançando / minha ciranda embalada (...) Cantar ciranda / é balanço de maré / quando vem corre um balé / quando vai carrega areia..."

Rimar o balanço das ondas da ciranda na poesia, é uma das definições do movimento da cantiga de roda dada por Siba

A banda "A Fuloresta" é uma versão renovada dos ritmos e levadas agitadas nordestinas. O desfile musical da pequena orquestra rancheira compõe-se de guitarras, rabeca, tarol, agbê, tuba, violão, xilofone, metais, percussão e algo mais que possa engrossar o coro. E conta com Antônio Loureiro: bateria e vibrafone. Leandro Gervázio soprando uma tuba retumbante. Mestre Nico: percussão e voz. Lello Bezerra: guitarra e participações especiais. A miscelânea de instrumentos, tornam as harmonias pesadas, porém, espirituosas e leves para se ouvir.

A maioria das letras são assinadas por Siba e num misto de poesia, revelações cotidianas e devaneios experimentais, desvelam os costumes de seus irmãos e compatriotas. Falando sobre a mutabilidade dos tempos, na letra "Tempo II", Siba pontua dizendo que o "tempo é ventre fecundo, aonde tudo é gerado, se o tempo fosse parado, nada existia no mundo". Continua descrevendo o tempo como o vento que passa, a ventania leva tudo que encontra pela frente, incluindo a fortaleza dos castelos, como a fragilidade da borboleta.

"Tudo o que o tempo tem dado / de tempo em tempo se soma / e o tempo com o tempo toma / tudo que o tempo deu passado". Deveras, o tempo dá longos anos de vida para os viventes, para tomá-los em segundos.

"Meu time foi rebaixado para terceira divisão / ninguém pode ganhar campeonato se juiz não tem e nem coração".

O esporte bretão, aquele disputado na várzea, com pontapés, chutes na canela, palavrões, xingamentos e a torcida inflamada trocando farpas nas arquibancadas, também é homenageado na letra "O Time". Inicia com a desordem das torcidas e à certa altura, conta com palavras precisas e diretas sobre o que é o futebol, o qual, os altos investimentos escusos dos empresários governam a massa de operários de pouca, ou nenhuma representatividade social. E por ser um esporte de paixão e massa, vale tudo para cegar as vistas do povo, para adulterar os resultados, inclusive, comprar os juízes e jogadores.

"Esse fã de corrupto e salafrário tem que ser fuzilado na parede / toda vez que vem bola em nossa rede / ele quer marcar gol para o contrário / alguém prende esse estelionatário / e o castigo mais leve para ladrão é passar uns dez anos na prisão."

Siba é craque, veneno puro, embriagues efervescente, "fura olhos" em compôr letras que estufam as redes, ameaçam as calmarias, avivam o senso comum, atiçam a massa a pensar as realidades daqueles que a engana. E indaga: "quando a massa tocará a bola, jogará o futebol da paz requintadamente, a reconhecerá como massa feita com ingredientes de terceira, subalterna dos espertos e vivazes; e comerá o biscoito fino cirandado que eu fabrico?"

“A vida não dá certeza, pois tudo se movimenta”. Com essa frase, o grupo define suas ideias, tornando-as em ideais musicais, e os fazem de modo agradável, amistoso, sensível e definitivo; pois contrário a energia do estudo da física, tudo na vida é movimento contínuo. É nuvem circulante. Tempestade passageira. Redemoinhos desatinados. Ventos que se movimentam em muitas direções, propagando suas múltiplas finalidades.

Saia da moda adulta, Amanda;

Venha ser e se sentir criança.

Dance, rodopie;

Livre-se das cobranças de pagamento de fiança.

Vire, revire o mundo, cante;

Numa roda de ciranda.

E sob a musicalidade da ciranda propagada por Siba e seus pupilos, impossível os pés, as mãos e a cabeça ficarem parados, estáticos vendo a banda passar. Não obstante, o ritmo acelerado e convidativo estremece as estruturas, entorpece os neurônios e anima o coração. E toda vez que eles dão um passo pelo país afora, o município de Nazaré da Mata, o Brasil e o mundo saem fora, desgrudam do lugar, despregam da órbita. Pois, ficar parado é contra os princípios das flores heliotrópias e feito girassol, ninguém resiste o movimento da miragem e os lisonjeiros devaneios de girar ao redor do sol. Festa cirandada nas notas dó, ré, mi bemol.


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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