ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto


Entre pétalas e espinhos... um escritor sem pena, que pena, em escrever sobre as mesmices cotidianas, as quais não move sua existência. Por que? Por que, embora, todos os homens pensem, acredita piamente que a escrita recomendável é a arma contra as futilidades, tanto quanto a cultura seletiva movem os atos. Pensando melhor, logo, contrário de minha pena, os homens não existem

O parentesco musical entre a M.P.B e o chamado Rock Rural

O desconhecido Rock rural está para a conhecida M.P.B, assim como o Folk está para o Rock Progressivo. E além da similaridade sonora, a fusão de ambos os estilos se completam em uma nota só.


Contextualização: A poesia, a literatura, o proseado sob o luar que mergulha nos mares e arrebata a claridade dos sertões, as recordações espraiadas pelos ruídoságua, o entardecer sob o pôr do sol, a viola e o seu esposo, o violão; o embornal jogado no ombro, as botinas cobrindo os pés de solas cascudas, participaram, contribuíram ativamente, para a existência do desconhecido Rock Rural. Entretanto, a Música Popular Brasileira solidificou-se como estilo, a partir da linguagem sonora do ruralismo com outros ritmos afins. Discriminada como música para os caipiras da grota, não obstante, algumas canções escritas pelos ruralistas são proféticas na previsão atemporal e futurista do Planeta; e estão se cumprindo. Pequeno e desprezível detalhe: estão se cumprindo apenas para quem tem percepção e olhos para as máximas e profecias dos matutos.

almir.jpgOs ruralistas, Almir Sater, Sérgio Reis, Renato Teixeira, Roberto Corrêa e tantos outros, são tidos como as vozes da música sertaneja; porém, não é preciso ser cátedra em música para saber que as letras e as harmonias os remetem também à originalidade da M.P.B.

E por viverem longe dos tufos de fumaça de indústrias e carros, não saberem o que é escassez e excesso de água, não ter contato com os muitos vetores produzidos pelas toneladas de lixo diariamente, não comer frutas, legumes e verduras contaminadas pelo veneno contido nos agrotóxicos; não suportar conviver sob altas ondas de calor produzidas pelos longos túneis de concreto; por respeitar as nascentes, rios e mares; conviver em harmonia com a fauna e a flora; ter um(a) esposa(o) para amar em luas vagas, os crédulos e proféticos caipiras do grotão sofrem menos com os acontecimentos inesperados que aterrorizam os urbanos. Sobretudo, na maioria dos casos, conviver passivamente com a falta de respeito, com o caos que assola o inconsciente coletivo dos urbanos nas megalópoles, é morte precoce do direito de ir e vir; é morte precoce da amizade que nunca se teve, é morte precoce da liberdade absoluta que todos pregam e somente é encontrada na honestidade das palavras e atos dos caipiras.

Após a revolução musical denominada Tropicália, a música brasileira procurou o real significado e os liames da genuinidade. E em todos os segmentos, uma linguagem "específica" caracterizava os elementos condizentes com a proposição do estilo. Para atingir o objetivo, criaram-se novos instrumentos, inseriram efeitos sonoros e harmonias que mais se adaptaram a autenticidade do gênero. Diante dessa temática, o que veio a ser "rock rural"?

Dotada de uma letra profética para época em que foi composta, a música Sobradinho é uma singela homenagem ao desmatamento, à devastação ambiental e desapropriação indevida dos ribeirinhos, para o ajuntamento das águas e construção da barragem hidrelétrica na cidade de mesmo nome, Bahia; gerando consequências danosas e irreparáveis à fauna e flora local. No reino humano, a luz é para uns poucos dotados de sorte e as trevas, para a multidão formada pelas sobras e restos de tudo.

A música desperta os espectros das cores dos raios de sol. Todos os dias, no crepúsculo do entardecer, ou na aurora desposada pelo arrebol. Arco-íris incandescente. Leme que guia à espiritualização. Nuvem desigual. Transparência. Ritmos que passeiam livremente pelos ambientes; pelos lares. Reverberam nas ruas. Nos cumes. transcendência permanente. Elevando o astral; noite adentro. Faca em carne crua. Ruído que navega mares afora. Farol. Lume, piscante feito vagalume.

A música ânsia por flores. Belas e multicoloridas flores. Na falta das flores, o perfume mantém na penumbra das noites a silhueta da primavera em estações outonais, renovando, satisfazendo, preparando o solo para novas floradas. Que o recomeço seja intensamente prazerosa; outono-primavera, inverno-verão; divididas a dois em prosa, em falas, em amores, com se fez nas anteriores, de forma tão majestosa.

"Amanheceu, peguei a viola / Botei na sacola e fui viajar"

A música é intensa vibração e ruído das palmas. Acalenta, acalma. Sossega o espírito. A música reparadora que toca o coração, alimenta a alma e desencadeia as frequências da tranquilidade harmônica que faz chegar ao espírito, a paz tão almejada. Movimento pleno. Ajustada aos tímpanos são gotículas destiladas de emoção.

"Anoiteceu e eu voltei pra casa / O dia foi longo e o sol foi descansar"

A poesia e a literatura, principalmente, a primeira fase do Romantismo, sempre estiveram presente nas letras da música brasileira. E quando digo música brasileira, incluo no bojo da linguagem da música sertaneja, o bater da porteira no mourão, o trinado do sabiá, o pio do inhambu, a quentura do sol aquecendo os miolos dos senhores do grotão.

Foi valorizando o homem do campo, enaltecendo à Natureza e cultuando seus muitos recursos, dando voz ao tacape, ao arco e flecha, ao penacho na cabeça do índio, que a música brasileira abraçou a poesia e flertou com a literatura. Para qualquer pessoa que acompanha-a no decorrer do tempo, essa passagem musical resume-se à conhecida MPB. O que é correto. E a tal tendência musical relâmpago chamada rock rural; quando e quem falou dessa vertente na música brasileira?

Segundo os pesquisadores, Sá, Rodrix (in memorian) e Guarabyra, foram os primeiros a falar em Rock rural no Brasil. Contrário da instrumentação, harmonias, arranjos e acordes que são típicos da M.P.B, a letra é a insigne e arrebatamento do genuíno rock and roll bruto de vanguarda dos anos setenta.

A tropicália trouxe para o cenário musical o "psicodelismo", o qual o rock progressivo do Mutantes, banda dos irmãos Baptista, Rita Lee e cia, se assentou. Por outro lado, outros músicos que haviam participado do movimento, principiaram a MPB; estilo musical que Belchior, a águia soberana, disse que pouco se importava com o estilo proposto por Caetano, Gil e Chico Buarque. Aliás, Belchior sempre andou sozinho, decidindo sua vida e pedindo que saíssem de seu caminho. Sobretudo, porque o que mais queria e nunca hesitou, era escrever suas letras em cima do regionalismo preconizado pelos fortes, bravios e resistentes irmãos nordestinos de pele ressecada pelo escancaramento indecente do sol em brasa.

Nessa época, o Brasil exportava musicalidade, porém faltava espaço, público e gravadoras para alguns célebres músicos mostrarem seus trabalhos; caso típico do rock. De um lado, haviam as bandas que se sobressaíam; do outro, o pesadelo do fim não passar de início. Por sua vez, os "excluídos" se arrumavam como podiam e uma das maneiras era pegar carona na boleia de caminhão e rumar sem destino pelo país. O pessoal, tanto do rock importado, quanto do rock nacional sempre tiveram olhos aguçados no ocaso e o faro fino para as estradas.

Tanto é verdade, que letristas e músicos famosos vagavam pelos quatro cantos do país estudando e pesquisando os costumes e hábitos dos regionalistas, para posteriormente, citá-los em seus escritos. E quando Milton Nascimento disse que "todo artista tem de ir aonde o povo está", ele se referiu sobre a interatividade do músico, com os nativos do sertão que retardavam o sono até a madrugada velha para ouvir as canções de ninar cantadas pelos músicos.

Em uma de suas viagens vacantes nas "Boleias de caminhões", Milton Nascimento esteve em Milho Verde, um condado socado nos cafundós de Diamantina, Minas Gerais, esconderijo que o gigante perdeu as botas. Lá, Milton interagiu com sertanejos, ouviu casos de mula sem cabeça, participou de rodas de dança, flertou com luas cheias, amou as estrelas, deitou na relva molhada pelo chuvisqueiro da cachoeira e afinou o violão para cantar os acontecimentos presenciados nos "Bailes da vida". Em meio à tanta diversidade natural e belezas paradisíacas, compor belas canções não foi ato inglório para ele.

clube.jpg Emblemáticos, depois de muitos anos, os meninos que aparecem na capa do disco voltam ao local onde foram fotografados. Deveras o experimentalismo e as andanças de Milton iam aonde o simples estava. Fazia arte, tanto nos Bailes da vida, quanto nas Boleias de caminhão, ou em qualquer beira de estrada

"Foi nos bailes da vida ou num bar / Em troca de pão / Que muita gente boa pôs o pé na profissão / De tocar um instrumento e de cantar / Não importando se quem pagou quis ouvir / Foi assim."

Foi assim, de boleia em boleia de caminhão, de coreto em coreto, de banco em banco de praça, de andança em andança, de estalagem em estalagem, de poesia em poesia declamada sob o bruxulear de lampiões em noites enluaradas ou frias, que a música alternativa e clandestina foi denominada de Rock rural por pouco tempo.

Passado uns anos, após cada banda ou músico afinar seu instrumento, solidificar suas tendências e adquirir uma linha musical definida, apareceu no cenário musical a denominação segura, concreta de MPB; estilo ajuntado da miscelânea de várias tendências e linguagens musicais, incluindo a página em branco da música brasileira, o chamado Rock rural.

Na letra "Capim guiné", Raul convocou o antropomorfismo dos animais e ruralistas para prestar uma homenagem aos desmandos de seus irmãos e semelhantes que comem tudo do tudo, sem remover um cisco do solo. Assim posto, debaixo do capim tem muito mais coisas à serem entendidas; as quais, os usuários do piche preto do asfalto urbano tem total e irrestrita liberdade de entendê-las como quiser.

Como lido em várias passagens no texto, o Rock Rural foi um movimento musical proposto pelos caipiras, para os caipiras. Será?

- Acuma... acuma é? Num li direito... somente para os caipiras e sertanejos? Acuma; acuma é seu moço? O quê? Fale mais alto! Seja mais claro... o doutor está usando palavras assertivas em seu linguajar.

- Sobre as origens da cultura musical brasileira, doutos, poliglotas, políticos, religiosos, letrados, engravatados e demais raças superiores não sabem nada, de nada?

- Acuma... Raulzito era nada de rock; e tudo de capim guiné? Acuma é?

P.s.: No encarte do disco "Tropicália 2", Caetano e Gil afirmaram que "tudo que não era americano em Raul Seixas, sem dúvida era baiano demais." Portanto, Raul também era ruralista e fez rock rural, sim. Agora, se ninguém sabe desse episódio da música brasileira, aí são outros quinhentos; e deve ser pago ao divulgador e escritor deste com correção monetária e juros de mora. Boleto em processamento. Muito agradeço!


Profeta do Arauto

Entre pétalas e espinhos... um escritor sem pena, que pena, em escrever sobre as mesmices cotidianas, as quais não move sua existência. Por que? Por que, embora, todos os homens pensem, acredita piamente que a escrita recomendável é a arma contra as futilidades, tanto quanto a cultura seletiva movem os atos. Pensando melhor, logo, contrário de minha pena, os homens não existem.
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