ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler.

Longe é um lugar que não existe

"Começo a viagem no coração do Beija-Flor, que há tanto tempo você e eu conhecemos. Ele se mostrou amigo como sempre, mas ficou espantado quando lhe disse que a pequena Rae estava crescendo e que eu estava indo à sua festa de aniversário, levando um presente."

Trecho extraído do livro infantil "Longe é um lugar que não existe", escrito por Richard Bach em 1979.



Nostalgia, ah essa nostalgia! Representada pela recordação, a nostalgia de viajar encaminha, a realidade dos fatos desencaminha. Mas por que tudo tende à esse ritual cotidiano, "Viajante por terra"? Provavelmente "Mestra dos ares", é por que a realidade não transita pelas mesmas trilhas, não ilude os mesmos caminhos, por quais, os olhos e passos compassados e honestos caminham! Afinal, em tudo que se faça, em qualquer proposta de vida, a correria desenfreada pelo tudo é infinitamente superior a busca pelo nada. No entanto, resta saber e decorar a lição que somos feitos do tudo e do nada. Do nada, somos tudo. E do tudo, somos nada. Com o tempo, a fuligem que cobre os baixios. O pó fino que sobrou do tudo, do nada! O caminho que dá sentido a vida. O sol que empresta seus raios de luz para a lua. Estrelas solitárias que brilham sob intensa luminosidade do tudo e gravitam sob a constância do nada.

Uma viagem inusitada é como uma habitação desarrumada; e movimenta-se continuamente, atiça a percepção, é inquieta à procura de caminhos, mãos, olhos e pés ponderados que sosseguem o mobiliário e as pegadas em lugares apropriados. A ordem, os acidentes geográficos e as tangentes das curvas se estabelecem e desfazem-se a partir das desordens cotidianas; pois, ordem demais é monotonia e involução das flutuações da complexa arte de viver.

Partilhar com outrem as coisas do coração, é o mesmo que viajar nas asas da imponderável emoção. Acredite Gaivota!

Viajar. Eu viajo. Tu viajas? Destarte, qual a denotação desse verbo que muitos dizem ser a realização pessoal de si? Tomando a palavra pelo contexto da subjetividade, pelo sentido conotado, viajar são escolhas de vida voltadas para o pleno movimento da própria vida. Por outro lado, em sentido oposto, viajar também é um monólogo íntimo assim representado:

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Que a retidão e a serenidade sejam as trilhas / A paz, a companheira;

A perseverança, os passos / O pio dos pássaros, as notas;

Os chiados das águas, os acordes / Os farfalhares das folhas, os arranjos musicais;

As hordas de anjos, os guias / A esperança, o motivo maior;

A falha, o erro e o reconhecimento, as armas / A conquista, a meta;

A simplicidade, o substrato / A humildade, o paradigma;

A fé, o Norte / E o amor, o alvo.

Ainda... nos restam os ventos, as asas, os desertos e o amor. Em princípio, amar não importa o sotaque idiomático, e sim o jeito de edificar o amor. Louvado seja o amor que nos faz criar asas para atravessar os desertos. Através dele, o oásis está assentando em qualquer coração.

IMG_5403.JPGA Natureza dá início as grandes obras, mas só o trabalho, o perfume do suor e a calosidade dos pés e mãos, as termina.

Viajar é como uma fotografia. Uma captura de um estado de espírito que talvez nunca mais possa ser retomado no futuro. Uma paixão intensa que se inflama nas estradas e nos ares, para posteriormente eternizar e acalmar o que tem dentro do lado esquerdo do peito. Um momento belo que, no medo do partir, se garante à imortalidade. Numa viagem, ainda que insólita, o que há de impróprio se vai. As impressões, as vontades, as admirações e até mesmo alguns dos valores voam; mas não para a desilusão. Não para o que há de negro no luar do sertão. Por isso talvez, ao viajar, a entrega faz-se necessária. Da mente esterilizada: a intriga; e de um coração fragilizado, o enigma. Útil, deve-se esperar o máximo desafio na busca pela viagem imortal. Pois, ainda que em terras próximas, a espera vã do que se vai em passos curtos, é longe demais a sua busca.

6h30 de um dia de garoa lenta e constante. Os calendários não são mais os mesmos. Na matemática das datas, sob a qual a racionalidade biológica se deixa levar, é um dia à menos vivido pelos órgãos e tecidos. Porém, para as datas gramaticais, o verbo viajar não escolhe época. Qualquer dia, é dia. Analise por exemplo os bem-te-vis: estão em polvorosa lá fora, mas já caíram fora do quentinho do ninho. Devem ter muitos motivos para estarem nervosos. Não seria contra os invasores de seu território e consequentemente, a preservação da mulher amada? Certas espécies de animais, dividem espaço e comida, mas não dividem amores. Seguindo o voo: pelos pios, estão enamorados. Sinos. Praça da Sé. Sinagoga. Banho na chafariz. Céu cinzento.

Finas gotículas de água caem em queda livre. De agora em diante: frio. Precioso frio que incomoda, aquece, esfria e mofa os seres mais calorentos em seus aposentos! Frio, neblina, vento é o que nos resta? Não, uma taça de vinho. Palavras sopradas ao crepitar das chamas. Lareira. Uma porção de fondue. Um café fumegante, um cobertor, um chá, um chocolate efervescente e quem sabe, amores ardentes. Quem ama na cama, na relva, ou sob o marulhamento do mar, os males do frio espanta.

Mendigos. Cromo. Andantes. Crivo. Uns cobertos, outros de tetos, isentos. Margarina engraxando, lubrificando o pão bolorento. Sem cravo e sem xícara, o que importa ter leite queimado com açúcar e canela.

Cães lançam as patas dianteiras para frente. Espicham a cauda. Tocam viola. Coçam. Rosnam para as pulgas. Ossos rangem a noite mal dormida. Janelas espiam. Expectadora sumida dentro de si. Herida. Folha de papel. Pena que pena, na mão sem pena! Tosse. Xarope com mel. Libertação improvável. Ouro perdido; amor achado. O novo dia alvorece o recomeço. Acanhado. Amargo como fel. Como sempre fizera, segunda-feira vai à luta. Ofício de quem é digno. Todo dia, toda hora, recomeça a labuta.

Notas no diário. Amorais. Valorizadas. Primaveris. Amadas. Prestimosas. Solícitas. Veranistas. Odiadas. Invernais. Menosprezadas. Refazendo as folhas murchas outonais. Na igreja, reza a missa o vigário.

[000620].jpg O circuito amorrado vem se achegando aos olhos do admirador sob um mar plácido de baixas e elevadas ondas.

Fora a poesia contida no ato de viajar, como exercer esse modelo de arte arrebatadora que vem desde os primórdios? Pelo caminho encontrarás, poeira, pântanos, serros, desvios de rota, impropérios em sinal de protesto, fiordes descomunais, remansos serenos; frondosas copas de árvores oferecendo acolhimento; mares tormentosos; testas franzidas em sinal de desânimo, cartas de despedidas; chuvas intermitentes por dias prolongados; temperaturas torrificantes e desérticas; guarda-sóis abertos oferecendo carona; sombrinhas fechadas pelo desespero, palavras de consolo, noites alternadas entre o breu soturno e luares convidativos, gestos motivadores e mãos estendidas para reanimá-la ao primeiro desânimo, sobreavisos de desvio de rota, algum caminheiro confiável carregando tralhas pesadas e com os mesmos objetivos.

IMG_5396.JPGEm cima de um mirador, tal qual o pináculo do Himalaia, observando detidamente o horizonte num dia de céu sem nuvens e plenamente azulado, sou a clareza e a transparência que se vê ao longe.

Feliz e pedindo ao que for mais sagrado no espaço sideral, que a caminhada lhe seja leve; mas caso necessite, não se acanhe, não abaixe a cabeça, não se abstenha dos ensinos e legados adquiridos: peça auxílio, acolha e serás acolhido! Abrigo nunca é demais, isso pois, a jornada é longa para um dia apenas e quilômetros e mais quilômetros serão os desafios, desafetos e obstáculos; e ainda que diminutos, caminheiros precisam de alimento, tanto material, quanto espiritual e emocional para seguir o percurso, tocar em frente. Destarte, só reforçando, porque os legados são os que contam e esses foram ofertados pelos genitores, atingimos o pináculo quando crescemos em espírito e descemos, na matéria. O primeiro é a escalada, o segundo as travessias; o primeiro é a elevação, enquanto que o segundo são os baixios.

gaivota.jpgVoamos algum tempo em silêncio, até que finalmente ele disse: "Não entendo muito bem o que você falou, mas o que menos entendo é o fato de estar indo a uma festa."

— Claro que estou indo à festa. — respondi. — O que há de tão difícil de se compreender nisso?

Enfim, sem nunca atingir o fim, imaginando-se uma gaivota sobrevoando o mar, viajar é sentir-se ainda mais pássaro livre tocado pelas lufadas de vento, contraponto, de uma ave mirrada de asas partidas numa gaiola lacrada, sobrevivendo apenas de alpiste da melhor qualidade e água filtrada. Ou ainda, pássaros presos na ambivalência existencial... fadado ao fracasso ou ao sucesso... ao ser livre ou viver presos em suas próprias armadilhas...

Longe é o portal de entrada de um lugar que não existe? Não deve ser, não; pois os "Senhores de voos rasantes" sacodem a poeira, misturada com o óleo das águas dos mares das asas, limpam os resquícios de alimentos dos bicos e batem na porta o toc-toc do posso entrar?

Portanto, fica sob sua escolha e risco, a liberdade para voar os ventos ascendentes; que pássaro quer ser; que lugares quer sobrevoar; que viagem ao inusitado mais lhe compraz. Por mais e mais, qual a serventia dessas asas enormes, herança genética de seus pais e que lhe confere enorme envergadura? Diga-me para quê serve? Como dica, ao primeiro sinal de perigo, debique e pouse na cerca mais próxima. Ora, não venha com desculpas esfarrapadas e vamos dona Gaivota, espante a preguiça, bata as asas e saia do ninho! Não tenha medo de voar. Pois, como é de conhecimento dos "Mestres dos ares e Senhores da Terra", longe é um lugar que não existe para quem voa rente ao céu e viaja léguas e mais léguas de distância com a mochila nas costas, olhar no horizonte e os pés socados em terra firme.

Definitivamente, caminhando por trilhas, sobrevoando os píncaros, apreciando os baixios, usando as balsas como pontes que ligam os extremos, longe é um lugar que não existe para os "Senhores de pés no chão, assim como para as Gaivotas, mestras dos ares.

Fotos pertencentes ao autor do texto


Profeta do Arauto

As lágrimas são sinônimos de esforço, querer, persistência, labor. Já os sorrisos, de realização, conquista, ato consumado. Por eu ser lágrimas miscíveis imersas em sorrisos, junto as palavras nas frases, emendo frases nos períodos, teço períodos nos capítulos para alguma biografia de páginas em branco ler..
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