ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Mineral impermeável. Incognoscível. Sólido. Rústico. Diamante impenetrável

A música, a poesia e a arte de Oswaldo Montenegro

Ontem eu era...; agora eu sou...; daqui a pouco pode ser o fim do agora; por isto, a esperança em poesia, a música cantada e o teatro encenando uma vida de passadas ligeiras, são inscrições que aparecem nas nuvens e desfazem-se com o pincel tocado numa tela de papel úmido... um frágil e mal feito barquinho de papel sem velas que desce a correnteza aos tropeços e cambalhotas. Um barquinho desengonçado que rodopia nos surreais redemoinhos murmurantes da arte.


Viver intensamente a música, exige ousadia e para que haja completude entre a letra, acordes, arranjos e notas, não menos a insatisfação de pensar o contexto sob insana rebeldia. Não obstante, a igualdade é sentença matemática que intercepta os iguais em algum ponto no mesmo conjunto unitário. Assim inicia o seu estilo artístico. Prossegue em primeira pessoa...

oswaldo.jpegO atelier/mosaico do artista é a sombra, a pintura, as cores, o surrealismo e o psicodelismo característico das artes Oswaldianas.

...Mas antes que a morte despedace os meus sonhos em retalhos rotos do passado, nesse efêmero ínterim, cantemos a canção, a qual metade de mim é platéia e a outra metade é letra. E ambas se fundem, juntam os elos, se manifestam no violão que às vezes e sempre dedilho; na música que deixei de compôr ontem ao mirar o miraculoso arrebol; na escrita mal escrita sobre os esplendorosos e profícuos dias que renascem em cada olhar da aurora; na peça de teatro que ensaio desde o despertar até o toque de recolher da sonolência que devora minha lucidez imaginativa; no quadro que pintei especialmente para a amada que idealizei e nunca possui; no poema recitado e ouvido apenas pelo crepúsculo vespertino; no banquinho que sento para inteirar-me com a plateia em mais um espetáculo que canta o encanto de corações silentes. Sou compositor, sou carioca, sou poeta, sou música, sou cancioneiro, sou teatro, sou crepúsculo, sou pintura, sou rebelde, sou arco-íris, sou arte, sou desertor.

Metade de mim é poesia, a outra metade composição. Sou; quem sou? Amar em plena realização. Prazer em conhecê-lo!

A arte feita pelas mãos e mente e não pelas máquinas e tecnologia. A arte pela arte. Essa expressão é velha, surrada e difundida até pelos filósofos de botecos que nunca subiram as escadarias de um teatro, jamais souberam o que é um filme no telão, passam longe de uma exposição de pintura e fotografias, bem como nunca foram a um espetáculo de música clássica; porém, indiscutivelmente, o fazer arte pelo deleite e prazer de fazer arte, representa algumas peças raras que o país produziu ao longo dos anos. Dentre esses, está o irreverente, único, surreal e de pouco alarde Oswaldo Montenegro. Sobretudo, o artista que faz arte pela arte, não precisa de assinar contrato com empresário, não bate continência para a mídia de massa, não se promove perante a panfletagem em muros e semáforos; pois faz arte para quem tem olhos e ouvidos que apreciam a boa, seleta e qualificada arte.

Oswaldo sempre foi um arredio da arte brasileira, um condor confabulando com as nuvens os mistérios dos ostensivas redemoinhos de vento; e se tornara mais rebelde por saber que da rebeldia nasce o gênio. Sobretudo, pessoas comuns, nascem autênticas e ingênuas, para posteriormente, depois de longos e árduos anos, morrerem glamourosas, endinheiradas, poderosas, megalomaníacas. E ele, a cada subida ao palco, a cada apupo ou assovio, a cada tragada de inspiração, a cada dobrar sobre a mesa para compôr, respira(va) o aroma e as improbabilidades da música dominada pela poesia.

A música de Oswaldo por ele mesmo em a "Metade":

Que a força do medo que tenho / não me impeça de ver o que anseio

que a morte de tudo em que acredito / não me tape os ouvidos e a boca

pois metade de mim é o que eu grito / a outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe / seja linda ainda que tristeza

que a mulher que amo seja pra sempre amada / mesmo que distante

pois metade de mim é partida / a outra metade é saudade.

Quer as palavras que falo / não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor

apenas respeitadas como a única coisa / que resta a um homem inundado de sentimentos

pois metade de mim é o que ouço / a outra metade é o que calo

Que a minha vontade de ir embora / se transforme na calma e paz que mereço

que a tensão que me corrói por dentro / seja um dia recompensada

porque metade de mim é o que penso / a outra metade um vulcão

Que o medo da solidão se afaste / e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável

que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso / que me lembro ter dado na infância

pois metade de mim é a lembrança do que fui / a outra metade não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria / pra me fazer aquietar o espírito

e que o seu silêncio me fale cada vez mais / pois metade de mim é abrigo

a outra metade é cansaço

Que a arte me aponte uma resposta / mesmo que ela mesma não saiba

e que ninguém a tente complicar / pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer

pois metade de mim é platéia / a outra metade é canção.

Que a minha loucura seja perdoada / pois metade de mim é amor

e a outra metade também.

A música para Oswaldo Montenegro são harmonias criativas da complexa arte da simplicidade. Simplicidade que fluem através de suas veias e artérias. Átomos, indizíveis átomos; moléculas estruturais que compõem a matéria. Derme. Taxas ascendentes de adrenalina que saltam cada centímetro em sua pele. Regeneração celular. O choque do toque. A sinestesia na ponta da agulha que contém xilocaina. Eletrizante anestesia . Epiderme.

Tudo que é produzido pelo artista se encaixa perfeitamente bem. As letras, os arranjos, acordes e melodia se harmonizam com sua voz pulsante e eletrizada. Oswaldo é um diamante posto em mãos de mendigos. Pérola perdida pelas ostras. E no vai e vem de cantar e encantar o cotidiano, ele é o mago do jogo de charadas, a poção mágica da metamorfose, o enigma do encantamento, o eterno curinga da arte brasileira.

"A lista" em tempos de liquidação de amizades para queima de estoque:

Faça uma lista de grandes amigos / Quem você mais via há dez anos atrás

Quantos você ainda vê todo dia / Quantos você já não encontra mais

Faça uma lista dos sonhos que tinha / Quantos você desistiu de sonhar!

Quantos amores jurados pra sempre / Quantos você conseguiu preservar...

Onde você ainda se reconhece / Na foto passada ou no espelho de agora?

Hoje é do jeito que achou que seria / Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava / Quantos você conseguiu entender?

Quantos segredos que você guardava / Hoje são bobos ninguém quer saber?

Quantas mentiras você condenava? / Quantas você teve que cometer?

Quantos defeitos sanados com o tempo / Eram o melhor que havia em você?

Quantas canções que você não cantava / Hoje assovia pra sobreviver?

Quantas pessoas que você amava / Hoje acredita que amam você?

A arte, a poesia, a prosa e a música de Oswaldo Montenegro é para quem mordisca os lábios implorando o néctar invisível do amor, para quem tem ouvidos para as palavras singelas e sussurradas, para quem tem sensibilidade ao colher um botão em tenra flor. Em tempo, quem para o seu mundo para ouvi-lo, ainda que seja por poucos minutos, exercita os sentidos. É como a lua na fase crescente em meio lábio, enamorando uma por uma, tocando suavemente o salpicado de estrelas fulgurantes que se descobrem sob o silêncio noturno da musicalidade de "Bandolins". Tanto essa canção, como "Condor", garantiram o passaporte do artista para a arte musicada.

Definitivamente, as canções citadas acima prenunciaram um artista de múltiplas e indiscutíveis metades no futuro. Óbvio, que essa citação é apenas para tornar o título chamativo; porque os mais de 40 anos dedicados a fazer o que mais lhe compraz, que é arte pela arte, tem comprovado que Oswaldo é completo e engloba quase todas as modalidades e tendências de arte em seu atelier/mosaico pintado com as cores da irreverência insolente. Vida longa, Montenegro; ... hippie das antigas que não se adapta às palavras sem emoção sopras ao vento pelos bestiais "artistas" modernos!


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