ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

O sucesso do Rockpalast: o palácio do rock; e a fracassada MTV brasileira

Dando continuidade ao projeto "Sexo, sombra e água fresca e sob luau atemporal, muito Rock and Roll alternativo", proposto pelo passado de época, o nada comum, Profeta do Arauto, segue mais um texto para ser desfrutado sob a originalíssima lisergia do mais puro rock; por ora representado pela lisergia inconteste da banda holandesa Golden Earring. Retire os pesadelos da mente, desamarre os nós dos neurônios, bata os pés contra o piso e com corpo inquieto e saltitante, transcenda da matéria; afinal, contrário do conceito físico, o rock puro e honesto são polos faiscantes que atraem os iguais. Portanto, "sob os desígnios do aqui estamos, por ti esperamos", una-se ao transe absoluto dos lunáticos.


Existem certas inspirações humanas que superam as espessas barreiras dos bunkers de concreto, atravessam fiordes e alcantilados, explodem nos pináculos e as obras produzidas por elas ecoam o "abrem alas" em longínquos territórios. Obras desse porte são imortais... e além de superar as expectativas, desmontam as teses pessimistas do "nem vou tentar, pois não dará certo".

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Disciplina é a medalha de honra ao mérito dada pelo tempo a quem faz direito. Ou esquerdo, também. O lado não é nada importante quanto a disciplina do fazer perfeito.

Alemães. Essa é uma das nacionalidades de povos que deveria ser exemplo para os países que principiam o nascimento, mas por aderir as culturas americanistas do consumo ostentador, estão muito aquém de digerir as obras feitas pelos mestres da revolução construtivista, cultural e humana. O Rockpalast é um desses projetos, uma dessas obras imemoriais que remontam os tempos e ainda que os aparatos tecnológicos encurtem os pontos cardeais da rosa dos ventos, é desconhecida em boa parte do planeta.

Incrível a energia desses quatro magrelos no palco. Quem oxigena os neurônios com o mais puro rock, jamais morrerá depressivo.

Golden Earring: banda fundada em 1961, na cidade de Haia, Holanda. Nesse show ao vivo, contrário dos trabalhos em estúdio, os metais cruzam com as cordas num ritmo frenético, alucinante e pesado. Como resultado, o suor e a energia dos quatro magrelos se misturam, perfazendo um espetáculo único, indizível e digno de ouvidos sensíveis. Sem muito papo com plateia e muito barulho nas caixas, os quatro entram em cena avassaladores. E enquanto o vocal do multi-instrumentista Barry Hay levanta a plateia, George Kooymans desgastam os dedos no baixo duplex, Rinus Gerritsen desfolam as cordas da guitarra, nos fundos, Cesar Zuiderwijk se transforma numa centopeia humana e girando o corpo 360 graus ao redor de sua insanidade, bate forte nos pratos e bumbos. Foi a partir dos anos 70 em diante que a banda aderiu o hard-rock nervoso, agressivo; porém, sem excluir as harmonias e quebras de notas do rock Progressivo. Indiscutivelmente, em se tratando de rock, Golden Earring foi uma banda sui generis. Aliás, não só ela, mas as bandas vindas dos Países Baixos são tradicionais nesse tipo de linguagem sonora; e se cada uma é mais audível que a outra, o negócio é aplaudir todas.

Por volta dos anos 70 a emissora de Tv alemã WDR (Westdeutscher Rundfunk) tomou a decisão de radicalizar sua programação e para isto, despiu-se do comum, jogou fora a roupa da igualdade vestida pela maioria das emissoras e convidou o rock (chamado por quem escreve este de rock puro e honesto) para fazer parte da inovação. E o novo cenário musical caiu bem, cobriu com o suor da combustão produzida pela caloria do espetáculo, as noites geladas alemãs com muito som genuíno nas caixas. Impreterivelmente, o calor do rock protege e aquece os seus... enobrece os tímpanos e agasalha a alma.

À ocasião o espaço disponibilizado para o evento, disposto para a indecente incandescência musical era pequeno, minúsculo, fazendo com que músicos e plateia se aconchegassem ao som estridente e desrespeitoso de guitarras, baixos, bateria, teclados, flauta, oboé e outras variedades de instrumentos. Sem maiores fantasias de palco e lembrando os cenários undergrounds, o ambiente (pouco maior que cinco estúdios de gravação) era com pouca iluminação, certa deficiência acústica e para compensar o pouco investimento, os diretores, engenheiros e entusiastas do projeto, apostavam em bandas renomadas para "incendiar, tocar fogo" no espaço. Chiados e iluminação não eram tão importantes quanto a competência dos músicos; e obviamente, quem aportava no templo e castelo do rock não decepcionava, jamais. Sobretudo, os protagonistas do rock puro e honesto sabem que dinheiro é o passo de gigante a caminho da fama; porém, não menos, o abismo que atende pelo nome de decadência. Como prova, com a aparição dos mega-eventos promovidos por empresários inescrupulosos nos idos dos anos 90, a indecência do rock como sinônimo de rock, disse adeus às caixas acústicas.

Resistindo aos tempos sombrios da boa e evitada música de qualidade, os quais estão atrelados aos dias atuais, o projeto permanece firme e perseverante com sua proposta musical; e se em tempos idos o rock rolava solto e desembolado pelas madrugadas europeias adentro, atualmente o Rockpalast está envolvido em vários festivais, cuja finalidade é renovação e manutenção da música alternativa. E sem jamais perder a ternura do rock alternativo. Rock é rock e onde a energia do estilo pousa seu musical reverberante, as paredes tremem, as mesas dançam esparramadas, o líquido contido nas garrafas rodopiam, os copos enchem, as mentes entram em erupção e os corpos desnudos dão adeus à hipocrisia do "fazer, sem deixar transparecer."

MTV.jpgSegundo Sócrates, a ironia e a maiêutica escrevem a arte cotidiana. Portanto, se a decadência não fosse tão presente no tempo, o escárnio fraseado acima ainda seria pertinente e atual. É o canibalismo do tempo salvando ou triturando a caça viva, nesse caso específico, sorte da Globo. Escapou, sobrevivendo ilesa.

Contrário do velho mundo, no inovado Brasil, troca-se a cultura ruim pela pior, sempre! Vamos a mais um caso.

Em 1989 a MTV, canal de televisão brasileira iniciou sua programação musical. Basicamente a programação era uma cópia de emissoras estrangeiras. Em princípio, os vídeos clips eram os recursos tecnológicos usados, mudando a "cara" dos quadros e sessões de música. A novidade prendia o telespectador à televisão; objeto doméstico que a letra da banda "Titãs" diz que os "deixou burro, muito burro demais."

Com o tempo, novos quadros foram sendo incorporados à programação e o mais notável foram os acústicos MTV. Semelhante a luau, músicos e público se reuniam em espaços abertos ou no pequeno estúdio para a gravação do musical, o qual se transformava em um sarau de pequenas proporções. Embora antigo no velho mundo, o projeto foi aderido por todos e dentre os inúmeros músicos que deram motivo às palmas e assovios dos ouvintes, destacaram-se Cássia Eller, Raimundos, Titãs, Barão Vermelho, Rita Lee, Legião Urbana e muitos outros.

Com a decadência do rock brasileiro - se é que houve rock em terras obscuras pelo domínio dos corruptos - e descontinuidade de projetos culturais voltados para a música alternativa, em 2013 a MTV fechou as portas, lacrando-as com potentes ferrolhos; e VJs, DJs, apresentadores, locutores e o público em geral ficaram órfãos de algo que se não foi um primor de programação como é o Rockpalast até hoje, pelo menos conseguiu preencher uma lacuna cultural até então inexistente. Com o fim da emissora, ficou provado que no Brasil, troca-se o ruim pelo pior, sempre! Mas nem tudo está perdido e tome funk na cabeça, acéfalo! Dá próxima vez: pennnsa, seja mais assertiva, cabeça!

E se comparado, a diferença entre o rock que se fez e faz na Europa, com o rock nacional, já era brutalmente gritante; pior agora com os enlatados americanos e essa porcaria que atormenta qualquer vivente. Cruz credo; credo em cruz! Destarte, nem tudo é terror, e tome pagode na cabeça, desmiolado!

"Alegria do povo é sambar e sonhar" - Notório Zé Ramalho, mas para o brasileiro que conhece e desfruta do rock puro e honesto, sonhar é necessário e certamente, não samba.

P.S.: um detalhe a se atentar no show do Golden Earring, é quando a banda ameaça terminar o espetáculo e a plateia aplaude, assovia e em uníssono, grita o tradicional "mais uma, mais uma, mais uma". Os integrantes retornam aos seus lugares e em vez de mais uma, destilam o mais puro rock sobre os ouvintes por quase uma hora ininterrupta.

Convenhamos, comparar a fracassada MTV brasileira com a Tv alemã WDR (Westdeutscher Rundfunk), é o mesmo que comparar o som do grupo "Os Para(barros) do (in)Sucesso e outras lamas mais, que dizem ser rock nacional, com a energia sonora do Golden Earring.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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