ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Live aid foi uma das ideias geniais do lado B da humanidade

“A pior das loucuras é, sem dúvida, tentar ser sensato em um mundo de loucos.” - Erasmo de Rotterdam


Passou da hora de entregar o mundo para os doidões de pedra, ou como queira, para os loucos varridos, considerados o lado "B" da espécie Homo Sapiens; porque os normais e sanos já provaram que necessitam usar camisa de força. Esses, se decapitarem-lhes a cabeça e em cima do pescoço, entre duas orelhas, colocar uma jaca podre com um chumaço de cabelo em cima, o corpo não sofre nem um pouco; porém, não digo pelo leitor, mas eu sinto pela perda da fruta que poderia adubar o solo para o plantio futuro, pois renovar a safra biologicamente é preciso.

Ademais, em tempo, a miséria, a fome, a pobreza e as guerras são alimentadas pela imbecilidade gananciosa humana, por ora representada pelo lado "A". Do lado oposto, o que significa a expressão Live Aid, ou Auxílio vivo? A nomenclatura tanto faz, porque o idioma não altera a ajuda aos que necessitam de ajuda. Aliás, por não falar a linguagem dos doidões que ainda teimam em respirar um mundo igual e justo para todos, são os bestializados do lado "A" que se prendem ao dinheiro, ao poder e idiomas. Caminhando na mesma via dos andantes do lado "A", além de falar todos os idiomas, os famintos e predadores cemitérios possuem endereços fixos e não escolhem as presas.

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Quem deve tomar a sério a loucura? Pergunta-se Erasmo de Rotterdam no seu Elogio da loucura, enfatizando que o dito popular já diz em outros termos que "de artista, médico, escritor, teatrólogo e louco cooperativo, todos nós temos um pouco". Portanto, conclui-se que, ao contrário dos barganhadores e hipócritas influenciados, de louco, todos nós temos um pouco. E quem duvidar dessa verdade irrefutável, apresente-me o totalmente disciplinado e negador do dinheiro, declarante até dos centavos à Receita Federal, praticante das normas, o simplório e reto de conduta, seguidor rigoroso das regras, humilde religioso por fé e crença em Deus, que lhe apresentarei Jesus Cristo.

Contextualização: Ainda hoje o continente africano é a região do globo que mais sofre com as injustiças humanas, com a disparidade econômica entre ricos e pobres, com desigualdade social e que pese o legado deixado pelo seu filho ilustre, o líder ativista Nelson Mandela, a África permanece sobre o assombro da miserável fome, que obviamente, é contra o homem, que audaciosamente é chamado de irmão, pelo verdugo opositor.

"Nenhuma loucura é por acaso". Esse surrado clichê proferido por Profetas, Hermeneutas e Alfarrabistas na antiguidade e plenamente aderido e falado pela massa humana atualmente, também pode ser aplicado ao rock. E por que não? Afinal, a arte sempre esteve à frente de movimentos sociais, porém, foi o musical-rock que liderou esse tipo de evento no mundo todo e quando o caos aterrador descia sobre certo território, uma turma de doidões se reuniam para cantar a paz, o amor e arrecadar fundos e provisão para os necessitados. O rock, além de ser o musical dos anjos e demônios, alimenta a alma, cospe metáforas e hipérboles na cara dos hipócritas e põe um naco de carne na boca dos desdentados.

Em nome do Live Aid, recuso-me escrever sobre as loucuras de vida dos povos, que são velhas e nada novas. Todavia, se os dicionários calam as sinonímias com palavras repetidas, é sobre fraternidade, caridade e solidariedade que elas querem falar.

Sob um ataque de sabedoria, bom senso e loucura solidária, um fulano que atende(ia) por nome de Bob Geldof, líder e vocalista da banda Boomtown Rats meteu a boca no microfone e dividindo o coração em várias partes, juntou uma turma de senhores de mesmo naipe e pensamento fraterno para cantar as canções da fraternidade. E se a data 13 de julho de 1985 assinala os calendários como sendo o Dia Internacional do Rock, (o bom rock, aquele livre de pulverulências escoriais, é música para todas as ocasiões, para todos os dias, para todas as horas) marcou também a data para os africanos carentes terem uma porção de alimento sobre suas mesas mancas, sem cadeiras e menos ainda, comida. Se a miséria e a fome fossem representadas por alguma cor, certamente seriam o preto e o cinza, respectivamente. Porém, a agressiva fome não tem cor e agride, é um torniquete estrangulando as vísceras de qualquer vivente.

live_aid_concert1.jpgA sensibilidade dos olhos remete a mente às ideias; as mãos à operação; a voz às notas da paz; o coração à loucura solidária. E a música arremata, alinhava o quarteto em um grito só: "auxiliem, ajudem nossos amigos; pois diante dos falsos e infundados pronunciamentos sobre elas, abolimos as palavras irmão e semelhante de nossas falas"!

Egrégias figuras da música, tais como Tina Turner, Bob Dylan, Madonna, The Cars, The Who, Roling Stones, Dire Straits, o mexicano Santana, o bluseiro Eric Clapton, o camaleão David Bowie, o metal clássico do Black Sabbath, o ex-Beatles Paul McCartiney; Queen e tantos outros emprestaram suas vozes ao altruísmo musicalizado. Porém, o pico máximo, o ponto mais alto do show foi quando subiu ao palco os três integrantes da extinta banda Led Zepellin: Jimmy Page, Robert Plant e John Paul Jones e para compensar a falta do incrível John Bonham que havia falecido em 1980, o baterista Phil Collins comandou as baquetas e bumbos; que após Peter Gabriel pedir a carta de alforria, foi vocalista e líder da fantástica banda Gênesis.

Os eventos foram realizados simultaneamente em dois estádios de futebol. Um deles no Wembley Stadium de Londres, Inglaterra; e o outro no JFK Stadium na Filadélfia, EUA. E foi nesse palco que mais de 100 mil ouvintes cantaram a plenos pulmões a música de John Baez, outra reacionária em favor das causas sociais. Aliás, à ocasião grávida de seis meses, Baez esteve presente em um dos festivais de Woodstock.

O espetáculo foi transmitido para mais de 140 países e visto em tempo real por quase 2 bilhões de telespectadores; que não ficaram apenas em sacudir o esqueleto e abrir a mente para a música, mas também os cofres da solidariedade. Incrivelmente, o Live Aid conseguiu arrecadar mais de 100 milhões de dólares, valor que sem os desvios, sem as sinuosidades das estradas e meandros espraiados de rios corruptos, foram transferidos em sua totalidade para os necessitados e famintos do continente africano. A parcela maior foi mandada para os etíopes.

Disparadamente não há outra arte mais alternativa e solidária do que a música. E ainda que não seja o puro e honesto rock, essa modalidade de arte entorpece as mentes, lota estádios e conforme a possibilidade, enche os olhos ávidos de quem clama por um prato abarrotado; o que deveras, proporciona um pouco de paz e alegria às barrigas fundas e sedentas por algo de sabor e tempero desconhecidos.

"Os maiores males infiltram-se na vida dos homens sob a ilusória aparência do bem”. Contrário do proferido por Erasmo de Rotterdam, em resumo, sem a solidariedade dos doidões de pedra e dos loucos varridos, a vida seria como um vendaval tormentoso em profundas lembranças do nada. Esperança de pratos vazios. Ademais, quem canta, faz a tempo e hora e não espera pelo amanhã; e parafraseando o aforismo popular, quem canta, as inculcações da mente, as estrias e as celulites do corpo e os males do estômago, espantam!

"Nenhuma loucura é por acaso", não menos, o exercício do amor. Tanto em um como n´outro, existe um porquê... e sem os músicos fazerem caso do bem que fizeram, foi assim que instituiu-se o "DIR: Dia Internacional do Rock". E através de eventos semelhantes ao Live Aid, ficou provado mundialmente que a música é a única modalidade de arte solidária, dentre todas as artes.

Muito além de ser encontro de loucos, doidões e roqueiros, o Live aid foi o canto reivindicatório de como libertar os estômagos das garras da fome!

Leitor amigo, de que mal, de que loucura ou genialidade, você sofre?

P.S.: auxiliar e ajudar o próximo sem nada exigir em troca é uma ideia artística genial; e em certos casos, funciona! E você leitor, o que tem feito para apaziguar a erupção dos ácidos gástricos nos estômagos, devido a falta de comida? Vai descarregar o peso da culpa que persegue o seu coração, ou manter-se-a quieto e estático em cima do muro, o qual foi construído pelo suor da dignidade para separar o capitalismo do lado "A", das castas menores do lado "B"?


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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