ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

A contribuição de Geraldo Vandré para o instrumental Jazz/bossa Brasil

No contexto geral, o jazz/bossa é um estilo elitista e conceitualmente, além da pouca ligação com os demais gêneros musicais, diferenciado. Em razão disto, para entender a fundo de jazz, somente sendo musicista/jazzista; no entanto, para os desentendidos no assunto, como quem escreve este, em meados de 1960 houve um genialíssimo quarteto musical que deu o que falar nos minguados espaços alternativos. E após apurada toda falação, restou o silêncio de um disco que é o ápice da música instrumental brasileira. Vale o sacrifício de ler sobre e antes que adormeça de vez nos monturos do esquecimento, ouvi-lo mais ainda...


Contextualização: a não ser através de tom Jobim, um estilo pouco, ou nada difundido no Brasil é o instrumental Jazz/bossa. Contudo, não por falta de competência de nossos músicos; ao contrário, pois alguns dos muitos dos melhores músicos desse estilo que circularam pelo mundo, eram crias do país. Aliás, misturando as várias tendências e diversidade musical, o pouco de jazz/bossa que o Brasil teve não ficou devendo nada para os americanos, considerados os pioneiros nesse estilo de arte.

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Geraldo Vandré, exatamente ele, o homem devoto das leis e amante de poesias, o paraibano que caminhava cantando e seguindo as metáforas que desafiavam, escarneciam o regime militar, foi quem propôs a formação do "Quarteto Novo" para acompanhá-lo em seus espetáculos musicais. E obviamente, para um músico de seu quilate e riqueza cultural, nada melhor que uma banda compatível com seu poderio musical. Ademais, por que caminhar sozinho bebericando os tragos da perdição em noites solitárias na capital da garoa fina e cortante, se ele podia caminhar bem acompanhado?

Inicialmente, o preâmbulo embrionário do que mais tarde veio a ser "Quarteto Novo", era formado pelos músicos Theo de Barros no contrabaixo e violão; Heraldo do Monte nas cordas (viola e guitarra) e na bateria e percussão, Airto Moreira. Aproximadamente um ano após a formação do chamado "Trio Novo", o albino experimentalista, (tirava som até mergulhado em uma banheira com água) flautista e multi-instrumentista Hermeto Pascoal, integrou o conjunto.

Com essa formação, o grupo lançou pela extinta gravadora Odeon, o disco homônimo. Flertando com a bossa nova liderada por Tom Jobim, a obra musical de rara beleza, prima pelo instrumental jazzístico clássico e numa metamorfose sonora adimensional, os instrumentos perfazem harmonias perfeitas. Já as canções são dos quatro, ou emprestadas por ninguém mais e nem menos, que Geraldo Vandré; Luiz Gonzaga; Zé Dantas; Dori Caymi; o jornalista e escritor Nelson Motta. De todos esses colaboradores, difícil é pinçar quem é o melhor; porque o menos ruim está na fila até enquanto escrevia este texto, esperando pelo chamado e vez.

No mesmo ano de lançamento do disco, o Quarteto acompanhou Edu Lobo e Marília Medalha no 3º Festival de Música Popular Brasileira. Como esperado, a música "Ponteio" arranjada por Edu e interpretada pelos músicos foi a vencedora do festival. No final da década, o Quarteto foi desfeito e cada músico partiu para carreira solo. Entretanto, para recordação de todos os adeptos do jazz/bossa brasileiro, o bolachão de petróleo foi reeditado quatro anos após o desfazimento do conjunto.

Para os amantes desse estilo de música, o happy hour do jazz alegra o desfalecer das tardes; e embora tenha passados quase 50 anos, o atualíssimo bolachão de petróleo produzido pelo "Quarteto Novo", é indispensável e necessário em qualquer brinde à filosofia construtivista dos intelectuais.

E ainda que o leitor não seja nada ligado aos movimentos ativistas de esquerda; ainda que não seja militante de movimentos revolucionários; ainda que os raios de sol sejam semelhantes ao AI-1 (Ato Institucional 1) e perpassem as vidraças do ambiente, impondo regras, cerceando sua inteligência e retardando a saída do trabalho para a reunião com os amigos de copo no boteco da esquina, fique com a levitante pitada musical do Quarteto Novo, nominada "Fica mal com Deus", canção e arranjos do rei do baião e ás do forro pé-de-serra, Luis Gonzaga.

Além do casamento perfeito entre as harmonias, a capacidade de improvisação do Quarteto era algo fora da realidade; e nessa amostragem musical, transforma o ritmo, os arranjos e acordes do forró em jazz/bossa instrumental clássico; provando que gênio não nasce de qualquer revolução parida nas mesas dos botecos das esquinas.

[...] Então não pude seguir valente em lugar tenente / E dono de gado e gente, porque gado a gente marca Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente / Se você não concordar, não posso me desculpar Não canto pra enganar, vou pegar minha viola / Vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar [...]

O rebelde por instinto e natureza, o verdadeiro executor de obras revolucionárias não aceita ser e jamais será tangido pela vara ferroadora do tocador de gado. Mas para isto, quem está na linha de frente, liderando a rebeldia, faz e não espera acontecer.

Em contrapartida, ainda que o tsunami "lambe-tudo" tenha se formado em alto-mar; ainda que o enxame de abelhas esteja zumbizando furioso nas planícies descampadas ou nos campos de altitude, boa parte da manada de equinos e bovinos continuam mascando o alimento, ruminando o maço de mato na palhada. Erva seca, ressonar debaixo do sombreado e de quando em quando, um gole de água fresca é o que esses animais mais querem.

P.S.: Depoimento dado recentemente por Vandré para um jornal da capital paulista, sobre a canção "Disparada", de sua autoria e Theo de Barros, em 1966: “Ele pegou a música caipira, juntou Guimarães Rosa e fez uma coisa completamente nova. Como obra de arte, "Disparada" talvez seja a música mais perfeita que o Brasil já produziu”.

Depois dessa, ouvindo o violado de Vandré em "Disparada", finalizo o artigo e recolho-me, enclausuro-me no silêncio absoluto da minha ignorante estupidez. Sou gado marcado e não nego minha espécie.

É notório saber que a letra desta canção foi composta numa viagem, a qual, contando casos descontraidamente de caipiras e observando os costumes e hábitos dos matutos, os dois fizeram para Catanduva, cidade do interior paulista.


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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