ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

O dia que a arte despiu a mente dos espectadores

Ao ter contato pela primeira vez com os índios, Pero Vaz Caminha escreveu a carta abaixo:

"Andam nus, sem coberta alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou mostrar suas vergonhas; e nisso tem tanta inocência, como em mostrar o rosto. Até que um dia alguém viu maldade naqueles corpos nus, e os obrigaram a vestir suas vergonhas!

Triste é quem vê pecado em um corpo nu. Assim como quem tem tesão ao ver uma mãe amamentando. Onde está a mente que realmente é doente? Nossa mente já foi tão bombardeada de erotismo barato estampada nas capas de revistas ou mesmo nas tiras de jornais, que já não conseguimos ver pureza e beleza natural em um corpo nu.

É hora de despir a mente das impurezas... quem consegue?"




Contextualização: a arte faz perguntas, aponta respostas, dirime dúvidas, escancara as realidades e revira as verdades...; sobretudo, a arte mostra as imagens das feridas em carne aberta. Doa em quem doer; e se não for assim, não é cultura artística. A arte em troca das verdades não faz média com quem é de diplomacias veladas e democracias sigilosas; afinal, a arte não se prende ao que as sociedades "impõem como regras e procedimentos corretos". Ao contrário, são as regras e os procedimentos corretos impostos pelas sociedades que inspiram as artes.

exposição.jpgTravesti de lambada e deusa das águas, de Bia Leite, 2013. Divulgação

Breve explanação sobre Ideias, Artes, Ideário e Sociedade:

Por Ideias, entende-se o que é formulado no campo imaginário, uma verve em forma de projeto espacial e muito provável, daquilo que se pretende executar. No meio social, um profissional que milita constantemente com essa teoria é o arquiteto, pois, primeiramente pensa a criação espacial, para em seguida, traçar a geometria do imaginado no papel. Como disse Einstein: "A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará a seu tamanho original". O físico disse isso por que, pelo fato dos humanos terem a faculdade de pensar, ainda que não concretize, constantemente estão formulando ideias e alargando os horizontes racionais da mente, investindo na valorização do corpo e buscando, incessantemente, a elevação do espírito.

A arte por sua vez, a grosso modo, é a maneira artística dos humanos expressarem suas emoções, sentimentos, história, beleza estética, a harmonia, a cultura e o equilíbrio da "peça" a partir das ideias. As artes são representadas pelas imagens, fotografias, signos e o objeto materializado, propriamente dito. A primeira lei do Direito pontua que as leis emanam do povo, em defesa do povo e para o povo. Analogamente, as artes emanam da sociedade, para uma profunda reflexão social sobre a mesma sociedade, a qual emanou a arte.

Em linhas gerais, ideário pode ser entendido como o conjunto de ideias e a implantação das mesmas, em forma de arte. Portanto, ideário é a arte finalizada e posta em prática. Por exemplo, uma exposição é o ideário do propositor, juntamente com o organizador e curador da obra artisticamente idealizada.

Basicamente, no reino animal, impossível é o vivente sobreviver isoladamente; motivo dos ocupantes de determinado espaço geográfico unirem-se gregariamente em grupos e bandos, formando as populações de espécies. No caso dos humanos, a população é formada pelo agrupamento de indivíduos, cuja "finalidade é usufruir socialmente do bem comum". Dotadas de discernimento, sabedoria e racionalidade, assim posto, as sociedades humanas são "organizações supostamente civilizadas" que se unem em prol do trabalho e uso do bem comum; e primando pela harmonia grupal, a igualdade e justiça é regida por um conjunto de leis e regras. Será mesmo que essa ideia é aplicável ao meio social brasileiro?

Sobre a exposição:

No início do ano o banco Santander Cultural garimpou várias obras de artistas renomados e após ordená-las em ideias artísticas, concretizou-as na Exposição Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira. Os trabalhos ficaram expostos aproximadamente um mês, quando uma enxurrada de reclamações e queixas nas redes sociais contra os temas, pôs fim ao projeto. Como as Ciências Humanas sofrem com o (pré)conceito interpretativo e cada pensante associa o que os olhos veem ao que é latente e oculto, os motivos das reclamações variaram de supostos ataques às crenças sagradas, ao incentivo à zoofilia, pedofilia e erotização de crianças.

Inicialmente, em defesa da arte e dos artistas, o banco emitiu uma nota, a qual referia-se ao evento, dizendo que a exposição é "justamente para nos fazer refletir sobre os desafios que devemos enfrentar em relação a questões de gênero, diversidade, violência entre outros". Por fim, o dinheiro falou mais alto e sob alegação que poderia haver uma retaliação por parte dos clientes e diante dos severos ataques impostos pelo povo, repercussão negativa causada e das tempestades de reclamações, o que poderia resultar em uma provável perda de investimentos e diminuição nas contas do banco, o Santander Cultural deu cabo à exposição que ficaria aberta ao público até 8 de outubro.

Os diversos olhares sobre o entrevero causado:

Segundo o curador que já fez duas bienais do Mercosul e nunca tinha visto algo parecido. As manifestações foram muito organizadas e se debruçaram sobre algumas obras muito específicas, que não dão a verdadeira dimensão da exposição. Esses grupos [de críticos] mostraram uma rapidez em distorcer o conteúdo, que não é ofensivo", disse Gaudêncio Fidelis ao jornal O Globo.

Já Antonio Grassi, ex-presidente da Fundação Nacional de Artes e atual diretor executivo do Inhotim, classificou a "A arte como o melhor lugar para debater. Eu vejo como preocupante esse tipo de movimento que impulsiona esse tipo de intransigência com o debate. Essas ideias de intolerância são incompatíveis com a arte. É uma censura", disse ao EL PAÍS.

O crítico de arte Moacir Dos Anjos, que já foi curador da Bienal de São Paulo, também criticou a decisão. "Rumo ao passado. E que vergonhosa a nota do Santander, querendo justificar, valendo-se de hipócrita retórica corporativa, o ato de censura que cometeu. Viva a diversidade!", escreveu no seu Facebook.

Para Kim Kataguiri, um dos líderes do MBL, - Movimento Brasil Livre - : "Isso é um boicote que deu certo, não uma censura", escreveu.

Como escritor deste, faço a seguinte pergunta sobre a justificativa de Kim: qual a diferença entre o AI, (Ato institucional) censura, cerceamento de linguagem e boicote? O leitor que interprete a pergunta e responda como, e o que quiser sobre a mesma.

Recorrendo ao conceito de que "sociedades são "organizações supostamente civilizadas" que se unem em prol do trabalho e uso do bem comum. Primando pela harmonia grupal, a igualdade e justiça é regida por um conjunto de leis e regras"; o viés é que se ainda necessitamos de exposições, como foi a criação artística proposta pelo banco, é porque não atingimos o estágio elementar do civilismo, não sabemos o que é cidadania e em troca do "os tempos mudaram", desprezamos o respeito mútuo nos caminhos do liberalismo, perdemos o senso de bom senso e nunca mais o encontramos; dispensamos o discernimento de brasileiros construtivos e operantes em prol do todo; fato e virtudes que facultariam, inclusive, a arte do trabalho de retratar-nos através de uma exposição.

Bye, bye arte brasileira; bye, bye Brasil; porque o brasileiro de modo geral não merece o imenso e sublime país ofertado a ele gratuitamente e o pouco de ideias artísticas que ainda perduram em certas mentes lúcidas e esclarecedoras! Afinal de contas, pelos campos minados por onde uma população de serpentes peçonhentas se arrasta, ainda que tente desvencilhar do cordão, fuja como o diabo foge da cruz, a invisível sombra da hipocrisia segue milimetricamente o rastejar das víboras.

Fonte pesquisada e crédito da imagem: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/11/politica/1505164425_555164.html

A conclusão do artigo, traduzida em um sub-artigo:

O dia que um povo arredio se rebelou contra a arte, se rebelou contra si; sobretudo, porque não há nada mais revelador dos costumes e atitudes de um povo, do que a arte. Mais: rebelou-se contra as verdades de um trabalho artístico sério e honesto, porém, no entanto, jamais tornarão a exposição e os artistas mentirosos.

Como povo é povo e dificilmente chegará ao ápice de ser uma nação, os prosélitos seguirão dividindo seus podres poderes, dividindo o país em segmentos raciais, políticos, econômicos, educacionais, feministas, machistas, religiosos, em opções sexuais, ...istas, egoístas, etc; e o pior, hipocritamente, silenciando a arte denunciadora; que pode muito bem ser limitada à faixa-etária do público espectador. Através da proposta de livre entendimento e expressão interpretativa, perde tempo conferindo uma exposição artística quem quer...ou, quem é de arte. Sobretudo, quer forma de arte mais pura, tenra e inocente, do que corpos nus sem ser molestados pela maldade dos olhos e mentes débeis numa praia de nudismo?

E diante de tantos rachas de sensibilidade; de tantos acontecimentos canhestros omitidos; de tantos melindres emotivos; diante de tantos querubins corruptos com duas pernas pulando com uma; de tantos clubes de troca de casais sigilosos que não abrem a boca para dar um psiu entre os dentes; de tanta divisão de poder; diante de tantas leis pacificadoras; de tantos egos gritados; de tanto falso moralismo; diante de tantos capôs de carros e gargalos de garrafas deflorados pela dança escandalosa do funk em praça pública; diante de tantos lençóis inflados nas camas dos programas de reality show às 20 horas. Se em nome do dinheiro e de gritos infundados do povo, tolheram a exposição, segue o escancaramento do não revelado... segue a catarse que nas CNTP social, as quais estamos chafurdados, dificilmente, se purificará.

Diante de tantos enquadramentos ao politicamente correto; diante de tantas famílias que, com a desculpa que "é melhor fazerem perto de nós, do que longe", liberam a casa e o quarto de casal para os filhos fazerem um auê, (o chamado bundalelê, que foi musicado e aplaudido com glória) fumar um baseado, - maconha, por baixo - e transar à luz dos raios de sol ardente do meio dia; pode-se afirmar que em sentido amplo e extensivo a "sociedade" brasileira é um grupo de sócios que trabalham e operam, para no fim, todos usufruírem do bem comum; que é a potência de recursos, chamada Brasil? Após 500 anos e mais uns rolos de fumaça na atmosfera, esse é o provinciano, ingênuo, (ana)crônico e realizável pensar dos nativos brasileiros?

P.S.: Invertendo o processo e dando razão às ideias e ao que o povo pensa, a arte é contra as "verdades dos bons pensadores sociais" e por manifestar-se assim, torna-se mentirosa. Não obstante, a arte é, antes de tudo, uma antítese caluniadora e por vezes, inverte os valores do exposto. Em nome da paz e para alegria geral, abaixo a arte esclarecedora de visões míopes, estrábicas e turvas!

Passou da hora de despir a mente das impurezas, exonerar a fuligem da hipocrisia dos óculos e extirpar a autocorrupção do coração...; mas como fez Cristo, quem se habilita em pôr a cara para bater? Mesmo porque, um tapinha artístico bem leve com luva de pelica, faz um tremendo estrago na cara...; óbvio que faz um tremendo estrago na cara de quem tem brio na cara!


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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