ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Um lorde depravado traiu a moralidade inglesa

“As mulheres não sabem o que querem, e não dão descanso, enquanto não recebem aquilo que querem.”



Perguntaram ao mendigo de fala arrastada, olhos remelentos, fedorento por princípio, prazer hedônico, felicidade e livre-arbítrio: "Você desperta, salta desse seu ninho pulguento, não cospe o catarro do peito chiado no chão e nem lava o focinho na poça de água benta que desceu do céu e acumulou-se na terra, velho inglês porco de guerra"? Ao que ele respondeu: "Claro que não, se assim fizer, lavo a minha dignidade. Honestidade não veste qualquer roupa e muito menos, necessita de perfume francês para mitigar o mal odor do sovaco. Vocês se unem aos porcos e querem comer iguaria melhor, que não seja lavagem; que nada mais é, o resquício, a imundície liberados por vós, súcia imprestável? E por favor miseráveis humanos, vão dando o fora daqui, já; vão importunar outro, seus improdutivos infelizes." Deixando para trás as pegadas da arrogância, o jactante filósofo e "representante do lúcifer na Terra" retirou-se da multidão. Embora corcunda pelo tempo, ainda fazia valer o legado recebido dos pais, o qual martelava-lhe a consciência para não se misturar com os podres de conduta e mundanos de vida desregrada.

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Por onde caminhavam, por onde o tropel de passos avançava, um véu tapava-lhe a visão, causando-lhe a cegueira incondicional. E não havia oculista que desse jeito no horizonte ao longe que nunca se aproximava dos pés dos caminheiros... entretanto, infiltrado no meio da sociedade inglesa havia um andarilho, visionário, literato, dramaturgo, bisbilhoteiro de olhos perspicazes, desafiador dos costumes e hábitos que não rompiam com as normas estabelecidas pela Rainha. Em compensação, sua conduta, seu estilo irreverente como cidadão inglês, atacava a moralidade, deturpava o que definiam como retidão de postura, depravava as leis e os mandos da monarquia.

Nos idos de 1890, o fog (fumacê) londrino cobria o país com a névoa da hipocrisia. Como não bastasse, para aumentar ainda mais a sordidez, tanto da poderosa Rainha Vitoriana, quanto do sistema familiar, a sociedade inglesa chafurdava-se em escândalos e mais escândalos. Era levantar os tapetes, tanto dos lares quanto do reino dos monarcas, que o lixo escandaloso gritava socorro e escapuliam lepidamente do sufoco asfixiante o qual foram submetidos. Todavia, a verdade fundamentada é brasa que causa queimaduras nas faces dos rostos, supostamente briosos pelas aparências das maquiagens, os ingleses pediram explicação ao arredio denunciador e depravado, Oscar Wilde, que ao lançar a segunda e definitiva tiragem revisada do livro "O retrato de Dorian Gray", escreveu aos furiosos e contrários às suas condutas de pai de família e homossexual declarado, dizendo que "Não existem livros morais ou imorais. Livros são bem ou mal escritos. Isso é tudo".

Espreitando sua defesa com olhos de águia e raciocínio de analfabeto, tal qual foi o filósofo Sócrates, o que há de verdade em suas palavras, ou foi apenas um trocadilho para pontuar que não existem sociedades morais ou imorais? Sociedades são bem ou mal formadas no decorrer do tempo e dependem, exclusivamente, dos genitores da célula-mater. Fazendo um paralelo dos tempos e povos, se isso é tudo, o Brasil necessitará de um Oscar Wilde para retratar em livros os muitos Dorian Gray brasileiros; porque a safra atual não é nada saudável e o pior, os carunchos e as brocas foram tapados pelos espelhos, denominados famílias e devidamente envernizados com material selante pela sociedade.

- Não tente me convencer de que você pretende ser uma pessoa melhor - exclamou lorde Henry. - Você já é perfeito. Não mude, eu lhe peço.

Dorian balançou a cabeça - Eu já cometi muitos pecados terríveis em minha vida. Eu não vou repeti-los. Ontem mesmo, comecei a praticar boas ações.

Esse diálogo entre lorde Henry e Dorian no início do capítulo 17 do livro ilustra bem, é característico como os humanos agem durante o ciclo de vida. Nascem ingênuos, autênticos e no decorrer da vida, aos poucos vão tomando os tragos das impurezas, infiltram nos labirintos da perdição, saciam os prazeres da gula comendo carne vermelha, degustam um bom vinho, lambuzam os corpos com chocolate derretido, leite condensado e pequenos nacos de morango nos nas camas dos quartos de motéis com a(o) parceir(o)a - estepe em dias de solidão; e conforme as chances proporcionadas pelo meio, atingem o pináculo maior, que é o poder. Impossível um ser pensante, alguém em sã consciência negar, fechar os olhos, dizer não e sustentar o não até morrer, perante uma bolada de dinheiro e o glamour da fama. Inteligência nenhuma, consciência nenhuma é cobrada pelo que lhe vem às mãos sem o menor esforço. Ao contrário, sorriem felizes, quando a sorte abastam-lhes. Aliás, tanto antigamente como hoje, pelo imediatismo de quererem tudo para ontem e por encontrarem dificuldade até nas facilidades, tomam a sopa pelas beiradas do prato. Preferencialmente à temperatura ambiente, ou menos; afinal de contas, como o alimento recém-saído das panelas ferventes e trabalhar lavando banheiros, além de queimar a boca, dão trabalho para as mãos e os demais órgãos do corpo.

Que isso..., pensar tal coisa da raça humana é insanidade de Oscar Wilde ou demência de Profetas? As vestes, a redução de estômago, o consumismo supérfluo, as muitas tecnologias; as receitas de culinária da Ana Maria Braga, a dança dos famosos; a coroa de ouro, a pelota rolando nos gramados; a massa aplaudindo e berrando "gool"; e as cirurgias plásticas são tão necessárias à vaidade humana, que dia a dia tem de ser trocadas e revisadas pelos espelhos e balanças de alta precisão. Óbvio que no tocante à beleza e fantasias egoicas, as mulheres estão acima, muito acima, anos-luz à frente dos homens. Pois, nem que seja por um minuto, não há mulher nenhuma que não queira ser rainha... e quanto mais os espelhos disserem que ela é bela, proporcionalmente, será o valor da venda da joia que trazem guardada na caixinha porta-joia.

-Essa velha realidade feminina não é conto do vigário, não, Profeta!

- Se não é conto do vigário, é verdade absoluta que vale ouro, lorde depravado!

Porém, como as maquiagens são desmanchadas pelas lágrimas, rugas e pés-de-galinha que demarcam as depressões do tempo nas faces, uma hora ou outra - e o momento mais propício, é quando a vida exorciza a morte - o moribundo meditará sobre as medidas necessárias a serem tomadas para a redenção dos pecados. Fato comum entre todos os mortais, a verdade é que ninguém foge a essa regra. E sob a irreverência sarcástica e notório cinismo do personagem lorde Henry Wotton, Wilde amarra, alinhava a metafísica da contradição no enredo do livro. Da primeira à última palavra, o autor costura os retalhos de uma colcha social que aparenta ser felpuda e nobre, mas que ao ser revirada pela sua pena voraz e contundente, mostra-se podre, inútil e indigna de elogios. E se dependesse exclusivamente dele como juiz e sentenciador, seria lançada sem ressalvas, nas fornalhas aquecidas pela temperatura máxima dos braseiros no inferno.

- E onde você estava?

- No campo. Estava hospedado numa pousada. - resposta de Dorian, a Henry.

- Meu querido rapaz, qualquer um é capaz de ser bom quando está no campo. Trata-se de um ambiente que não oferece nenhuma tentação ao homem. É por isso que as pessoas que vivem distante da cidade são tão incivilizadas. Alguém que deseje ser civilizado precisa ter contato com a cultura ou (e) a corrupção. Os interioranos não tem acesso a nenhuma dessas coisas e assim sendo, não conhecem a civilização. De qualquer maneira, você não me contou qual foi sua boa ação.

Wilde pensava, exatamente como pensava Erasmo de Rotterdam, que bem antes de Wilde e suas depravações, disse: "Os maiores males infiltram-se na vida dos homens sob a ilusória aparência do bem”. E convenhamos, o que esperar da espécie que as aves rapina (aves que são consideradas os garis do planeta) dispensam como alimento, sobrando a sua decomposição para os vermes, a não ser as suas atitudes "límpidas e transparentes", as quais nos são apresentadas de minuto em minuto?

oscar-wilde-1.jpgWilde foi preso por ser adúltero feliz e homossexual declarado, opção sexual contrário à rigidez proibitiva da lei Vitoriana; que seguia rigorosamente a igreja e caso quisessem separar as carnes que o "padre uniu no Espírito Santo de Deus", somente através da morte. E ele deu a vida como pagamento pela jura de amor eterno não cumprida.

O último parágrafo do livro relata para quê a beleza, a ganância, o poder, o dinheiro, a jactância, o adultério, os espelhos, a crueldade e a passionalidade vaidosa foram introduzidas na vida dos humanos:

"Ao entrarem, encontraram, pendurado na parede, o retrato de seu patrão, uma pessoa atraente e jovem. No chão, o cadáver de um homem extremamente bem-vestido e com uma faca cravada no coração. O homem que lá jazia tinha uma aparência repulsiva, a pele enrugada e degenerada. Os anéis que o morto portava em seus dedos eram a única prova que restava da identidade de Dorian. Não fosse por esse pequeno detalhe, ele jamais poderia ter sido reconhecido".

Na floresta de alto dossel que exala o verde puro, na mata virgem de belezas paradisíacas, frequentadas pela alta sociedade, só os burgueses respiram oxigênio limpo e filtrado... o restante assiste a procissão de cães vira-lata passar como olhos de águia e mãos abanando. A sociedade, o poder, a riqueza, os espelhos, os animais, eu, ambos, tudo e todos não passamos de farsas presentes na Constituição Federal e embora declaradas, não seguidas conforme descritas e apregoadas.

Para não escancarar as depravações de um lorde inglês, mais do que já as escancarei, faço das palavras dele, as minhas, e enquanto a Natureza é sábia em fecundar a harmonia entre os seus dependentes, estúpido e imbecil é o homem que dá crédito e acredita no homem. Pois, como de conhecimento de todos, a Natureza é ecumênica e pluralizada; já o homem é individualista e possessivo. Portanto, realmente, o homem é singular; estupidamente, singular!

P.S.: o inferno demorará um tempo, talvez séculos e mais séculos, para produzir outro depravado inglês... pois, para escrever nos anais da literatura o que escreveu, Wilde não professava de maneira alguma, a onisciência e a onipresença de Deus. Sem dúvida, sua escrita escancara a construção das particularidades do mundo através das benevolências e facilidades operantes da boa-vida, razão pela qual, o bem-estar advindo das mordomias sociais faz com quê o gênio descubra a sua lâmpada evolutiva. Para Oscar, os humanos é pura e tenra corrupção desde o tapa na bunda para chorar o "estou vivo", até o epitáfio: "aqui jazz..." derradeiro da morte.

Um lorde destemido, apenas um lorde destemido e depravado traiu a moralidade inglesa... não menos a minha moralidade... a africana... a alemã... a chinesa... a japonesa... a mexicana... a moralidade do brasileiro? Moralidade no seio social e familiar desse povo, nunca existiu, pois ao nascer, já se vendem de papel passado ao valor de qualquer dólar furado, Profeta; mas para compensá-los da choradeira, tanta sua quanto de seu povo, de terem ficado de fora da lista, um lorde depravado traiu a moralidade do Senegal... a do Brasil... e por fim, sem mais a quem trair, traiu a moralidade mundial!


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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