ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Vesperata é música e cultura histórica no mesmo tom

Sem dá-los como verdade absoluta, comentam por aí que quem não dança, embala o recém-nascido. Ora, segundo os maestros que regem a trilha sonora do cotidiano, realmente, o menos ruim é dançar para não dançar. E para os simples mortais, que não são pés-de-valsa e se recusam a embalar a criança, o que fazer?


Ouvir música...; cessar os passos apressados impostos pela correria que, se não lhes conduzem aos leitos dos hospitais, certamente não leva-os a lugar algum, e apurar os ouvidos para ouvi-lá; pois a doutora música motiva e estimula os neurônios à felicidade. E não só isto, em muitos casos, a cultura musical faz o papel de terapeuta e consultando um estilo nobre e apurado qualquer, médico e medicamento se juntam de imediato na cura dos males dos desequilíbrios espirituais, bem como na loucura aterradora da alma.

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E quem fazia, qual era o nobre, simplória celebridade que fazia dessa ideia, a sua arte? Em verdade, não é preciso ser esse ou aquele para estar no meio do povo e juntos, aplaudir o espetáculo sonoro em praça pública. Destarte, que espetáculo é esse, o qual apenas alguns premiados conhece o evento musical-dançante e suas propriedades e aplicabilidades terapêuticas?

Juscelino Kubitschek nasceu em Diamantina; M.G, estado das alterosas, berço da cultura político-econômico- social por décadas e mais décadas; solo explorado por bandeirantes e desbravadores em busca de riquezas e atualmente é terra em que o calcário multicolorido das enormes rochas e a abundância de matéria prima para a produção de ferro e aço arrebatam a avidez das empresas cimenteiras e siderúrgicas, em 12 de setembro de 1902. Em meados da década de 50, chegou à Presidência da república.

Até aí nada demais para um país que já teve um semi-analfabeto, que para chegar ao apogeu máximo, usou os sindicatos como trampolins; desrespeitosamente, é o único estadista no mundo que mais viajou para terras distantes às expensas do dinheiro público; junto com os correligionários e camaradas incitou a invasão de áreas públicas e particulares; induziu os trabalhadores a fazerem greve e desvalorizando o empregador e seus investimentos, contribuiu para o desemprego em massa. Contudo, o que diferencia um do outro, não é nada disto. Aliás nem sei por que mencionei a ocorrência desses casos perdidos, porque no Brasil política é tida como meio de sobrevivência e não a arte de governar democraticamente para o povo e sim para quem está no, e é de poder; e uma vez que o brasileiro é alienado politicamente e por assim ser, nada acrescenta à reflexão textual, importa-me mesmo é o lado artístico-musical e a cultura histórica existente por trás da vesperata.

No centro de Diamantina, - o nome do município que já induz o leitor a pensar a riqueza mineral que havia aos montes dentro de seus limites e cercanias - as portas e janelas do casario milimetricamente tombado e charmosamente reformado, forma um retângulo esconso. Ali, onde parte da história da era imperial do país chegou e fundou a cidade, guarda a memória viva da negra Chica da Silva, mantém intacto o caminho inicial percorrido pelo ouro, prata e diamantes roubado durante o dia e transportado durante a noite em lombo de escravos e muares até o porto de Parati-mirim. Também é lá que as portas do museu do ex-médico urologista e filho da terra, Juscelino, se abrem para os historiadores e público geral. E uma vez que o brasileiro é um zero à esquerda, é quase nulo no tocante às suas raízes e origens, para não dizer que fede, a cidade exala cultura. Como o diamante bruto, Diamantina é resistente, dura e rija às alterações e inovações tecnológicas; porém, excelentemente preservada. Por enquanto...

Em suas ruas estreitas, passos vagarosos atropelam-se sobre o pavimento frio de pedras retangulares; vozes boquiabertas cruzam-se nas ladeiras; olhos espiam detidamente o que as mentes são incapazes de ler, e o sobe e desce, o frenético entra e sai de pessoas inundam os ambientes. Referendando a cultura histórica acima de qualquer outra, a cidade é movimento contínuo. Entretanto, ao cair da tarde de sexta-feira de cada meio de mês, o silêncio pousa nos arrebaldes, fazendo com quê até os pássaros parem de trinar. Cansados pelo voar intenso durante o dia, é chegada a hora de acomodar os bicos debaixo das asas e sonhar a água e o alimento justo e necessário às suas sobrevivências no dia seguinte.

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Estranhamente e indelicados, de um momento para o outro, as portas e os janelões dos casarões aderem o silêncio e sem acenar com as mãos o adeus, fecham-se para a tarde. É hora do ângelus no quase paradeiro absoluto. Os sinos dobram nas muitas igrejas cantando o amém pelo respirar de mais um dia. Desse momento de diante, dependendo da estação, a iluminação artificial começa a filtrar o amarelo no cenário. A cidade esvazia-se e quando todos os turistas e visitantes pensam em sair de cena, a felicidade retorna do silêncio vacante e por volta das 19 horas, as portas reabrem vívidas e do andar superior, os janelões voltam à cena soprando sax, oboés, clarinetes, trompetes, pistons e flautas; as tubas fazem estrondosa arruaça; os dedilhados de guitarras, violinos, violões e violoncelos ecoam no vazio; a bateria e a percussão afinam-se na mesma levada; os teclados acompanham as notas e os pássaros reaparecem em revoadas para saudar os músicos e os dois maestros de palco.

Vai começar o show: "Senhoras e senhores, ao som ruidoso de uma revoada passarinheira e mais de 60 instrumentos integrados numa nota só, tocando os clássicos de todos os tempos, que tenhamos uma noite dançante repleta de alegria e diversão. Sejam todos bem vindos à mais uma vesperata!" Incrédulos com o convite para o fino trato musical, os pés remexem aloucados sobre as pedras da arena-teatro e as cabeças requebram para um lado e para outro desnorteada.

Contrário da serenata, que é um musical andante ou estático debaixo da janela de um amigo ou da mulher amada, o qual os pingos de sereno orvalhado na madrugada expressam-se através de contos, recitando poesias e cantando coisas bucólicas e românticas, a vesperata diamantinense tem estilo próprio e acontece no tombar do sol até o despertar das carícias pelos namorados; nesse caso, a música vesperatina é o preparatório para as núpcias.

Variando amplamente do rock dos anos 60, 70 e 80, resvalando nos relevos do melhor da MPB, ao samba clássico, o repertório musical da vesperata não deixa de fora as big bands americanas. E Duke Ellington, Glenn Miller, Frank Sinatra dentre muitos outros, lembram aos presentes que esse estilo de música balançou as estruturas dos salões de bailes, tanto nos states quanto no Brasil por muitas décadas.

A vesperata é uma ode ao humanismo, à história do país e à cultura refinada em praça pública. Não menos, um momento de reflexão para admitirmos que quando o passado não planeja, não nutri as necessárias escolhas corretamente, não embasa os acontecimentos no presente com bons exemplos, não impregna a hereditariedade histórica ao processo "evolucionista", o futuro fracassa.

Nesse rompante histórico, Juscelino bailava o desemprego, a falta de moradia, a deficiência no transporte público, as muitas mortes nos hospitais, a carência de conhecimento e saber técnico/tecnológico; o desmazelo e resistência do brasileiro em operar coletivamente; as várias cabeças que rolavam aos borbotões morro-abaixo nas principais cidades do país; a falta de cultura sofisticada, enfim os problemas sociais, os quais serão eternos e plenos, - sinto-me um tremendo tolo em repetir essas futilidades desprezíveis, pois como citado no início do texto, são problemas crônicos, plenos e insolucionáveis por quem quer que seja - com os olhos arregalados e perplexo pela euforia, observava os gestos frenéticos dos dois maestros, regentes de estrelas, lua, acompanhado por um público atento aos movimentos incessantes das varetas que comandavam os demais músicos.

O musical dançante, além de ser pura nostalgia, hipnotiza os passos apressados, alivia o trauma da corrupção cotidiana tão comum e necessária à boa fluidez política (despensa sem queijo não provoca o faro de nossa espécie - retrucaram os ratos exigindo mais iguaria derivada do leite. Espero que o leitor entenda a fábula, ou prosopopeia, como queira) e faz demorar o pensar das mentes sôfregas.

E quando os papéis, as canetas e o terno davam uma trégua, diziam "dever cumprido, por isso, está liberado", o Presidente corria à sua terra natal para rever a família, bebericar água cristalina que corria dos altos, refrigerar a mente com o ar puro diamantinense e dançar para não dançar na vesperata, espetáculo único no país... e como contam os conterrâneos, o homem de livros, cultura política e ciência médica, era um lépido e festivo pé-de-valsa e estando lá, não perdia uma...; não só ele, os pássaros também, que ensaiando os passos: um para lá, dois para cá, voltavam à baila, trinando alegremente. Em tempo, se Juscelino e os pássaros dança(va)m, o viés é que a Natureza não dança, ou também dança?

Vesperata é música e cultura histórica..., mas acima de tudo, é festividade sintonizada sob o mesmo tom; e ligados à mesma estação humana, a dança de passos amistosos, que para os males da loucura da alma, é o compasso. Passos afinados no compasso da música em noite de vesperata!

Fotos livres retiradas do Google


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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