ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário

Zé Ramalho em Literatura de Cordel - parte 1

"... Mas pra aprender o jogo dos ratos / Transou com Deus e com o lobisomem"


Contextualização: Zé é dono de um estilo único e indizível que acolhe os ouvidos aguçados e desregrados. O músico tem uma batida forte ao violão, uma voz grave e afinada, não nega as influências em Dylan, Beatles, Lampião e nas coisas de seu Norte e Nordeste amados. O amálgama da música brasileira canta(va) o apocalipse através da poesia existente nas inundações marítimas e na seca amaldiçoada que mata de fome e sede o povo em campo aberto do sertão, assim como sovela e aniquila o gado chancelado nos corredores de concreto citadinos.

ramalho1.jpgFagner, Chico Buarque, Zé e João do Vale. Quando havia galos nos poleiros, sombreiros dos arvoredos nos quintais, lua e estrelas no céu, barquinho de papel velejando no riachinho, velas iluminando a santa do pau oco no nicho e sonora cantoria debaixo das janelas das casas brasileiras, esse era um dos quartetos-veneno da M.P.B

E sem pôr e tirar os óculos escuros, o "Cartomante misterioso, Profeta dos desenganos, Cigano das metamorfoses" lia as cartas e búzios sobre a população de humanos; e em todas elas apareciam a imagem de bovinos ruminando e mascando a palha seca na palhada, como se fossem sortudos e felizardos ganhadores de uma bolada alta de dinheiro na loteria. Quadrúpedes milionários mascando um maço de palha seca.

..."A sombra que move, também ilumina, me leve nos cabelos, me lave na piscina"...

O músico é uma espécie de cavaleiro das trevas, que tateando os espectros de luz, desceu à Terra. Tripulante de um OVNI (Objeto Voador não Identificado) birutado, veio soltando fogo pelas ventas, berrando a peleja do diabo com o dono o céu para quem quisesse ouvir, alardeando as almas penadas que se perderam nas procelas em alto-mar e escarnecendo o gado marcado pelas iniciais do nome do patrão, baixou numa palhada seca em Brejo da cruz, Paraíba; estado que já foi considerado terra de "muié macho", sim sinhô!"

Diga lá sobre a mulher Zé: "tudo que eu deveria dizer, já foi dito; mas como não dizer uma palavrinha a respeito desses fachos de luzes multicores incendiários; não afinar as cordas do violão e cantar para esses seres espectros de luz do arrebol crepuscular? Mulher é magia e encanto em qualquer cama, em qualquer corredor, debaixo de qualquer árvore, em qualquer madrugada, em qualquer canto...; e como é de vosso conhecimento, Profeta, as mulheres de modo geral possuem o poder de não mudar de cor, traz o dom da persuasão no DNA; e no auge do enrosco e enlace dos corpos suados e enfeitiçados pelo amor, a capacidade de fazer o homem agonizar a morte e gemer sem sentir dor."

A música desse paraibano legítimo filho da terra que não nega suas origens e raízes, não é para qualquer mente, por que ouvido e olhos Deus ofertou gratuitamente para sua imagem e semelhança sem cobrar nada; porém, falhou no quesito, errou na dosagem e quantidade ideal de inteligência em certas mentes. Aliás, era ele (Zé) mesmo que defendia essa tese, dizendo que era um místico visionário, um faísca que desgarrou do fogo e recém-chegado do além, veio para complicar e não para esclarecer. E não é para menos, pois suas letras são encerradas nos rigores Bíblia, nos paradoxos humanos desvelados pela filosofia, nas inquietações da mente estudadas pela psicologia e na simetria comparativa entre as três fontes de pesquisa e estudo, pela mitologia. A voracidade das serpentes peçonhentas e a quietude dos ruminantes, as profundezas abissais dos oceanos e a rasura dos regatos, o miraculoso Jesus Cristo e o traidor e mentiroso Judas; a água límpida que é contrária da morte e as labaredas de fogo que incendeiam a vida; e maniqueísmos mais, são os elixires tomados, são as drogas lícitas, os paradoxos que inspira(va)m a mente do músico.

..."Ave de prata, veneno de fogo, vaga-lume do mar"...

Musicalmente, Zé é filhote de Raul Seixas, cria dos raios dos trovões, parido do cruzamento das fúrias tormentosas com os azedumes dos furacões; neto de Jackson do Pandeiro, Luis Gonzaga e Hermeto Pascoal; irmão de Bob Dylan, Geraldo Azevedo, Dominguinhos e Alceu Valença; primo em primeiro grau de John Lennon, Sivuca, Elba Ramalho, João do Vale, Fagner e outros; e em grau nenhum, de Ivete Sangalo, Michel Teló, do forró univers(o)tário, Luan Santana, Justin Bieber, programas de palco, da mídia, das gravadoras, da pirataria e outras inutilidades que destroem a cultura musical qualificada por aí; mas quem lhe formou musicalmente para o mundo foi seu avô consanguíneo, o seresteiro Antônio de Pádua Pordeus Ramalho, que comparando-o com um meteorito perdido no espaço ou com os pássaros que voam beirando o céu, lançou em seu colo um violão e sem falsos amores, sem a hipocrisia dos mimos exagerados e tacanhez de apresentar-lhe as dificuldades da vida, disse-lhe abertamente que suas asas eram o instrumento. E o neto, (nada de netinho no diminutivo, como os avós modernos arreganham os dentes até o canto da boca para apresentarem o filho, do filho) acreditando piamente na profecia do Avôhai; avô e pai, Zé partiu, como parte uma flecha lançada ao acaso no negrume soturno de uma noite em chamas!

"Um cavaleiro do diabo corre atrás do seu destino"...

E como o condor, o pássaro de voo mais alto dentre todos os pássaros, o músico da espécie trupizupe voou... se largou pelo país, cruzou oceanos, enroscou-se nas copas das árvores dos penhascos, aparou as unhas nas linhas com cerol das pipas, blasfemou contra o sol esmaecido do final de tardes sombrias, para quando menos esperava, chegar em palhadas distantes, muito distantes de Brejo da Cruz. Levando a música brasileira e os ritmos do forró pé-de-serra, xote, xaxado e do baião para os gringos conhecerem, Ramalho tornou-se um trovador cosmopolita.

"Um cego procurando a luz na imensidão do paraíso"...

ramalho.jpg

..."Lembram-se das raparigas de vestidos belos, braços nus / lembram-se dos quatros ventos que não sopraram nessa direção"...

A primeira aterrissagem de Zé foi no Rio de Janeiro. Inexperiente e cru das malícias de voar à liberdade, assim como sobreviver às malandragens praieira da "cidade maravilhosa", quase foi eletrocutado por fios de energia desencapados, bateu asas desesperadamente para fugir de bocas famintas de cães e gatos e como não bastasse, por pouco não foi atropelado e pisado por sapatos de todos os tamanhos, cores e estilos; porém, diante da passarela amarga imposta pelos humanos, aprendeu que a moda veste o corpo e a alma com os passos elegantes da sordidez. Sobretudo, o primeiro bater de asas em direção às bocas de onças e leões perigosos é abuso contra as boas maneiras de conduta, quando não, risco iminente de queda.

Quem voa à liberdade com as asas em penugem e fragilizadas pela falta de cálcio nos ossos, o cemitério como destino, não está tão longe do ponto originário de partida. Zé sabia desse infortúnio e para evitar sobressaltos e atropelos no voo nupcial, abriu as portas e preparou a mente para as visitas, caso chegassem sem ser chamadas e fora de hora.

"Pares de olhos tão profundos, que amargam as pessoas que fitar."

No Rio, brigou com a sorte, achincalhou o diabo, exigiu explicações de Deus sobre as agruras e infortúnios sofridos pela humanidade, dormiu ao relento nas praias observado por lua e estrelas, safou-se às duras penas das garras de ladrões, duelou com assaltantes; cedeu ao bailado colérico e sensual das raparigas nos cabarés e casas das luzes vermelhas; ludibriou o estômago, dizendo que nas latas postas nas prateleiras e nas panelas em cima do fogão, o que mais havia era comida; e ainda tendo o que fazer, alugou o corpo por tempo determinado para as mulheres mal amadas. Para ganhar uns trocados e contribuir para desanuviar à mente do cólera da desilusão do casamento mal sucedido, arrancava suspiros das donas de casa nos colchões pulguentos dos quartos de hotéis, motéis e também dentro das quatro paredes de vossas casas. Dado o tempo necessário para cessar a concupiscência da fraqueza de suas carnes, Zé dispensava-as com um obrigado por entre os dentes, acompanhado de um sorriso cínico e dissimulado e para não decepcionar os corações das amantes mal nutridas e bolsos vazios, - naquele momento bem amadas - cantou em verso e prosa o "Garoto de Aluguel" que fora:

Baby

Nossa relação acaba-se assim / Como um caramelo que chegasse ao fim

Na boca vermelha de uma dama louca / Pague meu dinheiro e vista sua roupa

Deixe a porta aberta quando for saindo / Você vai chorando e eu fico sorrindo

Conte pras amigas que tudo foi mal / Nada me preocupa de um marginal

Finalizo essa primeira parte sobre Zé Ramalho, afirmando categoricamente que o artista é um feiticeiro canibal de mentes que não entendem suas complexas letras, bem como suas canções vampirizam a superficialidade dos comuns e iguais; porém como bem disse Autran Dourado: "É preciso ter grande modéstia e humildade; a humildade dos criadores para reconhecer a excelência das coisas, a importância mesmo das banalidades". E quando o "amalgama" da música enaltece as coisas da Paraíba, canta a honestidade de uns poucos do sertão, valoriza o folclore brasileiro, escreve sua biografia em literatura de cordel e dá voz aos homens de pele cascuda pelo sol e cara solapada pelos vincos da infelicidade do Norte e Nordeste, exercita o pronunciado por Autran, como poucos.

Essa dor doeu mais forte / Por que é que eu deixei o norte?

Eu me pus a me dizer / Lá a seca castigava / Mas o pouco que eu plantava / Tinha direito a comer.

Parte da letra Cidadão de Lúcio Barbosa, interpretada por Zé Ramalho e Zé Geraldo.

P.S.: Sobre o apocalipse, que pode entendido como a terceira guerra mundial e está por um átimo de tempo, não digo nada, mesmo porque no dia "D", pode-se contratar carpideiras para chorar e cantarolar modas e trovas; mas na dor que paulatinamente bate na porta do sonhador, que estilo musical alegre há na tristeza da dor? Aliás, estendendo a indagação, qual é a cultura literária que serve de antídoto e alivia a dor, da dor tão doída? - o autor

"... Mas pra aprender o jogo dos ratos / Transou com Deus e com o lobisomem" - trecho final da letra "As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor", composta por Raul e Paulo Coelho


Profeta do Arauto

A inspiração para escrever me vêm sempre que vejo pela claridade de minha razão um querubim corrupto de uma perna, pulando com duas; e invariavelmente desaparece, quando o querubim se transforma num saci com duas, pulando com uma perna. Durante o transe da minha imagem translúcida no espelho, sou um néscio metamórfico e não faço o menor esforço para voltar à realidade dimensional e objetiva nossa, de cada dissabor diário .
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