ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Compromissado com a verdade e bem estar físico e mental do leitor, escrevo com palavras ácidas a receita de um doce amargo como fel. A página está aberta e a iguaria na mesa. Entre e fique à vontade. Puxe a cadeira, sente-se e sinta-se convidado a degustá-la comigo. Adianto que as verdades são indigestas; e em certos casos, além de causar complicações metabólicas e glicêmicas, são rejeitadas pelos ácidos biliares. O doce fabricado por mim, quando não mata, torna o intruso adiposo de sabedoria e cultura

Os três bravios Indiana Jones Brasileiros

Três brasileiros conseguiram a façanha de sair do Rio de Janeiro e percorrer quase 30 mil km, chegando perto do Canadá. Foi um feito e tanto para a época, que resultou no levantamento expedito e o traçado geométrico definitivo para implantação da carretera (rodovia em português) Pan-americana, a qual unifica as três Américas. E é considerada a mais longa de todo o Planeta Terra.


A palavra indolência (em nome e defesa dos que trabalham a mente, braços e músculos em favor de outros de igual pensar e exercício, a indolência não nasce além-muros dos lares) deveria ser abolida dos dicionários e livros afins, pois desestimula e além de ser auto-corrupção da alma, é alimento para o espírito do vagabundo; porém... cada um vive sua epifania e glória diária; espojando o corpo na cadeira de balanço, novelando os dedos polegares, espiando os pingos de chuva estilhaçarem as vidraças, seguem empurrando o mau tempo com a barriga e fazendo selfies de sorrisos desbotados, praguejam a vileza do sol que não apareceu para servir de bobo para um rei que sorri, quando o dia não está para praia e o mar recusa o passeio da vela sobre suas águas. Sem o alimento diário e a queima do mesmo, não há energia; sem energia não há trabalho operacional; e sem trabalho operacional, não há prosperidade intimista! São os conceitos físicos explicando as teorias humanas; que também podem ser entendidos como os princípios fundamentais da evolução e progresso humano! ford1.jpg

Contextualização: A história do Brasil sempre foi e diante do sombrio rodar da carruagem e dizeres de certos (ou todos?) charlatões do poder e uma sociedade alienada, que não sabem nada sobre a cultura brasileira, menos ainda sobre a corrupção histórica, falcatruas mirabolantes para encher as cuecas de dinheiro e irrestrita desmoralização social que assolam o país, permanecerá nos umbrais do desconhecimento. Tal presságio vêm dos tempos da monarquia, driblou a república, atropelou a ditadura, incrustou e criou cascão na democracia e histórias de brasileiros, como José Joaquim da Silva Xavier, Santos Dumont, Machado de Assis e outros notáveis, ainda são obscuras ao entendimento, clareza e transparência de informações e veracidade. No Brasil, os sonhos envelhecem e da história de notórios heróis, se não bastasse o tempo, os historiadores se esquecem. Ademais, por que mantê-los vivos e lustrados nas prateleiras dos museus, se tudo é para ser esquecido? Morreu, adeus músico e leve contigo no caixão, sua viola! E quê seu espírito não venha na madrugada importar os entes, vizinhos, amigos e inimigos que ficaram de pé.

Aventura... quem é, qual ser de carne, ossos e completo de sentidos, conduzidos por dois pés que pelo menos uma vez na vida não balbuciou essa palavra e discorreu com o seu espelho sobre a viagem dos sonhos? Convenhamos que correr perigo poucos querem, mas arriscar um mergulho em águas calmas e serenas, a maioria aprova e almeja fazer uma vez na vida. Por outro lado, sobre aventura pesada; àquela de molhar a camisa de suor; deixar os pés parecendo duas jacas inchadas; xingar a mãe por ter posto um infeliz no mundo e o diabo por tê-lo influenciado à aventura do desafio de cruzar as três Américas, não sei se é o seu, mas é o meu pensamento, leitor; porém, sei plenamente que é temida pelos maioria dos humanos dos quatro cantos do Planeta. Saiba então, que "sofrer" e correr perigo foi o pesadelo de três brasileiros; que ao contrário daqueles que sonham com o conforto de um SPA, ou de um resort, ou algo que o valha, se embrenharam nas matas em meio à lama, enxames de muriçocas e pernilongos, sol de lascar mamona, geleiras de congelar o sangue nas veias, subiram pináculos para aproximarem-se das nuvens, cortaram baixios ao nível do mar e quebrando os matagais no peito aqui, afugentando cobras ali, banhando os corpos em regatos naturais acolá; foram se aventurando pelos fundos e reservas verdes intocadas das três Américas.

Em 1928, enquanto a Europa se refazia dos traumas causados pela Primeira Guerra Mundial, o mecânico Giuseppe Fava, o tenente do Exército e organizador da aventura, Leônidas Borges, e o engenheiro Francisco Lopez deram adeus e um até breve aos familiares e rumaram em direção ao desconhecido, sumiram em direção ao inusitado. Inicialmente o projeto dos três era desbravar um pedaço de terra pelos países da América do Sul, e ao saírem da "cidade maravilhosa", aportaram-se em São Paulo. Todavia, invadidos pelo sentimento que aventura pouca é tolice, decidiram esticar um pouco mais e quando despertaram do sonho que poucos sonham, já haviam percorrido quase 30 mil km.

Para superar as adversidades do trajeto feito em aproximadamente 10 anos, os três destemidos, corajosos e arrojados aventureiros contaram com as doações de dois automóveis da marca Ford, modelo T, os melhores e mais sofisticados para a época.

mapa.jpgParte da linha de cor mais forte no mapa é o traçado percorrido pelos brasileiros. Passados muitos anos, a carretera foi estendida até o Alaska, Canadá.

Se me permite, peço vênia ao leitor e abro parênteses para relatar que parte do percorrido pelos três brasileiros, ou seja, de Ushuaia até o baixo EUA, agraciou as pegadas que ficaram para trás do escritor deste, com horizontes de nuvens carrancudas e céus transponíveis cor azul-anil, margeados com flores multicoloridas. Fui conferir de perto o lindo espetáculo natural; pois a salvação está no sofrimento e não nas "benevolentes oferendas humanas". Aproveitei para colher flores e após despedaça-las em pétalas por pétalas, lancei-as ao vento uivante que açoitavam minhas faces. Embora não seja meu caso, aliás abomino levantar às 11 horas da manhã; almoçar ao meio dia; tomar café às 15; jantar às 18; marcar presença com a trupe às 23; dormir às 5 horas da matina e viver nesses moldes por mais de 70 anos é dispender esforço em demasia para alcançar o vento e prejuízo em dobro para a fauna e flora. Contrário aos inquietos e ululantes ventos que não dão e nem exigem sossego, a Natureza não reclama nada. Quieta iniciou as belezas do mundo, sonolenta e quase estática, a passos de tartaruga, está. Mas uma hora, os desaforos cometidos a ela, se sucumbem. Aguardemos; ou melhor, que desça e venha fazer justiça ao nosso reino, logo! Igualdade aqui, apenas para os desiguais. Uns lavram a terra e a maioria, para não dizer todos, servem-se em mesas postas. Em águas paradas e calmas, farturas e facilidades demais, fisgam os peixes pela boca.

Ao separar-me, eu de mim mesmo, os quais são duas folhas secas farfalhantes, plenamente secas e irrigadas pela inocuidade do sopro dos ventos, volto ao meu estado de letargia para continuar relatando a viagem feita à carretera Pan-americana. À noite pintava estrelas com cores estranhas, porém, quando vista a olhos nus por andarilhos noturnos, metamorfoseavam em monstros reverberando a cor da esperança. Contar ou ouvir histórias das estrelas... imagine o leitor, a leveza que é pintar e contar estrelas em noites azuladas pelo clarão de uma lua cheia? Feito inédito para um pintor, que pintava com cores vivas as andanças dos pirilampos, mas não sabia pintar estrelas cintilantes. Também puderas e contrário dos homens que pensam tê-los, as estrelas são astros que possuem brilho próprio; motivo de não precisarem das inúteis e destruidoras mãos humanas para brilhar. As duas mãos são utilíssimas para lavar o corpo e acariciar estrelas solitárias, porém, quando fazem mal abusam delas, transformam em anéis de fogo, para os dez dedos, queimar.

Por fim, resumindo a história, naquele transe anormal de ser, mas pouco ou nada sabendo quem eu era, na esquisitice de plantar algodão no céu, semear sombras na Terra, cuspir labaredas incendiárias na selva e ser talvez, uma maria fumaça intrépida e desgovernada queimando a sorte nas nuvens à procura dos trilhos da retidão que conduz ao Nirvana, senti necessidade de destruir o que foi cuidadosamente arranjado e construído milimetricamente pela inteligência humana; pois para todos os transeuntes, a rodovia estava definitivamente pronta e transitável. Porém, para mim, nada foi construído para ser eterno e resistindo o tempo, durar para sempre.

Então, de cabo a rabo, apaguei o fio das últimas bombas lançadas na primeira guerra que ao espalhar a pólvora que estavam acondicionadas nos barris, iriam causar ainda mais estragos aos meus irmãos. Esmaeci o brilho das estrelas, choraminguei feito cão emotivo sem a presença dos donos por perto e destruí todos os jardins/pomares que margeavam as laterais da carretera, deixando-a inóspita, desprovida de beleza, escura pelo breu existente no desconhecido e inacessível para os incipientes nesse tipo de aventura. Através dessa travessia, descobri que por todos os caminhos que transito, tomei conhecimento que por todas as trilhas que deixo as minhas pegadas, sou seguido de perto por minha implacável loucura, inexorável e maquiavélica sombra da doidice. Por essas e outras insanidades, necessito de acompanhamento psiquiátrico, urgente; o leitor poderia ajudar-me? Se não pode fazer nada por mim, destarte, por favor, continue lendo a saga dos três bravios Indiana Jones brasileiros; que para fazerem o que fizeram, garantidamente, não eram nada normais e detestavam a tal zona de conforto, contrário do caro leitor, que adora. Se não for o caso de quem está lendo, lembre-se que pedi vênia antes mesmo de dissertar sobre minha loucura. Portanto, agradeço imensamente a compreensão e sigamos viagem...

Transportando os três senhores desnaturados, as oito rodas e dois potentes motores saíram de São Paulo e seguiram para Ponta Porã, Mato Grosso do Sul; cruzaram a fronteira e adentraram o Paraguay; chegaram ao extremo da América do Sul, mais precisamente na região de Cartagena de Índias, Colômbia. Ali seria talvez, o maior e mais voraz desafio, dentre todos os dramas enfrentados, pois, teriam que adentrar o Panamá. Contrastando com as águas azuis do oceano pacífico, o verde proporcionado pelo arvoredo de alto dossel cobr(e)ia longínquas léguas ao longe. Mas, uma vez que não havia mais rastro de terra definida à vista, o que fazer para atravessar a selva? Para o bem dos aventureiros, a região ainda está totalmente intocada e guarda a falsa ilusão de tocar com agudeza as nuvens no horizonte distante. São nessas ocasiões que a experiência, o vivenciar na prática, o sujar as mãos na graxa superam as teorias e Guiseppe sabia como proceder para atravessar o estreito e chegar no lado oposto do cinturão verde. Sobretudo, a travessia com seu espetáculo natural, belezas infindas e a presença selvática do perigo, é assombro para as vistas; menos para os três Indiana Jones.

Num ímpeto inteligência e paciência, o mecânico desmontou os carros, embalou como podiam as peças e através de lombo de burro, atravessou a região Del Trato, conhecida também como pináculo Del Dárien. Assim que atingiram o lado panamenho, o operário pôs as mãos à obra e remontou as duas máquinas; que após receberem os carinhos das delicadas mãos do mecânico e com as peças no mesmo lugar de origem, agradeceram ao mecânico, funcionando impecavelmente.

As aventuras iam se sucedendo uma após outra e pequenos entraves nem entrava no cômputo da viagem; e superar regiões pantanosas, alagadiças, dormir ao relento, xingar os espinhos e pontas de pedra pelos furos constantes nas câmaras; parar para ouvir as notícias e recomendações de boa sorte, cautela e sucesso na empreitada enviadas pelos familiares e amigos que chegavam até eles pelas borboletas que desciam aos bandos das naves de prata; cruzar com nuvens defloradas pelos maníacos tufos de fumaça de aviões a jato; apreciar o fins de tarde, o qual os raios de sol iam banhar-se nos espelhos de águas claras e límpidas dos lagos; tentar entender a sapiência das andorinhas e outros pássaros que voavam de tão longe fugindo do frio aterrador dos polos; verificar o nível de água do motor; fazer a manutenção mecânica periódica e fugir assustadiços de ferozes animais, eram rotina e já não metiam tanto medo nos três. Para mãos calejadas, o cabo rachado do machado não causa espanto, assim como não tira lascas na pele.

A aventura seguia entre magias, medos, contratempos e mistérios; e enquanto um cozinhava, o outro remendava as roupas e o terceiro rezava aos céus para que a viagem chegasse ao destino proposto sem maiores consequências e perda de material humano. Porém, ao ser quase abocanhado por uma onça em Mato Grosso e após sofrer dois acidentes terríveis e angustiantes na Cordilheira dos Andes, Mario se salvou por puro milagre. Ao superarem às armadilhas, saírem ilesos das agruras e ludibriarem os olhos invisíveis da Natureza, acreditavam mais e mais que Deus existe e protege os seus; principalmente, àqueles que estão numa missão quase impossível, porém justa e necessária aos demais homens da Terra.

O mapeamento do traçado geométrico ficou a cargo do engenheiro, que registrava passo a passo a superação e transposição dos desaforos naturais; até que após quase 10 anos de trilhas sombrias e esburacadas; atravessar vaus perigosos; passar por lugares inóspitos; conviver com os mais sórdidos perigos; cruzar com animais ferozes rugindo um naco de carne humana; transpôr vales, fiordes e pináculos; abrir talhos nas fendas de rochas com picaretas, pás e dinamites; os motores dos Fords silenciaram na cidade de Whashigton, EUA. Fim da viagem. Fim da aventura e início do descobrimento das Américas, por três bravios Indiana Jones brasileiros.

Aos três dias do mês de março de 1938, os apontamentos do traçado foram entregues em mãos pelo engenheiro, Francisco Lopez e merecidamente, assinado pelos dois companheiros de peregrinação expedicionária ao Presidente da Casa Branca, Franklin Roosevelt; que ficou boquiaberto, estupefato com a superação do desafio jamais imaginado por outros povos. E como não era para menos, pelo feito de grande relevância e unificação das três Américas, os bravios brasileiros foram condecorados com honrarias pelo estadista americano. Por mais alguns dias, a celebração se estendeu por mais algumas regiões estaduninenses.

Ford.jpgBreve e sucinto histórico do carro Ford, modelo "T"

Em 25/ 05 de 1938, juntamente com os dois potentes rompedores do continente americano, os três desbravadores desembarcaram no Rio de Janeiro. E sem ser vistos pelos seus compatriotas, regressaram aos seus lares.

Quando Steven Spielberg dirigiu o filme baseado em história de George Lucas, três brasileiros já haviam produzido e encenado Indiana Jones. E o mais admirável: baseado em fatos reais vividos por homens de carne, ossos, emoções, sofrimentos e perrengues passados durante as gravações. Deveras, viver não é nada ficção; mas sim, uma tremenda aventura e só ficará sabendo desta aventurosa verdade, quem se preocupar em aprender com as vividas pelos outros, ou se propõe vivê-la intensamente! Mas cuidado, porque pulmão todos nós temos dois; mas respirar insanamente como um fole doido soprando o braseiro, não é para qual um deles...

Imagens livres retiradas da Pixabay e Google

Nota: se o leitor quiser se aprofundar mais na aventura sobrenatural dos três Indiana Jones brasileiros, em 2011, a editora Canal 6, editou o livro: "O Brasil através das três Américas"; autor Beto Braga. Outro livro que relata a façanha é: "Eu não sabia que era tão longe", escrito por Osni Ferrari e lançado pela editora City Gráfica e Editora. Vale a pena conferir esses materiais raríssimos e esquecidos pelos brasileiros nos montes de escória do tempo.

P.S.: competência e potencial humano é o ajuntamento das vivências e experiências no decorrer dos anos e posteriormente, lançados em um dossiê de conquista e glória, para que tomem-os como exemplo, bem como usufruam das suadas e dificultosas realizações dos precursores. Feita a introdução, como brasileiros comprometidos e amantes de uma pátria além-território que fomos, esperamos que quem nos ler, continue escrevendo nossa biografia para o Brasil e o mundo também ler. Éramos, somos brasileiros; e não foi os 30 mil km de assombrações e fantasmas que nos assustavam; fazendo com quê nos acovardássemos, ao contrário, cada passo dado estimulava-nos a ir de encontro ao perigo; afinal, nada mais justo do que lutar e desbravar caminhos por uma causa justa! Pois, o feito está lá materializado e muitos, infinidade, miríade de estradeiros usufruem sem maiores transtornos.

Reflexão que resume uma aventura, como foi a dos três incríveis, insolentes e bravios brasileiros. Pelas trilhas por onde passaram, encontraram tenebrosas tempestades, porém cultivaram mesmo foi bonança. Para quem é de aventura e sabe usufruir de sua honesta potencialidade, a liberdade total em si, é o ato pleno de viver a vida. Quem experimentou, sabe muitíssimo bem o que significa as entrelinhas contidas nestes dois parágrafos do pós-escrito.


Profeta do Arauto

Compromissado com a verdade e bem estar físico e mental do leitor, escrevo com palavras ácidas a receita de um doce amargo como fel. A página está aberta e a iguaria na mesa. Entre e fique à vontade. Puxe a cadeira, sente-se e sinta-se convidado a degustá-la comigo. Adianto que as verdades são indigestas; e em certos casos, além de causar complicações metabólicas e glicêmicas, são rejeitadas pelos ácidos biliares. O doce fabricado por mim, quando não mata, torna o intruso adiposo de sabedoria e cultura.
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