ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Na falta de combustível fóssil, renovo minhas energias, lendo, escrevendo, pedalando, fotografando e viajando por entre as nuvens. De tempo em tempo, procuro-me em meio ao batalhão de estranhos terráqueos. Dificilmente estou disponível para o meu alter ego

Manias, mistérios e enigmas do "Velho Chico" em 8 fotos

A lua enlaçada pelos anéis de brilhante; as cores do arrebol desfraldando a aurora; os fios de chuva que descem solenes ou ruidosos das nuvens e desfazem-se nos telhados; o céu cantado em cantilenas pelas estrelas, estão para os poetas e prosadores, como as águas mansas ou voluptuosas do Rio São Francisco estão para os letristas de música. Foi com esse olhar, que vários compositores molharam a ponta da pena nas manias dançantes das águas, ora túrbidas pela fúria de ter sido mal usadas, ora mareadas de felicidade pela satisfação de missão cumprida, do "Velho Chico".


Contextualização: existem certos mistérios, manias e enigmas tão especiais na Natureza, que são capazes de inspirar o escritor escrever livros e mais livros. Na via contrária, existem pessoas tão medíocres de significados que transitam ao meu lado, que não inspiram uma palavra de apoio, estímulo ou motivação, sequer. Por que? Porque humanos são egoístas, oportunistas e ingratos; e por fazer prevalecer essas três virtudes básicas na relação, não são confiáveis.

20171103_072944.jpgA introspecção é o laço reflexivo elucidando o pensador sobre os mistérios dos passos dados ao inusitado e jamais explicados pela ciência. Em pleno século XXI, a contagem regressiva ainda é (e sempre será) o grande enigma não decifrado pelos humanos. A qualquer momento, a qualquer ínfimo instante, o instante deixará de existir; dando lugar ao nada. Assim foi a derradeira aparição de Domingos Montagner contracenada com o seu ciclo vital. Fora o eufemismo irônico existente na sobrevivência cotidiana, a vida em sua totalidade está em constante pé de guerra com os segundos agonizantes da morte.

Fazendo-me transparente de princípios e pensar, desrespeitosamente, vide o que estão fazendo com o rio mais brasileiro dos rios, que querem transformá-lo em o "Milagre da Multiplicação das águas". Pobre rio São Francisco que está entregue às mãos gananciosas de crápulas predadores.Contrário as aves de rapina que limpam as impurezas pútridas lançadas na Natureza, a raça humana destrói tudo, insaciavelmente! Água mole, pedra dura, tanto bate, até que fura. Todavia, não há sonho fictício que não se realize, não há sonho ilusório que não se cumpra, sonho que não venha acompanhado pelo pesadelo realístico da morte!

Dentre os muitos, França escreveu "Rio São Francisco, nosso irmão": "Lá vem o rio matando a sede do sertão / Lá vem o rio, é o São Francisco, nosso irmão". Contudo, foi Geraldo Azevedo quem mais irrigou suas poesias musicadas com a placidez, ou voracidade das águas do "Velho Chico". Dentre as inúmeras magias sonoras retiradas das belezas que margeiam o rio, "Barcarola de São Francisco" merece ser ouvida com sensível acuidade e total desprendimento da matéria. Pois, a magia transcendente, os mistérios e a emoção fantasiosa são como os pássaros; e estarão onde as asas da imaginação pousar!

nascente1.jpgNascente simbólica do rio em São Roque de Minas. Minas Gerais.

babi.jpgPequena vista parcial da lindíssima serra Babilônia.

De um lado foi fincada a serra Babilônia. Do outro, o Criador plantou a serra da Canastra e juntas, amarradas pelos nós dados pelas copas dos arvoredos de pequeno porte situadas em um corredor profundo, formam o Parque Nacional da Serra da Canastra. Inefável relatar as palavras que representam tamanha quantidade de belezas e recursos naturais.

casca.jpgSub dividida em duas partes, essa é parte alta da cachoeira Casca´danta.

casca1.jpgParte baixa da Casca´danta. O primeiro de muitos véus leitosos que embelezam as sereias que descem os despenhadeiros, saltos e remansos existentes nos quase 3 mil km de percurso do rio.

Uma região cheia de mistérios, magias e belezas naturais. Ouro? Até já houve naquelas paragens, para intrigar os ladrões, afanadores e corsários de riquezas minerais, ainda há aos montes; porém, o mineral é somente para alguns, enquanto a maior riqueza que finda por lá, é para todos. Verdade irrefutável que ribeirinhos, pescadores, barcarolas e carrancas não negam de maneira alguma. E em agradecimento aos elogios recebidos, o "Velho Chico" fornece alimento, irrigação, pesca, transporte, lazer e água em abundância. Embora contra sua vontade, já avisou aos fora da lei que é por enquanto... pois, andam usando e abusando de suas benevolências.

Desafiando a lei da gravidade conferida pelo físico Isaac Newton, em teoria, o rio genuinamente brasileiro que nasce e morre em território tupiniquim, vai subindo as barrancas; e ao passar por Minas, suas águas são encarceradas, presas, estranguladas, represadas pelas mãos humanas. Ao total, suas águas alimentam as pás furiosas de cinco hidrelétricas. Sobretudo, integrar, somar, unir, pacificar e iluminar as mentes que circundam os seus quase 3 mil quilômetros de extensão, são benevolentes virtudes do Santo rio; ou do Rio santo, como alguns denomina-o.

20171103_063826.jpgParte antiga da cidade de Piranhas, Alagoas. Passeio da mente pelo sossego da paz.

Manhoso; vai subindo o "Velho" tinhoso. Chegando em Alagoas e bem próximo da foz, onde o gigante desmonta sua cauda móvel mar adentro, está o cânion do Xingó. Região desbravada por Virgulino, Lampião, amante de Maria Bonita; mulher faceira que ao cair da tarde, ia banhar seu corpo escultural nas águas mornas e calmas do rio. De longe, o Rei do Cangaço espreitava-a com olhos ávidos e ao notar a silhueta da amada em lusco fusco ziguezagueando em frente suas retinas, abria os passos em sua direção. Pisando em ovos. De mansinho. Pé, ante-pé. Naquele momento visto por ternos olhos d`água, pedia licença aos intrusos e humildemente, abanava o rabo feito cão sem dono. Iniciava a investida: "sou presa fácil de quem me quer bem; e lembrando o paraibano, Zé Ramalho, choramingava ao ouvido de Maria Bonita: "Mulher nova, bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor".

E antes de desfolhá-la em pétalas nas barrancas do "Velho Chico", derretendo-se feito vela dentro dela, Lampião banhava-lhe de mimo: "Venha cá minha Maria Bonita fogosa, deflorar os dedos pelos lábios da prosa, pois de tão terna formosura, parece uma bela rosa!"

Assim, o homem cabra macho e atarracado, o Robin Hood brasileiro, o rei espoleta e mandão da caatinga desmanchava-se, contorcia-se todo ao ser possuído pelas águas cálidas que desciam em conta gotas das entranhas da mulher de seus sonhos. À cada devaneio, tombava convicto que Maria Bonita já não era mais um botão em rosa flor; porém, ainda que desabrochada e amadurecida pelo tempo, mantinha a joia perolada tenra, viçosa e úmida de orvalho para banhar de prazer e gozo seu único amor. Nos momentos do "enquanto fazemos sexo, saqueamos um ao outro e esquecemos de saquear", tapavam o céu com peneira. Feitos os ensaios e findados os vários atos da peça teatral, depois de serem protagonistas nas peripécias do amor em noites não estreladas, Lampião dormia sereno em seus braços, tal qual dorme o recém-nascido no colo da mãe após sugar-lhe os seios. Entretanto, não muito distante de onde acontecia as núpcias crepusculares, o Rei do Cangaço foi emboscado, deixando Maria solitária e enviuvada. A trilha está lá como prova cabal do trágico dia da separação do casal de amantes revolucionários, mais amantes, que o Brasil já teve. Para os dias atuais, Lampião e Maria Bonita deixaram o legado que não há revolução maior que à entrega ao amor macho e fêmea, feito respeitosamente por dois animais incompreendidos.

20171103_073245.jpgFoi em algum ponto por aqui que o ex-ator Domingos Montagner, o "santo" da novela "Velho Chico", mergulhou fundo no desconhecido para entregar sua alma às incertezas além-vida; e a matéria para as águas santas do "Velho Chico".

O Rio santo adula, nina suavemente os sonolentos nas redes, balouça os navegantes nas barcarolas, tem a mania de tratar bem os seus, porém, em contrapartida, também prega peça nos desatentos e não suporta a incomunicabilidade. Semelhante aos atos humanos, uma coisa é o que aparenta ser e outra, é o que é. E quando a noite avança silenciosamente, em seu desconhecido entorno, uma brisa esquisita murmura poesias insensatas, a lua aparece para iluminar as coisas tristonhas que desfilam sobre suas águas e véus brancos são lançados no ar. De quando em quando, um vulto amorfo sobe às alturas. É o rio São Francisco pedindo respeito, implorando paz, clamando amor entre os homens.

20171103_124154.jpgAmérico Vespúcio e Dom Pedro I foram os primeiros aventureiros a navegar as águas do São Francisco que correm estacionárias nessas paragens.

Certa feita, Leonardo Vinci que não era querido globalmente e menos ainda localmente, mas entendia como poucos das traições aquáticas e por ser humanista, alertou quem o conhecia, dizendo que "se tens que lidar com água, consulta primeiro a experiência, depois a razão". Decretara portanto, que com água não se brinca fazendo bolinhas de sabão; quando muito, se tiver fôlego suficiente, um mergulho é o limite entre o céu a Terra. E por duvidar do primeiro mandamento ensinado pelo ensaísta hidráulico, constantemente almas são entregues a Deus e vidas às águas. Por sua vez, nas barrancas do "Velho Chico", de quando em quando, velas são acesas, olhos lacrimejam e uma cruzinha florida sinaliza o território do embate. Há muitos recantos por lá, os quais vidas desapareceram no anonimato do esquecimento; sobrando apenas o aqui jaz...

Como os velhos contistas, semelhante aos inebriados poetas e delicados prosadores, O "Velho Chico" sempre tem histórias e estórias interessantes para quem quer navegar suas águas; porém, não aceita atrevimento por parte do navegante. Portanto, por favor, fundamente-se e meça suas palavras antes de qualquer pronunciamento. Caso contrário, certamente terás a travessia de vida interrompida pela inconveniente mania ditadora do decrépito "Velho". Sobretudo, o rio que foi considerado o Rio da Integração Nacional, tudo dá, mas também tudo toma! Basta que suas águas sintam-se desafiadas...

Fotos pertencentes ao autor do texto

P.S.: por conveniência, não citei a obra de transposição, que já passam de 10 anos, quando estava prevista para 5; e pelo visto, só será retomada com a volta do Presidente mais charlatão que esteve à frente desse país. Esqueceram do "se quiseram matar a jararaca, bateram no rabo e não na cabeça". E há quem defenda a peçonha da "alma mais honesta do país". Obviamente, são os corruptos, provincianos e socialistas beneficiários dos bolsos dos honestos contribuintes; que nunca saíram do quintal de suas casas; e se saíram, deve ter sido para conhecer Disney, Miami, Los Angeles, Londres, Paris, etc. Como cantou a saudosa Elis Regina, "O Brazil não conhece o Brasil / O Brasil nunca foi ao Brazil". Enquanto existir a massa de otários alienados pelo futebol, os bobos diplomados e os bufões da ignorância, os reis sem coroa morrem de tanto gargalhar; mas nunca de depressão.

1o de maio de 2003. Discurso dela sobre a transposição: “eu sempre me recusei a discutir a transposição das águas do jeito que muita gente queria discutir, sem antes discutir como recuperar o rio São Francisco, como recuperar seus afluentes, como recuperar a sua cabeceira. Houve nota de protesto e de repúdio contra mim, em plena eleição, na Paraíba, no Rio Grande do Norte, no Ceará. E serei eu – prestem atenção ao que eu estou dizendo, e eu não posso mentir na frente de tantos bispos e cardeais aqui –, serei exatamente eu, que nunca assumi um compromisso, que vou fazer a transposição das águas para o Nordeste brasileiro.”


Profeta do Arauto

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