ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Na falta de combustível fóssil, renovo minhas energias, lendo, escrevendo, pedalando, fotografando e viajando por entre as nuvens. De tempo em tempo, procuro-me em meio ao batalhão de estranhos terráqueos. Dificilmente estou disponível para o meu alter ego

Oswald: o anarquista Brasileiro que deu certo

Segundo Abrahan Lincoln, "Pessoas sem vícios tem poucas virtudes". Já Oscar Niemeyer, senhor que por princípios e crença era socialista e defendia com todas as forças a arquitetura; mas empregou o concreto armado, que somado ao petróleo, são sinônimos máximos do capitalismo, em seus projetos para os Estados da União, disse em certa ocasião que a "Vida é um sopro; por isso não há motivo para tanto ódio". Perante um e outro, o que falou e como Oswald de Andrade se portou em vida?



Eu vejo o futuro repetir o passado / Eu vejo um museu de (sem) grandes novidades - Cazuza

rei1.jpgZé Celso dirige a mais de 50 anos a peça escrita por Oswald de Andrade. Em tempos de liquidez total para renovação de estoque "cultural", um irrepreensível feito para o teatro brasileiro.

Socialista reacionário, combatente declarado do capitalismo e crítico ferrenho da necessidade e carência de favores, principalmente dos estrangeiros; e mordaz acusador do provincianismo adotado pela sociedade brasileira da época. Simplesmente essa frase resumiria o literato, porém, essencialmente, Oswald possuía muitas outras virtudes. Viciado inveterado em arte, esteve presente em muitos (ou nos poucos) movimentos literários e artísticos do país. Foi peça chave na "Semana de arte Moderna de 1922", porém o trabalho que mais o identifica com seus pensamentos vanguardistas foi a peça teatral "O Rei da vela". No enredo, a palavra vela significa agiotagem. Com a derrocada da Bolsa de Nova Iorque em 1929 e os reflexos advindos da quebra, vem à tona os oportunistas brasileiros emprestando dinheiro a juros altíssimos. Outro pano de fundo para a criação da peça foi a decadência da companhia de energia elétrica por falta de recebimento pelo fornecimento, devido a crise econômica; ficando as famílias paulistanas a mercê do bruxulear do candeeiro, lamparinas e velas.

Os juros aplicados pelos agiotas eram acachapantes, abusivos ao extremo, de modo que o cliente pagava o empréstimo quatro ou cinco vezes mais que o valor tomado emprestado. Exatamente como os bancos fazem atualmente. Inclua no pacote a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil; instituições financeiras pertencentes ao governo. Sagaz e metafórico, Oswald representa a palavra juro pelo instrumento de prender o errante pelo pescoço, ou seja, juro é sinônimo de forca para o escritor.

A peça escrita em 1933 inicia com Abelardo II, arrastando uma corda atada ao pescoço, leva à presença do chefe mor um devedor, Abelardo I; que por sua vez, administra os empréstimos com punho de aço e conforme o caso, com estampidos de revólver. Implacável e desaforado, o chefe não dava a mínima condição de renegociação da dívida não paga e em último caso, além de tratar os clientes como bicho, usava de extrema violência. Através do poder e dinheiro, mandava e desmandava. Não tratava os clientes como pessoas civilizadas dotadas de direito, mas sim como verdadeiros "bichos" enjaulados.

A trama vai se desenrolando com o centralizador e poderoso Abelardo I debochando deslavadamente da formação familiar, que juntamente com a religião, não passavam de subterfúgios para alimentar o capitalismo em seu parecer. Como não bastasse a sátira ao valores sociais, morais e políticos, o assédio e desrespeito à mulher entram em cena, com o Chefe Mor abusando de suas secretárias. Chamadas para redigir uma carta, todas elas se submetem às carícias depravadas do Major-mor; que sem o mínimo de escrúpulo, recebem-nas enfiando, literalmente, a mão em suas entranhas. Fazendo uma comparação despropositada, Abelardo I é a personificação do Lúcifer.

Para comprovar como estavam de cheiro, limpeza e sabor, franzi a testa e leva a mão às narinas e abana o "O" bicudo feito com a boca para a plateia. Pelos trejeitos desconcertados e estranhos, não havia uma limpa e saudável, sequer; e em boas condições de uso naquele momento. Sobre essa cena, um dito popular a resume: "manda quem pode, obedece quem tem juízo". Fato é que no capitalismo/materialista quem manda é, obviamente, o dono do capital e os princípios democráticos de liberdade e direitos ficam em segundo plano; motivo de muitas mulheres ainda hoje se sujeitarem a chefes desaforados, tal qual Abelardo I. Embora não ocorra a olhos vistos na peça, a recíproca também não deixa de ser verdade; pois dinheiro lavado sem o dispêndio de suor, é apogeu e poder facilitados. E convenhamos, nesse quesito, uma parcela das mulheres brasileiras não estão muito distantes dos homens; ao contrário, transitam lado a lado pelos corredores da facilidade. Aliás, não é o homem ou a mulher que praticam esse esporte, mas o gênero humano como um todo. Notaram as despensas de portas escancaradas e sem ferrolho, os ladrões, traficantes, prostitutas, lésbicas, agiotas, corruptos, baratas, ratos, oportunistas fazem a festa. A bicharada rói, traça, come e transa tudo que vê pela frente!

Outro gesto característico do Chefe e repete-se paulatinamente no decorrer da peça, é Abelardo I meter a mão de baixo para cima para alinhar os escrotos e acertar o nível do volume morto no reservatório. Após apresentar a sacaria para a plateia, retoma o dualismo entre capitalismo X socialismo, família X proletariado, aclarando-os nos discursos entre os dois sócios:

- Manter vigilância rigorosa nas fábricas. Evitar a propaganda comunista. Denunciar e perseguir os agitadores. Prender. Esse negócio de escrever livros de sociologia com anjos é contraproducente. Ninguém mais crê. Fica ridículo para nós, industriais avançados. Diante dos americanos e dos ingleses. - fala o capitalista Abelardo I aos berros. Diferenciando uma da outra, chega dizer que em São Paulo havia apenas 10 famílias, obviamente, os barões do café; e as restantes, eram subalternas aos senhores e não passavam de proletários. Tanto é que discursou irado: “A minha classe precisa de lacaios. A burguesia exige definições!”

Embora fosse filho de pai corretor de imóveis e um pequeno burguês não declarado, Oswald não deixa de atacar os intelectuais, com seus modos de vida capitalista, que nas horas vagas, mostram ser ativistas do socialismo e fazem-se reconhecidos como comunistas. Uma modalidade de hipocrisia posta nas entrelinhas pelo autor, talvez. Sobre essa questão, o citado Niemeyer sabia tudo sobre socialismo e teses afins, porém, desconhecia por completo uma favela; (o que tem de espíritos charlatães circulando pelo mundo, é algo assustador e mete medo!) tanto em seus projetos, como na sua vida cotidiana. Para o bem da verdade, em se tratando de habitação como alento social coletivo, arquitetura é a forma mais hipócrita que pode haver entre as todas profissões no Brasil. Por onde se vá, altos muros divisam os casarões dos ricos projetados por arquitetos, dos casebres de madeira e palafitas construídos aos trancos, sobre barrancos e esgotos dos córregos, pelos pobres proletariados. Ademais, invasões em áreas devolutas e ocupações irregulares garantem os votos nas urnas, mas não geram impostos para governo.

Onde há dinheiro e poder, impossível haver paz. E a ganância entre os dois sócios do escritório Abelardo & Abelardo transforma usura e ilegalidade em desavença e morte. Tudo porque Abelardo I é lesado por Abelardo II e ao perder as posses para o sócio, suicida-se. Porém, profetiza que as famílias burguesas também irão perder o poder para as classes operárias e proletariados. Salientou ainda que tanto a aristocracia quanto o proletariado do país continuariam sob o jugo dos estrangeirismos e capital americano e inglês. Por fim, o ex-chefe mor cai desfalecido; e com a expressão: "Oh, good busines", proferida pelo intelectual americano, a peça é finalizada. Para a pesquisadora de história do teatro da USP Mariana Rossel, a peça é atualíssima e até assustadora, uma vez que questões ligadas ao poder do dinheiro, as assédio sexual, fragilização da mulher perante o machismo, as políticas econômicas praticadas pelos bancos, ainda são questões recorrentes na sociedade brasileira e vez por outra, surge um escândalo envolvendo um tema ou outro; ou todos em uma só vez.

Em síntese, a peça teatral "O Rei da vela" apresenta ao espectador um Brasil, o qual sempre foi e pelos indícios, será retrógrado por tempo indeterminado. Sem planejamento a longo prazo e que sobrevive unicamente dos ciclos econômicos de época. Citando alguns, o ciclo do café, da borracha, da comunicação e mais recentemente, da construção civil, movimentaram a economia e por não haver política continuada, gerando desemprego em massa ao término e falta de investimentos privados; daí, sem outra opção, a sociedade recorre aos empréstimos.

E segundo os informes estatísticos relacionados à economia, atualmente, à cada três brasileiros, dois estão estão endividados. Politicamente, em sistemas econômicos como o brasileiro, trocam o compromisso social planejado a longo prazo, pelo resultado contábil e consumo imediato. Quando menos espera, retornam ao ponto de origem, exatamente, como está acontecendo no país; com isso, o fracasso econômico e a estagnação social são inevitáveis. E o pior: sem perspectivas de retomada do crescimento. - se é que falta de planejamento e inconstância econômica são sinônimos de crescimento estável e progresso duradouro e sustentável. A mazorca brasileira está mais para incompetência de economistas, administradores, políticos, contabilistas e lógico: família; afinal, os hábitos e costumes de uma sociedade é o espelho da família. O presente repete o passado. E o futuro? Tudo igual, vai ser exatamente igual o que acontece no presente.

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Sempre apostando nas dúvidas e incoerências até do idioma português, Oswald de Andrade escreveu a peça teatral "O Rei da vela" e não, O Rei dá vela aos menos iluminados. Portanto, tanto a peça, quanto a sociedade, juntamente com a cultura teatral do país permanecem às escuras. Porém, em certa ocasião o escritor se redimiu das más profecias, dizendo: "A massa ainda comerá o biscoito fino que eu fabrico". Sigamos o séquito com fé. 500 anos e mais uns rolos de fumaça lançados na atmosfera se passaram, mas um dia chegaremos lá...; pois o biscoito fino, que pode ser tratado como tesouro de infindas riquezas, está enterrado logo ali. E o presente nunca, jamais repetirá o passado; podendo inclusive, aposentar de vez a peça teatral "O Rei da vela". De quebra, arquivará definitivamente o escritor, literato e ensaísta Oswald de Andrade.

O cidadão brasileiro formado em Direito pela faculdade Largo São Francisco, em São Paulo, nunca escondeu de ninguém que odiava o Direito praticado no país. Segundo professava, Direito é o princípio da legalidade capitalista. O dinheiro prevalece sobre todas as coisas; e de posse dele em espécie nas mãos, tudo se compra. Verdade inconteste...; pois, atualmente, não há dignidade, pureza, insatisfação, justiça, igualdade e honestidade humana que resista-o. Chacoalhou a pacoteira de verdinhas novinhas em folha, levou! O homem, digo o brasileiro, é prostituído por ele. É tão ingrato e prostituído por ele, que deixa a puta, o traficante e o (e)leitor chupando o dedo...; convenhamos, somos um povo de muitos vícios e máximas virtudes.

P.S.: só deixa de ser o que sempre foi e fazer o que sempre fez, a feliz alma que tem morte dos batimentos cardíacos; e portanto, perece de vez. Por que da morte cerebral, ela ressuscita... não importa em que dia, mas ressuscita. Certeza absoluta.


Profeta do Arauto

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