ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Próximo, lado a lado com as teorias e longe, anos luz da solução, sigo impotente, escrevendo nada de óbvio em palavras não lidas; e se lidas, mal interpretadas, para a Obvious

Raul rock Seixas em 7 belezas de letras bregas

As letras de Raul e parceiros conseguem causar todo tipo de sentimento, desde tristeza, reflexão, dúvidas, amor, euforia, dor, gratidão, alegria, angústia e morte. Por sinal, sobre a morte, eles escreveram uma letra exclusivamente para a morte de Raul. Para que o rock brasileiro permaneça dando as notas, o "Doidão Beleza" deveria ser soprado no ventre de Maria e reeditado, reconstruído pelo carpinteiro José. Por que, para conceber miraculosos gênios, sexo carnal, macho e fêmea, androceu e gineceu, não basta; tem que haver algo mais. Um sopro fecundo do vento, talvez!




Contrário da maioria dos músicos que iniciam e morrem tocando determinado estilo, disparadamente, Raul em seu tempo, já pregava a diversidade. Sim, na música Raul foi um músico chique, roqueiro, bossa nova, jazzista, bluzeiro, espiritualista, forrozeiro, sertanejo da terra, tangueiro e fazia coro com os bregas. Acompanhado por músicos e letristas de primeira linha, o "Maluco Beleza" tinha dom e talento para vagar por quase todos os estilos, até então produzidos mundialmente.

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Eclético, mas sem perder os trilhos da tão temível locomotiva desembestada do rock and Roll, Raul foi o único músico brasileiro que conseguiu unir, praticamente, todos estilos em um único. E quando o país se dividia musicalmente, Jerry Adriani encontrou o "doidão beleza" perambulando pelos subúrbios da Bahia. Estupefato com tamanho talento inaproveitado, levou-o para o Rio de Janeiro. Raul não deixou de reconhecer o favor e mostrando-se grato, no momento oportuno, declarou que Jerry Adriani era seu compadre, beleza; e adorava ele. Engana-se quem pensa que os malucos e insanos não amam, assim como, não flertam com o sentimento de gratidão.

Contrário de tudo e todos, conta-se que em certa ocasião, o nosso "Che Guevara" da música, adentrou uma balada noturna. Luzes piscavam. As estruturas da edificação tremiam pendidas por um fio. No meio do salão, um "dançarino" passava a lição dos trejeitos da coreografia com as mãos e atentos aos ensinamentos, o restante imitava; e a pista de dança requebrava os passinhos ritmados e iguais, testemunhado por ele como: "uma tremenda macacaquice humana." Ao lado da pista, encostado no peitoril com sua camisa de manga comprida vermelha-berrante em total desalinho e punhos abertos, gola arrebitada, cabelos esvoaçado escorrendo pelo peito, calça boca-de-sino, botinas de bicos finos sem lustro; grandes óculos em formato de elípses, estilo olhos de formigão na cara; e mãos enfiadas nos bolsos até os colhões, Raul espiava o movimento. De repente, a balada foi interrompida; e o motivo era para que os presentes desvendassem os mistérios daquele lunático fora de moda. Ao ser visitado pelos olhos da trupe de playboys e curiosos rebeldes com lar, Raul foi às alturas, ultrapassou as nuvens, tocou o céu e ao aterrissar em solo baiano, concluiu: "estou revolucionando tudo".

A questão da variabilidade de ritmos fazia de Raul um músico bem quisto por diversas classe sociais. E era comum, habitual encontrar pessoas da base da pirâmide social ouvindo-o. E a condição de ser aceito por diferentes públicos, lhe rendia bons dividendos, tanto é que o seu lado brega, era o chamariz de vendagem. E quando foi necessário, o fã clube dele, composto por negros, brancos, cabeludos, carecas, religiosos, sectários, ateus, roqueiros, sambistas e outros, fez um cordão humano, fechando as principais avenidas do Rio de Janeiro e São Paulo, cuja finalidade, foi levantar fundos para reerguer o Raulzito que estava largado na sarjeta musical. Na época, as gravadoras recusaram os trabalhos do "Doidão", fato que levou-o ao ostracismo quase absoluto. Com o dinheiro arrecadado, o Dom Raul gravou o álbum "Novo Aeon"; com destaque para a primeira faixa: "Tente outra vez". A letra retrata essa passagem sombria, (dentre as várias) por qual passara.

Indo direto ao que interessa, a primeira breguice do Raul é "Quero mais . Numa levada estilo forró, a música é interpretada por ele e Wanderléa, cantora mineira que trilhou os caminhos da Jovem Guarda. A letra escarnece os matrimônios, os quais as carícias mecânicas e automáticas na hora do ato sexual, sobrepõem o chamego, o abrir a porta do carro, o fuça fuça, a bulinagem, o dar flores multicoloridas, o lenga lenga e as prévias românticas de antigamente. Serviço executado, quando muito: "Boa noite! Dormindo lado a lado, se o garçom do nosso lupanar de cada noite nos servir, nos falamos no café da manhã, querida! Até lá..."

É água que eu quero beber... / lhe faço festa / faço dengo lhe mordendo / e essa coisa vai crescendo / lhe derramo em você.

Seguindo, faixa do disco "Mata Virgem", o leitor ficará com "Pagando Brabo". Outra letra pra lá de anormal e logicamente, brega: "Dizendo pra mim que eu faço / e aconteço o dia inteiro / de pé pra sorrir /eu e tu fazendo ioga no chuveiro". Que coisa despropositada é fazer ioga no banheiro, mas Raul e suas muitas mulheres tinham o dom de relaxar a mente no banheiro.

A terceira, é um forro pé de serra arretado de bom! A letra de "O negócio é"; é pura alucinação. Para melhorar e tornar as coisas mais dançantes, reais, verdadeiras, honestas e driblar a inflação, o desemprego e as más economias empregadas pelos maus governos, Raul tinha a solução: "fubá no almoço e farinha no jantar, ô nega". Ainda se não for suficiente, pode-se também dormir na cocheira, mas para isso, tem-se que "ter o mesmo cheiro do cavalo para não se incomodar". E quando a paz reinar no mundo, "tocar a sanfona para nêga rebolar". Raul era idealista, sim; porém, sabia que é difícil, mas ainda dançaremos um forró pé de serra, ao som da sanfona.



A penúltima foi catada a dedo, pois, "André Sidane só faz confusão / Sonhei com ele e mijei no colchão!" E nesses tempos de direitos adquiridos e os deveres postergados e definitivamente, jogados nas latas de lixo, Raul também deu seu depoimento sobre: "o tempo passa, eu to ficando velho, andam brincando com a vida da gente, direito eu tenho mas anda escondido". 

Por fim, por que o que é provido por Raul nunca acaba, fiquem com a quinta breguice do mestre "baiano de Quenguenhém / oito horas de mula / 12 de trem". Essa já fez parte de outros textos escritos por mim, porém, deve-se repeti-lá quantas vezes for necessário; pois, retrata o homem na finíssima ponta da cadeia trófica. Homem glutão que tudo come e nada oferece à fonte dadora. Escancaradamente, a letra pontua que o homem é um incansável roedor do Meio Ambiente, pior que as espécies roedoras. Será? Inverossímil? Ainda tem dúvidas; confira o verdugo da Natureza em metáforas de "Capim Guiné":

Benevolente como fora Raul em vida, vou dar uma canja e postei mais uma, e o que eram cinco, tornou-se seis. "Faça, fuce, force". Rompa suas portas. Nesse blues o "Maluco Beleza" retorna ao seu estilo filosófico, místico, metafórico, não entendido.

Chega? Não, não. Escreva mais sobre Raul! Escreva mais sobre Raul! Atendendo aos pedidos, vamos executar a sétima peça do fiel escudeiro Gran-Mestre e mentor máximo do rock brazuca. Essa letra fala da desilusão amorosa, aquela dor de corno muito comum no Norte, de onde ele saiu. O tango do desengano culmina com o cinema incendiado; em outras palavras, o tango retrata o adultério e a passionalidade entre os amantes; fato cada dia mais recorrentes nas camas dos lares e lupanares. Vamos ao encerramento do que eram seis, tornou-se sete:

Sabendo que John Lennon foi a primeira, Raul era um sujeito que morria de medo dos estampidos de bala, afinal, poderia ser ele a próxima estrela. A lente do cego e a cegueira da visão. A água que apaga o fogo que queima durante o dia; e o fogo que incendeia os oceanos na madrugada. Quando era tudo, Raul era brega. Quando era nada, o "Maluco Beleza" era um filósofo/Profeta que não perdia tempo com revelações. Afinal de conta, a morte está para o asno, assim como está para os vermes que devoram os restos mortais dos ignorantes e doutos. E conforme apregoado pelo Raul, dela sobram apenas as ervas que transformadas em cinzas, alimentam outro homem, os filhos. Mas, filhos, honrados filhos e não serpentes voadoras, como tem um monte delas volando (em espanhol) rente às nuvens.

P.S.: Se perguntarem, diga que o autor deste texto é a assinatura autografada com firma reconhecida pelo Raul doideira, ou badera Seixas. E fim do rito! Fim da breguice. Fim de papo! Fim do escrito!

Os créditos das letras estão sendo concedidos ao Raul, o que não é totalmente correto. Ele escreveu inúmeras delas sozinho, mas outras várias, é em parceria com outros autores. E algumas assinadas por autores totalmente fora do circuito musical fonográfico, caso de "Capim Guiné", de autoria de Wilson Aragão.

Outra curiosidade, é que o auge, o momento máximo de sua carreira foi em parceira com Cláudio Roberto. Portanto, os melhores álbuns foram pensados e produzidos pelos dois; e não com Paulo Coelho, como muitos ouvintes imaginam.


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