ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Na falta de combustível fóssil, renovo minhas energias, lendo, escrevendo, pedalando, fotografando e viajando por entre as nuvens. De tempo em tempo, procuro-me em meio ao batalhão de estranhos terráqueos. Dificilmente estou disponível para o meu alter ego

A arte poética permite, mas não consolidam os sonhos!

A filosofia pura remexe a ferida em carne viva e a poesia é a sutura, a droga lícita, a alta dosagem de morfina que alivia a dor.


Texto/conto inspirado no tomo número 1 do livro "Os Pilares da Terra"; escrito por Ken Follett em dois tomos e publicado na Inglaterra no ano de 1989.

Lenda Morta

O gorjear dos pássaros são mais profícuos e inspiradores à poesia que os instintos, imaginações e devaneios dos poetas sentados nas nuvens de algodão para bisbilhotar o eclipse da lua. Pássaros piam estrelas, trinam arrebóis, gorjeiam sóis e alimentam-se de sementes de girassóis. Carregam nos bicos, transportam nas titicas, polinizam as sementes e semeiam os grãos.

E eu, representando a espécie sapiens, poeta filho do mundo, egrégio habitante do Planeta Netuno, voraz consumidor de riquezas, ciências e números, o que faço da vida, vivendo em terras devolutas, é tudo em vão.

Valho menos que uma lêndea, nada comparável a um piolho, insignificante como a gosma de uma lesma claudicante, lenda morta sem precisão!

favela.jpg"A fome é o melhor tempero" - pag.: 139

Quase muda, ela era uma poliglota que falava sem língua. Sendo ele um artista de sorriso plastificado, recriava uma humanidade com homens gigantes, cemitérios incinerados, céu com raios faiscantes queimando maltrapilhos e mendigos. Sua arte compunha-se de insanidades e cenários recobertos por nuvens afáveis em horizontes intocáveis. Não havia pináculo do Himalaia que chegasse perto e apalpasse o paraíso celestial. Pregando a Palavra nos semáforos das encruzilhadas dos destinos ou enquanto distribuía as migalhas para os pombos em praça pública, vociferava para o vento que as lavas dos vulcões sagrados há de queimar as lavouras, enxames de animais e pencas de gente.

Ao dar vazão aos seus devaneios, continuava encaixando as peças, povoando cidades com casas feitas de brinquedo Lego. Montando peças sobre peças, fazendo e desmontando, sem reboco e acabamento, empilhava-as uma sobre as outras, dando formas aos condomínios e logradouros. Criando labirintos espantosos de becos e vielas. Vez por outra, grafitava cães parecidos com o Conde Drácula, gatos com unhas em formato de tesouras, ratos com olhos afundados na órbita, baratas com aparência de Frankenstein e morcegos com asas de prata nos muros lindeiros. Cada figura mais horripilante que a outra; e qualquer um delas, poria o Lúcifer para correr das cercanias com um singelo e aliciador sorriso.

Em pouco instante, em horas de entretenimento, uma pequena cidade tomava forma. À noite as luzes artificiais despontavam aqui e ali; e o alaranjado vai colorindo, tomando de assalto o negrume do cenário. Ao desmontar sua obra de arte intimista, enviava à mente o porquê de construir e desmontar: "as robustezes e fortalezas que os humanos entendem como sólido e implacáveis, se renderão às intempéries; pois, afinal, perante a transformação natural descrita pelo químico francês Lavoisier, nada é para durar; e sim, para transformar-se". Assim como o químico, ele também não sabia em quê; mas com o tempo suas obras se transformariam. E tomado pela paciência que Deus mandou à Terra para cobrir a sua criação máxima, reiniciava tudo do zero novamente.

Não se constrói um castelo com o tempo de abertura da fenda de fogo do relâmpago no céu até o ribombar do trovão; em oposição, tem que haver horizontes nebulosos e sombrios, vendavais intermitentes e chuvas torrenciais. Guerras? Não há mais espaço para as guerras. Bom, repensando a questão, sobre a possível quarta gerra mundial, não se lembram o que foi declarado por Einstein? - "Não sei como será a Terceira Guerra Mundial, mas sei como será a Quarta: com pedras e paus..."?

igreja1.jpgAbadia de Westminster

"Isso porque a catedral era construída para Deus, e também porque a estrutura era tão grande que a mais leve inclinação nas paredes, a mais ínfima variação naquilo que deveria ser reto e nivelado, poderia enfraquecer fatalmente o conjunto. O ressentimento de Tom havia se transformado em fascínio.” - pag.: 55

E ele, varão pai de família, mantinha-se perseverante, resignado de pensamentos, crente em Deus, que mais cedo ou mais tarde, um dia qualquer, edificaria um monumento maior que casinhas de peças Lego. Uma igreja, talvez; onde todos pudessem adorar ao Pai do céu; e Nico, a cinza da semente de seu corpo que irá fenecer e ele, a semente geminadora na Terra, pudessem ser batizados em "Nome do Pai, do Filho e Espírito Santo. Amém".

Não há Jesus Cristo que faça milagre de efeito para povo que não tem fé. Crer no Senhor é preciso, negar a fé em Deus, não é preciso! As religiões condenam o ateísmo e descrenças em Deus, o único salvador dos humildes e abastados.

Em contrapartida, os otimistas, pacificadores e sábios afirmam que sem paciência, resignação e a caridade do fazei o bem para merecer a plenitude da paz, o precipício da salvação não estará mais distante dos pés do penitente, que um palmo de mão de criança recém nascida. Deveras, com guerra ou sem guerra, Ela, Ele, Nico e a encomenda seguiam cabisbaixo teatralizando a peça "Deus nos acuda" na Terra!

igreja.jpeg

À presença do senhor pároco e testemunhas, inclusive, alguns santos que estavam presentes à cerimônia, casaram-se homem e mulher; ou doravante, marido e esposa. Após cinco meses de matrimônio, tiveram um filho, o lindo Nicanor; e ao ouvir o chamado: "vem para favela, você também"; não consultaram o zodíaco, fizeram as malas com os cueiros de bunda que ganharam da vizinhança e sem escala, rumaram para lá. Qualquer vão livre, qualquer lona jogada debaixo de ponte ou viaduto seria o palácio derivado do projeto "Minha casa, o sonho realizável de minha família".

Os de lírios são pétalas de flores existenciais despedaçadas pelos sintomas depressivos do sentir-se vazio; pois, em tempo, os sonhos são maneiras imperceptíveis de enganar-se intimamente.

Venha, sigamos nessa estrada / Logo à frente há uma cachoeira;

com chuá e fios de água salpicados refrigerando o ar.

Sol nascente espiado pela pedra elevada;

Lua enamorada, estrelas encantadas;

E um tapete relvado com pétalas de rosas;

Sobre a sua suavidade / O corpo estirar!

Ela na frente, arrastando o Nico e mais a encomenda enviada pela cegonha que bicou-lhe as entranhas, cujo vulto arredondado de uma melancia apareceu na barriga; e ele atrás, empurrando o carrinho de mão com as tranqueiradas. E todos os três, (claro que por enquanto) empurravam o futuro com a barriga. "Deus seja louvado; pois foi ele quem deu; destarte, nada mais correto que ele gere o leite, separe o soro, faça a massa, cure o queijo, forme, eduque, crie e alimente para sempre o seu filho, a sua imagem e semelhança, o nosso Nico!"

Paravam, caminhavam, paravam e cantavam: "É pra lá que eu, ela, o saruêzinho, nós vamos". Nico dormia um sono alegre de pluma. Às vezes abria a boquinha num sorriso de guarda chuva deformado pela falta de adequação geométrica das varetas ajustadas ao cabo. Sem entender exatamente o que é um sorriso de alegria, ou de tristeza movido pela fome, a mãe tocava-lhe a teta boc´adentro. Quase sufocado pelo mamilo que ia parar no abismo da minúscula garganta, o mocinho sugava tão avidamente a teta, que babava o peito da mãe.

Em um mundo de cabeça para baixo / Já fui sexo.

Tomava sopa de canudinho / Procurava a saída de emergência.

E bisbilhotava os segredos guardados no porta joia / Debaixo do vestido ou saia.

Também já fui feto / Virei; tateei as paredes; revirei,

Sem aborto / sem veto / Me encaixei.

Conheci a luz / Ilusão dos pulmões;

Coração pulsante / Defloração da sorte.

Barganhando palmo a palmo com a morte,

Assim seguirei.

Se Nico tivesse avós, as palavras direcionadas a ele deveriam ser ditas no diminutivo; por exemplo, em vez de peito chiado: peitinho chiadinho. Quando possui, netinhos são docinhos dos avós. Os tempos e os velhos mimos de avós modernos não permitem palavras inexpressivas, rudes e grosseiras endereçadas aos netinhos. Netos, ou melhor: netinhos quando possui avós é um luxo só, quando não, cristaizinhos intocáveis!

Com o devido carinho de uma mamãe gerada à força, ela enxugava-lhe o corpinho miúdo e raquítico de criança refeita em incubadora. Nascera com 56 cm e massa corpórea, menos de 1 quilo. Um rato, por assim dizer em má comparação. Será que Nico sofreria de nanismo quando grandinho? Papai e mamãe perguntavam para a luz do teto antes de dormir. Nada de respostas das paredes. Sem saber como lidar com tais coisas, faziam o que sabiam: riscavam o palito de fósforo e acendiam o cigarro de palha. Um dava uma baforada no cachimbo de um lado, o outro dava outra baforada do outro lado e sonolentos, o cochilo embalavam os dois; e não demorava muito, ambos caíam desfalecidos. Nessas horas, já não havia tanta graça namorar, preferiam dormir ou oferecer carinho para o mocinho, Nico.

Aproveitando o ensejo de mãe zelosa, com a boca tossindo fumaça, ela beijava-lhe a testa e dizia: "bilu, bilu, bilu; que a cuca vem pegar. Mamãe não tem o que fazer; e papai vai para os braços abertos da noite vadiar". Aplicado o sonífero, balbuciava para os botões da camisa que era uma mentirinha para passar o tempo; pois quem não tem o que falar, faz o que não sabe. Deveras era uma pegadinha e saibamos porquê: "O mais eficaz remédio, o mais racional antídoto contra as verdades e fatos, é a omissão; pois, sobretudo, um não sei de nada, uma mentirinha bem contada é inerente ao DNA humano e não faz nenhum mal à convivência de todos os integrados ao meio".

Estariam eles, os quatro, vivendo a inconstância do agora, ou esperando pelo amanhã? Seja o que seja, responda o que responda, aceitavam bem o fato de estarem vivendo uma realidade desbotada, sem graça e totalmente covarde. Sobretudo, o futuro está anos luz deles; muito longe, assim como as certezas. No entanto, a condicional "se", a dúvida do talvez e quem sabe, estivessem cada vez mais ao lado, caminhando junto e misturado, era a sombra do tempo vindo ao contrário, se aproximando deles à cada passo dado por eles.

Encontrar-se, é a confluência ou o desvencilhamento de um caminho, trilha ou estrada com a outra. Seguindo por essa trilha, chegarás à Cachoeira dos Encantos e caminhando mais 1 km e meio, se muito, estarás no "Poço das Ilusões".

E seguiram todos, exceto Nico e quem estava encolhido em formato de melancia, pois, criança recém nascida é inocente e embora possua neurônios, não pensa as racionalidades adultas, apaixonados por saberem em qual fonte encontrariam o líquido do auto conhecimento. Em tempo, quaisquer tipos e modalidades de ilusões levam ao aprisionamento das emoções; afinal, sonhos é sempre mal interpretados, portanto, dificilmente realizáveis, porém, mente que não sonha, fenece precocemente.

A existência humana é um paradoxo maniqueísta e tudo começa, com os aparentes entendimentos formacionais; porém, culminam de fato, com as arbitrariedades do sim indevido e do não devido, mas não dito pelos responsáveis e líderes da célula mater. Em resumo: Ele, ela, Nico, a semente que está sendo semeada e os demais frutos espalhados em solo infértil fazem parte da permissividade ecumênica mundial. E o que a poesia tem a ver com isso? Ora, a poesia é a arte de iludir o vento, trair as corredeiras de água, enganar os peixes, dissimular a existência. Assim seguiram todos. Seguiu a família caminhando até os dias do arauto.

P.S.: A arte poética permite, mas não consolidam os sonhos. Já o estudo filosófico da fome e dureza do diamante, não permitem; mas estruturam e solidificam as ilusões e sonhos! E esse é o motivo do Pilares da Terra terem sidos edificados pelos acéfalos do Poder e gananciosos por dinheiro, pelos conflitos religiosos entre irmãos de crença no mesmo "Deus", nas dores e doenças aniquiladoras, nos jorros de sangue proporcionados pelas guerras, por fim, nos banheiros e cemitérios que incineram os corpos e sopram as cinzas à igualdade. Nesses dois lugares lúgubres e taciturnos, com as calças arriadas até o joelho, ou com as mãos cruzadas no peito, não há ser vivo ou caveira funérea que valha um centavo furado a mais ou menos que outra. Tentam de todas as maneiras mascarar, maquiar a face desta linearidade histórica, mas sempre há um vidente que abrem as cartas na mesa e desvendam os segredos e mistérios dos integrantes da farsa e embustes.


Profeta do Arauto

Na falta de combustível fóssil, renovo minhas energias, lendo, escrevendo, pedalando, fotografando e viajando por entre as nuvens. De tempo em tempo, procuro-me em meio ao batalhão de estranhos terráqueos. Dificilmente estou disponível para o meu alter ego .
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