ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Na falta de combustível fóssil, renovo minhas energias, lendo, escrevendo, pedalando, fotografando e viajando por entre as nuvens. De tempo em tempo, procuro-me em meio ao batalhão de estranhos terráqueos. Dificilmente estou disponível para o meu alter ego

Dom Quixote é a sombra do que foi Cervantes

Quais são os limites entre a sanidade e a loucura? Simples: basta seguir os infindos mandamentos expostos na padronizada cartilha social, que a sanidade é facilmente compreendida pelos, também, dementes; no entanto, a loucura..!; ora, a loucura por "definição" é a nobre virtude não revelada pelos sanos; motivo de poucos humanos ousarem escancará-la, olhos nos olhos. Pois, dizer abertamente o que se é intimamente, é honesta e sincera aceitação da verdade!



A atualidade quixotesca diz que, "quem é lavrador da terra, degustador de alimentos orgânicos, apreciador de energias naturais e mentes renováveis, tem consigo que a safra atual está comprometida pelo caruncho e (g)orgulho tecnológico; e é bem provável que não salve um grão, sequer, para o replantio".

dom2.jpgRuta de Don Quijote

Uma das maiores boçalidade humana é tentar entender, gerenciar, administrar as "múltiplas inteligências"; aliás qual ato humano define plenamente a inteligência de uma cabeça dita pensante, porque estupidez e ignorância, sabe-se o que significa e em quais atos resultam? Há outros, a não ser discórdias, insanidade, Poder, injustiça, desigualdade social, religião, terror e guerra?

- E onde entra o futebol e o carnaval com suas maquinações alienantes nessa história, Profeta?

- No seu tempo não havia futebol; quando muito, montar no touro e oferecer pão para a plateia, era o lazer e esporte praticados nas arenas, Dom Quixote de la Mancha!

- Boa sacada! É que essa história é tão atual, que nem dou conta que passaram-se mais de 400 anos que Cervantes escreveu sobre minhas aventuras e desventuras na Península Ibérica.

- Meu amor, motivado pela falta de combustível, como é impossível dar-lhe flores vívidas e perfumadas nessa data especial, trouxe flores de plástico, espere que sacie sua vontade e gula. Comprei na floricultura que fez parceria com o Sex Shop. Sabemos que são nocivas ao meio ambiente e ataque a ordem religiosa, mas nos modos de vida artificiais, irônicos, supérfluos e blasfemadores que levamos, o que não é?

- Profeta, que diálogo mais desencontrado. Sobre o quê mesmo, estávamos falando?

- Poderia dizer-me o que é "história atual", por que sonhar e criar fantasmas, sonham bastante; mas gladiar contra as adversidades, nem com reza brava. As celebridades preferem os fachos de luzes dos holofotes e a zona de conforto proporcionada pelo Google. É pedir, que sob o efeito de Aladim, o gênio da lâmpada mágica, resolve o problema. Soluciona o caos. Supondo que ainda falo com o mesmo leitor(a), aprendi com Dom Quixote, excelência em assuntos aleatórios e formidável consultor em questões fora de propósitos, que a loucura exclui a clareza da razão, como também não alimenta-se de emoção; e tampouco, requer logicidade de ideias e raciocínio.

- Impossível desenvolver um diálogo sadio com você, Profeta. Rendo-me à sua intrepidez de pensamentos! Prossiga com o texto, escreva o próximo capítulo; melhor. Mas por favor, deixe-me fora do enredo.

O engenhoso Dom Quixote em dada ocasião confidenciou para o vento que: "Contento-me com pouco, mas desejo muito". Por sua vez, como forma de extravasar sua demência, Profeta do Arauto sempre diz, afirma plenamente para quem tem ouvidos para suportar suas tolices, que "Adora, diverte-se, deleita-se em ser pobre, porém detesta, tem pavor, causa-lhe náuseas a pobreza; pois, aceitar ser pobre, é ter olhos críticos de si e conhecer-se, é ser milionário emocionalmente".

dom.jpgEm cada esquina de Toledo, uma figura caricata do patrono da cidade recepciona o turista: "Bienvenido a la tierra de Cervantes. Entre sano y salga como quiera; pero jamás como entraste!"

Pregou os olhos por uns segundos. Sonho conturbado com cavalaria, lança, moinho de vento. Arriou o pangaré, passou a mão na arma e foi à luta conferir o devaneio. Trotou léguas, até que em certo ponto do onirismo, o cavalo trôpego embarafustou com algo. Dom Quixote, pôs-se pronto para o ataque. Não havia moinho de vento, mas um enorme gigante sem botas.

Cervantes foi um lanceiro/espadachim social e mercador de sonhos a serviço do Rei; e antes de peregrinar nos labirintos das letras, o habilidoso escritor se meteu em ser arauto do diabo, afinal, lidar tanto com o Poder quanto com os súditos do Rei, exige coração gélido e punhos de aço. Em contrapartida, o espanhol aprendeu às duras penas o jogo dos opostos, teve contato direto com as individualidades e mesquinhezes do livre arbítrio imperando sobre a inteligência coletiva; pois indiferente à época e status quo, gente é gente e infalivelmente, não é nada confiável e muito menos, verdadeira e honesta. Sobretudo, gente é gente e não permite o entendimento, a flexibilidade; e quando as coisas não lhe são favoráveis, parte para a força bruta. A história da humanidade é prova cabal desse axioma.

Fora as controvérsias do "disse que disse" de não se saber a verossimilidade de determinado assunto, reza a lenda que atendendo os mandos do Rei, Cervantes corria a península Ibérica de cima a baixo. Era o mensageiro, o leva e traz, o porta voz, o cobrador oficial de impostos e o coletor de sementes e grãos, cuja finalidade era suprir e diversificar as culturas dos proletários rurais.

dom3.jpgEsta casa destinava-se a receber os mercadores que vinham das aldeias e arredores do município de Toledo, vender, trocar, ou comprar mercadorias. A inscrição: "La venta del alma", deve-se ao fato que muitos deles vendiam a alma para o diabo, em troca de pagamento dos altos impostos cobrados pelo Rei sobre as mercadorias comercializadas.

"Que Deus faça a parte dele"; falou o alegórico e futuro governador Sancho Pança. Os comuns dizem que Deus recompensa quem trabalha. Deveras, não deve-se duvidar do modos operandi do Criador, porém o que provém de gente, somado ao citado, é sabotagem e boicote; e Cervantes ia provando o veneno destilado pela sua espécie em doses homeopáticas. Por algumas vezes, o futuro Dom Quixote se viu entre o céu e o inferno, pois tinha que explicar ao Rei por que não conseguira as sementes e os suprimentos necessários para o próximo plantio. E quando as justificativas do subalterno, ainda que verdadeiras, não condizem com os propósitos do requerente, a reprimenda e a prisão são as maneiras sutis de fazer o transgressor de ordens, refletir. Foi o que fizeram com Miguel.

dom4.jpgSegundo os Toledenses ou Toledanos, esta ponte é de grande relevância para a história da Espanha. Sobretudo, porque, ninguém se atrevia passar por ela, sem antes pagar o fisco à Coroa. Aos olhos arregalados do Rei pelo erário, uma agulha enferrujada tinha altíssimo valor monetário.

"A sorte não existe". Cervantes já havia colecionado desventuras o suficiente para escrever a primeira parte do livro. Inquieto, rumou sem destino à procura de subsídios para escrever os capítulos finais. E como os ferrenhos patriotas defensores de gente e do rei, fez parte do exército espanhol na guerra de Lepanto, contra os otomanos. A experiência não foi das melhores, mas para quem a vida era uma insana aventura, quase perder a mão esquerda não foi tão mau. Aliás, provara para si que a sorte existe e estava ao seu lado; pois, se tivesse a mão direita amputada, fatalmente não escreveria sua "biografia". Bravo e rugindo ferozmente, manteve-se no campo de batalha. Fazia valer a máxima que "o bom líder é aquele que está à frente do exército"; ainda que o exército seja formado por um único combatente.

dom1.jpgEm verde, a inscrição: "Ruta de Don Quijote".

Bandeira branca desfraldada. Prenúncio de fim de guerra, no entanto, ao regressar à Espanha, foi capturado e amargou mais 5 anos de detenção na Argélia. Estava catalogado - com sobra- o material necessário para Cervantes escrever "Dom Quixote de La Mancha"; o livro que retrata a essência humana, mas que poucos Homens tem o dom de externá-la; pois, sonhar e realizar, é loucura demais para poucos dementes. Para os ditos "sanos e normais", conforto, acomodação e estabilidade ainda é melhor que correr perigo, duelar com leões famintos e ferozes. Sobretudo, o silêncio da ignorância é uma doença contagiosa, tal qual o diabetes; e causa tamanho alarido, pânico e terror, que a sensatez da razão desconhece.

Sabendo-se que as verdades e fatos são reféns, prisioneiros da alucinação, sigam-me os péssimos e ruins, porque os razoáveis, bons e excelentes já fizeram suas escolhas, já optaram pela igualdade e mesmice dos covardes silenciosos.

P.S.: O personagem Dom Quixote é a diferença velada entre ser humano e estudar humanas. Por semelhança, o historiador estuda História, enquanto o revolucionário e "louco varrido" faz, entra, assina seu nome na história mundial; ou do país. Cervantes foi um híbrido de tudo, ou nada disto.

Se entendi bem, para ser honesto e sincero, basta ser...; louco, Dom Quixote? Provavelmente, Cervantes; para não comprometer as verdades dos sanos, recuso-me afirmar!

Fotos pertencentes ao autor do texto


Profeta do Arauto

Na falta de combustível fóssil, renovo minhas energias, lendo, escrevendo, pedalando, fotografando e viajando por entre as nuvens. De tempo em tempo, procuro-me em meio ao batalhão de estranhos terráqueos. Dificilmente estou disponível para o meu alter ego .
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