ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Cronologicamente, didaticamente, antropofagicamente, funciona assim: as palavras que saem da ponta de minha pena sem pena, não são escritas; e se escritas, não são exercitadas

O médico que se interessa por Humanismo, Gente e Vidas

"É humilhante a sensação de que a vida se esvai em conseqüência de um descaso pessoal". - Dráuzio Varella


Acabamos de acompanhar a comoção generalizada pela morte de Boechat, ex-redator de jornalismo da Rede Bandeirantes de televisão, um ser humano como qualquer outro, que morre aos montes com dentes de porcelana arreganhados e tudo, todos os dias na lama, nas favelas, nos shoppings, nos leitos dos hospitais do país; e no mundo. Embora não encenada pelo ator da peça em momento algum no decorrer da vida, morrer faz parte do teatro, é o fechar das cortinas na arte de viver. Obstantemente, invisivelmente negada, nunca pesquisada em pormenores, a morte é a metafísica da vida não compreendida pelo homem; sobretudo, a vida permite os enganos, erros, pedidos de perdão, sonhos e ilusões, em contrapartida, por sua vez, a morte não permite a ingenuidade dos falsos disfarces embusteiros; pois, morre-se apenas uma única vez para nunca mais.

Segundo Milton Neves, radialista de futebol, comoção como àquela vista por ele no velório de Boechat, somente no falecimento de Tancredo Neves e Ayrton Sena. Todavia, se Boechat com todo o seu poderio de palavras e "expressividade" popular era uma pessoa comum, simples mortal de carne o ossos, quem deve ser aclamado como pessoa de representatividade pelo que fez, ou faz socialmente no país?

draz.jpgImagem livre retirada do Google

Valores morais e éticos é próprio de um povo em determinada época, aliás justificando o injustificável, quando o show de horrores e tragédias acontecem, adotam-se os clichês e bordões que criam da noite para o dia. Os soprados à todo instante no momento são: "os tempos mudaram"; ou "é assim mesmo, fazer o quê? Ou, "vão os anéis, ficam os dedos". Como não bastasse, tudo é motivo para, socialmente estarem dentro ou fora da "casinha".

Para desmistificar e ao mesmo tempo contribuir com esses singelos e frios fenômenos incrustados no inconsciente coletivo, de tempo em tempo, seja ele vindo do futebol, da mídia, da política ou outro segmento social qualquer, aparecem os "heróis" do povo; tal fato é marco na história de qualquer país. Tanto é que, atualmente temos um ex-presidente detento; e como disse o escritor Mario de Andrade, "Herói sem nenhum caráter", aparece num piscar de olhos. Óbvio que é para exemplificar; e Boechat com sua acidez de palavras críticas contra o Estado e àqueles que não primam pelo respeito na interação humana, transparência e probidade responsável com as coisas públicas, está isento do que revelou Mário de Andrade em 1929.

Por sinal, admiro Boechat não ter contraído mais inimigos que amigos; pois para criar inimizades não precisa guerra, basta dizer, fundamentadamente o que se pensa sobre a verdade; ainda mais na era em que o melindre contido na mentira sobrepõe a verdade, certas verdades criticas condenam, é motivo de processo judicial contra o denunciante.

Outra tendência, naturalmente arraigada no seio de uma sociedade, é esperar morrer para que ela se manifeste positivamente em favor do esquife, valorize os feitos daquele que partiu fora do combinado; aliás estou com mais de 100 anos, 20 meses, 45 dias, 15 horas, 31 minutos e mais uns muitos segundos regressivos de vida e nunca ouvi alguém falar mal, quando um fulano qualquer, ou um familiar, amigo, político, vizinho, amante ou religioso está com os olhos e a boca cobertos com uma bolinha de algodão macia e terna embelezando a cara, porque rosto é para os vivos; e as pernas totalmente espichadas no caixão. A estranheza dessa espécie é tamanha, que ao fazer as últimas "sinceras" homenagens para quem partiu dessa para uma melhor, sempre dizem que ali jaz a pessoa mais humana, a mais responsável e honesta, o melhor e único filho intocável, o mais fiel marido ou esposa, o espelho de mãe ou o pai a ser seguido que habitou a Terra. No momento lacrimoso do adeus derradeiro, todos, sem exceção, dizem que quem obteve o visto de estada permanente outra dimensão, foi um amor de pessoa em vida! O sentimento e sensibilidade dos que ficam para contar história de quem partiu fora do combinado, é esse.

Ademais, a sociedade é mestra em elogiar, bater palmas em pé, dar título e mérito para quem, na maioria das vezes, não o tem. Exemplificando: alguém com curso de graduação, título que estão dando às baciadas no ensino brasileiro, é correto usar o pronome "doutor" antes de seu nome? Tomando como referência o manual de redação Nacional: “doutor não é pronome de tratamento e sim título acadêmico”.

Bem, mas essa caduquice social não é por que não tem ninguém em vida no país, que fez e ainda faz por merecer os mimos que os mortos recebem, mas devido a cegueira, desconhecimento e surdez da maioria dos que compõe o inconsciente coletivo. Por sinal, a incoerência cultural é o atestado de incompetência de um povo; e mentes raras e brilhantes, como é a de Dráuzio Varella passa despercebida pelo obtuso comboio social.

Muito provavelmente, Dráuzio formou-se para médico com o compromisso de não assinar pela morte; mas além de apostar na vida até o último suspirar do coração, aposta no ser humano. Se for em prol da Vida, dentro das possibilidades (e com ele não há tempo ruim) de fiel militante na arte de renovar emoções e reavivar sentimentos, Dráuzio está na ativa com essa proposta.

Antes de ser descoberto pela mídia de massa que o projetou nacionalmente, Varella já havia sido descoberto, ao fazer um programa ao meio-dia na rádio Trianon AM. Nesse, o médico entrevistava um outro médico especialista em determinada área da medicina; e como se fosse um interessado educando, humildemente, ouvia e aprendia com o locutor. Jamais interferia na resposta, ao contrário, aguçava o entrevistado a dizer mais sobre o assunto. Fundamentalmente, o programa tinha por princípio esclarecer o ouvinte sobre as maneiras de como se precaver do problema de saúde, diagnosticar os sintomas e o tratamento adequado para cada modalidade de doença.

Numa etapa posterior, Dráuzio iniciou um ciclo de palestras sobre temas diversos. Em uma delas, palestrou para os detentos da extinta Casa de Detenção Carandiru sobre a AIDS e suas complicações. Essa talvez tenha sido o divisor de águas em sua carreira, pois ao ter contato olho no olho, frente a frente, sentimento com sentimento com tamanho descaso do Poder Público, da falta de auto-estima dos prisioneiros, basicamente homossexuais e drogados; e o pouco interesse da classe médica em assistia-los, Dráuzio toma a decisão de fazer um trabalho de voluntariado sozinho. E lá foi ele como médico, acompanhado de asculta e maleta de primeiros socorros, de sua saúde e disposição, de seu conhecimento e humanismo.

"Quando estou de férias a coisa de que mais sinto falta é a cadeia. A vida fica muito pobre sem essa vivência". — Drauzio Varella

Os muitos anos no Carandiru, lhe rendeu o livro homônimo, o qual relata, friamente a vida cruel naquele sistema prisional. Alguns anos mais tarde, o enredo do livro virou filme; obviamente, com muitos parágrafos cortados; pois a realidade vivida pelo médico traduzida em literatura escrita era densa, sórdida, pesada. Vê-la em cenas, é mais leve e suave. Mas para lê-la, o leitor tem que ser frio, emotivo, passional, teatrólogo, indiferente e às vezes, insensível. Contrariando a teoria do "humanamente impossível", indiscutivelmente, poucos são os humanistas que fariam o trabalho de dedicação fervorosa que Dráuzio fizera na Casa de Detenção Carandiru.

"Os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam". - Dráuzio Varella

Quando aparece um brasileiro que tem dom para o trabalha sério, "perfeccionista" por assim dizer, não dá a mínima para a banal mediocridade que ronda as classes profissionais e chega ao ápice da excelência no que faz, a prostituída mídia brasileira tem por hábito aliciá-lo até que a pessoa, ainda que não queira, abra mão de suas obras e ações e insira-se nos meios de comunicação de maior audiência. Isso acontece paulatinamente, com Dráuzio não foi diferente; e o médico e humanista passa fazer um quadro falando sobre saúde em uma emissora de televisão. Por certo tempo, o quadro foi ao ar; até que de repente, tiraram-o e no lugar, puseram uma figura conhecida do futebol, cuja ideia era estimular o fulano a emagrecer com dietas alimentares acompanhadas por profissionais ligados à nutrição. Supondo melhorar os números de ibope da emissora, novamente a mediocridade midiática sobrepôs o humanismo, o bem estar social e a difusão de quem prioriza uma vida saudável.

Ultimamente, Dráuzio está escrevendo para um portal de internet sobre assuntos diversos. Fora a medicina que ele domina como poucos, o anatomista conhece muito sobre o comportamento humano de modo prático; e às vezes, a solução dos problemas relacionados às humanas carece mais da atuação de quem vivenciou-os, que das teorias que tudo explica, mas nada resolve. Contrário da própria classe, que mais assina que opera, Dráuzio sempre foi um profissional atuante e não media o consumo de energia para restaurar Vidas. E quem prioriza diminuir a dor de seus irmãos, tanto quanto investe em Vidas, merece viver, saudavelmente bem; e obviamente, sem dor.

Varella é médico que se interessa por Humanismo, Gente e Vidas, acima de dizer o valor da consulta; como é praxe da maioria dos profissionais no sistema capitalista. No sistema abrupto humano, enquanto derramam lagos de lágrimas em certas mortes, vendem a preço de ouro o pouco que sabem, se é que são competentes e qualificados para àquilo que se propõem; para esses, proferir um palavra de conforto, ou crítica verbalizada ou escrever uma linha em folha de papel almaço em branco, tem preço altíssimo. Assim, seguem sorrindo, clicando selfies e um matando os demais, aos poucos. Homeopaticamente, com pequenas doses de falta de apreço.

No sistema abrupto (des)humano, é vintém por vintém, dente por dente, olho por olho; e a humanidade por causa da banguelice, tomará sopa e alimentos liquefeitos, para por fim, dormir eternamente cega.

Enviesadamente, qual o mercador de ilusões, núncio de enganos difundiu a ideia que os simples mortais fixaram a duração de vossas existências na Terra? Como segue o conjunto de coisas imposto à todos há muito tempo, já não se vive, senão por caridade e bondoso favor de alguns da estirpe humana de Dráuzio!

Embora subjetiva, própria de cada um e mantendo segredo até certo ponto, a felicidade transparece em quem divide e valoriza com satisfação o muito ou o pouco que possui; Varella é um desses. Por menos humanistas e mais humanos semelhantes a Dráuzio, médico que trabalh(a)ou incansavelmente, não em prol da saúde, mas resgatando a auto-estima em humanos e dando Vida aos seus pacientes!

Ainda está a tempo, sinta-se um Varella e gentile-se; emocione-se; racionalize-se; desapegue-se; humanize-se!

"Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus"; disse Jesus. Esquecendo a comoção momentânea, atitude própria dos humanos e valendo-se da sabedoria e discernimento racionalizado, lei que deveria governar o mundo: "Dai a Boechat o que é de Boachat, e ao Dráuzio pelo que ele fez e permanece fazendo, por merecer". Palavras de quem escreve este.

Completando: "nenhum homem é mais frágil do que o outro; por isso, nem um e nem outro, ninguém, tem assegurado o dia seguinte". - recado dado, é consciência límpida, como eram as águas em tempos idos, Sêneca.

Destarte, por que a morte é tão "assustadora e temida"; e a vida, inversamente proporcional, pouco ou nada valorizada pela quase totalidade dos sócios que compõe a sociodemocracia?

P.S: Embora seja um problema cultural vicioso como a maioria que há em todos os cafundós de cantos do país, tenhamos respeito, sejamos gratos e reconheçamos as boas obras do mestre artesão em vida; pois, para quem escreve este, homenageá-lo, condecorá-lo com busto em praça pública e dar-lhe mérito depois de falecido, soa ironia desnecessária. Porém, deve-se entender que antes do querer dele, (de quem escreve este) um país é composto pela sociedade, que por sua vez é formada pelo gregarismo entre miríade de famílias. Portanto, é lei (se é que lei serve para dirimir alguma coisa) escrita na Constituição Federal que também respeitemos a lenta evolução, o lento crescimento da massa não fermentada.

Não obstante, o detalhe é que no meio do caminho tem um estúpido abismo. Uma gigantesca cratera desumana e ignorante devoradora de inoperantes, contraditórios e incoerentes, tem no meio do caminho; sim, senhor! E como saltá-la, desvencilhar dela? Valendo-se dos ensinamentos do médico, anatomista, humanista e fervoroso brasileiro, Dráuzio, o desafio está lançado; ou o caro leitor é daqueles que perde tempo lendo textos e livros, assistindo filmes, indo ao teatro, fazendo cursos, papeando com amigos; bate cartão em palestras, seminários, fóruns e conferências; ouve música (cada vez mais rara, música com estilo cultural) etc; apenas por esporte cultural e intelectualismo despejados em mimimis, blablablas, happy hour à boca da noite e ajuntamento familiar no churrasco em época de copa do mundo? Pelo perfil e a moldura do quadro, conhecem-se os pincéis, as tonalidades de cores, as sutilezas e sensibilidades com quê a gravura foi desenhada, grafitada, pintada.

O departamento "Vidas que respiram vidas no Planeta Terra" necessita urgente, está contratando em caráter emergencial, mãos, pés, olhos, corações, mentes inteligentes ou não, corpo, alma, fígados, esôfagos, ânus, laringe; sentimentos, sorrisos, rins, para início imediato; porque Dráuzio fez e faz a parte dele! Não é pré-requisito ser sábio, super-herói, falaz, diplomas, alardeador, prepotente, título de nobreza, milagroso; mas é necessário ser esforçado, silencioso, querer; simplicidade, ser comprometido e interessado, primeiramente em vidas; honesto, sério, boa vontade e humildade; como foi Cristo, que perambulava pelos arrebaldes e centros de Jerusalém, operando e trabalhando em prol dos humanos; obviamente, sem autopromoção publicitária. E menos ainda, cobranças de volores monetários.

Saibam todos, que o pulsar dos vossos coracões neste exato átimo de segundo, pode ser o último; portanto, se nem sua sombra é sua, nada te pertence, não será a vida, sua eterna súdita!


Profeta do Arauto

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