ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Escrevo para eu não ser prisioneiro das verdades contidas em minhas convicções; ou pior, para não morrer asfixiado pelas minhas insanidades

Um concerto inesperado para Solitude

Esse conto fábula/fantástica foi inspirado no capítulo: "Uma festa inesperada", do livro "A Sociedade do Anel"; primeiro volume da trilogia "O Senhor dos Anéis", escrito pelo PhD em mitologia grega, mentor, pai do movimento e principiante a hippie, R.R.Tolkien. Idealizada por sua mente fervilhante, a mágica escrita da arte alternativa / fantástica foi tocada por suas mãos!


No ruidoso alarido da multidão / alguém silente e equilibrado ouve-se / logo ele existe!

Contextualização: Ninguém, a não ser os presentes e alguns de mesma convicção ideológica dá voz à ela. Todavia, a técnica de utilizar a filosofia, a música, a poesia, a fotografia e a arte como instrumentos para dialogar com o mundo, com a Natureza e consigo mesma, é próprio da incompreendida Solitude.

Telescópio: "Copérnico, o qual é o nosso mestre; adquiriu fama imortal entre uns poucos, mas muitos troçam dele e ridicularizam-no, porque abundam os néscios no mundo. Atrever-me-ia a fazer públicas as minhas ideias, se houvesse mais pessoas com a vossa atitude, mas como não é assim, não o farei." - revelação de sua cria, Galileu Galilei

IMG_3103.JPG Pedra furada no alto do morro da igreja, Urubici; SC. Um dos inúmeros refúgios naturais de Solitude

Nesse imenso isolamento de mundo, onde os beija-flores vem de longe trazendo-me o bilhete dos Mensageiros da Paz no bico, as saracuras cruzam o lago raso coberto por flores de lótus em florescência e os inhambus choram alegremente a liberdade no grotão, raramente os cães latem, galináceos cacarejam, sapos coaxam, perus grugulejam, gansos grasnam. Quando dão alarme, será gente passando lá em cima na estrada de terra batida? E há sim, ruídos quase inaudíveis na estrada.

A revoada de andorinhas / faz festa espiralada.

Sob chuva mansa enevoada / voando sem sombrinhas.

Enquanto os músicos faziam os preparativos, passava o som, Solitude prostra-se estática recostada ao batente da varanda. Os pináculos ao longe espia-a; chegam-lhe às vistas em semi-círculos ondulados. Em algum ponto por dali, o sol adormecera mais cedo, deixando a tarde solteira. Sem mencionar nada às nuvens, o céu escureceu e derramou-se numa chuva mansamente fina. Tudo prenunciava sossego, tudo conspirava em favor da paz. Fora de si, Solitude ilude-se intimamente, imaginando que o Planeta resume-se ao visto naquela tarde. Ademais, também permite-se saber que ela não representa a humanidade. Pretensiosa, até gostaria que fosse ela a representação da humanidade; mas entre a pretensão e a realidade da opinião, imutavelmente formada, há 7 bilhões de mentes julgando-se pensadoras. Sem se deixar influenciar por aquilo que passara pela sua mente, permanecia com os pés no chão e a imaginação no coração, mas sabe que a materialização está muitas léguas longe do alcance de suas mãos. Prosseguiu canonizando a essencial viagem nos muitos caminhos dentro de si.

Solitude: nada poderia detê-la! Tomou fôlego, deu um tempo para sua consciência e recitou um poema haikai:

"Galhos dobrados pelo pula...; pula / sem intrigas / Negro Tizzziu no milharal.

Tizziu, bando de Tizziu / Tizziu no trigal.

Foi o suspiro aliviador, o vociferado de impotência de seu íntimo dizendo que sozinha não seria possível transformar o Planeta, mover o mundo de lugar! Todavia, Solitude não estava sozinha. Fora o céu que todas as noites borda-o em artesanato, tem a música como cia. E não demoraria para iniciar o concerto inesperado.

Enquanto os espantalhos são postos de braços abertos em pontos estratégicos nos trigais para afugentar as aves e pássaros afanadoras de grãos nas covas, o pessoal da banda Traffic; o casal de violeiros tocadores de flamenco e outros ritmos: Rodrygo e Gabriela; a música relaxante de Enya, a lanterna "Lumiar" de Beto Guedes, a dupla de cancioneiros do estilo celta, convidam-os passantes para a deixar o mundo ingrato dos homens habitantes de terras distantes por essa noite e unirem forças, juntarem-se a eles em um concerto aberto, melodiosamente acústico, o qual definido por Solitude, como: "Louvemos os pássaros e aves, espécies que se comunicam pela música".

As maritacas chegaram declamando poemas indecodificáveis pelos humanos. - alguém falou.

E todos achegam-se ao recinto. Recepcionados por Solitude, que cumprimenta-os um por um, reverência-os com um curvar de cabeça, a passarada vai chegando aos borbotões, vão se acomodando e ordeiramente, pousam nos galhos das árvores e enfileiram-se nos fios à espera do espetáculo. Ao ver a humildade dos bichos de variadas espécies, Solitude intima-os a entrar e tomar lugar na varanda. E disse aos presentes: "a proximidade aquece corações e acalenta a alma. Aguardemos mais um pouco para iniciarmos a comemoração. Diferentes dos homens que se isolam, sei que vocês se conhecem, mas para tornar a reunião mais amistosa e descontraída, apresentem-se um para os demais. Estou feliz por tê-los como companhia".

Como esperado, quem estava faltando chegou. Agora quem recitou o poema haikai foi o maestro Tiziu:

"Galhos dobrados pelo pula...; pula / sem intrigas / Negro Tizzziu no milharal.

Tizziu, bando de Tizziu / Tizziu no trigal.

Passou a palavra para Solitude, que não disse nada além de: "um, dois...; um, dois, três!"

Em estilo folk, a dupla Willow´s Drum interpreta a versão "John Barleycorn must die". A letra dessa emblemática oração musicada enaltecendo o solo em brotação, valorizando o trabalho pesado dos lavradores e suas necessidades diárias, como também o apoderamento das terras pela força bruta, foi composta pela banda Traffic. Mais detalhes sobre a banda abaixo.

A letra nos remete ao escrito por Robert Graves em 1948 no livro: A Deusa Branca: "A colheita de cevada caiu em julho, e em Atenas [o deus] Cronos foi Sabazius," John Barleycorn ", que apareceu pela primeira vez acima do solo no Equinócio da Primavera e cuja morte múltipla eles celebraram alegremente em sua casa Harvest ..."

Esse introito dedicado à humanidade do século XXI, esclarece que os homens que pelejaram, batalharam na competição de construir o mundo, derramaram lágrimas de sangue de seus poros!

Em seguida foi a vez da dupla mexicana Rodrygo e Gabriela, que dentre os muitos estilos tocados, está o flamenco espanhol. O magistral instrumental violado de Tamacun marca o início da dupla que reside em Dublim, cidade que os acolheu como filhos e permitiu que eles desenvolvem o trabalho que deleitam fazer. Com uma velocidade irracional, os dois dedilham e fazem o som de percussão no próprio violão.

Dando um show de erudição no violão, interpretam Stairway To Heaven da consagrada banda inglesa Led. E todos os presentes, toda a bicharada despertou da sonolência aos sobressaltados.

O transe acústico musicado em homenagem à Solitude, ideia que partiu de seus integrantes, continua com a banda Traffic apresentando a peça musical Rainmaker. Clássico da banda que teria caído bem na trilha sonora do filme O Hobbit.

Hidden Treasure: Tesouro Escondido. A delirante e assombrosa flauta de Chris Wood acalenta qualquer exaltado. Sem mais o que dizer, ou melhor, tendo o que dizer, seria a paz o tesouro escondido procurado pelos escoteiros que aventuram-se em florestas fechadas. Seja o que for, flutue em ondas longas com Traffic do Jim Capaldi e cia

Solitude chamou o músico mineiro Beto Guedes para Lumiar a noite e ele claro, com suas metáforas sinestésicas, iluminou o breu em noite festiva. Beto foi um dos integrantes do Clube da Esquina, grupo musical formado por Milton Nascimento.

Numa reunião além transcendência como essa, onde a paz e o conhecimento interior é a mensagem, as marcas de água de Enya não poderiam faltar.

Shepherd Moons foi o álbum incipiente dessa notável musicista, que resgatou o sânscrito, língua perdida nos recônditos dos tempos.

Para fechar a New Age Henyana, o ciclo vital humano nas águas de River.

A noite tafuiou-se em silêncio profundo. Aberto em sorrisos, o céu mudara a tonalidade de cor. Solitude ficou por ali apreciando a brisa minuana na cara, pintando estrelas com cores vívidas, tecendo sonhos impossíveis, ouvindo as águas quebrando contra as pedras no riacho ao longe, confabulando intimidades com o silêncio, comparando o presente com o passado, projetando o futuro no visto no álbum de fotos; e empurrando-o para o lado, pôs-se a bordar em folha de papel uma lua inundado os pináculos e baixios do mundo.

Riacho doce de águas transparentes,

Formando remansos debaixo de arvoredos sombreados;

Espaços onde as aves, pássaros, animais selvagens e almas ternas confraternizam e entoam os cânticos da paz.

Com os bichos e animais dormindo, o ocaso pôs-se a espreitá-la. Se à muito tempo o mundo não era mais o mesmo para ela, na noite que acolheram-na com um concerto inesperado, a construtora de chuva, sol, lua, estrelas e sonhos desnudou-se ainda mais em esfuziante encanto com àquilo que acontece sem ser planejado; pois, a beleza e o essencial estão nas coisas simples não vistas a olhos nus. E a inspiração veio novamente atormentar-lhe à mente, impondo que escrevesse outro poema curto; daqueles que enchem a Natureza de lisonjas, outro haikai talvez, denominado "Novo dia" e ela atendeu o pedido:

Luar morno madrugadeiro,

Ao recolher-se espraiado nas águas,

Desperta a incandescência de um sol dourado.

Àquela altura da madrugada, não só os bichos dormiam, como também o mundo. Os músicos desplugavam os equipamentos, desmontavam as aparelhagens, quando inesperadamente, o céu abre-se em fulgor e numa centelha reluzente, Anne Haslam acompanhada por uma horda de anjos, chegam cantando. E com as pálpebras de cima caindo sobre às de baixo e os olhos cambaleantes pelo sono das altas horas, todos renascem para ouvi-la:

At the Harbour. "Tempestades avançam por outro caminho / Pois homens o mar afogou". A letra dessa canção é um paralelo poético entre a rotina em um porto e a guerra desfraldada entre os EUA e Vietnã, a qual os americanos massacravam impiedosamente aquele povo pobre, aumentando ainda mais o sofrimento dos vietnamitas.

Travesseiro:

Sobre ele / os pensamentos apagam-se para a vida,

Emoções e esperanças renovam / Imaginação ascende em sonhos!

Solitude suspirou pela última vez naquela noite: "se esse povo que gritou contra a insensibilidade, vociferou contra indiferença, pediu que parasse o supersônico para descerem que fez o concerto para mim não mudou o mundo, não direcionou os povos à paz, tenho dúvidas com as benquerenças dos que governam-o atualmente. Essa minha espécie não contenta com nada; ao contrário, querem mais e mais!" Com lágrimas escorrendo-lhe pelas faces, esparramou a manta florida no piso frio e recolheu-se ali mesmo. A vida tardava chegar, porém já era novo dia; e por ser, os raios de sol não demoraria colorir as bordas do mundo com o alaranjado característico fotossintético.

A dupla Zé Helder e Vignini, também conhecidos por violeiros de Moda de Rock, desafiaram as cordas dos instrumentos e dedilharam a quinta sinfonia de Beethoven emendada com Aqualung de Jetro Tull. Magnífica apresentação!

Lua e sol alinhados / Avermelhado resplendor:

Beleza astronômica em noite fulgor.

O céu iluminou-se com a frase: "O que você está fazendo pela paz" - John Lennon. Não houve uma só alma, penada ou insólita no Planeta, que não levantasse de seu aposento e aplaudisse em pé, o concerto. Bem, os pássaros não tem mãos, para não perderem a ocasião e saírem arrependidos, bateram as asas freneticamente.

Fechando o "Um concerto inesperado para Solitude", Bound for infinity. Renaissance

Ao ressonar, Solitude sonhou: "Não limitemos ainda mais, o nosso limitado mundo; pois o infinito é onde nossas mãos alcançam, é onde queremos estar. Avante, sempre, o infinito é logo ali!" Mas tudo não passava de sonho!

IMG_5168.JPGSopé do Parque das 3 Torres. Torres del Paine, Chile. Mais um santuário natural que Solitude deleita-se em estar.

A humanidade perdeu a batalha para o consumismo imposto pelo capital; que nada mais é que, guerra tácita entre a emoção e a racionalidade; batalha vencida pelo ter em vez do ser; competição a qual a ostentação sobrepõe a humildade. O mundo virou um imenso gigante abocanhando os pequenos, simples e humildes de atitudes; dai os paladinos da paz e amor acharam por bem devolvê-lo à loucura dos comuns e normais! Em tempo, a concluíram que em qualquer canto da imensidão territorial do Planeta, não há mais espaço para os homens retos, honestos, verdadeiros e mensageiros da paz.

Letra inspirada no livro Guerra e Paz de Tolstoi

De cabeça para baixo / Rabo felpudo feito abanador / pezinhos segurando / Dentinhos arranhando o coquinho.

Sem cumprimentar os presentes com um "Tenham todos um bom dia!", um mal educado e esquisito esquilo metamorfoseado de pirilampo piscando luz neon apareceu do nada, apresentou os compositores da última canção: "interpretada por Gilberto Gil, a letra da música A Paz é composição dele e João Donato"; e rapidamente proclamou o fim da reunião de mentes, brilhantemente, alternativas: "Fim!"

P.S.: Esse texto escrito em forma de conto fábula/fantástica visa mostrar como os hippies se reuniam para tratar de assuntos relativos às questões sociais, Direitos Humanos, Meio Ambiente, movimento feminista, política, cultura e arte de modo geral em meados de 1965. Por aproximadamente 20 anos foi mais ou menos assim. Do movimento, sobraram as atuais comunidades alternativas e nada mais. Os cabeludos e barbudos não revolucionaram o mundo, mas ideias, vontade e querer não faltaram; "frustrados" e deixando-o para os gigantes de passos apressados, isolaram-se nas florestas fechadas e estão curtindo sombra, sossego, respirando ar puro, inalando o perfume das flores, contribuindo para a renovação natural das espécies, alimentando-se com produtos orgânicos, praticando esportes de Meio Ambiente e tomando água fresca da montanha! Para esse povo, não só ainda resta, como praticam, nutrem o Planeta com um pouco de paz e amor!

Aliás, R.R Tolkien com a trilogia de "O Senhor dos Anéis", o qual é embasado nos contos da Mitologia, notadamente grega, foi o mentor e principiou o movimento hippie; portanto, duendes, magos, cavaleiros das trevas, orcs horripilantes com um olho furado, druidas, travessias de vaus perigosos, sustos com os uivos de lobos, acrobacias de dragões cintilantes em plena disputa pelas locas no ar; e os demais seres ocultos da Natureza representam os amigáveis, funestos, misteriosos e esquisitos olhos da floresta.

Em se tratando de arte alternativa, o movimento hippie foi completo e não ficou devendo nada para o iluminismo, que é literário/filosófico, somente.

Matas virgens e deflorestadas, as quais os homens entranham por entre suas doçuras em horas mortas, sempre tem algo não descoberto pelos ventos que penetram suas estreitas clareiras sombrias, em horas vivas.

Fotos pertencentes ao autor do texto


Profeta do Arauto

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