ministério das letras

Visionário às ocultas

Profeta do Arauto

Cronologicamente, didaticamente, antropofagicamente, funciona assim: as palavras que saem de minha boca, não são escritas; e se escritas, não são exercitadas

A "Bicicleta" do Boca Livre viaja sem sair do lugar!

"Viver é como andar de bicicleta: tem que estar em constante movimento para manter o equilíbrio". Albert Einstein



Contextualização: a bunda fumegando novelos de fumaça em cima do selim, mãos firmes no guidão, pedais em rotação acelerada, corrente esticada ao máximo, músculos da coxa em trabalho intenso, olhos fixos no horizonte ao longe, vento fresco na cara, música levitante entorpecendo os ouvidos, imaginação além da matéria e a sensação de pertencimento ao mundo. Se música é cultura, bicicleta, é sinônimo de liberdade; e sem tino, flutuando aqui e acolá, ambas pedalam pelas mesmas trilhas sonoras, pelas mesmas ondas magnéticas, pelas mesmas vias do destino.

biciboca.jpgEncarte interno à capa do disco original lançado em 1980. Para o artista que se propunha à música, a obra tinha que ser, culturalmente completa, desde início, meio e fim. Indiscutivelmente, os "anos dourados" da MPB foi uma época de soberbo trabalho operoso em prol da arte brasileira.

O melhor lugar do mundo é onde a paz e a quietude reinam; e ainda que o leitor não saia de sua alcova prisional, é para o melhor lugar do mundo que convido-o a pegar carona na garupa da "Bicicleta" do Boca Livre.

Antes de prosearmos em pormenores o título do texto, permita uma pergunta: o caro leitor participou da farra do liberalismo, o qual esse ano inovou com a mulherada tapando o bicudo mamilo do seio siliconado; sacudiu o esqueleto na passarela com o samba no pé; caiu na folia da carne vermelha e demais coisas comuns que acontecem nesses dias sem resguardo de moralidade; evento despudorado, o qual ninguém processa judicialmente ninguém, por desacato e falta de respeito, por assédio sexual, por discriminação qualquer, por aliciação às escolhas de gênero, etc?

No vale tudo da liberdade imoderada, estava liberado urinar no pé do folião/amigo. Na Grécia, terra de Sócrates, Aristóteles, Platão e outros construtores da democracia mundial, validaram a chacota hilária proclamada pelo ator Zé de Abreu para presidente do país, com direito ao uso de faixa e coisas mais; estendendo o comentário sobre o dito cujo, esse senhor cuspiu na cara de um casal que comia à mesa ao lado, da dele em um restaurante; ou engano? Se não for tudo de bom ou de ruim, nacionalidade é quase tudo; e principia os fins culturais de um povo.

Bem, mas se o leitor não é nada do descrito, é bom já ir acostumando com o "faça o que tu queres, pois é tudo da lei" da Dita cracia dura do Demo instituída no país, até Raul Seixas, mentor da Sociedade Alternativa, está ultrapassado, fora de catálogo; e não é mais formador de opinião, afinal consomem qualquer porcaria artística como prato pleno e iguaria nobre. Por 4 dias ou mais, abaixo o respeito ao que pátrio e humano; e suba, arriba, arriba a festa da hipocrisia deslavada em todo território nacional muchachas guapas.

"Ôôô abrem alas, que eu quero passar". # hasteg: segue a pedalada sonora.

Se a resposta à pergunta é sim, chato dizer que o texto trata-se da leveza de estar recluso numa praia distante, velejando um barquinho levado pelas ondas do imaginário perdido na imensidão das águas; vagando por matas fechadas, observando a silenciosa sutileza dos pássaros em comunicar com as coisas inaudíveis para os homens; prostar estático boquiaberto contemplando os ruidosos anéis esbranquiçados formados pelas espumas na superfície do remanso das águas de uma cachoeira que despenca das alturas sobre uma lapa rochosa; da perda de tempo em apreciar uma revoada de pássaros que cruza o horizonte em fila indiana ao romper da aurora; de jogar conversa fora ao redor da mesa posta para o café matinal em uma casinha branca no topo da colina, bem perto do céu.

Só entende e vivência a barafunda descritiva do parágrafo, quem se sujeita a uma vidinha; um vagabundo minimalista inconteste que não se prende aos formalismos, personalismos, hipocrisias e padronizações sociais!

Céu Aberto / Chão / Verde Mar / Na Retina a vida a Passar / Vento Contra / Vento a Favor

Seja Como for / Vou te encontrar

Liberdade / Movimento - Zé Renato e Claudio Nucci

E para chegar lá; só imaginação basta?! Não, claro que não, pois a travessia é longa; e 4 dias de lança perfume, sonhos, cachaça e folia é pouco, sabendo de isto, usaremos a bicicleta como meio de transporte e a música como devaneio. Devaneio que, aliás, já está presente no texto desde primeiras linhas; sobretudo, introduzir as baixarias carnavalescas em um texto de MPB com notas musicais entoadas pelo grupo Boca Livre em "Bicicleta", é no mínimo, insana desorientação de Profeta que não tem domínio do conteúdo que se propõe escrever. Perdoe-o! Embora que quanto mais buscam dominar, mais dominados são; pois, a liberdade é mera conquista de quem é livre por iniciativa e crença; e cada um será, o que sua introspecção crer e almejar!

O conceito físico diz que "trabalho" é a transformação de energia em força; gerando movimento e deslocamento de um corpo em contato com, e sobre o outro. Portanto, uma vez impulsionada pela força dos músculos das pernas do pedaleiro, o mundo torna-se pequeno em relação ao conjunto mecânico da "magrela". Destarte, avante para as estradas e trilhas! Boa viagem e sigam-nos os bons de pernas, mente, espírito, horizontes, força física e detentores da leveza irrecusável da música.

"Ôôô abrem alas, que eu quero passar". # hasteg: segue a pedalada sonora.

Em 1980, o grupo vocal Boca Livre lançou o segundo LP, dos muitos dispostos para os ouvintes ao longo da carreira. Um disco de rara perfomance musical, com arranjos casando perfeitos com as harmonias dos acordes e notas, finalizando com a leveza das letras; as quais retratam as vivências singelas e humildes de outrora. E logo na capa, o conjunto formado por Cláudio Nucci, o bravo Zé Renato, David Tygel, todos no violão; e no contrabaixo, Maurício Maestro, já dava indícios da potencialidade da obra prima que estava dentro do invólucro de papel kraft.

Pintada à mão, a capa trás a roda dianteira de uma bicicleta feminina, - magrela para os íntimos - primeiro meio de transporte mecânico que qualquer criança tem contato, e cruelmente, é deixado de lado, aposentado no asilo de máquinas emperradas. No alto, uma uma revoada de pássaros servindo como guia, inspiração, Norte; e lá no fundo do ocaso, um céu azulado com nuvens leves e suaves dão o tom da música, convite para um pedal aprazível em fim de tarde, ou sob arrebol matutino. E o pedaleiro conhecedor e bom ouvinte de MPB, segue a trilha sonora do Boca Livre em direção a paz, ao sossego, a calmaria do descanso, ao campo, a montanha, à simplicidade, ao bucolismo das mulheres campeiras que lavam roupas no remanso; conforme propõe a primeira música do álbum, na letra "Um canto de trabalho".

[000082].jpgSobre duas rodas, o suor, a cachoeira, os pássaros, o cansaço, o descanso, os pináculos, os fiordes, as minas d`água cristalinas e demais belezas naturais, se apresentam ao pedaleiro, como se fosse colírio refrescante para as vistas; e em cada quilômetro rodado, uma paisagem estimula-o à liberdade de permanecer na estrada. Foto pertencente ao autor do texto

Dentre as muitas funções, por muitos anos, a bicicleta foi usada como meio de transporte, unicamente para trabalhar; afinal, a conjugação do verbo trabalhar é a poesia da sobrevivência dos dignos e honestos. Portanto, justa homenagem aos camponeses doadores de mesa farta, cantada em versos e prosa pelo grupo.

Homenagear, estimular, motivar, pacificar, agradecer, eternizar, aplaudir os que suam as camisas em detrimento do outro: as letras da MPB prestavam, não só para isso, mas para muito mais! A MPB era sensível empatia letrada.

A imaginação vai transportando a sensibilidade das "As Moças"; e Mariana e Gabi vão despindo-se das elucubrações cotidianas, desvendando segredos, acenando sorrisos e disparando adeus para as janelas abertas, adentrando jardins e pomares, cobertos por clareias de manga-rosa, jambo e fruto-flor; cruzando "Correnteza"; ninando "Neném"; vislumbrando "Porto Seguro", até que encontram um tesouro em uma loca de pedra. Estacam; param de repente.

"Ôôô abrem alas, que eu quero passar". # hasteg: segue a pedalada sonora.

"Bicicleta" é transporte musical. A faixa título do álbum começa assim: "um, dois...; um, dois, três, quatro"; e em quase 3 min de instrumental e sóbria vocalização do grupo, o mundo torna-se pequeno, para quem é grande de imaginação. Descanso, suor, sombra, bicicleta, água fresca e música casam-se em prazeroso e eruptivo orgasmo sonoro. Ahhh, que disparada de coração, sonoro pulsar efervescente sanguíneo, delicioso extâse proporcionado pelo Boca Livre!

Vinte minutos passados; ainda restam, aproximadamente mais 15 min; os quais retratarão o misticismo e o folclore brasileiro nas letras. Retomam a viagem. Algo segue-as, fazendo estripulias. Com seu gorro vermelho servindo-lhe de biruta, um querubim fantástico pula com uma perna só, o que é suficiente para causar sustos e medo em suas presas; talvez. Mas, Mariana e Gabi são moças arteiras e sabem como se livrar do personagem místico de Monteiro Lobato; e como quem não quer nada, numa espetacular passada de mão ao vento, deixou o pobre Pererê sem lenço, sem documento, sem o trasgo, que é seu poderoso gorro. No mais, adeus, era uma vez, as fantasias de um pregador de peças; e seguiram festivas, cantarolando a "Bicicleta" sonora do quarteto vocal. Fechando a viagem, as pedaleiras retornam ao telurismo com "Arado", letra de Dalmo Medeiros e "Nossa dança".

Numa época que produzir arte e cultura no país era uma enorme dificuldade, labuta descomunal pela sobrevivência, Maurício Maestro pôs as mãos à obra e produziu, quase que sozinho, essa obra-prima musical. Sem incentivo governamental, as bandas e músicos ficavam restritos ao circuito alternativo de arte; e para pôr suas ideias em giro, dependiam, exclusivamente de meios econômicos próprios. Foi dessa maneira que o grupo Boca Livre lançou seus dois primeiros discos. Por um lado, era bom, pois os músicos faziam arte conforme lhes era satisfatório; e com isso, não se submetiam a apreciação de gravadoras, empresários ditando ordens e o "pagamento" do famigerado "jaba" às rádios. Por outro, tinham sérios problemas de divulgação dos trabalhos, o que lhes custavam ser ouvidos por um público reduzidíssimo.

Com o tempo, acabavam caindo na armadilha da música, senão de massa, comercial; sobretudo, porque eram tempos de morte para a arte musical alternativa. Todavia, na contramão do imposto pelas mesmices produzida pela maioria, o grupo Boca Livre seguiu pedalando a música conforme as estradas permitiam; obviamente, com o máximo cuidado para não sair pelas tangentes nas curvas sinuosas. Em tempo, indo ao encontro dos amigos do peito, bicicleta e música alternativa trafegam pelos mesmos caminhos, pelas mesmas trilhas, pelas mesmas alamedas, pelos mesmos devaneios, pelas mesmas viagens. Não esquecendo que cultura refinada move um povo, porém, respeitar a evolução cultural de cada povo, é o que impõe, é o que menciona a cartilha da boa relação humana; contudo, na mesma cartilha não está escrito que retroceder no tempo, ou ainda não dar um passo à frente, é motivo de evolução cultural e significado de respeito mútuo entre os povos de mesma nacionalidade.

Se Einstein foi metafórico ao usar a bicicleta para dizer sobre o constante movimento que a vida requer, Friedrich Nietzsche disse que "sem música, a vida seria um erro"; logicamente, que é um erro ouvir música que perturbe os sentidos, maltrate os tímpanos e não acalente a alma. Nesse quesito, Einstein está para Nietzsche, assim como a bicicleta está para a música do Boca Livre.

Pedalemos a música de duas rodas e ouçamos a bicicleta sonora, sob as quais, provavelmente encontremos a paz tão almejada nesse mundo que tornou-se exílio de ostentação, aparências, holofotes, manias e selfies.

Se não for suficiente, mandemos a mediocridade para a ponta da praia; e Namastê para a arte que une pedal desbravador de novos caminhos e música salutar inspiradora, sob a qual, o pedaleiro vislumbra belas e inovadoras paisagens no horizonte distante. Amém!

Tai porquê o Brasil é, maravilhosamente deleitoso; e sobra espaço até para os pedaleiros que viajam sem sair do lugar; afinal, esse disco do Boca Livre é transporte musical.


Profeta do Arauto

Cronologicamente, didaticamente, antropofagicamente, funciona assim: as palavras que saem de minha boca, não são escritas; e se escritas, não são exercitadas .
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